quarta-feira, abril 22

O vaidoso

 

O colega vaidoso desperta em mim irreprimível alegria. A pouco teatro tenho assistido que iguale em comicidade o escriba que, vendo-se já em estátua, discorre para um público sobre a complexidade dos seus sentimentos, o refinado das  conclusões a que chega, a superior delicadeza dos personagens que cria.

“- Como diz Adalberto no meu romance A Cinza das Sombras, no momento em que descobre a infidelidade de Marilena…”

O homem não tem o propósito de que, repetindo o título, os que o ouvem corram às livrarias. Não! Ele diz aquilo certo e seguro de que A Cinza das Sombras lhe prepara o Nobel, Marilena e Adalberto entrarão na galeria dos personagens clássicos, as pessoas na sala – amigos,  reformados, viúvas, curiosos que queriam saber se era sobre política – prenunciam a massa de gente que aguardará o seu regresso de Estocolmo.

Claro que estou a ser injusto. Mesmo o maior dos vaidosos deve conhecer daqueles momentos de insegurança em que as sombras deixam de ser ficção literária e se tornam negrume a sério. Infelizmente, para ele, a máscara pode mais, e eu apenas o conheço quando representa em público. Mas que adoro o espectáculo e nunca me canso de assistir, isso é verdade.

 

 

segunda-feira, abril 20

A rosa dos ventos

 

"Tenho amigos da esquerda e da direita." Frase recorrente, tantas vezes lida e ouvida que involuntariamente lhe esqueço o significado e me ponho a magicar no que subentende.

Garantias não dá, cabe na mesma lista daquela outra, "também tenho amigos homossexuais",  a ênfase do também a reforçar a existência de uma imaginária virtude.

É coisa do princípio do meu mundo, a arrelia que tenho com a chamada classe média portuguesa, corpo social amorfo que por baixo toca o povinho, e na outra ponta se quer fidalga, esquecendo, ou ignorando, que o verdadeiro brasão não se herda nem se compra, ganha-se.

A essa classe de gente, que vai do Zé da Mouca a D. Francisco de Rodrigães Penha d'Alembourg e Castedo, pouco me custaria fechar os olhos à vaidade, à jactância, ao egoísmo de que dá  mostras e provas, à infantilidade do comportamento, ao grotesco da sua necessidade de imitar.

O que não lhe perdoo é a alma de merceeiro, o espírito mercantil, a escassez de vergonha, a  ganância de comer a dois carrilhos, a habilidade de ter amigos em todos os pontos da rosa dos ventos.

 

sábado, abril 18

Ler e não ler

 

Não será todos os dias, mas sei que, com atenção, lês Wittgenstein, São Tomás, Confúcio ou Abū ʿAlī al-Ḥusayn ibn ʿAbd Allāh ibn Sīnā, que também conhecemos por Avicena. Por isso te invejo, pois o que aprendi mal dá para seguir Platão ou John Locke, o pensador do verdadeiro ideal democrático, e que tanto contribuiu para impedir a criação de uma aristocracia na sociedade americana.

Outros, menos favorecidos, encontram benefício na leitura de policiais e histórias de amor, na Science Fiction de Asimov, no horror de Stephen King, nas produções da Chicklit, nos imbróglios de José Rodrigues dos Santos, e até relendo As Pupilas do Senhor Reitor ou soletrando o Borda d'Água.

Grande coisa, pois, é a leitura, mas também de variadas consequências, implicando por vezes nas relações, ou emitindo complicados sinais de antipatia, de descrença e aborrecimento. Acontece ao acaso das conversas, por vezes a encher um vazio ou mudando para assunto menos delicado, mas bom seria se evitássemos informar acerca das preferências e entusiasmos sobre o que lemos.

Sabendo-te assim íntimo na leitura de espíritos superiores, tendo-te tantas vezes ouvido citar Descartes, Aristóteles, Freud e outros génios, com a segurança que só a competência empresta, imagina que, pedindo mais um café, me sussurras quanto nos últimas dias te tem absorvido a leitura de, por exemplo, um romance de Óttar M. Norðfjörð.

Como sou razoavelmente capaz de ocultar o que sinto não arregalarei os olhos, nada nas minhas feições trairá espanto ou surpresa. Mas no fundo vou-me perguntar que sonhos escondes, que fraquezas e temores desejas que eu descubra através dessa retorcida prosa, onde é questão de nevoeiros e entranhas furadas, garrotes, quedas mortais nas brechas do Tungnafellsjökull, dentes cravados até ao sangue em gargantas alvas.

Essa é a tragédia. Não quero descobrir quem realmente és, nem sequer desejo que, pela retorcida indicação de uma leitura, me acenes um vício teu, um medo, um recalque. Disso te peço que dês conta: esconde as tuas leituras, fala-me apenas daquelas em que não corres o risco de te mostrar na fragilidade da nudez.