Abre-se a janela, o sol brilha, olha-se aquela mancha de cor... É um nada, mas torna menos sombrios os pensamentos da noite.
sábado, maio 16
É um nada
Abre-se a janela, o sol brilha, olha-se aquela mancha de cor... É um nada, mas torna menos sombrios os pensamentos da noite.
quinta-feira, maio 14
Loas à Câmara de Mogadouro
Cantem-se, e bem alto, loas à Camara Municipal de Mogadouro, por ter embelezado com estas elegantes colunas as aldeias do concelho.
No que respeita a nossa, a recomendação de “Volte Sempre” é que parece despropositada e faceciosa. Acontece que nós, que nela moramos, não temos outro remédio, mas no estado em que se encontram os seis quilómetros da estrada (estrada?) que nos liga à N220, ninguém em seu juízo vem para estas bandas. A não ser, talvez, alguém do Guinness Book of Records, pois poucas deve haver como ela que, desde 1968, nunca mais viu alcatrão, salvo, muito de longe a longe, o de uns remendos aqui e além.
De nada adianta a bela gravata em roupa de mendigo.
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Dentes e nozes
Deus dá as nozes a quem não tem dentes.
Ao romper da manhã, o cérebro ainda a meia força, ignoro o que me levou a pensar no estafado provérbio. Tãopouco descobri donde saiu a voz melancólica que me segredou que Deus também prega a partida de dar dentes a quem nunca terá nozes.
quarta-feira, maio 13
ASNEIRA GROSSA
Quem receber esse lixo faça favor de desculpar. Amizades, electrónicas ou não, tenho que chegue.
"O Paço da Glória" revisitado (2)
Neste conto há ficção e factos. Na freguesia de Jolda, nos Arcos de Valdevez, onde se situa o Paço da Glória, aqueles dos mais idosos que ainda não perderam de todo a memória serão capazes de destrinçar o que nele enredei de verdade ou fantasia. A mim, que o escrevi, já não interessa uma nem outra.
LORDE WILLIAM
Lorde William B. chegou a Lisboa na Primavera de 1948, vindo de Itália num dos primeiros paquetes que depois da guerra reiniciaram a ligação entre Génova e o Rio de Janeiro.
A sua bagagem causou pasmo, foi motivo de conversa para os estivadores que a tiraram do porão e os mirones que a viram passar. É certo que lorde William, como toda a gente, viajava com malas. Apenas muitas mais. Mas às malas seguiram-se caixas, caixotes, grades e arcas, baús, embalagens do tamanho de um quarto, tudo isso formando no cais um montão imponente.
Encheram-se três vagões. Com o que ainda sobrava de miudezas carregou-se o camião de um homem que julgou que teria de levá-las ao Estoril - dois passos - e se enfureceu ao descobrir que a viagem era para os confins do Douro, naquele tempo dois dias para a ida se as estradas estivessem boas, outros tantos de volta.
O desembarque e o despacho tinham sido rápidos e, pelo menos na aparência, sem encrencas na alfândega, a ponto que no entreposto se imaginou, e depois se afirmou, que o lorde era primo direito do rei da Inglaterra.
Viram-no apertar a mão do comandante antes de descer o portaló, seguido por um sujeito magro, de bengalinha, e dois rapazes que entraram com ele num carro preto com chofer, enquanto os guardas automaticamente se punham em sentido e lhe faziam continência.
O da bengalinha ficou para tratar do carregamento dos vagões, que se fez nessa mesma tarde. Foi ele também que, com um maço de notas como o homem nunca vira, calou as pragas do dono do camião.
Semanas depois lorde William instalou-se no solar herdado de um tio e em três anos aquilo estava transformado em palácio, o pessoal da casa passou a andar de uniforme branco, os vinhedos da quinta ganharam fama.
Nesses três anos trabalhou lá um exército de pedreiros, carpinteiros, estucadores, electricistas, artistas que tinham deixado tudo num brinco. Contava-se, mas ninguém tinha visto, que num salão inteiro só havia instrumentos de música; que os dois andares e a torre estavam agora com mais de setenta divisões; que dos quartos de dormir do rés-do-chão, cada um com sua lareira de granito polido e tapetes de lã felpuda, bastava abrir uma porta e se descia logo para a piscina de mármore.
Havia quem tivesse espreitado de longe, mas a piscina, infelizmente, ficava escondida pelas três alas do edifício e um renque de árvores; apenas se descortinavam lá de vez em quando uns vultos a nadar, ouviam-se risos e gritos de alegria quando o vento estava de feição.
A aldeia alvoroçara-se com a chegada do lorde. Diziam-no mais rico que o falecido tio, menos sovina e, além de primo do rei da Inglaterra, parente chegado ou amigo de mais uma dúzia de soberanos e duques.
