Copyright: Arie Pos
TEMPO CONTADO
Patrão da Barca: J. Rentes de Carvalho
segunda-feira, fevereiro 16
Idolatrias
Não sou, nem me lembro de ter sido de idolatrias, adulações ou adorações. Amores tive alguns. Poucos. Amizades, umas quantas. Conheço o respeito e a admiração, mas só bato palmas por rito social e nunca ninguém me viu ou verá aos pulos e aos gritos, agitando bandeiras ou erguendo o punho. A multidão num espectáculo de rock ou num estádio de futebol causa-me o estranho mal-estar que só os solitários e os individualistas conhecem. Uma manifestação na rua? Fujo. Uma fila de centenas de beatos – já as vi de milhares – à espera que abram as portas do museu para pasmarem diante da obra-prima? Fujo também.
Poderia continuar, mas paro aqui, porque estou certo que é em mim, não no resto do mundo, que qualquer coisa se desaparafusou.
quarta-feira, fevereiro 11
A sandália
A defunta Madre Teresa, o Papa, o sempre bem disposto Dalai-Lama, o senhor António da garagem, você, o seu vizinho do terceiro, eu próprio - todos temos maus hábitos. Uns mais do que outros, alguns até ao exagero, e esses são os que se apressam a apontar o dedo.
Entre os meus, na verdade poucos, dizem-me que um dos que mais irritam é o de que pareço incapaz de responder séria e laconicamente quando me contam um caso ou pedem uma opinião. Segundo os que me acusam, em vez de dizer sim ou não, começo por contar uma história que, na opinião deles, raro tem a ver com o assunto.
Dias atrás falava-se de um casal desavindo e dos argumentos com que cada um procurava demonstrar a sua razão. Quando quiseram saber de mim o que decidiria, eu, mau Salomão, repliquei com a história que, em casos semelhantes, é a minha favorita.
Foi em Roma, na era de César. Um poderoso, rico e muito elegante senador convidou os seus melhores amigos para jantar. Antes, porém, de fazerem as abluções e passarem ao triclinium – a sala de jantar com os clássicos três leitos - não querendo perturbar os convivas durante a refeição, anunciou logo ali que se ia divorciar.
Pasmo geral. Como podia acontecer semelhante coisa? Então não era a sua esposa uma das mulheres mais ilustres do Império? Das mais inteligentes? Haveria outra que a igualasse em beleza ou elegância? Tinha ele entontecido?
O senador ouviu-os em silêncio. Finalmente, chamando um escravo, ordenou que lhe desapertasse uma sandália e, com um gesto teatral, mostrou-a aos amigos, pedindo que lhe dissessem o que pensavam dela. E eles que sim, claro, não havia sandália mais elegante, de cabedal mais fino, melhor forma ou mais belos enfeites.
- De facto, meus amigos, de facto! Bela. Bonita. Nova. De excelente qualidade. Mas digam, onde é que ela me magoa?
segunda-feira, fevereiro 9
Solidão
São essas horas as de maior perigo, quando o sentimento de solidão te empurra para o negrume das perguntas sem sentido e das respostas sem nexo. Quando passam e repassam conversas, rostos, farrapos de memória, desilusões, aborrecimentos, e instante nenhum recorda uma memória alegre, um sorriso franco, um raio de luz que dê esperança.
Um escuro assim é a antecâmara da solidão, a genuína. Invisível para os mais, todo-poderosa e refinada, algoz que te transforma no que nunca imaginaste vir a ser: um l'homme qui rit.
Dizemos por vezes à ligeira: sinto-me só, mas quando a verdadeira solidão nos possui, força nenhuma é capaz de livrar da mordaça ou abrir a camisa-de-forças.
