domingo, março 1

O invejoso

 

Em cada geração da intelectualidade há sempre um curioso tipo: o invejoso. Perito na delicada arte de montar a sua reputação, enciclopédico nos interesses e no conhecimento, dotado de algum talento e cautelosamente arrimado ao Poder, cria ele fama e proveito de autoridade.

Manuseia com perícia a dosagem de cumprimentos, torna-se reverente para com o jovem poeta, aplaude o obscuro romancista que descobriu na Roménia, e assim vai elevando a própria estátua.

Anuncia urbi et orbi as suas andanças e raro passa ano em que, ora poesia, ora romance ou ensaio, não publique livro seu. Por vezes mais que um. Toda a gente o conhece, ninguém o lê, mas nunca ferra nem se agita, que isso são modos de que no Olimpo se desdenha.

Secretamente, porém, a sua vida é um inferno, pois dotado de inteligência e perspicácia ele sabe como poucos distinguir o trigo do joio. E sofre. E inconscientemente revela a inveja que o mortifica: quando enfrenta ou descobre noutro verdadeiro talento, bem podem tocar alto as trombetas, a sua ficará no saco.

 

 

sexta-feira, fevereiro 27

Misantropia

Posso ser um misantropo que se ignora, mas de verdade sou pouco dado à convivência social. Não que me escasseie o interesse pelo semelhante e o gosto da conversa, mas desespero quando, passado o intróito dos bons modos, em vez de uma troca de impressões, ideias ou experiências, me vejo a soprar vento e a receber baforadas de banalidade.

Daí que pronto me fatiga o trato e acho conforto na solidão. Perco assim o ensejo de encontrar mais gente interessante, e aprender o que não sei, mas feito o balanço tenho de concluir que, na vida que levo, a probabilidade de conversas excitantes iguala a sorte de encontrar no clássico palheiro a perdida agulha.

Há ainda o cansaço. Bom número de almas parece insensível ao facto de usar os argumentos com impacto igual ao do aríete nas guerras antigas, mais a agravante de que dominam a arte da fala sem pontos nem vírgulas.

Contudo, e isto dito, não são elas e eles que têm de mudar. Eu é que, mea culpa, devia aprender melhor  as andanças do mundo.

 

quarta-feira, fevereiro 25

Admiração

 

Estou no  mundo, aceito o geral das regras da vida em sociedade, mas no contacto directo com o semelhante o meu comportamento deixa por vezes a desejar. Ou porque emitimos em ondas diferentes, os caracteres se desajustam, ou fala cada um em sua "língua", uma conversa comigo pode descambar em irritação.

Falávamos de literatura, influências, estilos, leituras feitas, quando com genuína curiosidade e simpatia, a senhora disparou:

- Quais são os escritores que mais admira na literatura portuguesa contemporânea?

- Nenhum.

Tive a impressão de vê-la recuar, chocada com a bruteza, a falta de tacto, e o meu descaso pelas regras da conversa.

Ela esperava nomes, e mais tarde, tentando apaziguar-me, falou da inevitável Agustina, de Saramago, do Vergílio, enquanto que a minha cabeça, desinteressada das várias famas, continuava presa ao significado da palavra e ao sentimento de admiração.

Evidentemente há colegas que leio com interesse e simpatia, mas, oficial do mesmo ofício, a leitura que deles faço tem exigências que o leitor comum dispensa. Respeito-lhes o trabalho, sim, louvo-lhes o esforço – porque esforço é – a persistência, a coragem e a teimosia. Gostaria de vê-los remar mais contra a maré? Pois gostaria. De ver menos a sacrificar às modas? Seria bom.

Mas se respeito e louvor é coisa para muitos, o merecimento de admiração, de verdadeira admiração, cabe a poucos, todos mortos, facilmente se lhes faz a lista.

 

segunda-feira, fevereiro 23

Meu caro Portugal

Meu caro Portugal,

Dizem-me que mais uma vez está você em maus lençóis, mas essa é, creio, a opinião dos que o conhecem mal a sua História. Tanto quanto sei, e para falar apenas da experiência dos meus mais que muitos anos, você raro esteve em bons.