Na generosidade ultrapassou largamente as esperanças, mesmo as dos necessitados que, como é sabido, são sempre desmesuradas. Deu para a igreja, deu para a escola, os bombeiros, a Misericórdia da vila, a sopa dos pobres. Passou a custear a procissão anual e comprou mais andores. Ofereceu um altar novo ao Menino Jesus: dezanove contos daquele tempo. Os doentes e aleijados nem precisavam de pedir: o mordomo, o sujeito da bengalinha, aparecia e desembolsava para a farmácia, as cadeiras de rodas, a visita do médico. Era preciso um especialista? Vinha o especialista. O clube de futebol não tinha campo? Ele deu o terreno, pagou a terraplanagem, mandou instalar um balneário, encomendou a banda de Trancoso para a inauguração, e ainda por cima pagou a merenda e o vinho a todos.
Adoravam-no. Quando se mostrava na aldeia, raramente, ou ao vê-lo passar no carro a caminho de Lisboa, do estrangeiro, sempre com os dois mocetões loiros, as pessoas faziam-lhe vénia, os chapéus eram tirados com respeito, algumas mulheres e as crianças acenavam-lhe com a mesma maneira solene que tinham para o bispo ou para o andor da padroeira, Nossa Senhora da Boa Hora.
Claro que não era perfeito, nem toda a gente lhe ia com a cara. Nunca falava, embora se dissesse que conhecia perfeitamente a língua; e das vezes que alguém, emocionado de reconhecimento, lhe quis agarrar as mãos para beijá-las, ele logo as tinha retirado e escondido, soprando Ós!, muito corado.
Também não era bom para empenhos, nem para empregos. Na casa só trabalhavam estrangeiros e gente de fora; aos da terra dava o cavar, a vindima, algumas jornas, mas como o feitor tinha ordens para que a vez corresse por todos e a gente era muita, quem cavava não vindimava, os que ganhavam no Verão só voltavam a ganhar em Dezembro.
A maioria não achava bem. Que tivesse as suas preferências por este ou aquele, ainda compreenderiam. Se fosse forreta como o tio, um inglês ossudo que andava sempre com um xaile de mulher pelos ombros e pagava menos que os outros proprietários, também lhes pareceria dentro da ordem normal das coisas. Agora esse sistema novo - e o padre a dizer que era justo! - não agradava a ninguém: nem aos que trabalhavam, nem aos que tinham de esperar.
Resmungou-se, mas ele deu o campo de futebol e os ânimos tornaram a acalmar, a coisa esmoreceu. Tempos depois, quando a tia Ludovina morreu por não haver ambulância que a levasse ao Porto, ele mal o soube logo mandou comprar uma, os que queriam fazer exigências não acharam quem os apoiasse. Finalmente tinham-se conformado.
Por vezes ficava na quinta o ano inteiro, ou então um mês, três meses. Viam passar o carro, mas a bem dizer ninguém sabia se naquela hora ia de viagem ou a passeio, se era ida ou retorno. A generosidade é que continuava a mesma, estivesse ele ou não. Bastava o padre falar ao mordomo, este investigava, e no seu português mascavado de italiano dizia "Si, si", os pobres eram ajudados, os doentes recebiam o remédio, o "Bota e Bebe" da loja fornecia os comestíveis. Coisas maiores era preciso esperar que a "Eccellenza" estivesse.
O Manuel tinha voltado da tropa com a ideia de que não haveria de demorar muito antes de juntar o bastante para a passagem e que em dois anos, no máximo, estava no Brasil. Pagassem-lhe o justo, para ele não havia horas, peso ou ladeira. Por ser assim trabalhador contratavam-no até de longe, escolhia os patrões que queria, o Simão não se opôs quando ele lhe começou a namorar a filha mais velha. Nunca se tinha sujeitado a esperar vez para trabalhar na quinta do lorde, nem mesmo depois do feitor, na taberna, lhe ter acenado com a promessa de que se fosse respeitador e obediente lhe poderia suceder no cargo.
O Manuel encolheu os ombros e sorriu de maneira tão escarninha que o feitor, nessa noite, disse à mulher que não compreendia como um rapaz que pouco mais tinha que a camisa do corpo, se pudesse dar ao luxo de proceder assim.
Na taberna, os que tinham ouvido também o acharam tolo, porque o lugar de feitor na quinta, além de casa de graça, ordenado, um porco e uma pipa de vinho por ano, ainda dava muitos benefícios.
- Tem juízo, rapaz - disse alguém - o teu Brasil é aqui.
- Não trabalho p'ra panascas - rematou o Manuel.
Houve um silêncio, depois as conversas continuaram sobre outra coisa, mas com ele ninguém mais falou, só repararam que ao sair da tasca ia tão tocado que o Pinto e o Camorro lhe deram ajuda até à porta de casa.
