quinta-feira, agosto 22

Bilhetes (73)

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Ele próprio confessa que é tara, maluquice de adolescente, uma infantilidade a que a própria mulher encolhe os ombros, dizendo que sempre foi assim desde que o conhece e não vê mal naquilo nem tem razões para duvidar da sua fidelidade.
Como daí não vem prejuízo nem ameaça à paz doméstica, perdoa-lhe a maluquice de que vendo na rua um par de pernas que se aproxime do que considera o seu ideal de beleza, saca do telemóvel, fotografa discretamente umas quantas vezes, junta esse par de pernas à sua colecção, e o que tem de tempo livre gasta-o a comparar e a maravilhar-se com tanta beleza, numa idolatria infantil, nunca lhe ocorrendo um desejo ou pensamento erótico.
Pelo menos assim era até que há coisa de dois meses a fotografia num anúncio subitamente o transtornou, conta que nas situações mais inesperadas o seu pensamento retorna à imagem daquele par de pernas e, verdadeira obsessão, não só a guarda no telemóvel, imprimiu-a em formato postal e trá-la na carteira como fazia antigamente com os retratos das namoradas.
Diz que a mulher começa a não achar graça, desconfiada de que o seu comportamento seja  menos inocente do que quer fazer crer, e talvez não se trate apenas de uma fotografia.
- Razão tem ela – confessa - porque se um dia encontro este par de pernas, sei que não resisto.

quarta-feira, agosto 21

Bilhetes (72)


Durante anos escrevi crónicas para dois importantes jornais holandeses: de Volkskrant e NRC-Handelsblad. Os temas eram à minha escolha e total a liberdade com que os tratava, sendo apenas obrigado a respeitar o espaço que me era destinado e não devia exceder setecentas palavras.
Recordo a trabalheira que isso me dava, e como de vez em quando recebia um telefonema da redacção a avisar-me de que tinha exagerado, a norma era mesmo para cumprir.
Os computadores vieram facilitar as coisas, mas logo no princípio tive alguma dificuldade em passar da contagem de palavras para a contagem em caracteres e espaços. Porém, trinta e tal anos passados tudo isso se tornou rotina, não me custa respeitar o limite de que as crónicas para o Correio da Manhã fiquem pelos dois mil e quinhentos caracteres, incluindo os espaços. O bizarro é que a directiva se tornou para mim quase mania, dou tantas voltas aos textos quantas forem precisas para ficar estritamente dentro da conta.
Não será caso para o Rilhafoles, mas saudável também não é.

terça-feira, agosto 20

Bilhetes (71)


Porque exige demasiado esforço e atenção, a vingança é um sentimento cansativo, de modo que aquele que se vê vítima duma pulhice, mas tem algum conhecimento do semelhante e da vida, não se dá ao trabalho de procurar vingança, deixa esse encargo ao Todo Poderoso, que como é seu costume escreve direito por linhas tortas, e assim alcança surpreendentes resultados.
Que o sujeito era pulha sentira-o eu no momento em que lhe neguei o favor que não merecia. Com os anos a passar continuou pulha, chegando a extremos que pediam tribunal. Também aí me fiz de esquecido, mantendo a confiança no Altíssimo. Por fim estatelou-se, porque julgando que me prejudicava involuntariamente criou as circunstâncias do que foi para mim um excepcional benefício.
Soube que está mal, mas não me regozijo nem sinto pena, basta-me a certeza de que há uma Justiça melhor do que a dos homens.