quinta-feira, abril 9

A brasa e a sardinha

Neste nosso tempo e sociedade, não há lugar para Eças ou Fialhos. São tudo punhos de renda, unhas cortadas, garras de sardão, entreténs com licenciaturas Express e engenharias domingueiras, fúrias que duram enquanto dão proveito.

A fingir de esquecidos, como se os mandantes tivessem nascido no berço do Poder, estejam lá por acaso, e não pelo empurrão do voto.

É bonita a virtude, e dói pagar as favas, mas nas horas mortas cada um sabe a quem e por quê deu o voto, os favorzinhos que esperava, as cunhas que meteu, os joelhos que dobrou, as bofetadas que ia dar quando os "seus" ganhassem.

Todos juntos somos o país, má sorte é querer a maioria puxar a brasa para a sua sardinha, e mandar o gato comer a do vizinho antes que ele a asse.


segunda-feira, abril 6

Paz de alma

 

Se olho para trás, os primeiros cinquenta anos da minha vida foram de grande agitação, os últimos trinta uma pasmaceira. Tenho eu saudades da turbulência? Não tenho, porque muitas vezes me levou àquelas situações de cara ou coroa em que o destino se joga, e se dalgumas saí a ganhar e noutras fiquei no empate, as que foram quase quase deixaram-me com adrenalina bastante para que, desde então, dispense a busca de emoções ou riscos.

Claro que nesta idade, dirão os inexperientes, emoções só as devo esperar das consultas ao médico ou dos exames no hospital, e o risco maior, se não for a passadeira da rua, virá dalgum trambolhão.

A vida, felizmente, desconhece regras e certezas. O amor não precisa de desaparecer com os anos, a verdadeira amizade resiste aos embates, carinho e simpatia há às mãos-cheias, do sorriso da criança ao desabrochar da flor e à luz da manhã, sobram as razões de alegria.

Assim, ao contrário do que você pode imaginar, a pasmaceira em que vivo não é um nevoeiro de aborrecimento ou o melancólico aguardo do último sopro, mas a paz de alma de quem conseguiu saltar do comboio antes dele se despenhar.

 

sexta-feira, abril 3

Auto-ajuda

Talvez porque desconfio de receitas e sou avesso a mudanças de comportamento em que não tenha mão, ainda nunca li um livro sobre auto-ajuda. Se me acontece passar os olhos por  artigo que trata do assunto, leio a coisa em diagonal e não fica recordação, curiosidade ou interesse.

Na minha juventude tinha fama a ainda hoje muito estudada "bíblia" de Dale Carnegie  (1888-1955), How to Win Friends and Influence People, e os avós dos que agora se estafam em ginásios e Pilates seguiam as doze lições do método Dynamic Tension de Charles Atlas (1892-19720), de seu nome Angelo Siciliano, considerado então, de Brooklyn à Califórnia, "O Homem Mais Bem Proporcionado do Mundo".

A idade obriga-me a poupar energia, mas também é facto que por natureza sou contrário à demasia de esforço físico. No que respeita fazer amigos sigo a intuição e ainda nunca me subiu à cabeça a tontaria de querer influenciar o meu semelhante.

Por isso não irei mudar de ideias, nem tornar-me fanático de Mensendieck para manter a forma, mas agora que os anos vão pesando e começo a dar-me conta de certa moderação nos juízos, pergunto-me que motivo, fora a malícia ou a inveja, me leva a rir dos que querem aumentar dois centímetros à estatura e doze aos peitorais? E que mal pode haver na crença de que um método ajude alguém a ser feliz, ou pelo menos mais ajustado?

Não leio livros de auto-ajuda nem entro em maratonas, mas talvez por isso sou fanático de horóscopos e do que predizem as cartas.

quarta-feira, abril 1

Fazendo contas

Fazendo contas não destrinço se é das recordações ou da imaginação que me vem  proveito, se da rotina ou duma ou doutra tarefa a que me obrigo. Ao certo sei que me interrogo sobre a utilidade do que faço, do pouco que faço, e em que fundo nascerá este agudo sentimento de independência que me obriga a não participar, mesmo quando daí me viria benefício.

É dizer que sempre andei e continuo a andar desacertado do mundo, há horas em que me desconheço, momentos em que a certeza de existir me vem apenas do peso do corpo, porque o espírito, esse esvoaçava pelos longes da irrealidade e do impossível.

De modo que até para mim próprio sou má companhia, e abundam as ocasiões em que de bom grado me despediria desse outro que também sou. Pagaria, mas não há à venda, para ter uma alma como tantas invejo, as que possuem certezas fortes, traçam um caminho e o seguem sem desvios nem hesitações.

No que me toca, e desde que dela tomei consciência, a minha rota tem sido de hesitações e recuos, desvios, estranhos confrontos, perguntas sem resposta. Ganhei? Perdi? O Diabo que o diga, e Deus me dê paz.

 

 

quarta-feira, março 25

Seleccionado

 Pode ser uma imagem de texto que diz "0 Selecções 2026 MENSAL/ABRIL2026 READERS DIGEST 0 escritor da Alma Portuguesa RENTES DE CARVALHO 96 ANOS DE BOAS MEMORIAS! PÁG. 58 CHINA Viver em casal na estrada PÁG. 82 CIÊNCIA Comoainteligência Como artificial estáa salvar vidas PÁG. 102 DRAMA DA VIDA REAL Quando ocão salvou skaterde 13 anos PÁG. 130 স 13 FACTOS SOBREO DIA DIADAS DAS MENTIRAS PÁG. 38 00660 607727 004301 4,25€ IVA INCLUIDO"

segunda-feira, março 23

Sempre culpado

 

https://observador.pt/opiniao/quando-falta-analise-sai-um-lobby-judaico-para-a-mesa/ 

domingo, março 22

A viola no saco

 

Nunca teve muitos praticantes, a bela arte de meter a viola no saco. Corrente é o tirá-la de lá e dedilhar, ora inconveniências, ora asneiras, sem cuidado nem preocupação de se interrogarem se o outro é servido.

Quando estou de melhor humor digo-me que deve ser do tempo, ou porque anda a Lua em quarto minguante, noutras ocasiões oiço calado e tomo depois uma aspirina.

De momento parece que os atraio, os impertinentes que começam por um elogio chocho e me explicam então que, no texto tal, eu deveria ter eliminado o segundo parágrafo, "porque ficava muito melhor." Lamentam também a secura e o laconismo do que escrevo, inquirindo com ar fino se será por estar "há tantos anos lá fora." Muito proveito tiraria eu, dizem, se lesse a prosa de X, autor de dois belos romances e uma antologia poética.

Aí já não dedilham. À desgarrada e em ré maior desatam a cantar o talento de X, "que esse sim, esse é que merecia o Nobel!" Hão-de me trazer o primeiro livro dele, e vou ver "como é que se escreve."

Quem nesses momentos me vir sorridente, silencioso, a dizer que sim com a cabeça, saiba que estou a invocar a divindade, solicitando ao Altíssimo que a paciência com que sofro seja tomada em desconto dos meus muitos pecados.