Kim Il-Sung, pai da pátria na Coreia do Norte, tem espalhadas por lá para cima de oitocentas estátuas. Comparadas com esse excessivo culto da personalidade, duas páginas no Expresso de hoje fazem figura mais que modesta. Mas contenta-me. Leva-me também a recordar o longínquo e saudoso tempo (1975-1978) em que escrevi nesse então jovem semanário.
Na cidadezinha holandesa de Valkenburg, com o título “Negociantes de cavalos”, ergueu-se em 1990 o monumento que aqui se vê.
Nada de espectacular ou especialmente meritório, um objecto como deve haver milhões espalhados pelas praças e pracetas do mundo. Este, porém, distingue-se pelo terno argumento que as autoridades municipais encontraram para remover o pedestal: "aumenta-se desse modo a possibilidade dos passantes poderem fazer festinhas às figuras”.
Grande benefício, o cartãozinho que liga a parabólica a não sei quantos satélites e permite ver o mundo através de uns quinhentos e tantos canais. Da Dinamarca à Manchúria, das Canárias a Qatar, de Abu Dhabi à Finlândia, CNN, BBC World...
Talvez porque são exóticos anseia-se pelo familiar, o que ontem me levou a uma emissora regional holandesa. Grande sorte foi, porque há tempos não ria com tanto gosto.
Era um quiz. Duas raparigas nos vinte e poucos anos, loiras a preceito, lindas como convém para a têvê.
Pelos jeitos tinham dado a resposta errada, porque punham boquinhas tristes.
Pergunta seguinte: Lenine e Staline são: a) armários da Ikea; b) nomes de plantas; c) políticos russos.
As mocinhas entreolharam-se, consultaram-se, ouvimo-las hesitar. Segundo elas a Ikea arranja sempre uns nomes bizarros para as coisas. Nomes de plantas? Parecia-lhes improvável. Soava diferente de rosa, camélia, hortênsia... Políticos russos? De certeza não, porque lá os nomes acabam sempre em off, ovsky ou insky.
Entreolharam-se de novo, acenaram a concordância e responderam em uníssono:
-Resposta a) – adiantando, também em uníssono, não fosse haver confusão – Lenine e Staline são armários da Ikea.
O código de barras começou a ser usado nas embalagens comerciais por volta de 1966 e a primeira vez que o vi foi num pacote de uvas passas importado da Califórnia. A recordação continua vívida devido ao facto de que, querendo saber o que aquilo era, o caixeiro foi terminante:
- É uma coisa nova, para dizer que vem da América.
Com o botãozinho de plástico que se vê nos pacotes de café de boa qualidade tive menos sorte. Perguntei aqui e ali, em lojas, a gente que pelas minhas contas devia saber. Uns encolhiam os ombros, nunca tinham reparado, um mais destemido jurava que era para manter o vácuo, um outro afirmava que era uma espécie de soldagem.
Finalmente encontrei a boa fonte, e essa explicou que, chegando o nariz ao botão e apertando a embalagem, o interessado pode aspirar o aroma do conteúdo.
Se de facto é isso e não tem mais vantagem, parece-me invenção tola. Haverá quem ande pelas prateleiras do supermercado a apertar os pacotes de café, para distinguir as subtilezas dum Arábica, dum Kivu ou dum Guatemala? Não será preferível levá-lo para casa e ligar a máquina ou pôr a cafeteira ao lume?
A minha vizinha sabe de meteorologia. Aponta para os lados da Serra de Bornes, onde começam a amontoar-se uns novelos cinzentos, franze os lábios e diz num tom sombrio:
- Vem aí chuva!
Abro um sorriso de concordância, digo-lhe que sim, e continuo com os meus afazeres.
Às vezes, quando volta do terço ao fim da tarde, olha para o céu onde nuvens pequenas e esparsas se assemelham a um rebanho:
- Amanhã vamos ter um dia bonito! Calmo! E os pescadores é que vão ficar contentes! Céu de bolinhas é sinal de muito peixe!
Não lhe contradigo a tolice e calo que é bizarro ouvir falar assim quem nunca viu o mar.
Noutra altura:
- Vai ser trovoada.
- Com um céu tão limpo?
Fareja para um lado e para o outro, agitada como um perdigueiro, fecha os olhos a concentrar-se:
- É que cheira mesmo a trovoada! Pode ser que só venha à noite, mas que vai haver trovoada, vai!
A culpa destas bacoquices não a tem ela, mas uma espécie de José Quitério da ruralidade, que vem do Porto num Land-Cruiser e se demora por cá os fins-de-semana.
Quarentão sorridente, incansável nos cumprimentos e louvores, dá abraços com um entusiasmo de político em tournée eleitoral:
- Vossemecês têm muita sorte com estes arzinhos! Esta pureza! E então, ti Celestino, como vão esses reumatismos? Estou a ver que o cházinho de cidreira lhe tem feito bem!
Pára. Forma-se uma roda. Uns esperando que lhes confirme a ciência da tradição, outros ansiosos por dar conselho.
- Fiquem a saber que o digo muitas vezes lá no Porto! Devia ser obrigatório visitar o Nordeste! Vir ver isto! Aprender com vossemecês as coisas boas de antigamente! A comidinha saborosa! Julgam que na cidade alguém sabe o que é o butelo? Que alguma vez comeram uma burzigada? Um bulho com casulas? Um folar? Hoje nas cidades não se sabe nada! Não se come! Não se vive!
E reparando na minha vizinha que está fora da roda:
- Olha a Deolinda! – vai para ela, agarra-lhe as mãos, aperta-a num abraço -Se fosse eu a mandar, aqui esta ia para a televisão! Nada de bonecadas a mostrar o tempo de amanhã. Quem aprendeu com os antigos não precisa de aparelhos! É ou não é? Diz lá, ó Deolinda, vai continuar como hoje?
Apresso o passo e faço de distraído, não quero ver a Deolinda a farejar como um perdigueiro e a fingir de Seringador.
Na rectaguarda tem um papel onde o meu avô paterno escreveu tê-lo comprado no dia 12 de Março de 1889. Em vida só ele lhe dava corda, ritual que, pelo que ouvi contar, se efectuava aos domingos depois da ceia. Meu pai herdou a função e manteve a cerimónia, informando por vezes que a pontualidade prolongava a vida do instrumento. De longe a longe deitava-lhe umas pingas de óleo “para que andasse melhor”.
Com o falecimento de meu pai, e quando vinha à aldeia, passei eu a accionar a chave. Mas por estar muitos meses parado, pela idade, ou falta de lubrificante, o movimento do relógio tornou-se errático. Ora parava para inesperadamente continuar, umas vezes tocava as horas ou então silenciava...
Irá para meia dúzia de anos levei-o a Mogadouro, ao senhor Jorge, e ele, relojoeiro competente, pô-lo a funcionar, acrescentado que tinha feito o que pudera, mas o “bicho” já tinha muitos anos.
Desde então tem menos corda e atrasa-se seis, sete minutos cada vinte e quatro horas. Dá-se o caso de que, entre as coisas boas e más que herdei dos que me geraram, coube-me a obsessão da pontualidade. E assim, toca o relógio da igreja as nove, olho para a parede, vai ele atrasado dois minutos. Deixo o que estou a fazer e vou corrigir. Ouve-se na torre o Avé do meio-dia? Olho. Quase dois minutos! Corrijo.
Assim se me vai o tempo e a serenidade, estou a tratar o aparelho mais que centenário com impaciência igual à que os novos tratam os idosos, que se atrasam, funcionam mal e já não são o que eram.