quinta-feira, março 4

O meu destino

Tem a ver comigo, é o que acontece àquele que por se sentir intensamente preso à sua gente e aos lugares onde nasceu e se criou, desenvolve estados de espírito que sem remédio o tornam ovelha negra, tanto mais quanto ele próprio tem consciência do desequilíbrio da sua maneira de ver e dos erros da sua avaliação.

Quis eu ainda rapaz trocar as voltas ao Destino, e tanto sonhei, tanto rezei, tanto me enfureci que ele um dia, inesperadamente generoso, deixou que escapasse aos grilhões que me prendiam e às mordaças que me sufocavam, abriu a penitenciária, mandou-me que voasse para a liberdade.

Cumpri o mandamento mas pouco tardou a dar-me conta que, à maneira das duas faces de Janus, a generosidade que me tornara livre era aparência e o ter duas pátrias tão diferentes um jugo.

Uma é rica, democrática, respeita as leis, garante a liberdade. A outra, pobre de pedir, é de jeitos, democrática à sua maneira, aprendiz da liberdade, coutada de oligarcas.

Da primeira sou cidadão há quase sete décadas. Na outra nasci, criei-me, vivi nela pouco mais de vinte anos, mas essa de tal modo continua entranhada em mim que só nela reconheço a minha identidade, enquanto na outra tenho horas de me sentir estrangeiro.

Sol demais, falta dele, diferem ainda no território, um de montes e vales o outro um  chão de sala, e eu de facto sem escolha preso a ambas, aceitando o meu destino.

terça-feira, março 2

Os mortos de amanhã

Quantos nos dirão amanhã que até à meia-noite de hoje morreram do covid? Seis? Serão nove ou onze os infectados? Dezoito? Haverá esperança de criar um vírus que mate a mentira?

segunda-feira, março 1

De casaco e gravata

Uma fotografia tirada no dia dos meus dez anos mostra--me pela primeira vez de gravata. Recordo vagamente que minha mãe desfez o nó, até que por fim lhe conseguiu dar o volume preciso. Quando perguntei a razão de tanto incómodo, respondeu-me ela que nos trajes e nos modos era preciso parecer bem às pessoas. A noção do parecer bem e as suas exteriorizações sofreram desde essa época longínqua mudanças de tal modo radicais, que hoje só são aceitáveis quando se lhes pode acrescentar a desculpa da caricatura ou do disfarce. Como num carnaval. Ainda se vêem homenzinhos de dez anos com gravata nas festas e nos casamentos, mas com carta-branca para se lambuzar e andar aos coices. Porque é só a brincar, é só disfarce. Um ministro em uniforme de grande gala, bicórneo, condecorações, é notícia de primeira página e corre o risco de ser ridicularizado. Quando nas cerimónias mais solenes os soberanos ainda reinantes deitam pelos ombros o manto de arminho, logo se recorda a cómica auto-coroação do imperador Bokassa no seu efémero império africano. Ainda há quem tente vestir-se para «parecer bem às pessoas» num concerto, num jantar. Simplesmente, um pouco de elegância sóbria no traje ou apenas o decoro logo destoam entre os jeans esgarçados e o desalinho em moda. Qual o homem que se irá barbear, quando o preceito corrente é a barba de três dias? Ao escrever isto poderei dar a impressão de que suspiro pela formalidade do passado ou me incomoda a liberalidade do presente. Assim não é. E estou suficientemente entranhado no espírito do século para, de vez em quando, me permitir também liberdades com que antes não sonharia. Poucas, diga-se de passagem, e em escala modesta. Mas o que de facto me transtorna é a minha insegurança perante as regras de etiqueta vigentes ou, melhor dizendo, a subtileza dos ditames a que elas obedecem e a celeridade da sua mudança. Porque de ditames se trata, e rigorosos. O que à primeira vista aparenta ser licença, no fundo é decretado e obriga a uma estrita arregimentação. Ao observador perspicaz não escapará que as cores, os modelos, ademanes e cortesias que no passado eram válidos durante anos, agora são-no no máximo durante uma estação e já na seguinte se tornam anátema. Que se insista em usá-los e é-se logo apontado como excêntrico ou incorrigível bota-de-elástico. Mais perturbador ainda, a regra de hoje tem tendência para ser o contrário da de ontem. Além disso, por mais tola que a regra seja, o bom-tom actual ordena que se não exteriorize o pasmo ou a irritação que ela nos causa. O mandamento é o da anuência sem reservas. Que nos seja imposta a presença de um poeta aviltado, de camisa aberta até ao umbigo e pés fedorentos em sandálias do tipo Jesus, a nossa obrigação é manter o sorriso, como se não tivéssemos opinião nem olfacto. Uma dama insiste em chamar a atenção para as suas pernas recobertas com absurdas meias de rede representando pássaros e galhos, cabe-nos não ter opinião nem olhos. Outra dama, com inocência ou despropósito, permite-se um trajar obsceno, é nosso dever, conforme manda a regra, acharmos tudo bem, tudo aceitável. 

