quinta-feira, outubro 21

Lumpenproletariat

Nascido individualista, de miúdo até hoje não me larga o incómodo da classificação da sociedade. De certeza me classificam os outros algures entre o povo onde nasci e o escalão menor da classe média baixa dos que têm para viver, mas isso é com eles. Cá por mim vou cantando e rindo, tão bem disposto que nem sequer me apetece fazer-lhes o clássico manguito.

Esta madrugada, porém, a passear pela blogosfera quando meio mundo ainda dormia, dei com uma crónica que, num repente, acordou em mim os instintos belicosos e sangrentos dos Sovietes de 1917.

Ignoro a que classe a autora pertence, pois no Portugal pobrezinho mesmo a classe média baixa baixa sempre teve os tostões que pagam uma Maria para fazer a limpeza, as compras, e limpar o cu ao bebé.  Mas na minha ideia está num escalão acima, como denuncia a frase que me pôs avesso: "Chegava então o dia em que a senhora resolvia arrumar o mostrengo e com a ajuda da criadagem limpar tudo muito bem limpo…"

A criadagem? Ó santinha! Eu teria mais cuidado com o vocabulário. Não pelo receio de que lhe apareça por aí algum assanhado que leu Marx, mas pelo que põe a descoberto do seu sentir para com o semelhante.

 

 

quarta-feira, outubro 20

Silverview

 


 
Pouco será o que não li de John le Carré. Em minha opinião escreveu romances muito bons, bons, maus, e alguns que seria melhor não ter escrito. Com todos aprendi. Sinto pena de ter lido este.

terça-feira, outubro 19

Fala-só

"When the inner history of any writer's mind is written, we find (I believe) that there is a break at some point of his life. At some point he splits off from the people who surround him and he discovers the necessity of talking to himself and not to them."
(V.S. Pritchett (1900-1997)


"
Quando a história íntima da mente de qualquer escritor se acha escrita, constatamos (creio eu) que em determinado momento da sua vida houve um corte. Em determinado momento separa-se dos que o rodeiam e descobre a necessidade de falar consigo próprio, não com eles".

É facto, muitas pessoas ainda se suportariam, mas as suas conversas...

 

Amizades e touradas

“Pequenino e barrigudo, sempre em movimento, em viagens, em telefonemas, vestido a primor, Sousa inspirava confiança, ganhara uma reputação de serviçal e enriquecera a emprestar sobre penhores.

O que então havia em Lisboa de fidalgos habituara-se a ir-lhe ao escritório desfazer-se discretamente de acções, jóias e propriedades, para acudir a aflições de fim de mês, letras protestadas, despesas com bodas e amantes, apertos de contas velhas. A sua amizade com o barão nascera quando, por causa de uma enrascadela com uma menor, precisara de dinheiro para calar a mãe da rapariga e lhe tinha feito a hipoteca de um prediozito de três andares na Rua do Salitre. Para evitar o escândalo tivera de untar muita mão, e o Sousa, honra se lhe faça, fora útil, mexera relações, conseguiu abafar a coisa quando, por assim dizer, já estava em andamento no tribunal.

Simpatizaram, frequentaram-se, passaram a jantar no Tavares, no Grémio Literário. Foram a Madrid e Barcelona, havia o plano de realizarem uma grande viagem pela Europa e de mais tarde irem aos Estados Unidos. Depois tinha havido uma zanga entre ambos, uns anéis antigos que o barão lhe dera a empenhar e ele, sem aviso nem licença, vendera para saldar os juros atrasados doutra hipoteca.

Quando o soube correu ao escritório fora de si, desatou a insultá-lo:

– O senhor Sousa é um agiota, um judeuzinho sebento, um velhaco! Ouviu? Um velhaco!

– Senhor barão…

– Tenho amigos! O senhor vai ver! Tenho gente na minha família que assim que… Mal eu… E provas! Com provas!

– Senhor barão, por favor…

– Tenho provas! Mais! Tenho o direito por mim!

– Eu faço o possível por não prejudicar ninguém, senhor barão. Sempre que posso acudir, acudo. É a minha divisa. Mas também tenho família, obrigações, tenho as despesas, o pessoal. Às vezes sou obrigado a ser duro. Contra vontade, com muita pena.

– Desgraço-o! É eu abrir a boca e os meus amigos!… Ainda lhe digo outra coisa…

Sousa interrompeu-o:

– Amigos? Que amigos, senhor barão? – e repentinamente violento, sarcástico: – Provas? Provas de quê? Das garotas que tem abandalhado? Das porcarias? Diga, se faz favor, provas de quê, meu caro senhor? De não pagar o que deve a tempo e horas? De passar a vida a intrujar?

Incrédulo e desnorteado, sem ar – nunca ninguém o atacara assim – o barão procurava a porta aos tropeções, tentando debalde escapar àquele dedo que o apontava.

Esbarrou contra uma estante, depois contra a mesinha baixa, e por fim, lívido, a tremer, encostou-se à parede à espera do golpe de misericórdia.

Gentilmente, mas com firmeza, Sousa veio agarrá-lo pelo braço, puxou o sofá, obrigou-o a sentar-se. E tirando os papéis da gaveta fez-lhe contas, mostrou recibos, explicou, deu-lhe a boa nova: os anéis, infelizmente, tinha sido obrigado a vendê-los, porque o banco não ia esperar mais tempo. Mas vendera bem, tão bem que, paga a papelada e os emolumentos, satisfeitos os juros, ainda havia saldo:

– E nada mau, senhor barão, nada mau.

Eram quarenta contos e pico que naquele momento lhe faziam jeito e o prestamista contou de um maço que tirara do cofre, a gracejar se os queria em notas de vinte.

Com o sorriso o ambiente desanuviou e Sousa, pelo telefone, pediu à secretária que trouxesse gelo e a garrafinha de uísque.

Mais tarde, na rua, em vez de se despedirem acabaram por ir jantar ao Gambrinus, ambos cheios de desculpas.

– São coisas do diabo, Sousa. Compreenda. Às vezes uma pessoa… Há ocasiões… A gente depois arrepende-se, mas na hora…

– Águas passadas, senhor barão. São coisas do diabo, realmente. Eu próprio devo confessar, reconheço que da minha parte…

– Sousa, confesso-o com toda a franqueza: excedi-me. Os amigos… Sempre o considerei e continuo a considerar um amigo. Tenho dado provas. No correr do jantar já o incidente parecia remoto. Falaram de Badajoz, onde no dia antes houvera uma magnífica tourada. Falaram do Parque Mayer e da revista do Variedades, onde a Manuela, a rapariga que agora tinha por conta era corista.”

in Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia - Quetzal