terça-feira, fevereiro 12

O queixume dos betinhos


O queixume dos betinhos

Vamos lá então meter também a colher no assunto, se bem que o mesmo, devido à velocidade a que tudo actualmente muda, possa já cheirar a requentado.
Como todos sabemos, e estou certo que mesmo entre os Tuaregues se discutiu a notícia, um senhor Weinstein teve a má sorte de que, quando menos o esperava, se tornasse público o que antes era corrente na indústria do cinema e, recuando no tempo, vem acontecendo naquelas ocasiões em que o homem abusa de uma situação de poder e a mulher é violada ou, submissa, cede na perspectiva de um benefício.
Depois de Weinstein, que molestava as mulheres que dele dependiam, foi a vez do actor Kevin Spacey que molestava rapazes, e viveu o momento supremo de  na cerimónia do Prémio Nobel da Paz em 2007, ter apalpado as partes do então marido da Princesa Martha Louise da Noruega.
Seguiu-se um não acabar de casos e tão excessiva barulheira que, dum modo e doutro, queiramos ou não, todos vamos ficando ao corrente. Testemunhámos depois o luto consolado das virtuosas na entrega dos Globos de Ouro, Oprah Winfrey apanhou a onda, quer-se candidatar à presidência dos Estados Unidos, e  como inevitavelmente tinha de acontecer, pois é lei da Natureza que a acção provoque reacção, umas tantas mulheres, seguindo a idosa Catherine Deneuve, vieram defender o direito ao namoro, ao flirt, às quase infinitas variações da dança ritual que, desde que há humanos, precede a cópula.
Contando do instante em que me dou a estas considerações, até que as mesmas sejam lidas na DOMINGO, é provável que novos escândalos e outras modalidades dos anteriores nos ocupem. Todavia, o que agora me interessa é o dilema que me puseram os meus netos, uma rapariga de vinte e três e um rapaz de vinte e um, ela a findar Biologia, ele em Direito.
Sabendo-me nascido e criado num tempo que, com razão de sobra, lhes parece de costumes e situações pré-históricas, vieram pedir-me que tomasse posição na controvérsia e decidisse qual deles me parece ter razão.
A neta subscreve os argumentos de Catherine Deneuve: é alegremente pelo flirt,   o namoro e as manobras à antiga, enquanto que o rapaz se mostra fanático do #metoo. Para ele as demissões, a perda do emprego e o ostracismo social sabem a pouco, acha que deverá ser sentença exemplar com largos anos de cadeia.
Ficaram murchos ao ouvir que por enquanto não tomo partido, e reservo o meu juízo até que chegue um queixume que não deve tardar: o dos betinhos a quem as chefes e as patroas obrigaram a ir para a cama.