segunda-feira, janeiro 24

Longe demais

 Questão de boas maneiras, empatia, concordância de opiniões, num primeiro contacto oferece-se-lhes aquele intimidade espontânea que vem do coração. Alguns compreendem-no, reagem do mesmo modo, e assim nascem, senão amizades, pelo menos aquelas relações que tornam agradável a vida em sociedade.
Outros, porém, vêem na simpatia que inesperadamente recebem uma tibieza e, talvez por instinto animal, logo em coisas diminutas dão mostras de nos quererem torcer, dominar.
De começo envolvem as suas manipulações em sorrisos e cortesias, mas à medida que avançam permitem-se umas gotas de veneno, uns toques de sarcasmo, um arranhar de unhas. Até que ousam passadas mais largas: escreveste isto, era melhor teres escrito aquilo; fizeste assim, devias ter feito assado... É o momento de travar e, porque sempre vão longe demais, da irremediável separação.
- Mas vocês eram amigos!
- Penso que não.
A verdadeira amizade pressupõe ingenuidade e igualdade.

domingo, janeiro 23

"Shit! Fuck you! Oh my God!"

 

Para contar esta é preciso um cuidado quase igual ao do cirurgião, quando se prepara para cortar em partes frágeis do organismo humano. Um descuido no relato, uma pista dada por acaso, usar nomes ou situações que possam levar à descoberta das pessoas em questão, da geografia do local, as consequências ­seriam desagradáveis. Para o que relata, evidentemente, pois os participantes nem por sombras fazem ideia de que alguém se interesse pelo que lhes acontece, e ainda por cima tenha o descaro de testemunhar as situações com cara-de-pau, fingindo que não viu nem ouviu.

Digamos então que pode ser na Peneda, ou para os lados da Serra de Alvelos, um povoado com tão pouca gente, que quem se perder no caminho e por acaso chegue ali de certeza apanha um susto, como de certeza também será a tia Carmela o primeiro vulto que encontra, anciã que à presença de estranhos reage com faro de perdigueiro.

Sem que lho perguntem dirá que mais um ano e vai fazer noventa, é viúva há dezoito, tem um filho doutor em Lisboa e uma neta também quase doutora.

Dessa quase doutora se trata agora, desterrada para ali tempos atrás, por motivo de complicações que poderiam ter dado cadeia, não fosse o papá saber que cordelinhos puxar. Mas como o assunto não nos toca, passemos ao que aqui importa.

Que a moça é simpática, nada tola, está fora de questão, só que a  passagem abrupta do Restelo para um cu de Judas onde só estivera umas poucas vezes na infância, foi um choque de alto lá.

Choque maior sofreram-no a avó e a Rita, a solteirona que dela cuida, não se vá porém julgar que foi como alguns dizem, por andar de cuecas em casa, na rua, ou quando vai à vila, que isso também o vêem elas na televisão, mas porque responde a tudo zangada, parece do contra.

- E numa fala que ninguém de cá entende. E sempre aos berros! Até pro telemóvel!

sábado, janeiro 22

Linhas trocadas

 É uma suposição. Embora com capacidades primitivas, nós humanos funcionamos talvez como receptores de sinais, ideias e pensamentos cujos resíduos, à falta de melhor equipamento, processamos através do sonho e da fantasia.
Imaginemos agora que esses sinais, provenientes dum ou doutro remoto planeta, sofrem por vezes de trocas de linha (de onda?) e são recebidos pelo destinatário errado.
Não se poderia explicar assim o destrambelhamento que, sem razão visível às vezes sentimos, tornando-nos por instantes estranhos a nós próprios?

sexta-feira, janeiro 21

A morte dos outros

 

Ofereceram-mo sem intenção maldosa, mas na minha idade a leitura de Nada a Temer, de Julian Barnes, está longe de ser revigorante.

Vou a meio das duzentas e cinquenta e quatro páginas, e aquilo é morte pra aqui, morte pra ali, doença assim, invalidez assado, cadáveres, cenas tétricas, decomposições...

O passamento dos amigos de Flaubert, os cinco anos da agonia de Ravel, o enterro de Shostakovich em Veneza, o diálogo de Arthur Koestler com um aviador, o primeiro a dizer que não tinha medo da morte, mas medo de morrer, o outro a afirmar o contrário.

Sei agora que Gogol faleceu a gritar, Diaghilev desatou às gargalhadas, e Daudet ao terminar a sopa. É de esperar que a morte deste último tenha sido fulminante, porque os médicos "tentaram durante hora e meia (!) reanimá-lo, segundo o método então popular de tracção rítmica da língua.”

Se de facto não rio às gargalhadas, a verdade manda confessar que tenho sorrido. É que o relato da morte alheia oferece esse bizarro conforto: dá a impressão de que a nossa ainda vai demorar.