terça-feira, abril 14

Avôs e netos

 

Para todos é diferente, mas falo por mim, sei do que falo: o que mais pesa no que emigra não é a saudade, a receosa excitação do desconhecido, o largar de amarras.

O que mais pesa nele, e sentirá como quem se afoga, é o medo, o estranho medo que mais tarde, quando por vezes, se julga a salvo e protegido, inesperadamente o toma: compreende mal a língua ou desconhece-a de todo, lê nos olhares e nos modos o que preferiria não descobrir, sente que involuntariamente se dobra, se esconde, torna pequeno, chora lágrimas que ficam dentro.

Tem horas de revolta, mas só mais tarde saberá que essas também lhas causa o medo, o medo em infindas versões: a de perder, de falhar, da vergonha, do desespero, da desigualdade, do insulto, do erro que lhe apontam e ele não compreende que cometeu, do modo que não tem, daquilo que dele esperam e não pode, não sabe dar.

Mudaram muito, e felizmente, os tempos. O António, o Miguel, o Fernando, a Isabel e a Georgina, que agora emigram, não o fazem como os avôs, de quem eu um dia escrevi:

" Vão a pé, como em todos os êxodos trágicos, morrem às dezenas nas águas do Bidassoa, entre a Espanha e a França; morrem de fome e de frio nas neves dos Pirinéus, onde alguns se metem sozinhos, na esperança de passar, outros abandonados pelos guias a quem tinha pago.

Aldeias inteiras esvaziam-se. Os homens partem noite escura, com medo das denúncias, alguns nem se despedindo dos familiares, levando na mão o pouco que lhes pertence. Às vezes em grupos de quinze, vinte, apalavrados com o engajador, no lado espanhol da fronteira são apanhados por um camião e, deitados no meio da carga, fazem a viagem até aos arredores de San Sebastián. Depois, a pé, atravessam os Pirinéus, e de novo um camião com fundo falso que os leva a Paris."

Paris! A segunda cidade de Portugal, mais de 600.000 portugueses entre os seus habitantes."

Esses jovens que aqui em Amsterdam agora encontro, vieram de avião ou de comboio, no carro de amigos, o seu futuro será outro, talvez menos duro, quiçá mais trágico, porque é maior e diferente a sua esperança.

Vejo-os e oiço-os no supermercado, nas lojas, nos cafés. Espio-os. Julgam-se a salvo e que ninguém lhes entende a língua.

"Olha prò filho da puta! Viste as mamas da gaja? Dás um empurrão ao velhote e ele espalha-se. Tanto pretinho, pá! Eu a julgar que estava na Holanda."

Não me dou a conhecer. Registo, não censuro. Os avôs não podiam, não sabiam falar assim, olhavam e calavam.

Os netos falam, ainda não sabem, julgam-se a salvo. Deus se compadeça na hora em que os tomar o medo.



 

domingo, abril 12

Bonzinho

 

Descobri que era tímido por volta dos oito ou nove anos, ao ouvir minha mãe dizer a uma vizinha que eu era "bonzinho".

Pelos jeitos aquele "bonzinho" era o nome colectivo para os meus temores, vergonhas, acanhamentos, e o mais que me levava a baixar os olhos, tremer, fechar a boca, punha depois em estado cataléptico e com vontade de sumir.

Já adulto, muitas vezes tive de respirar fundo e, como se o fizesse a um terceiro,  dar-me mentalmente empurrões para ser capaz de subir a um pódio e falar a um público, pois a vontade que tinha era de esconder-me ou deitar a fugir.

O tempo e a experiência foram pouco a pouco diminuindo o meu acanhamento, mas só passados os sessenta me vi definitivamente livre dele. Grande alívio. Já não tropeço no hall dos hotéis, converso nas festas, não gaguejo nas entrevistas, não coro quando se me dirigem, vivo sossegado, senhor de mim, jamais fama, autoridade ou poder me fará baixar os olhos ou arrepiar caminho. Finalmente sou como deveria ter sido desde menino, deixei de ser "bonzinho".

 

quinta-feira, abril 9

A brasa e a sardinha

Neste nosso tempo e sociedade, não há lugar para Eças ou Fialhos. São tudo punhos de renda, unhas cortadas, garras de sardão, entreténs com licenciaturas Express e engenharias domingueiras, fúrias que duram enquanto dão proveito.

A fingir de esquecidos, como se os mandantes tivessem nascido no berço do Poder, estejam lá por acaso, e não pelo empurrão do voto.

É bonita a virtude, e dói pagar as favas, mas nas horas mortas cada um sabe a quem e por quê deu o voto, os favorzinhos que esperava, as cunhas que meteu, os joelhos que dobrou, as bofetadas que ia dar quando os "seus" ganhassem.

Todos juntos somos o país, má sorte é querer a maioria puxar a brasa para a sua sardinha, e mandar o gato comer a do vizinho antes que ele a asse.


segunda-feira, abril 6

Paz de alma

 

Se olho para trás, os primeiros cinquenta anos da minha vida foram de grande agitação, os últimos trinta uma pasmaceira. Tenho eu saudades da turbulência? Não tenho, porque muitas vezes me levou àquelas situações de cara ou coroa em que o destino se joga, e se dalgumas saí a ganhar e noutras fiquei no empate, as que foram quase quase deixaram-me com adrenalina bastante para que, desde então, dispense a busca de emoções ou riscos.

Claro que nesta idade, dirão os inexperientes, emoções só as devo esperar das consultas ao médico ou dos exames no hospital, e o risco maior, se não for a passadeira da rua, virá dalgum trambolhão.

A vida, felizmente, desconhece regras e certezas. O amor não precisa de desaparecer com os anos, a verdadeira amizade resiste aos embates, carinho e simpatia há às mãos-cheias, do sorriso da criança ao desabrochar da flor e à luz da manhã, sobram as razões de alegria.

Assim, ao contrário do que você pode imaginar, a pasmaceira em que vivo não é um nevoeiro de aborrecimento ou o melancólico aguardo do último sopro, mas a paz de alma de quem conseguiu saltar do comboio antes dele se despenhar.