sábado, maio 9

O Poder

 

9.5.26

Grande Angular - O Poder – 1

Por António Barreto

Vivemos tempos estranhos. Nem sempre felizes. Mas ameaçadores. E perigosos. O poder tudo domina. A luta pelo poder. A conquista do poder. A manutenção do poder. Há uma espécie de cinismo, de crueza, neste mundo dominado pelo poder, mas, aparentemente, recheado de causas, bandeiras, preocupações e solidariedade. Até os bons sentimentos são ridicularizados. Os governos, os políticos, os jornalistas e os académicos vivem obcecados com o poder. Empresários, cientistas, sindicalistas e escritores vivem condicionados pelo poder. O dos outros, que denunciam, e o deles próprios, que festejam.

 

Alguns dirão que o poder é natural, próprio da Humanidade, dos homens e das mulheres. Que foi assim desde sempre. Diz-se que não há história sem poder e sem luta por ele. Que o poder é próprio da vida e das sociedades. Que, sem poder, as sociedades depressa caem no caos e na violência. Verdade. Parte da verdade. Há mais e talvez mais importante: o progresso na história também é o de fazer com que haja mais qualquer coisa do que o poder. Com que o poder sirva para algo. Que o que se faz com o poder seja mais importante do que o próprio poder. Que faz com que se tenha uma ideia forte de que o poder deve servir para se alargar a outros, a muitos, a todos, também aos que o não têm. É como a guerra. Sempre houve, dizem. Verdade. Mas é melhor lutar pela paz.

 

Por isso, atormenta ver quem faz política ocupar-se cada vez mais do poder. E quem comenta a política comentar cada vez mais o poder. Aflige ver todos os dias os que cultivam o poder por si próprio e para si próprios. É o que acontece, apesar de todas as advertências, a começar pela de Acton: “O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente”. “Sobretudo os que o não têm”, acrescenta logo o cínico Andreotti.

 

A corrupção gerada pelo poder é evidentemente um grave e sério problema. Esta é um dos grandes inimigos da liberdade e da democracia. Mas o pior de tudo no poder e no seu exercício é o efeito demolidor da decência humana e do conteúdo moral dos nossos comportamentos. O poder tem muitas vezes, quase sempre, esta consequência, a de extinguir os valores morais da sociedade e das comunidades. Ao poder forte e assertivo, auto-suficiente e agressivo, desculpa-se muito, tudo.

 

É provável que as últimas décadas da história do mundo tenham sido marcadas por esforços raros ou inéditos de estabelecimento de sociedades mais decentes. Antes, uma série de horrores terá marcado a evolução da humanidade, desde as consequências do capitalismo, da revolução industrial e do colonialismo imperialista, até às insanidades das ditaduras comunista, fascista e nazi, passando pelas piores guerras que o mundo conheceu. Seguiram-se décadas em que o estabelecimento da paz foi a prioridade. Mas também o entendimento entre as nações e os Estados. As grandes organizações internacionais surgiram no século XX. As alianças consolidaram-se, mais as defensivas e as comerciais do que as agressivas. Os organismos regionais estabeleceram-se, com relevo, para nós, da Comunidade Europeia. Pela paz ou pela luta, reconheceram-se mais de 150 novos Estados independentes, o que poderia significar algum crescimento da dignidade dos povos. A democracia guindou-se à altura de regime favorito, com mais mérito, com mais apelo. Todos queriam ser democráticos, ou parecer democráticos, mesmo os que não o eram. 

 

A paz no mundo, a democracia na nação e o bem-estar em casa: esperanças que alimentavam as sociedades. Sem falar na liberdade e na igualdade, valores que pareciam ocupar os espíritos e as políticas. A entrada do novo século foi de uma absoluta frieza. Gradualmente, as democracias recuaram no mundo, a liberdade também. As hipóteses de guerra aumentaram. Assim como os conflitos armados. A procura de dinheiro, poder, armas e recursos naturais é agora epidémica. Lentamente, os valores que faziam de nós melhores pessoas, como, entre outros, a paz, a liberdade e a solidariedade, esmorecem. A força destruidora do dinheiro impõe-se. A busca ansiosa de poder domina as nossas comunidades. Democracias e ditaduras aprendem a conviver. Gente decente trata e coexiste com terroristas, ditadores e assassinos. E com traficantes de tudo, droga, armas, mulheres, crianças e trabalhadores.

