domingo, outubro 26

"Older people"

"Older people are perceived as cynics and misanthropes - but no, they are simply people who have at last heard the still, sad music of humanity played by an inferior rock band howling for fame."
(Paul Theroux in Ghost Train to the Eastern Star)


sábado, outubro 25

Prisão


Com pouco mais de treze metros quadrados, o meu quarto de trabalho é pequeno, mas poderia ser confortável se o não atravancasse tanta coisa. Assim, com as mesas, as estantes, um armário, um divã, caixas de todos os tamanhos e feitios, os montes de revistas e jornais à espera de serem lidos, é um espaço onde vivo sentado ou apenas consigo movimentar-me de lado. Como numa cela. Todavia, se estou longe, esta prisão a que voluntariamente me condeno é o que mais depressa me falta.


sexta-feira, outubro 24

"A Ira de Deus sobre a Holanda"

(clique para aumentar)

Anos de trabalho, frustrações, tristezas e aborrecimentos, insónias, atrasos, desesperos, decepções, raivas, ventos contrários...

Finalmente o livro chega. Então alguma coisa se esquece, muito se desculpa. Não fosse assim, seria este o último que escrevi, mas acontece que tenho ainda duas ou três histórias para contar.

quinta-feira, outubro 23

Entrevistas

Nestes últimos dias tenho andado metido com jornalistas.Como eu próprio o fui durante décadas, é com um misto de ironia e ternura que me sujeito às entrevistas, aguardo paciente enquanto eles acertam o gravador, ponho o ar compenetrado que deve acompanhar as respostas, tomo a pose que o fotógrafo deseja, sou gentil e sisudo quanto posso fingir.

Mas no íntimo sorrio. Enternecido. Não por eles, mas por mim próprio, pelo modo sério que punha nas entrevistas que fiz, tomando por realidade o que forçosamente era e tem de ser teatro. Descobrindo agora em mim a malícia dos senhores de então, e nestes jovens a candura que perdi.

quarta-feira, outubro 22

Diário (4)

Os mexilhões do jantar de ontem caíram-me mal. A carta que espero há quase um mês não chega. A impressora ainda tem meio ano de garantia, mas avariou, fui levá-la à loja, o modo do sujeito que me atendeu pedia karaté.

O dentista diz que é melhor arrancar o queixal. O cenário com que me assusta é mais ou menos assim: não arrancando cria abcesso, as bactérias depois de certo tempo infiltram-se no sangue, atacam o coração, destroem as...

Não quero ouvir, peço-lhe que pare, prometo que para a semana telefono. Para a semana!... A cansada desculpa!

Ele sorri. Eu encolho os ombros, envergonhado da infantilidade e do meu receio.

terça-feira, outubro 21

A meta

Vou ao hospital visitá-lo. De momento o seu estado é estacionário e os médicos não conseguem prever que desenvolvimento a doença irá tomar. Atrapalho-me nas palavras para dizer que lhe acho bom aspecto, mas de facto o seu rosto tem já a pele exangue e as faces mirradas que prenunciam o fim próximo.

Ele sorri da minha confusão e diz:

- A falar verdade a morte não me mete medo. Mas também não tenho pressa. Sinto-me um bocado como o ciclista que, quase ao terminar a étapa, deixa a bicicleta e continua a pé, desinteressado de chegar à meta.