terça-feira, fevereiro 3

Simenon e Liège

 


 

De Georges Simenon (1903-1989) li tantos romances que não me arrisco a dizer quantos foram, mas a avaliar pelos que tenho nas estantes devem ter sido mais de cinquenta.

Do seu Comissário Maigret, superiormente interpretado na televisão por Jean Gabin (1904-1976), guardo excelentes recordações.

De Liège, onde nasceu, que odiou e tão sombriamente retratou, não adianta dizer bem ou mal. Gente haverá que gosta dela; outros, como ele e eu, acham-na desagradável, se a visitam é por obrigação.

Acontece que, e não somente devido ao talento de Simenon, como que paira sobre a cidade e os seus habitantes uma estranha maldição. Dão-se lá estranhos crimes, formas bizarras de vícios, corrupção de topo, já foi considerada a cidade mais criminosa da Europa, merecendo a alcunha de Palermo do Mosa.

Vem-me isto à lembrança devido à notícia que um dia li e agora recordo: uma noite, ao regressar a casa, um habitante de Liège deparou com uma cena mais lúgubre do que as inventadas por Simenon: no portão da moradia pendiam os corpos da esposa (56) e das suas duas filhas (29 e 30) que ali se tinham enforcado com uma corrente de ferro.

 

domingo, fevereiro 1

O vazio e o oco


Pelo modo como a vida me tem corrido, questão genética, boas e más experiências, o caso é que me fascina a observação de certo tipo do meu semelhante, aquele que por destino, ou razões suas, leva da infância à cova uma vida de artifício num mundo que, muito  de longe a longe, me acontece roçar.

Falam de festas e metrópoles, cruzeiros, hotéis, o Breitling do primo, a suite do Four Seasons, o Mastino Napoletano que o Vieira tem na quinta, a semana que passaram naquele "fabuloso spa"…

Oiço-os e, como se sonhasse, aparecem-me através de uma névoa, as suas seguranças a contrastar com as minhas dúvidas, a sua jovialidade embatendo nas sombras que tenho. E não é questão de desdém, inveja,  ou animosidade do menos abonado, antes genuína surpresa de que seja possível existir assim, de ilusão em miragem, saltando do vazio para o oco, tomando por mundo a construção imaginada, chamando vida ao pendular dos seus baloiços.

Porém, feitas contas, têm eles mais razão e vantagem em ser assim, do que tenho eu em lhes criticar a superficialidade, pois se este mundo são dois dias melhor é gozá-los.

 


quinta-feira, janeiro 29

Os EUA e o Irão

 https://observador.pt/opiniao/que-quer-trump-do-irao/

segunda-feira, janeiro 26

Gronelândia

 https://estatuadesal.com/2026/01/25/gronelandia/

Um texto que vale muito a pena ler. 

domingo, janeiro 25

"É política no seu estado mais cru"

 "https://blasfemias.net/2026/01/25/medo-de-ventura-ou-medo-de-perder-o-controlo/#more-120066

O Mercedes e a mula

 

“A corrupção desvirtuara todas as qualidades do carácter nacional. A justiça era um mercado, no reino e na Índia; e a nobreza ingénita, que além se traduzia em ferocidade, traduzia-se em Portugal num luxo impertinente e miserável. Era uma ostentação, já não era um orgulho ingénuo… O tipo de fidalgo pobre era tão comum e ridículo, que andava nas comédias, conforme se vê em Gil Vicente… Para satisfazer a vaidade dava tratos aos estômago. E a carestia dos víveres reduzia-o a pão e água, e rabanetes, quando os havia na praça…
O pobre mordia-se de inveja, diante do luxo insultante do que tornava da Índia rico, e se passeava na Rua Nova com um estado oriental. Precediam-no dois lacaios, seguidos por um terceiro com o chapéu de plumas e fivelas de brilhantes, um quarto com o capote e, em roda da mula, preciosa de jaezes e luzidia, um quinto segurava a rédea, um sexto ia ao estribo amparando o sapato de seda, um sétimo levava a escova para afastar as moscas e varrer o pó, um oitavo a toalha de pano de linho para limpar o suor da besta, à porta da igreja, enquanto o amo ouvia missa. Eram todos, oito escravos pretos, vestidos de fardas de cores agaloadas de ouro ou prata.”

De tempos a tempos releio a “História de Portugal”, de Oliveira Martins, e não escapo à associação de ideias. Felizmente já não há escravos, a União Europeia é para muitos uma razoável Índia e o Mercedes suplanta a mula.

 

sábado, janeiro 24

Não se inventa

Porque tinha a leitura em atraso, nos últimos dias juntei à indigestão das comidas uma sobredose de notícias e críticas literárias. Culpa minha.

Passada a admiração que em rapaz sentia por tudo o que era autoridade literária, com o correr dos anos deixei que crescesse em mim um debilitante sentimento de inferioridade. É que não tenho saber para me exprimir no tom e naquele vocabulário com que o verdadeiro escritor se distingue do escriba.

Desde ontem, atormenta-me a inveja de ser incapaz de referir coisas como "a imaterialidade dos sentimentos", "a disposição encantatória" ou falar do "caminho morno da conjugalidade e da reprodução". Desconheço "universos fecundíssimos", nunca me calhou dar com "o contraponto de informações icónicas e textuais", tive de fazer uma longa pausa para destrinçar – não consegui – o significado do que seja "este mosaico informativo e formativo, às vezes deformativo também, pois a anamorfose pode ser um valor literário e o kitsch não é despiciendo..."

Isto não se inventa.