domingo, março 8

Vergonha


De si, a viver entre o Minho e o Algarve, ninguém espera que ao acordar, ou mesmo pelo dia adiante, se aflija com a situação da Pátria, pois são as voltas da vida quem estabelece prioridades. Uma vista de olhos ao jornal ou as notícias na televisão podem, um instante, picar-lhe a curiosidade ou arreliá-lo, mas logo depois o trabalho, a família, pesos e obrigações de toda a ordem se encarregam de envolvê-lo num manto que pouco tempo, e ainda menos apetite, lhe deixa para se preocupar  com "os interesses superiores da Nação".

Eleições também só há de longe a longe, e a vida, a verdadeira vida, não é a escolha de fantoches ou o medo do FMI, mas o preço do bacalhau, os problemas do colesterol, a hipoteca, o saldo no banco, os sapatos da Mariazinha.

O emigrante, falo por experiência, também não anda com as dores da Pátria às costas. Conseguiria até, dada a confortável distância da separação, olhar com certo desprendimento as peripécias da terra onde nasceu. Conseguiria, digo, mas não o deixam. A gente à sua volta constantemente o interroga, quer explicações, pasma-se, sem ironia, de que Portugal seja na Europa.

Perguntam-lhe, perguntam-me, como é possível os milhares de milhões que desaparecem sem rasto, a corrupção de cima abaixo, , os estádios faraónicos, o fausto dos políticos, as desigualdades de um Terceiro Mundo.

Perguntam de boa-fé e sem querer me envergonham, nos envergonham.

 

quarta-feira, março 4

Rebeldia

 

Aprecio os rebeldes inteligentes e consequentes. Freeman Dyson (1923-2020) é desses. Físico  famoso e respeitado, trabalhou com Niels Bohr, Oppenheimer, Bethe, Teller, Feynman, ocupou a cátedra de Física na Cornell University e no Institute for Advanced Studies de  Princeton. O politicamente correcto não é com ele. Numa  entrevista com o semanário neerlandês Elsevier tocou, entre mais, estes interessantes pontos que a seguir traduzo:

"Os efeitos do aquecimento global, segundo Dyson, serão mais vantajosos que prejudiciais. Os seus cálculos sobre o dióxido de carbono levam-no a concluir que: Muitos leigos crêem que esse gás na atmosfera resultará em séculos de desastre. Nada menos verdade. Uma molécula de CO2 permanece apenas sete anos na atmosfera, sendo depois absorvida pelos oceanos ou pela vegetação. É um equilíbrio muito dinâmico e totalmente ignorado pelo público.

Um facto matemático que também deveria ser mais conhecido, acha Dyson, é existir uma função logarítmica nos efeitos físicos do CO2. O que significa que quanto maior for o volume desse gás na atmosfera, mais diminuirão os seus efeitos. Do ponto de vista da sociedade isso é extremamente tranquilizante.

- É interessante  notar – diz o jornalista – que muitos (cientistas) cépticos acerca do aquecimento global são pessoas idosas. Porque será?

Dyson permanece calado alguns segundos, o seu olhar preso no do interlocutor:

- Os cientistas idosos são financeiramente independentes e podem falar com toda a liberdade… Fora de dúvida existe um lobby do clima. Há um vasto número de cientistas que ganha dinheiro assustando o público. Não digo que o façam conscientemente, mas é facto que muitos rendimentos provêm desse medo.

O presidente Eisenhower disse um dia que o poder dos militares em determinado momento se torna  perigoso, pois é tão grande. O mesmo se constata com o lobby do clima: com o poder de que dispõe torna-se perigoso."

 

terça-feira, março 3

Perdas e ganhos

A adolescência passou rápida, juventude creio que não tive, mas uma certeza vem-me de longe, a de que nasci idoso.

Digo isto porque é forte o contraste entre a minha precoce velhice e a benesse que tantos receberam e, mesmo no Outono da vida, lhes permite continuarem jovens.

Conheço alguns, mas são modorrentos, pois se mantêm dentro dos limites e respeitam as conveniências. Agradam-me mais certas senhoritas e muchachos da blogosfera, e de vez em quando, se se amontoam as nuvens do aborrecimento, faço-lhes uma visita, descubro nelas e neles como foi escasso o que tive, muito o que me faltou, mais ainda o que perdi.

Amordaçam-nos os medos, claro, a vergonha, as convenções, Deus nos livre de sairmos à rua com os nossos vícios e desejos, mas quanto sonho imberbe há por ali, quanto frenesim,  quanta impotência também. Namorados e namoradas, amantes, onanismo, s-m e orgias, tercetos, quartetos, não se me esbugalham os olhos porque tenho lido o preciso, há mais de setenta anos que vou ao cinema e vejo televisão desde os começos, mas que abano a cabeça abano.

Aliviado do aborrecimento e satisfeita a curiosidade, põe-se-me a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: será melhor não ter tido ou ter perdido?