 

A história contemporânea parece ser uma caminhada rápida para a concentração de poder. Nunca como hoje tão poucos bilionários detiveram uma percentagem tão elevada da riqueza do mundo inteiro. Nunca tão poucos políticos e militares tiveram tanto poder de massacre, destruição, invasão e agressão. Nunca como hoje houve tantos poderes incontestados, ilimitados e louvados. A China, a Rússia e a América são governadas por aparelhos de poder destinados a aumentar o poder dos chefes sobre os cidadãos e do país sobre outras nações. Nunca como hoje se assistiu a esta exibição obscena de poder económico e empresarial, tal como é demonstrado por umas poucas dezenas de conglomerados financeiros que regem e regulam o mundo. Até a América, grande bastião da liberdade, parece soçobrar. 

 

Pelo que se vê ainda em quase todos os países africanos e em muitos latino-americanos e asiáticos, a concentração do poder em poucas mãos é a tendência dominante. Ditaduras carismáticas ou sanguinárias seguem esse caminho. Há três ou quatro décadas, muitos Estados reclamavam uma designação de democracia, até a incluíam nos seus nomes formais. Era uma aparência, um disfarce ou um engano, mas essa força iconográfica traduzia qualquer coisa. República democrática disto ou daquilo. Para já não dizer República democrática e popular daqueloutro. Actualmente, nem isso, nem a reclamação formal tem atractivo. A virtude, hoje, pode residir aí mesmo, no poder, sem adjectivos e sem concessões.

 

Desaparece um dos sonhos da humanidade, o de esperar que o poder das sociedades, das nações, das empresas e dos exércitos sirva para alargar as suas bases, aumentar o número de detentores e democratizar as formas de o exercer. Desaparece o sonho de fazer o bem com o poder, de dar de comer a quem tem fome e agasalho a quem tem frio. Desaparece o ideal de diminuir os que não têm qualquer poder, os “sans culottes” e os sem abrigo e de aumentar os que têm um qualquer poder, meios para viver, recursos para progredir e fazer filhos. Desaparece a esperança de dar de beber água potável a Africa, terra fértil à América Latina, emprego a tanta gente e paz a tantos países. Fica o deserto. E chamam-lhe poder.

Música

 

 Pode ser falha do cérebro, desarranjo no que se chama o espírito, ligação defeituosa entre a aparelhagem que condiciona as emoções. Também, e mais simplesmente, pode ser a incapacidade de quem não aprendeu, certo é que desde há tempos ando às voltas com a relação que tenho com a Música.

Comecei cedo. Com boa voz e ouvido apurado. Teria oito anos, e os dedos mal davam para o braço da guitarra, mas conseguia tocar o fado em ré menor. Mudei depois para o que nesse tempo se chamava violão, fui tenor num quarteto, descobri Beethoven, Chopin, Mozart, o tango e o pasodoble no rádio que, inesperadamente, alegrou o dia dos meus quinze anos.

A Música muitas vezes me tem comovido, a memória de algumas vozes continua a surpreender-me pela beleza, tão facilmente me deixo arrastar por Louis Armstrong como por Aznavour,  Billie Holiday, Maria Callas ou Fischer-Dieskau.

Em abono da verdade, porém, devo mudar o verbo para o pretérito imperfeito. É que hoje em dia a música, toda a música, se me apresenta diferente, com forças inexplicáveis. Já não me arrasta nem embala, antes atemoriza. Em imensuráveis fracções de tempo deixa entrever fundos que me escapam, assinala cruelmente os limites do meu entendimento, e como é tosco o poder que tenho de sentir.

Continuo a ouvir música, mas sem a ingenuidade de antigamente. Ela permanece  sobrenatural, assustadora nos seus mistérios. Eu descubro-me ínfimo, surpreso de que houve tempo em que julguei que o meu cantar também era Música.

 

 

terça-feira, maio 5

No fim do mundo

 

Pela graça de Deus, de Ulisses, D. Afonso Henriques e do "Navegador", Lisboa é desde tempos imemoriais um farol. O seu luzeiro brilha em especial na faixa de terra que, grosso modo, vai do Cabo Ruivo a Cascais, fazendo que aí, como numa estufa bem aquecida e  iluminada, se crie uma espécie superior do português: o lisboeta.

Infelizmente, como é sabido, o excesso de brilho distorce a visão, de modo que o lisboeta encontra alguma dificuldade em avaliar distâncias e distinguir em proporções mais ou menos correctas o que existe para além do seu confortável habitat.

