sábado, maio 2

Há infernos

Há infernos. Entre as quatro paredes há infernos insuspeitos, com ódios, invejas, fúrias que queimam fundo e mais lentamente que as labaredas de Belzebu. Infernos de fogo lento, diário, com pausas inesperadas entre o martírio, não para que se sinta alívio, mas para que na carne e na alma se renove a dor.

É família grande, creio que nove ou dez. Vêm daqueles ramos fracos da burguesia que, duas ou três gerações, conseguem manter uma aparência de prosperidade. A estes tramou-os a revolução e a inocência do ideal. Foram crentes fanáticos, de uma fé sem medida, a de que o  Sol iria brilhar para todos, mas para eles com o calor especial reservado aos eleitos. Esperaram. Não se deram conta das nuvens, nem da competência e ganância da alcateia,  quando a crueza da realidade os sacudiu já não havia bons bocados, só ossos. Desses conseguiram esmolar um dos mais pequenos, insuficiente para os nove ou dez que nada mais têm que rilhar.

Entre as quatro paredes vivem no inferno. Quando saem delas esforçam-se por manter a compostura, mas dá pena aquele teatro. Nos ademanes, na fala, no vestuário, nos tiques, tudo denuncia a derrota, tudo aponta para um desenlace que, tirando-os do inferno das aparências, os lançará no da pobreza envergonhada.

 

 

quinta-feira, abril 30

Tempo mal gasto

 

Tempo mal gasto, o de fazer balanços, olhar para trás, carpir derrotas, desilusões e contratempos. Mesmo a listagem de sucessos e benfeitorias não adianta nem conta, que o ontem irremediavelmente passou e, como às vezes se diz, o futuro a Deus pertence. Fica-nos o hoje, com alguns a remar contra a maré, outros deixando-se levar pela corrente, uns quantos fazendo o que podem para ver claro antes que a noite caia.

A isto se chama, e é, filosofar barato, mas talvez seja de algum conforto o descobrir que na luta diária são iguais para todos as armas com que nos defendemos do mais sorna e depravado dos inimigos: nós próprios.

quarta-feira, abril 29

O vazio e o oco

 

Pelo modo como a vida me tem corrido, questão genética, boas e más experiências, o caso é que me fascina a observação de certo tipo do meu semelhante, aquele que por destino, ou razões suas, leva da infância à cova uma vida de artifício num mundo que, muito  de longe a longe, me acontece roçar.

Falam de festas e metrópoles, cruzeiros, hotéis, o Breitling do primo, a suite do Four Seasons, o Mastino Napoletano que o Vieira tem na quinta, a semana que passaram naquele "fabuloso spa"…

Oiço-os e, como se sonhasse, aparecem-me através de uma névoa, as suas seguranças a contrastar com as minhas dúvidas, a sua jovialidade embatendo nas sombras que tenho. E não é questão de desdém, inveja,  ou animosidade do menos abonado, antes genuína surpresa de que seja possível existir assim, de ilusão em miragem, saltando do vazio para o oco, tomando por mundo a construção imaginada, chamando vida ao pendular dos seus baloiços.

Porém, feitas contas, têm eles mais razão e vantagem em ser assim, do que tenho eu em lhes criticar a superficialidade, pois se este mundo são dois dias melhor é gozá-los.

 

segunda-feira, abril 27

A técnica do beijo


Aos quinze anos a primeira namorada, a descoberta das carícias, das tremuras pelo corpo, a febre, os arrepios, o primeiro beijo.

Dias depois, a fumar num banco de jardim, ela disse aquilo com a naturalidade, o sorriso e o  modo desprendido de quem assinala uma ninharia:

- Não sabes beijar.

O verdadeiro choque viria mais tarde, mas de momento atirou com o cigarro, puxou-a contra si, como se quisesse grudá-los apertou os lábios contra os dela, ficaram assim até que a rapariga, zangada e estrebuchando, se libertou.

O boato tinha corrido, e das namoradas que a seguir teve, se uma ou outra se mostrou discreta, as mais não demoravam a censurar-lhe a ignorância e a falta de jeito.

Quente do sangue, caridosa de feitio, Luísa, mais velha um ano, mais alta um palmo, chamou-o uma tarde para um sessão de apalpões e, agradecida, disse que lhe ia ensinar como se beijava.

Ensinara uma dúzia de vezes, mas foi pena perdida, o trauma ficou. Com o correr do tempo, estrangeiras engatadas na praia, às vezes colegas, ligações de acaso, bar flies, acompanhantes para matar a solidão nas noites de hotel, mesmo as que se calavam lho faziam sentir, afastavam os lábios, algumas  escondendo discretamente o desagrado.

Já lhes tinha nascido o segundo filho quando uma noite, ambos a ver na televisão um filme em que Gwineth Paltrow era lenta, mas fogosamente, beijada pelo comparsa, é que a mulher, acendendo outro cigarro, o encarou sorrindo e disse:

- Este sabe beijar.

- E eu não sei?

- Não, querido. Não sabes - e num gesto carinhoso tinha-lhe passado o braço pelo ombro, depois fora buscar mais gelo, enchera de novo os copos.

 

 

domingo, abril 26

Raiva e amargura

Quanta raiva e amargura corre por aí, quanta danação, pragas, insultos, tanta certeza vã de que estes fazem mal, os outros fizeram bem, só a vitória do nosso clube é gloriosa, justa, porá isto direito, a funcionar como deve.

Já os de ontem o disseram e os de amanhã dirão o mesmo, como em todos os tempos o dizem os tolos, os mesquinhos, os do venha a nós, nunca a eles.

E eu, que não visto camisolas, não dou vivas nem morras, só tenho a bandeira da terra em que nasci e onde pertenço, olho em redor abismado com a malvadez, a estupidez, a ignorância que cega, o fanatismo que destrói, a impotência do ódio.

Assusta-me o modo como a minha gente julga esconder o pavor que sofre, imitando raivas e desdéns, sabendo que no fundo, bem no fundo, o que a atormenta são as incertezas, as incógnitas, a insegurança, a vontade de ter um futuro mas querê-lo único, bom, apenas seu, como se jamais tivesse sido possível fugir à realidade numa ilha, ou escapar ao mundo por detrás de muralhas.