Recorda o que lhe aconteceu depois dos Descobrimentos? Lembra-se do Volfrâmio? Tem presente como há vinte e poucos anos se deixou ir no vigário de que para ser feliz e rico bastava fazer-se pequenino e chupar as tetas da UE? Porque os gajos eram mesmo burros e você esperto sem igual?

Que fez com os milhares de milhões que lhe deram para que crescesse e melhorasse? Descanse, não vou esfregar sal nas feridas, mas para quê esses estádios, essas inúmeras e inúteis Casas da Cultura em terra de analfabetos? Não se envergonha do quarto miserável que em sua casa é o Nordeste transmontano?

Deram-lhe fortunas para aplicar no bem comum, gastou-as você, pobre novo-rico, em relógios de ouro, Mercedes, Jaguars, e reformas milionárias, esquecendo que um terço dos seus familiares não tem dinheiro para aquecer o lar no inverno, que são sem conta os miseráveis, os desesperados, os que sofrem porque ninguém lhes acode na doença e morrem sem amparo.

Entretanto, você, meu caro Portugal, dança, esbanja dinheiro que não é seu, gasta em férias exóticas o sustento dos seus filhos. Já alguma vez lhe passou pela cabeça que o que paga pelos almoços de gourmet em restaurantes chiques é tirado da boca dos seus compatriotas?

E diga-me: que cara devo pôr quando aqui onde vivo, sabendo-me português, me apontam e se riem, me envergonham dizendo de si as verdades cruas? Já nem o comparam às repúblicas bananeiras, que essas são de longe, não pertencem à Europa, mas colocam-no numa categoria à parte, a dos trafulhas, (*) os que sabem que um dia virá em que inevitavelmente se descobre a trafulhice, o que pouco importa, porque lhes falta vergonha na cara e outros terão de pagar o desfalque.

Poupo-lhe o que me contam da sua Justiça, da suas autoridades, das camarilhas e quadrilhas que, fingindo governá-lo, lhe sugam o que tem e o que lhe emprestam.

Para mim, meu caro Portugal, e isso desde que nos conhecemos, você sempre foi uma dor. Mesmo naquele momento de euforia dos cravos não pude esquecer quem você é e como sempre se comporta. Quer acreditar que não dei vivas? Em coisa de meses já as quadrilhas e as camarilhas se deitavam ao bolo, deixando ao povo dois ossos: o da democracia e o da liberdade, ambos fraco sustento para quem tem fome.

Muitos anos passados, com um humor que escondia o pesar, sugeri que, para o salvar de si próprio, um consórcio de nações o comprasse e transformasse numa reserva. Mas nesta altura creio que ninguém o quererá, mesmo dado. Teremos de continuar a suportá-lo nós, seus maltratados e desprezados filhos, da mesma maneira que fazemos há séculos: mourejando no chão de pedras ou indo amargar em terra alheia.

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(*) The Garlic Belt (A Zona do Alho) em europês.

 

domingo, fevereiro 22

Projectos e desafios

 

Há estatísticas, para tudo as há, mas falta-me paciência para ir procurá-las, e neste caso basta-me o que oiço. Vem isto de há muito, mas nesse tempo a fenómeno afligia-me menos, deitava-o eu à conta da simplicidade da vida de então, do analfabetismo e das condições em que se vivia. Mas hoje tudo são belas escolas, rádios, televisões, montes de jornais, montanhas de revistas e, contudo, ora me faz rir, ora me assusta, a pobreza do vocabulário com que, para falar à moderna, as pessoas interagem.

Anunciando talvez o futuro, já me aconteceu noutro país ter tido estudantes que quase exclusivamente se exprimiam de forma não verbal, com Ughs e Achs, Pffs, Sshhit, Buhh, mas pelo que observo há por aqui gente de estudos cuja linguagem me leva a temer que aquilo que dizem, e como o dizem, traduz um assustador vazio. Todos se afirmam envolvidos em projectos que são um verdadeiro desafio; têm trajectos; começam e terminam as frases com um "Pronto!". O riso tanto lhes serve para exprimir aceitação como discordância, e com "gajo", "coisa", "foda-se!", "bordamerda" e que tais, escondem mal os buracos do raciocínio.

Recordo ter lido que o falante se serve em média de dois mil vocábulos, mas isso foi nos longes do século passado. Hoje, avaliando pelo que oiço, pergunto-me se chegarão aos duzentos.