Extraordinária anomalia é essa, que lhe permite, por exemplo, muito saber do mundo civilizado, mas lhe enevoa o entendimento e os olhos se por acaso os fixa  nas Beiras ou no Douro. De Trás-os-Montes então nem se fala. Assim se pôde anos atrás ler no Público que Vasco Pulido Valente se referia a alguém assinalando: "nasceu no fim do mundo (em Bragança)".

Isto é grave. VPV deveria saber que apenas quinhentos quilómetros separam Bragança da Cidade-Farol, mas aos seus olhos de lisboeta essa é uma lonjura de estepe. Paris ou Londres são duas horas de voo, mas Bragança? Onde fica? Têm lá electricidade?

Graças à União Europeia até estradas. Esgotos também. Embora, verdade se diga, que numa pressa nos agachamos atrás dos muros. E ainda cá há burras com alforges, vamos por água à fonte, somos da gaita-de-foles e dos pauliteiros .

Conta-se do rei D. Luís que, navegando no seu iate, perguntou a uns pescadores se eram portugueses.

- Saiba Vossa Majestade que somos só pescadores.

A assim parece ser connosco, e assim é: gente do "fim do mundo", somos só transmontanos.

 

 

sábado, maio 2

Há infernos

Há infernos. Entre as quatro paredes há infernos insuspeitos, com ódios, invejas, fúrias que queimam fundo e mais lentamente que as labaredas de Belzebu. Infernos de fogo lento, diário, com pausas inesperadas entre o martírio, não para que se sinta alívio, mas para que na carne e na alma se renove a dor.

É família grande, creio que nove ou dez. Vêm daqueles ramos fracos da burguesia que, duas ou três gerações, conseguem manter uma aparência de prosperidade. A estes tramou-os a revolução e a inocência do ideal. Foram crentes fanáticos, de uma fé sem medida, a de que o  Sol iria brilhar para todos, mas para eles com o calor especial reservado aos eleitos. Esperaram. Não se deram conta das nuvens, nem da competência e ganância da alcateia,  quando a crueza da realidade os sacudiu já não havia bons bocados, só ossos. Desses conseguiram esmolar um dos mais pequenos, insuficiente para os nove ou dez que nada mais têm que rilhar.

Entre as quatro paredes vivem no inferno. Quando saem delas esforçam-se por manter a compostura, mas dá pena aquele teatro. Nos ademanes, na fala, no vestuário, nos tiques, tudo denuncia a derrota, tudo aponta para um desenlace que, tirando-os do inferno das aparências, os lançará no da pobreza envergonhada.

 

 

quinta-feira, abril 30

Tempo mal gasto

 

Tempo mal gasto, o de fazer balanços, olhar para trás, carpir derrotas, desilusões e contratempos. Mesmo a listagem de sucessos e benfeitorias não adianta nem conta, que o ontem irremediavelmente passou e, como às vezes se diz, o futuro a Deus pertence. Fica-nos o hoje, com alguns a remar contra a maré, outros deixando-se levar pela corrente, uns quantos fazendo o que podem para ver claro antes que a noite caia.

A isto se chama, e é, filosofar barato, mas talvez seja de algum conforto o descobrir que na luta diária são iguais para todos as armas com que nos defendemos do mais sorna e depravado dos inimigos: nós próprios.

quarta-feira, abril 29

O vazio e o oco

 

Pelo modo como a vida me tem corrido, questão genética, boas e más experiências, o caso é que me fascina a observação de certo tipo do meu semelhante, aquele que por destino, ou razões suas, leva da infância à cova uma vida de artifício num mundo que, muito  de longe a longe, me acontece roçar.

Falam de festas e metrópoles, cruzeiros, hotéis, o Breitling do primo, a suite do Four Seasons, o Mastino Napoletano que o Vieira tem na quinta, a semana que passaram naquele "fabuloso spa"…

Oiço-os e, como se sonhasse, aparecem-me através de uma névoa, as suas seguranças a contrastar com as minhas dúvidas, a sua jovialidade embatendo nas sombras que tenho. E não é questão de desdém, inveja,  ou animosidade do menos abonado, antes genuína surpresa de que seja possível existir assim, de ilusão em miragem, saltando do vazio para o oco, tomando por mundo a construção imaginada, chamando vida ao pendular dos seus baloiços.

Porém, feitas contas, têm eles mais razão e vantagem em ser assim, do que tenho eu em lhes criticar a superficialidade, pois se este mundo são dois dias melhor é gozá-los.