Faixas no céu da manhã, mais do que de costume, levam-me a pensar nos que de longe vêm passar o Natal.
Uns trazidos pela tradição que mantêm, outros obrigados pelas aparências que têm de manter, alguns com a dor na alma e o sorriso nos lábios.
Natal ou não, para todos esses será de algum conforto a frase de Alfred Polgar (1873-1975): “O destino do emigrante é que o país estrangeiro não se torna a sua pátria: a sua pátria é que se lhe torna estrangeira.”
Nenhum outro lugar se prestaria melhor a encontrar pela primeira vez Fernando Peixoto do que o seu gabinete na Junta de Freguesia de Santa Marinha, em Gaia.
No rés-do-chão, na escola das Palhacinhas, tínhamos tarimbado em épocas diferentes, mas com recordações semelhantes, umas de gentes, muitas as dos lugares.Em poucos minutos já não éramos os senhores estranhos que dali a pouco iriam participar numa cerimónia, mas dois garotos apressados a reviver isto, a lembrar que também tinham visto aquilo, corrido nas mesmas vielas e na Rua Direita, espreitado na loja do Facal, na mercearia do senhor Ramos, na farmácia, cortado o cabelo no mesmo barbeiro, mijado contra a mesma esquina.
Ia eu falar do convento da Santa Maria Adelaide, já ele me cortava o discurso com uma história do Fluvial. Tinha eu tremido à vista da cabeçorra de São Gonçalo? Levava ele a melhor, que muitas vezes acompanhara os mareantes. Mas de seguida marcava eu pontos: em 1947 assistira ao fogo de artifício mais espectacular de memória de vivos e mortos. Noite de São João. Desde a Calçada das Freiras até à ponte, a margem de Gaia a arder com o foguetório dos Fernandes de Lanhelas. Eu a suar com os fogueteiros, que eram nossos vizinhos, chegando-lhes as mechas. Labaredas, figuras de anjos e bichos, rodopios, estrelas,bouquets, bombardas!... A Serra do Pilar iluminada que nem Roma nos tempos de Nero!
E onde estava você, Fernando Peixoto? A espernear no ventre materno! Ainda com um mês de espera antes de poder abrir os olhos para aquilo que há dezassete anos me maravilhava. Que depois, felizmente, seria de nós ambos e dos outros muitos que nasceram nos mesmos largos e vielas. Que por ali se fizeram gente. Os que ficaram e os que não resistiram ao bruxedo das águas do Douro e, tentados por elas, se foram a correr as sete partidas.
O Fernando também foi. Obrigado pela loucura dos que julgam que a história dos povos pode ser obra de uma só cabeça. Não pode. Mas dessa sua viagem à África não falámos. Era mais fácil falar das minhas, porque nelas não houve chacinas nem traições.
Quando chegou a hora da cerimónia voltámos a ser dois senhores. Mas logo depois veioa amizade, e com ela a troca de livros, as provas de apreço mútuo.
Manda a tradição, manda o ritual, pedem-no o sentimento e a solidariedade: quando alguém falece testemunha-se a dor, dizem-se palavras de pena. Todavia, para os do seu sangue não serão as palavras e os testemunhos capazes de compensar da perda. Assim as minhas ficarão no íntimo. Só direi que Fernando Peixoto nos deixou demasiado cedo. A mim não me deu ocasião nem tempo bastante para lhe contar do Irilo, do Patas, da Cavalinha, de como era o São João no Monte dos Judeus, a Gaia da minha infância.
Mas tempo chegará, e lá nos encontraremos, porque todos fazemos a mesma viagem com igual destino.
O riso não é especialidade minha. Nunca foi e só esporadicamente me acontece rir. Certamente aprecio uma boa anedota, um dito perspicaz, aquelas frases com que gente de talento, dotada de um bom sentido de humor, revela o cómico de uma situação. Mas gargalhada não é comigo. E certo modos de gargalhar põem-me do avesso, sobretudo aqueles em que a pessoa, aos urros, escancara a boca e atira a cabeça para trás, como se fosse asfixiar.
