domingo, fevereiro 22

Projectos e desafios

 

Há estatísticas, para tudo as há, mas falta-me paciência para ir procurá-las, e neste caso basta-me o que oiço. Vem isto de há muito, mas nesse tempo a fenómeno afligia-me menos, deitava-o eu à conta da simplicidade da vida de então, do analfabetismo e das condições em que se vivia. Mas hoje tudo são belas escolas, rádios, televisões, montes de jornais, montanhas de revistas e, contudo, ora me faz rir, ora me assusta, a pobreza do vocabulário com que, para falar à moderna, as pessoas interagem.

Anunciando talvez o futuro, já me aconteceu noutro país ter tido estudantes que quase exclusivamente se exprimiam de forma não verbal, com Ughs e Achs, Pffs, Sshhit, Buhh, mas pelo que observo há por aqui gente de estudos cuja linguagem me leva a temer que aquilo que dizem, e como o dizem, traduz um assustador vazio. Todos se afirmam envolvidos em projectos que são um verdadeiro desafio; têm trajectos; começam e terminam as frases com um "Pronto!". O riso tanto lhes serve para exprimir aceitação como discordância, e com "gajo", "coisa", "foda-se!", "bordamerda" e que tais, escondem mal os buracos do raciocínio.

Recordo ter lido que o falante se serve em média de dois mil vocábulos, mas isso foi nos longes do século passado. Hoje, avaliando pelo que oiço, pergunto-me se chegarão aos duzentos.

 

sexta-feira, fevereiro 20

Andarilhos

Viram mundo. Provam-no com relatos, fotografias, vídeos, por vezes até uma dúzia de linhas de gazeta. Viram mundo, viajaram muito, foram aos longes onde tudo é exótico, mas só defeito de nascença ou desarranjo da cabeça explicará tanta boçalidade.

Comentam o que viram com um entusiasmo que quer passar por original e é apenas um triste refogado. Conhecem gente. Mencionam datas, casos. Viveram tantas situações em simultâneo que se diria terem herdado a ubiquidade antonina. São simples. Arrepanhando os lábios ou de queixo descaído, sofrem da pedantice triste dos que papagueiam fiapos de conhecimento mal atado. Têm opiniões. Aborrecem. Viram mundo, mas ao ouvi-los pergunta-se a gente em que desertos se terão perdido.

 

segunda-feira, fevereiro 16

Jesus, valei-nos

 

Copyright: Arie Pos

Idolatrias

Não sou, nem me lembro de ter sido de idolatrias, adulações ou adorações. Amores tive alguns. Poucos. Amizades, umas quantas. Conheço o respeito e a admiração, mas só bato palmas por rito social e nunca ninguém me viu ou verá aos pulos e aos gritos, agitando bandeiras ou erguendo o punho. A multidão num espectáculo de rock ou num estádio de futebol causa-me o estranho mal-estar que só os solitários e os individualistas conhecem. Uma manifestação na rua? Fujo. Uma fila de centenas de beatos – já as vi de milhares – à espera que abram as portas do museu para pasmarem diante da obra-prima? Fujo também.

Poderia continuar, mas paro aqui, porque estou certo que é em mim, não no resto do mundo, que qualquer coisa se desaparafusou.

 



quarta-feira, fevereiro 11

A sandália

 

 

A defunta Madre Teresa, o Papa, o sempre bem disposto Dalai-Lama, o senhor António da garagem, você, o seu vizinho do terceiro, eu próprio - todos temos maus hábitos. Uns mais do que outros, alguns até ao exagero, e esses são os que se apressam a apontar o dedo.

Entre os meus, na verdade poucos, dizem-me que um dos que mais irritam é o de que pareço incapaz de responder séria e laconicamente quando me contam um caso ou pedem uma opinião. Segundo os que me acusam, em vez de dizer sim ou não, começo por contar uma história que, na opinião deles, raro tem a ver com o assunto.

Dias atrás falava-se de um casal desavindo e dos argumentos com que cada um procurava demonstrar a sua razão. Quando quiseram saber de mim o que decidiria, eu, mau Salomão, repliquei com a história que, em casos semelhantes, é a minha favorita.

Foi em Roma, na era de César. Um poderoso, rico e muito elegante senador convidou os seus melhores amigos para jantar. Antes, porém, de fazerem as abluções e passarem ao triclinium – a sala de jantar com os clássicos três leitos - não querendo perturbar os convivas durante a refeição, anunciou logo ali que se ia divorciar.

Pasmo geral. Como podia acontecer semelhante coisa? Então não era a sua esposa uma das mulheres mais ilustres do Império? Das mais inteligentes? Haveria outra que a igualasse em beleza ou elegância? Tinha ele entontecido?

O senador ouviu-os em silêncio. Finalmente, chamando um escravo, ordenou que lhe desapertasse uma sandália e, com um gesto teatral, mostrou-a aos amigos, pedindo que lhe dissessem o que pensavam dela. E eles que sim, claro, não havia sandália mais elegante, de cabedal mais fino, melhor forma ou mais belos enfeites.

- De facto, meus amigos, de facto! Bela. Bonita. Nova. De excelente qualidade. Mas digam, onde é que ela me magoa?