quarta-feira, fevereiro 11

A sandália

 

 

A defunta Madre Teresa, o Papa, o sempre bem disposto Dalai-Lama, o senhor António da garagem, você, o seu vizinho do terceiro, eu próprio - todos temos maus hábitos. Uns mais do que outros, alguns até ao exagero, e esses são os que se apressam a apontar o dedo.

Entre os meus, na verdade poucos, dizem-me que um dos que mais irritam é o de que pareço incapaz de responder séria e laconicamente quando me contam um caso ou pedem uma opinião. Segundo os que me acusam, em vez de dizer sim ou não, começo por contar uma história que, na opinião deles, raro tem a ver com o assunto.

Dias atrás falava-se de um casal desavindo e dos argumentos com que cada um procurava demonstrar a sua razão. Quando quiseram saber de mim o que decidiria, eu, mau Salomão, repliquei com a história que, em casos semelhantes, é a minha favorita.

Foi em Roma, na era de César. Um poderoso, rico e muito elegante senador convidou os seus melhores amigos para jantar. Antes, porém, de fazerem as abluções e passarem ao triclinium – a sala de jantar com os clássicos três leitos - não querendo perturbar os convivas durante a refeição, anunciou logo ali que se ia divorciar.

Pasmo geral. Como podia acontecer semelhante coisa? Então não era a sua esposa uma das mulheres mais ilustres do Império? Das mais inteligentes? Haveria outra que a igualasse em beleza ou elegância? Tinha ele entontecido?

O senador ouviu-os em silêncio. Finalmente, chamando um escravo, ordenou que lhe desapertasse uma sandália e, com um gesto teatral, mostrou-a aos amigos, pedindo que lhe dissessem o que pensavam dela. E eles que sim, claro, não havia sandália mais elegante, de cabedal mais fino, melhor forma ou mais belos enfeites.

- De facto, meus amigos, de facto! Bela. Bonita. Nova. De excelente qualidade. Mas digam, onde é que ela me magoa?

 

 

segunda-feira, fevereiro 9

Solidão

 

 

São essas horas as de maior perigo, quando o sentimento de solidão te empurra para o negrume das perguntas sem sentido e das respostas sem nexo. Quando passam e repassam conversas,  rostos, farrapos de memória, desilusões, aborrecimentos, e instante nenhum recorda uma memória alegre, um sorriso franco, um raio de luz que dê esperança.

Um escuro assim é a antecâmara da solidão, a genuína. Invisível para os mais, todo-poderosa e refinada, algoz que te transforma no que nunca imaginaste vir a ser: um l'homme qui rit.

Dizemos por vezes à ligeira: sinto-me só, mas quando a verdadeira solidão nos possui, força nenhuma é capaz de livrar da mordaça ou abrir a camisa-de-forças.

 

quarta-feira, fevereiro 4

Os arquivos de Epstein

 https://estatuadesal.com/2026/02/03/presidentes-pedofilos-e-os-arquivos-de-epstein/

e aqui: https://alexanderdugin.substack.com/p/pedophile-presidents-and-the-epstein 

Estupidez ministerial

 

"Ministro da Economia diz que vítimas da depressão Kristin devem usar “ordenado do mês passado” até chegarem os apoios"

terça-feira, fevereiro 3

Simenon e Liège

 


 

De Georges Simenon (1903-1989) li tantos romances que não me arrisco a dizer quantos foram, mas a avaliar pelos que tenho nas estantes devem ter sido mais de cinquenta.

Do seu Comissário Maigret, superiormente interpretado na televisão por Jean Gabin (1904-1976), guardo excelentes recordações.

De Liège, onde nasceu, que odiou e tão sombriamente retratou, não adianta dizer bem ou mal. Gente haverá que gosta dela; outros, como ele e eu, acham-na desagradável, se a visitam é por obrigação.

Acontece que, e não somente devido ao talento de Simenon, como que paira sobre a cidade e os seus habitantes uma estranha maldição. Dão-se lá estranhos crimes, formas bizarras de vícios, corrupção de topo, já foi considerada a cidade mais criminosa da Europa, merecendo a alcunha de Palermo do Mosa.

Vem-me isto à lembrança devido à notícia que um dia li e agora recordo: uma noite, ao regressar a casa, um habitante de Liège deparou com uma cena mais lúgubre do que as inventadas por Simenon: no portão da moradia pendiam os corpos da esposa (56) e das suas duas filhas (29 e 30) que ali se tinham enforcado com uma corrente de ferro.

 

domingo, fevereiro 1

O vazio e o oco


Pelo modo como a vida me tem corrido, questão genética, boas e más experiências, o caso é que me fascina a observação de certo tipo do meu semelhante, aquele que por destino, ou razões suas, leva da infância à cova uma vida de artifício num mundo que, muito  de longe a longe, me acontece roçar.

Falam de festas e metrópoles, cruzeiros, hotéis, o Breitling do primo, a suite do Four Seasons, o Mastino Napoletano que o Vieira tem na quinta, a semana que passaram naquele "fabuloso spa"…

Oiço-os e, como se sonhasse, aparecem-me através de uma névoa, as suas seguranças a contrastar com as minhas dúvidas, a sua jovialidade embatendo nas sombras que tenho. E não é questão de desdém, inveja,  ou animosidade do menos abonado, antes genuína surpresa de que seja possível existir assim, de ilusão em miragem, saltando do vazio para o oco, tomando por mundo a construção imaginada, chamando vida ao pendular dos seus baloiços.

Porém, feitas contas, têm eles mais razão e vantagem em ser assim, do que tenho eu em lhes criticar a superficialidade, pois se este mundo são dois dias melhor é gozá-los.