segunda-feira, outubro 26

O Misérias


Já foram onze, agora são seis. Sem eira nem beira, em meados de Setembro o mais pequenito era tão só carne e osso que se lhe pôs o nome de "Misérias". A mãe tem uma infecção no nariz que resiste aos antibióticos. O pátio e o muro são o seu hotel, mas do que mais gostam é do capacho da soleira, livres dos cães e de um siamês de maus fígados, pirata de nascença, mais forte do que eles.

domingo, outubro 25

Epibrar

Na adolescência é uma inocente pedantice o inventar palavras. Recordo que no tempo do liceu, se qualquer assunto nos parecia complicado em demasia, pregava-se-lhe o qualificativo de semiscarunfiscotético (não procure no Google, que não está). Se por qualquer razão se mencionava o DDT, então produto milagroso, havia sempre um que preferia dizer diclorodifeniltricloroetano, o que nos parecia um malabarismo verbal topo de gama. Ácido acetilsalicílico também tinha mais cachet que aspirina.

Vem isto a propósito do brilhante colunista holandês Simon Carmigelt (1913-1987) que, com os copos ou totalmente encharcado, nunca sem eles, escreveu durante dezenas de anos uma coluna diária no jornal holandês Het Parool.

Homem de escrita brilhante, indivíduo de humor azedo, a ele se deve a criação do verbo epibrieren, que me arrisco a traduzir por epibrar. Destituído de significado, aplica-se como e quando se quer, é usado em geral para dar uma importância e seriedade de fingimento. Assim o chefe pode dizer ao subordinado: ó Silva, não se esqueça de epibrar isso antes de meio-dia, e este desculpar-se de um atraso dizendo que ainda tinha de epibrar umas coisas, ou que só amanhã é que tem tempo para epibrar as actas.

Daqui a nada vou-me longe, para lá do Marão, a uma festa de aniversário, mas antes de sair ainda tenho muito que epibrar.

sábado, outubro 24

Sintomas

- Ainda estou sem cara!

Levanta-se mal humorado e pergunta, fingindo não ter ouvido: - Quê?

- Ainda estou sem cara! – repete ela do quarto de banho, o seu modo de dizer que a maquilhagem vai demorar – Bateram à porta!

Mais fingido que verdadeiro, ele cultiva o modo absorto do professor de Matemática para quem o comezinho não rima com o teorema de Fermat e semelhantes.

- Era o correio.

Volta a sentar-se, retomando o que estava a ler: "Alguns sintomas são cruciais para estabelecer

o diagnóstico exacto. Se constatar um ou mais dos sintomas de alarme em que cada minuto conta, contacte o seu médico e telefone para o 112..."

Salta as linhas.

"Forte transpiração, cãibras no peito... Visão dupla... Perda de força num braço ou perna... Perda de coordenação dos movimentos, vómitos, estado de choque..."

Nada disso, felizmente. Na lista seguinte, "Sintomas em que cada hora conta", também não encontra referência ao que lhe interessa, a dorzinha que dias atrás começou no sovaco e de vez em quando alastra para o braço. O esquerdo. O lado do coração. A mesma coisa que aconteceu ao Albano. Estava no chuveiro, dor no sovaco, apalpou, sentiu lá um caroço, isto não há-de ser nada, mas à cautela foi ao médico e num pronto tinham-no aberto – ela gostava de mostrar o lanho, do peito à barriga da perna – garantiram-lhe que ter descoberto aquilo tinha sido milagre. Mais uma hora ou duas e não escapava.

- Sempre na Matemática! Se pensasses na saúde e começasses a fazer dieta!

Não se tinha dado conta da presença da mulher e involuntariamente mete a mão na camisa, apalpa o sovaco. Encontra qualquer coisa, esgaravata com a unha. Pode ser uma borbulha. Deve ser, mas nunca se sabe. Pode ser. É capaz de ser.

sexta-feira, outubro 23

Carta de Guia de Namoros


Os costumes mudam actualmente dum modo que tem a gente a impressão, pelo menos eu tenho, que estabilidade neles é coisa do passado. As relações entre as pessoas, essas, influenciadas e modificadas pelo arsenal dos meios de comunicação, tomam um aspecto mirabolante para quem é do tempo da telefonista, do telegrama e do telex.

Daí o ter-me ocorrido a ideia de, baseando-se na clássica Carta de Guia de Casados de Francisco Manuel de Melo (1651), sugerir que alguém, entranhado nos aspectos da modernidade, se deite a escrever uma Carta de Guia de Namoros em Tempos de Internet.

Pelo que tenho observado, o telemóvel e a internet modificaram de tal modo a antiga arte de namorar que, creio, se justifica o trabalho de compêndio das regras (se as há), das dificuldades, dos perigos, dos gozos e das quase infindas possibilidades que esses meios oferecem.

Medieval parece hoje o tempo da piscadela de olho, do "ir atrás", de fazer "pé de alferes" e "arrastar a asa". Nem num filme cómico se imagina ainda o namorado no passeio, esticando o pescoço para a janela do segundo andar donde a futura lhe acena adeuzinhos. Um pretendente ao nó a fazer sala na presença dos futuros sogros? Um romântico a mandar poemas de amor com folhas secas para ela colar no álbum?

Isso são usos mortos e enterrados, e com Second Life ou sem ela (quase) toda a gente tem hoje uma terceira, quinta ou décima identidade, aumenta os anos, corta-os, alinda-se, muda de sexo conforme a lua, não conta pelos dedos, que esses não chegam, o número de amantes e amores. Os idosos fazem-se adolescentes, as Lolitas juram-se casadas mas infelizes, putos de dez dão-se por trintões e acendem labaredas na mestra, nunca há certeza se a fotografia é original, do Google ou manipulada com Photoshop.

Em semelhante caos de amores, simpatias, falsidades, encontros e desencontros, mutações e permutas, mesmo que as coisas fiquem pelo virtual parece impor-se a necessidade da referida Carta de Guia onde se assentem uns tantos preceitos e regras, caso contrário, envolvidos num marasmo de nicks, corremos o risco de um dia, confundindo tudo, andarmos a mandar mails amorosos àqueles que odiamos ou, topo do absurdo, a nós próprios.

quinta-feira, outubro 22

Polémica

Polémica, a versão ampliada e nacional das discussões de café. Que seja sobre um Benfica-Sporting, a junta de freguesia ou problemas de regadio, aquilo toma as fervuras do leite, cada cabeça dá a sua sentença, tem a sua razão, e ilude-se que alvitra com argumentos de maior peso e mais finura que os do oponente. Assim seja.

Saramago afirma coisas tolas sobre a Bíblia? O poder dizer coisas tolas está incluído no direito à liberdade de expressão. Julga você rebatê-lo ao atirar-lhe que leu o Livro Sagrado de fio a pavio, o compreendeu, se maravilhou e tem opinião contrária? Não perca tempo, porque nem ele o ouve nem de facto se trata da Bíblia. De publicidade sim, publicidade e manipulação, artes em que Saramago merece outro Nobel.

Sabe uma coisa? Não dê corda. Saia do café.

quarta-feira, outubro 21

Outono

É o tempo de Outono, o humor em maré baixa, as coisas – aquilo a que à falta de melhor chamamos as coisas – a correrem mal. Quando é assim os dias são longos, as noites curtas, o pesadelo vence o sonho.