segunda-feira, dezembro 5

A hora da despedida

 

Estávamos no patamar. Aquele momento confuso em que os amantes já deixaram de sê-lo. Quando foram ditas as palavras que ferem, e tudo terminou, só falta o adeus.

Custava-me vê-la partir, mas não posso negar que sentia um certo alívio. Embora por razões diversas, a nossa relação tinha sido um engano mútuo, quando tentei beijá-la e ela afastou o rosto, senti-me desobrigado de cortesias.

Fechei a porta antes de ouvi-la descer as escadas. Acendi um cigarro. Sentei-me e o gato saltou-me para o colo. Acariciei-o, de repente sentindo-me culpado, recordando que ela era bem mais nova que as minhas filhas. Perguntando-me que reação seria a minha, se uma delas me viesse confessar que tinha por amante um velho como eu.

É facto que os pais, os outros pais, têm isso: são os últimos a saber e, se por acaso lho dizem, preferem não acreditar.

Mas, se lho dissessem, acreditaria o pai dela que, depois duns vagos telefonemas, me aparecera em casa, ofertando francamente a sua beleza, o seu corpo, o carinho, o alegre desvario da juventude?

Forçara a entrada na minha vida, umas vezes mentindo descaradamente, outras contando meias-verdades, fazendo confidências que eram verdades sonhadas, criando-se um papel de personagem principal no romance da sua fantasia.

Fui cru, quando a desiludi. Chorou, mas nesse momento não me comoveu.

Depois sim, já com remorsos enquanto acariciava o gato. Imaginando-a triste, deitando-me culpas. Dizendo-me, a modo de resgate que, para os seus dezanove anos, eu seria apenas um episódio que se esquece. E ela, para mim, uma das tantas ocasiões que se perdem e não voltam.

domingo, dezembro 4

Vê-se nas orelhas

 

É o que se chama ser apanhado pela própria ratoeira, e bem gostaria que a sua memória apresentasse as falhas que tem a do geral dos octogenários, mas a do Cardoso parece continuar imune aos estragos da idade, pelo menos no que respeita certos episódios de que guarda má consciência, medos que julgava esquecidos e de súbito o assaltam como se fossem do presente.

Semanas atrás no quarto de banho, a olhar distraído para o espelho enquanto fazia a barba, aconteceu-lhe reparar que a orelha esquerda, talvez porque dorme sempre para o mesmo lado, parecia achatada e diferente.

Pousou a lâmina, não fosse cortar-se, mas também sobressaltado com a recordação da tia Susana, que tinha morrrido de um AVC um dia antes do 25 de Abril. Irmã mais velha da mãe e um bocado mandona, talvez porque trabalhava no Lar, em miúdo tinha-lhe medo, e ficava agoniado se ela se chegava perto, porque cheirava a desinfectante. Solteirona, vinha sempre almoçar ao domingo, foi numa dessas ocasiões que a ouviu queixar-se que as pessoas continuavam a falar-lhe, mas tinha ideia que escondiam qualquer coisa.

Anos depois ouviu a mãe contar à viúva do Luís, que não tinha sido porque as pessoas não gostassem da irmã, mas por terem medo dela. Esse medo começara uma vez no café, quando disse que o pai da Sara não durava e ele morreu nessa noite. Depois foi a mãe do Abílio, a madrasta do Pires, o tio da Sabina, a avó do Antero, mais uns quantos.

Os mais atrevidos perguntaram-lhe se era dom, e ela tinha-se zangado. Qual dom, qual carapuça, qualquer um podia ver. Se os idosos começavam a ficar com as orelhas em ponta, nunca falhava: ainda aguentariam o dia, mas da noite não passavam. 

O Cardoso voltou a pegar na lâmina e encarou o espelho, aliviado de que ambas as orelhas parecessem achatadas. Se bem que, olhando melhor...

 

                   

 

 

 

sábado, dezembro 3

Hospital de Santo António - Porto (1939)

 

  

Tenho nove anos. O filho da senhora Emília levou um tiro na barriga, está a morrer. Ainda é parente e vamos ao hospital com os primos que vieram de Carviçais. Já puseram um biombo em volta da cama para que os outros doentes não se incomodem. Há ali um cheiro estranho. Escapo-me de mansinho.

Vou-me pela enfermaria e paro diante de um homem enrolado em ligaduras como uma múmia, buracos para os olhos, o nariz, a boca.
Queimou-se no trabalho, explica a mulher. Calma, como se fosse natural, segurando os gomos de laranja que ele não consegue chupar.
Volto à cama do moribundo. Meu pai esteve na morgue e, sussurrando, conta aos primos que viu braços e pernas em cima das mesas, pedaços de gente, cabeças, muito sangue.
Aquilo agonia-me, começo a chorar. Ele encara-me, franze o sobrolho, e para que a aflição me passe dá-me uma chapada.

 

sexta-feira, dezembro 2

Escolhas

 

Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-2018). Socióloga de renome e nos anos 60 catedrática na Sorbonne. Amiga desse tempo longínquo, partilhava então comigo o interesse pelos “Cangaceiros” e a invasão lusitana de Paris.
Ela contou e provavelmente esqueceu. Eu anotei para não esquecer.
Ambos no comissariado da polícia, esperando para renovar o visto de residência, o rapaz atreveu-se a falar. Depois –ao fim e ao cabo ela vinha de São Paulo, tão longe! – encorajou-se e convidou-a tomar um café, contou da sua vida:
- Quando estive em Lisboa a tratar dos papéis, ainda quis casar, mas a rapariga foi sincera, disse que gostava de mim, só que não podia, eu não era o primeiro. O patrão tinha-a desgraçado.
- Mas aqui em Paris, com tanta mulher… E bonitas!…
- Está enganada, minha senhora! Casar cá? Nunca! São piores do que as da rua! Vão com todos! Fazem tudo!...
- Mas na sua terra de certeza que há boas raparigas… Sérias…
- Pois há!... – e tristonho, baixando a cabeça – Mas envergonham-se! Não fazem nada!

 

quinta-feira, dezembro 1

O Douro já não é

 


Povoado de “rabelos”, escasso na largura, com gargantas fundas, a despenhar-se em cachões por entre penedias, e logo adiante espraiado em calmas de lagoa, um areal acolá, outro além - para quem o conheceu assim o Douro já não é.
O Douro das cheias, dos desastres, dos “rabelos” que descarregavam cordeirinhos nos Guindais para a festa joanina, os barqueiros a degolá-los ali mesmo, o sangue a escorrer nos degraus do cais – para quem o conheceu assim o Douro já não é.
O Douro dos “valboeiros” da carqueja, do carvão, o Douro das pipas de “vinho virgem”, o rio por onde viajavam os “saleiros”, o das pranchas a feder a piche na margem de Gaia, o Douro de Miranda, o da gente tisnada ao sol do Pocinho, do Pinhão, da Régua – para quem o conheceu nesse tempo, o Douro já não é.
Vê-lo modernaço e a enriquecer, torna em melancolia o que devia ser júbilo. O Douro já não é.