sexta-feira, maio 7

Ambição

 

"O sonho de Carlos Munim tinha começado na infância, era o escudo com que se defendia do sentimento indefinido de aversão e medo em que misturava as pessoas, as casas, os animais, a rudeza da paisagem.

Ignorava se outras terras geram em quem nelas nasce um ódio assim, mas já de pequeno se sentira ali infeliz, asfixiado, para ele era caso assente: um dia fugiria para não voltar.

Fora idealizando e, já adulto, ora se via numa quinta do Minho, ora no Brasil ou na Argentina, um latifúndio com rebanhos e cavalos, searas, pessoal às ordens, avião na pista.

No princípio, cada êxito parecia tornar próxima a materialização do sonho, como cada falhanço avivava o pesadelo que seria não conseguir realizá-lo.

Felizmente, nos últimos anos, o que tinha sido obsessão tomara proporções realistas, e na primeira vez que visitara a propriedade do conde sentiu o baque de quem acerta no alvo.

O jardim, a piscina, a casa e o terraço, os vinhedos, a paisagem, o conforto que ali se adivinhava, o ar sereno que a riqueza empresta às pessoas e às pedras, aquilo como que lhe cortou a respiração.

Era assim o que desejava possuir, era aquele o ambiente de plenitude que queria alcançar. E ao longo do tempo, irresistível, apoderara-se dele um sentimento mórbido de inveja, a irracionalidade que faz descarrilar.

Uma tarde que não parava de dar sugestões, de propor mudanças nisto e naquilo, Jorge, ríspido, tinha-lhe dito:

- Ó Munim, se alguém te ouvisse e não soubesse, ia pensar que isto era teu. Mas não é. Nem está à venda.

Sorriu e teve um encolher os ombros, a mostrar que era modo de dizer, não merecia a censura. Mas tomou nota. O reparo tinha-o ferido. Era como se Jorge desvendasse o segredo da sua ambição, ganhando o poder de o ridicularizar. Desde aí, se um comentário lhe fugia, emendava logo, compondo o deslize.

No momento em que soube da chantagem, foi como se tudo à sua volta explodisse, em segundos repassou o filme inteiro do que sonhava que acontecesse. Não fazia ideia da fortuna de Jorge, mas imaginava-o já envolvido em processos complicados e ruinosos, escândalos, os prejuízos a amontoar-se, a quinta à venda.

Via-se sentado no terraço, estalando os dedos a chamar o pessoal. Com ele iam saber quem era o patrão, dava àquilo uma reviravolta. A inglesa, a olhá-lo de alto, e nunca sequer lhe tinha apertado a mão, seria a primeira a levar um pontapé no cu. O Samuel outro. Esse ia aprender que quando se fala ao doutor Carlos Munim, ao senhor doutor Carlos Munim, não se põe aquela cara de quem goza e falta ao respeito.

Sobressaltou-se ao ver que se enfurecia, aos berros, apontando um dedo acusador como se tivesse o Samuel à frente:

- Já não estamos no 25 de Abril! Rua!

A cabeça de Carolina apareceu na frincha da porta:

- O senhor doutor chamou?

Não fez caso, nem a encarou, e ela, adivinhando-lhe o mau humor, fechou a porta devagarinho, segurando o trinque para não fazer barulho."

……

in Mentiras & Diamantes – Quetzal, 2013.

quinta-feira, maio 6

Tramados e contentes

Estais tramados: vós, elas e os lhes. A liberdade foi-se e nem destes por ela, entretidos  com o modelo e a cor das máscaras, o tipo e a qualidade das vacinas, a urgência dos testes, o aborreciento de que por maldade de Bolsonaro – variante amazónica, quarta estirpe, quinta vaga - na vossa rua se dêem cenas de Bombaim e seja preciso meter cunhas, pagar os olhos da cara  para ter o oxigénio garantido.

Estais tramados, porque ides andando estranhamente contentes, dóceis, satisfeitos, certos de que perigo já não há nem vai haver, as sagradas férias estão à porta, nos destinos exóticos os locais foram limpos e arejados, os "locais" ensaiam as boas-vindas, o Pedinchão-mor garantiu que vem aí "uma pipa de massa", e será tanta que vai dar para todos, uma reedição do Volfrâmio de carinhosa memória, quando o dinheiro nascia entre as fragas e bastava apanhá-lo, esforço que muitos dos vossos avós achavam exagerado, trabalhar era pro preto, e quando deram conta o erro não tinha compostura.

Estais tramados porque tudo se repete, mas também porque nunca vos mostrastes tão obedientes, dóceis, assustadinhos, dando a impressão de que regressastes à infância, ansiosos de miminhos e colo, chupando o dedo, certos e seguros que tudo vai melhorar, o que passou não foi tão mau como se esperava, ao fim de contas ainda andamos cá todos.

Mas não andamos. É ilusão. Olhando em volta já não se distinguem dos zombies os que ainda respiram.

 

quarta-feira, maio 5

"Vou indo"

Não é primeira vez, nem ainda a última, que me toma o cansaço, o desalento, a estranheza de olhar as pessoas com quem estou, ouvir o que dizem e de súbito perguntar-me que força é aquela que me empurrou para longe abandonando o corpo, um autómato que responde, pergunta, comenta, dá a impressão de que realmente participa. Sou ali uma presença ausente, estranho que não reparem que repito as frases, que à maneira dos cegos fixei o sorriso e os olhos.

Oiço-me depois a dizer "Vou indo!", faço um aceno de despedida e com algum custo retorno ao corpo, perguntando-me por que motivo tem de ser assim, quantas vezes ainda irá acontecer.