Sabia-se, mas nunca ninguém se tinha atrevido a abrir a boca a não ser em segredo: no palácio passavam-se coisas que era melhor esquecer. O pessoal, fora o mordomo, era tudo rapaziada nova e bonita, pareciam escolhidos a dedo. Mulher não trabalhava lá nenhuma, nem mesmo na cozinha, e contava-se à boca pequena que a raiva do inglês pelas fêmeas era tão grande, que ele próprio tinha matado a cadela perdigueira que o povo lhe oferecera.
O dito do Manuel naquela noite caiu mal na aldeia e a partir desse momento só as circunstâncias e o lugar da sua morte são indiscutíveis. O resto perde-se em "contam por aí", "diz-se", "parece", mas testemunha que faça fé não há nenhuma e por isso se aceita a versão que segue.
Uma noite foi o Manuel agarrado por desconhecidos que o levaram para uma sala do palácio onde o lorde estava à espera e lhe perguntou se era verdade o que contavam, que ele tinha dito que não trabalhava para panascas. É possível que por acanhamento e susto não tenha dado resposta, mas "contam por aí", "fala-se", que lhe tiraram a roupa à força, o deitaram ao chão, prenderam com cordas, e todos os matulões da quinta, uns a seguir aos outros, o tinham enrabado tantas vezes que ele perdeu os sentidos.
O próprio lorde deu-lhe depois um copo de água, disse-lhe que se podia ir embora e não se esquecesse de contar na aldeia que também era roto.
Na semana seguinte desapareceu. Segunda-feira viram-no voltar na carreira. Repararam que mancava e tinha os olhos avermelhados. "Diz-se", "parece", que tinha estado no hospital da vila, no posto da Guarda, no tribunal, para apresentar queixa, que chegara mesmo a falar com um advogado, a ver se lhe queria tratar do caso, e este lhe respondera como os outros: "Não me meto nisso."
Dois dias depois, uns homens que andavam a trabalhar à beira-rio, viram-no lá sentado mais de uma hora. No sábado de madrugada encontraram-no enforcado no portão da quinta e a aldeia inteira correu a vê-lo, mas o mordomo deu ordens para que lhe deitassem um lençol por cima até as autoridades chegarem. A "Eccellenza" tinha saído de viagem na semana anterior e quando voltou no Outono estava tudo esquecido.
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in O Joalheiro – Editorial Escritor, Lisboa, 1998
terça-feira, maio 12
"O Paço da Glória" revisitado (1)
Por recordações que me são gratas, escrevi aqui em Fevereiro de 2008 um texto sobre o Paço da Glória em Arcos de Valdevez. Desde então acontece que duas ou três vezes por semana alguém visita este blogue em busca dessa prosa.
Ontem, para minha surpresa, e sem ideia do que o tenha motivado, não foram duas ou três, mas mais de cinquenta as pessoas que em cerca de duas horas fizeram essa busca.
Haverá alguém que me ajude a aclarar este mistério, enviando um mail para jrentes@xs4all.nl ? Desde já agradeço.
Quem se interessa pelo Paço da Glória poderá ler o romance O Mundo à Minha Procura, de Ruben A. (1965) e o meu romance A Coca (Editorial Escritor, Lisboa, 2000).
segunda-feira, maio 11
sexta-feira, maio 8
A viúva
Fora os casos em que o casal abençoadamente morre junto, por exemplo num desastre de automóvel, queda de avião, ou depois de um almoço de mau marisco, a regra é que um dos dois fica viúvo. Como os homens bebem mais vinho, sofrem aflições maiores e saem sempre derrotados do que Dalton Trevisan apropriadamente chamou “”a guerra conjugal”, resulta daí ser excedente o número de viúvas.
Confesso que no geral as viúvas me aborrecem. Aquele ar de sofrimento deveria ser reservado para a intimidade ou a solidão, não para ser exposto com o modo sombrio, mas orgulhoso, que tomam os antigos combatentes num desfile.
Entre as viúvas que se destacam no meu aborrecimento estão em pimeiro lugar as dos escritores. Ouvi-las ou lê-las sobre as excelentes qualidades, a excessiva sensibilidade e o excessivo talento do defunto, dá-me acessos de exagerado mau humor.
É que eu, ocasionalmente, tive oportunidade de tratar com o sacana, e dele não recordo virtudes. Sim rasteiras, traições, rapapés para cima, pontapés para baixo, mesquinhices, merdices, filhadaputices!...
E a viúva finge que ignora, mas digo-lho eu, que ando por cá faz algum tempo: olhe que talento também não tinha. Nem a fama que julga. Espere umas semanas e só o Google se lembrará dele.