domingo, março 22

Vassoura de bruxa (cont.)

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É um caça-insectos, mas serve também para bicharia mais graúda. Deve ter sido inventado por alma caridosa, pois oferece a vantagem de não se ser obrigado a matar as criaturas do Senhor. Imagine, por exemplo, uma aranha na parede. Encosta-se nesta o aparelho, ao mesmo tempo que se roda o bastão, accionando assim a tampa que há no fundo, abrindo-a em cerca de metade. Roda-se calmamente para fechar. A aranha tem amplo espaço para, sem preocupação, reconhecer as imediações. Leva-se agora o conjunto até à janela e roda-se em sentido contrário para que a aranha possa sair e, pelo seu fio, descer até à rua.
Não foi preciso esmagá-la com o chinelo, pelo que não há crime nem remorso. O susto para os aracnófobos é limitado. O contacto nulo.

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O Dicionário Houaiss regista "aracnofilia s.f., apreço, admiração, interesse pelas aranhas". De aracnofobia não trata, como se fôssemos todos irmãos de São Francisco de Assis. O Dicionário da Academia não regista nem uma nem outra.

sábado, março 21

Vassoura de bruxa?

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A intenção foi simpática e agradeceu-se o presente, mas como tinha pressa a visita despediu-se, dizendo que era coisa útil, mas sem mais explicações.

Levantou-se o problema: para que serviria? Pegou-se-lhe dum lado e doutro, virou-se para cima e para baixo, fez-se rodar. Seria para o jardim? Ou um vaso? Bengala? Lâmpada mágica? Vassoura de bruxa?

Discutiu-se, alvitrou-se, apostou-se. Horas depois um e-mail traria a solução. Ninguém tinha acertado.

Que será? Para que servirá?


sexta-feira, março 20

A guerra conjugal


Não me perguntem quais são os meus livros favoritos, porque não saberei responder, pois o apreço infalivelmente muda com o que se vai vivendo e aprendendo. Miguel Strogoff - Correio do Czar e Sandokan - o Tigre da Malásia, por exemplo, mantêm-se na estante, mas ao longo dos anos foram sendo “empurrados” por um sem-número doutros favoritos. À frente continuam Eça de Queiroz e Céline, com o brasileiro Dalton Trevisan (1925) logo a seguir.

Estupendo contista. O primeiro livro que dele li, A Guerra Conjugal (1969), foi uma revelação. Originalidade, estilo, enredo, análise das almas e das situações, a aparente simpleza de todos os personagens se chamarem João e Maria... abriu-se-me a boca.

Releio-o, sorrio, aceno que sim a concordar. Dalton Trevisan é o Clausewitz da guerra conjugal e o seu livro a versão caseira de Vom Kriege. Porque intramuros, como no mundo dos generais, cada um tem a sua estratégia, e a guerra ou a guerrilha, a luta de trincheiras, o bombardeamento, o corpo-a-corpo, podem começar por um nada. Um esquecimento, uma tolice, um desarrumo...




quinta-feira, março 19

A sandália

A defunta Madre Teresa, o Papa Benedito, o sempre bem disposto Dalai-Lama, o senhor António da garagem, você, o seu vizinho do terceiro, eu próprio - todos temos maus hábitos. Uns mais do que outros, alguns até ao exagero, e esses são os que se apressam a apontar o dedo.

Entre os meus, na verdade poucos, dizem-me que um dos que mais irritam é o de que pareço incapaz de responder séria e laconicamente quando me contam um caso ou pedem uma opinião. Segundo os que me acusam, em vez de dizer sim ou não, começo por contar uma história que, na opinião deles, raro tem a ver com o assunto.

Dias atrás falava-se de um casal desavindo e dos argumentos com que cada um procurava demonstrar a sua razão. Quando quiseram saber de mim o que decidiria, eu, mau Salomão, repliquei com a história que, em casos semelhantes, é a minha favorita.

Foi em Roma, na era de César. Um poderoso, rico e muito elegante senador convidou os seus melhores amigos para jantar. Antes, porém, de fazerem as abluções e passarem ao triclinium – a sala de jantar com os clássicos três leitos - não querendo perturbar os convivas durante a refeição, anunciou logo ali que se ia divorciar.

Pasmo geral. Como podia acontecer semelhante coisa? Então não era a sua esposa uma das mulheres mais ilustres do Império? Das mais inteligentes? Haveria outra que a igualasse em beleza ou elegância? Tinha ele entontecido?

O senador ouviu-os em silêncio. Finalmente, chamando um escravo, ordenou que lhe desapertasse uma sandália e, com um gesto teatral, mostrou-a aos amigos, pedindo que lhe dissessem o que pensavam dela. E eles que sim, claro, não havia sandália mais elegante, de cabedal mais fino, melhor forma ou mais belos enfeites.

- De facto, meus amigos, de facto! Bela. Bonita. Nova. De excelente qualidade. Mas digam, onde é que ela me magoa?

quarta-feira, março 18

Calças

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Festa popular num dia de 1926, na Warmoestraat, em Amsterdam. À primeira vista a gravura nada tem de invulgar. Álcool, ingénua marotice, e um pequeno, mas aos meus olhos importante detalhe, sobre a suposta desigualdade dos sexos: as mulheres vestiram as calças, os homens vão de saia. Foi assim na festa, antigamente era o mesmo em casa, na generalidade dos casos continua a sê-lo.

Sobre a mulher holandesa escrevi anos atrás:

Da criatura livre, arejada, alegre, aventurosa, que foi na juventude, capaz de pelo gosto de ver e viver ir até aos fins do Oriente sem mala nem bagagem, de mãos dadas com o primeiro estranho – ficou a matrona. A família encontra nela o motor e o suporte, uma vez que o pai, derreado, por facilidade ou temperamento lhe delega muitas das responsabilidades que a ele caberiam. Por isso se nota que nas horas de urgência ou crise ela é mais rápida nas decisões, aparece mais capaz e, se os comparamos, é ela quem sob todos os aspectos faz melhor figura.”


terça-feira, março 17

O príncipe, o pintor, a madama e o "gado"

Parecerá que misturo aqui alhos com bugalhos, mas foi o acaso. Andava à procura de uns detalhes sobre o principe Eugenio di Savoia (1663-1736), sobrinho do cardeal Mazarini, grande estratega e general mercenário que, ao serviço dos Habsburgos, foi “Il terrore degli eserciti turchi e francesi”.

Por vias travessas, através do pintor Cornelis Troost (1697-1750) acabei por “entrar” no prédio do Prinsengracht (Canal dos Príncipes) em Amsterdam, onde Madame Traëse (Thérèse) tinha estabelecido em 1708 o mais luxuoso bordel da cidade.

Para descansar das guerras o príncipe foi lá de visita em 1722 e vê-se a examinar o “gado”. O do cachimbo é o diplomata britânico Louis Renard. Cornelis Troost, que era vizinho, provavelmente assistiu e fez a gravura. Supõe-se que a madame seja a figura que, à esquerda, levanta o vestido da rapariga.