No fundo, e mais que os exageros, que são de todos os tempos, é esse assentimento automático o que faz desesperar. Na verdade não são as modas que importam, pois por natureza são passageiras. Preocupante, sim, é o desprendimento com que elas marcam as relações mútuas. Cada um de nós torna-se uma ilha, isolado dos outros pela espessa névoa do interesse fingido e da falsa aceitação, sem nenhum desejo de, para aliviar o isolamento, se dar ao trabalho de realmente querer «parecer bem»

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in Mazagran - Qutezal, 2012

domingo, fevereiro 28

As estrelas de general

Com aquela secura que os velhos mostram quando lhes desagrada a pergunta, assim responderá D. Idalina com um "Não é da tua conta!" ao que quiser saber quantos anos tem, embora seja remota a probabilidade de que haja alguém capaz de arriscar esse passo, e com estatuto social que ela considere próximo do seu. Mais alto de certeza não. Filha de peixeira, que de canastra à cabeça ia pelas ruas de Gaia de porta em porta vender sardinha e carapau, com tal rapidez se elevou na sociedade que não é exagerado chamar astronómica à mudança.

Dezoito anos acabados de fazer saltou do pé-descalço para um palacete na Foz, depois para a quinta que o senhor Cardoso tinha para os lados de Penafiel, e onde uma noite, espreitando por uma frincha durante um jantar onde só estavam homens, o ouviu dizer que era ela o rebuçado da sua velhice, mas o médico já lhe tinha aconselhado que não abusasse, porque  com aquela idade e o miocárdio enfraquecido…

Tempo depois soube o que era, mas naquela altura riu, julgando que o miocárdio fosse o que pensava, e no caso dele só duas ou três vezes no princípio dera conta do recado, porque depois nem à força das tais pílulas azuis e ela a dançar nua, mas isso tinha sido há vidas, cinquenta e tal anos ou mais, porque nem de tudo guarda memória.

O que tem muito presente e nem à hora da morte há-de esquecer é o que lhe fizeram os sobrinhos do senhor Cardoso, que quando ele faleceu tantas voltas deram ao testamento que quase só lhe iam deixando a roupa do corpo. Não fosse o anjo-da-guarda ter ouvido as suas orações andaria pelas ruas da amargura, mas felizmente mandou-lhe o doutor Mota, que era melhor advogado do que o deles e mais do que advogado um cavalheiro, pessoa de maneiras e muito respeito.

Foi ele, aliás, o primeiro que a tratou por Senhora Dona. Com os sobrinhos do velhote era  Idalina isto, Idalina aquilo, e ele próprio raro a chamava pelo o nome, era sempre rapariga, rapariga, a mostrar que lhe devia tudo e era ele quem mandava. Mandava é um modo de dizer, quando ficou acamado pô-lo entre a espada e a parede: casavam ou  não se responsabilizava, nem queria que viessem dizer como do engenheiro Guedes, morte natural para uns, a filha a jurar que a Marta lhe tapara a boca com o almofadão.

Quando o doutor Mota a visita é um gosto ouvir-lhe os elogios. Disse ele uma vez que se tivesse ido para a tropa, com a estratégia que tem a Senhora Dona Idalina chegava a general. Não lhe perguntou o que é estratégia, mas tem uma ideia.

 

 

 

 

sábado, fevereiro 27

Para Deus

 Meu bom Deus,

 Embora crente na infinidade do vosso saber e poderio, e certo da vossa ubiquidade, eu tenho de admitir que por vezes me assalta um ligeiro sentimento de dúvida no que respeita o vosso interesse por nós e a eficiência dos vossos serviços. Problemas ficam por resolver, orações urgentes ficam por ouvir, ódios arcaicos desencadeiam guerras, os vulcões cospem fogo, a terra treme, os automobilistas perdem a cabeça, os cirurgiões distraem-se...

Antigamente podia a gente comunicar-vos os nossos anseios e exprimir-vos os nossos votos através dos intermediários que mantínheis no Vaticano, em Meca, Jerusalém, na India, no Tibet e no resto do Oriente. E o facto dessas transacções serem umas vezes  gratuitas e exigirem doutras o pagamento de emolumentos, a dádiva de oferendas ou a realização de sacrifícios, emprestava-lhes mesmo um agradável carácter de roleta, onde, como sabiamente determinasteis, a excitação vem mais do jogar e menos do resultado.