É essa também uma das razões que limita o meu uso da têvê. Ri-se nela em demasia, como se a gargalhada fosse um vício, uma tara, ou pior: uma imposição.
Que eu saiba, a TMN ainda não imita o milagre da multiplicação dos pães, mas nos últimos tempos multiplica-me os posts por dois e três. Excesso de eficiência ou coisas do éter.
A propósito do texto anterior e para sossego dos aflitos e dos curiosos, dos preocupados, dos que “lhes parece que...”, dos sabidos que dizem: “tenho a certeza, estou mesmo a ver, penso que foi com ...”
Não senhor, não sou aquele do cancro, ontem almocei a sós e em boa paz com a mulher, aborreci-me com o dia de muita chuva,entre as minhas relações não conheço quem tenha pacemakerou espere herança.
Pelos jeitos não é, mas apreciaria se me fosse reconhecida alguma capacidade para a ficção. E que os espíritos mais ou menos simples que se deixam arrastar pelas próprias miragens, se dispensassem de me pôr ao corrente delas.
O pai, depois ou antes dele os irmãos, os tios, o padrinho. Mais tarde, quando já se sabia, um qualquer acenava e ela, detrás do muro, levantava a saia, deixava-os fazer. Alguns batiam-lhe. Chamavam-lhe cadela. Puta. Porcalhona. De longe a longe deixavam-lhe uns tostões, pagavam-lhe um copo na taberna. Um amarrou-lhe as mãos com uma corda, prendeu-a a uma cerejeira, e foi buscar o irmão tolinho que, aos quarenta anos, ainda não conhecera mulher. Foder? Arrombar? Começou aos onze e para aquilo, para o que em mais de vinte anos fizeram com ela, os verbos da ralé não servem, não chegam, não dão a medida da bestialidade e do desprezo, do sofrimento, do nojo, do vácuo animal, do escuro de algumas vidas. Era desmanchar ou parir, parir e enterrar. Nunca ninguém quis saber quantos, nem ela guardou memória. Escaparam dois. Criados ao deus-dará com o pão das esmolas e aguardente na chupeta, ficaram gente na aparência, bichos no resto. O mais novo levaram-no os ciganos e têm-no na Espanha como escravo. Corpo de gigante, cabeleira ruiva, uma perna torta, ao mais velho “deu-lhe uma coisa”, e como o médico mandou que andasse, anda sem parar. Dia e noite, chuva ou sol, calor ou frio. Chamam-lhe agora “O Peregrino”. As mulheres têm-lhe medo, tremem quando se cruzam com ele nos atalhos. Diz-se que o ouviram prometer que um dia uma não escapa, há-de lhe fazer o que fizeram à mãe.
Começam ao romper do dia. A geada cobre tudo. Os que têm mais força varejam as oliveiras, outros estendem as lonas, os que podem menos arrepanham nelas as azeitonas à mão-cheia, ou uma a uma, rebuscando as que caem fora da lona por entre as pedras de um solo que é mais pedra que húmus.
Novos que os ajudem não há, mas a força atávica manda colher. Sem atentar no frio, no desconforto, esquecendo as dores que são como facadas, o reumatismo que tolhe braços e pernas. A maioria anda pelos setenta. São muitos os de oitenta, o Benjamim fez oitenta e seis, a Laurentina oitenta e sete.
Quando a árvore é alta encostam-lhe uma escada e sobem por ela, esquecidos da idade e do perigo, os dedos trémulos a agarrar esta azeitona, e aquela, a do outro galho. Sentidos por ter de deixar as que ficam longe demais.
Por volta do meio-dia acendem uma fogueira e sentam-se a comer o farnel. Aquecendo uma mão, depois a outra. Sem falas, nem perda de tempo, que por volta das cinco escurece.