quarta-feira, fevereiro 25

Korsakov

Sentados defronte um do outro à mesa do café. O cheiro acre obriga-me de novo a recuar um pouco mais a cadeira. Olhos semicerrados, cotovelo na mesa, cigarro no ar, a cabeça apoiada na outra mão, inteligência tem de sobra e, pelos ignorantes, o mesmo desdém fundo que lhe merece a higiene.

Está no fim, sabêmo-lo ambos, mas ao acordar da modorra que, como agora, por momentos o toma, todo ele é um fervilhar de ideias e planos, críticas mordazes, dichotes, setas ervadas. Ervadas e tão certeiras que se contam pelos dedos de uma mão aqueles que o não evitam.

- Lembras-te de quando tive o síndrome de Korsakov? Ah! Ah! Nikolai Andreyevich Rimsky-Korsakov! O da música! Não, não! O meu é o outro.

Aceno a concordar e ele, como se afastasse qualquer coisa, gesticula descontrolado com o braço.

- Passou. Mas agora a médica... Uma velhota. Sessenta e tal, ou mais... A velhota descobriu que tenho uma polineuropatia-axonal. Sabes o que é?

- Não faço ideia.

- Nome engraçado. De vez em quando digo polineura.

Levanta-se com esforço, apoiado ao rebordo da mesa, detém-se, bebe um gole da cerveja.

- Vais ver.

Tal um bébé a ensaiar os primeiros passos, caminha por entre as mesas indiferente aos olhares, empurra aqui, encosta ali.

- Não sinto nada, mesmo nada. Isto é, tenho a impressão de que caminho... A ver se me faço entender: imagina um soalho de vidro besuntado com gordura... Escorregas e não sentes nada, não há contacto, é como se te faltassem os pés. Mais que bizarro.

Quer sentar-se, falha a cadeira, cai de borco no soalho. Somos uns quantos a acudir e alguém grita que telefonem para o 112. Torce a boca num esgar, um tremor agita-lhe o corpo, a rapariga ao meu lado sussurra que tem a impressão de vê-lo sorrir.

Provavelmente sorriu, liberto do pesado fardo que a sua vida era.

Foi ontem a enterrar.

terça-feira, fevereiro 24

Figurino inicial

Retorna o Tempo Contado ao figurino inicial, na esperança de assim acabar de vez com as irregularidades do tipo de letra e outras.

Yves Saint-Laurent

Uma tarde em Lisboa, anos atrás, fui-me de visita ao Museu de Arte Antiga. Percorrendo as salas com vagar, chamou-me a atenção que apenas o nome de um inglês figurava entre os doadores.

Vivendo num país, a Holanda, onde o mecenato é considerado uma obrigação social, e nascido numa terra onde os ricos se distinguem por, em geral, nem gostarem de dar sarna a gatos, aquela doação isolada de um estrangeiro entristeceu-me de modo singular.

Vem agora o leilão das obras de arte de Yves Saint-Laurent e Pierre Bergé, e as centenas de milhões de euros que daí resultarem irão beneficiar a luta contra a SIDA.


Largo é o fosso entre a elegante generosidade de alguns e o ganancioso egoísmo doutros.