Para mal nosso, porém, duma ou doutra forma todas essas antigas delegações do vosso poder têm sofrido com a erosão do tempo e dos costumes. Qualquer intervenção do Vaticano - desfazer os sagrados laços dum matrimónio, por exemplo - custa hoje uma fortuna. Numa peregrinação a Meca ou Jerusalém somem-se as economias de anos. Quer a gente visitar a Índia em compenetrada viagem de meditação religiosa, logo o agente de viagens nos tenta impingir também uma volta pelos bordéis de Bangkok ou Hongkong.

Tal decadência e o abandono em que nos sentimos, atribuo-os eu à simples razão de que actualmente somos em excesso. Em determinada altura deve ter havido nos serviços celestiais um momento de descuido e desde aí, medindo tudo em termos de eternidade e infinito, os anjos responsáveis talvez nem ainda se tenham dado conta de como desenfreadamente nos multiplicamos. E sendo nós em tão vasto número, as nossas orações por certo vos chegam incompreensíveis e demasiado entrançadas umas nas outras para que lhes possais dar despacho. Na verdade nem mesmo de Deus se pode esperar que simultaneamente oiça os pedidos, os clamores, as aflições e os desejos secretos dos habitantes do universo, e ainda por cima se interesse pelos 5 biliões que povoam a mais pequenina das bolas planetárias.

Ciente dessas circunstâncias, e vivendo nós aqui uma época publicitária, ocorreu-me primeiro que com um anúncio eu talvez conseguisse atrair a vossa atenção. Depois decidi que não. Uma carta aberta, como esta, pareceu-me com mais probabilidade de surtir efeito, porque mesmo aí no Céu é lógico que a secção de recortes se ache menos sobrecarregada que o serviço de escuta.

Aliás o que vos quero pedir não é caso de vida ou de morte e nem sequer tem urgência, pois de há muito conheço afeições sólidas, de saúde vou bem e o que ganho cobre o que gasto. Sonhos de poder ou de glória não tenho e o mundo ainda me maravilha, a ponto que com sincero encanto continuo a olhar por vezes uma flor, uma criança, ou paro a admirar a beleza duma paisagem. O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante.

É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar às coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade.

sexta-feira, fevereiro 26

O Presidente mente

Daqui:

"Que Marcelo Rebelo de Sousa, numa declaração formal ao país, nas suas funções de Presidente da República, faça afirmações manifestamente falsas, que lhe acrescente fantasias sem qualquer base, que argumente com razões de comunicação para justificar o sacrifício real que está a impor aos mais pobres, aumentando a desigualdade no país, com o objectivo de exorbitar das suas competências e se substituir ao poder executivo, é da natureza das coisas e ninguém pode negar que os eleitores sabiam perfeitamente quem estavam a eleger.

Que toda a imprensa se abstenha de assinalar o facto do Presidente da República dizer coisas falsas, facilmente verificáveis, para sustentar fantasias de hipocondríaco e argumentos sem pés nem cabeça para entalar o governo e o substituir nas suas funções executivas, é que verdadeiramente caracteriza a fragilidade das nossas instituições e explica o nosso empobrecimento e a erosão progressiva da dignidade da nação.

O Inferno é a ausência de esperança.

Adenda: ouvi agora José Manuel Fernandes, e gostaria de assinalar esta excepção-"

quinta-feira, fevereiro 25

O caldo de galinha preta


 (Clique)

Cada um pensa, acredita e exprime o que lhe apetece, ninguém tem a ver com isso. Infelizmente, o problema põe-se quando amigos que sabemos excepcionalmente argutos e dotados de superior inteligência, começam a defender o indefensável, a mostrar que compreendem o absurdo, desculpam o que não pode ter desculpa, exigem aos gritos que se veja branco onde a evidência e os olhos sem cataractas só vêem preto.

Pode ser cegueira, ataque de fanatismo, acesso de loucura de que talvez um dia, o caso arrumado, se venham a curar. Pode ser também que lhes tenham dado o famoso e eficiente caldo de galinha preta, aquele que no longe dos tempos trouxemos de África, e de que também fala o Livro de São Cipriano.

Entram nele canja de galinha preta, mênstruo, rosmaninho, incenso, entranhas de sapo, um cozimento de carne de cobra e outros ingredientes que é melhor não revelar.

Consta que o faziam antigamente as mulheres de Ílhavo, e o davam a comer aos seus homens antes de saírem a pescar na Terra Nova, não fossem eles morder o anzol de alguma loira de pele macia das de lá. Na minha juventude também as do Alto Minho o davam aos maridos e aos rapazes em maré de tentação. Comido o caldo, os pobres andavam por ali como zombies, perdiam por inteiro a vontade, só viam o que queriam ver.

Deram-no ao povo português os senhores que se governam, agora é esperar pelo contra-veneno.