segunda-feira, abril 20

A rosa dos ventos

 

"Tenho amigos da esquerda e da direita." Frase recorrente, tantas vezes lida e ouvida que involuntariamente lhe esqueço o significado e me ponho a magicar no que subentende.

Garantias não dá, cabe na mesma lista daquela outra, "também tenho amigos homossexuais",  a ênfase do também a reforçar a existência de uma imaginária virtude.

É coisa do princípio do meu mundo, a arrelia que tenho com a chamada classe média portuguesa, corpo social amorfo que por baixo toca o povinho, e na outra ponta se quer fidalga, esquecendo, ou ignorando, que o verdadeiro brasão não se herda nem se compra, ganha-se.

A essa classe de gente, que vai do Zé da Mouca a D. Francisco de Rodrigães Penha d'Alembourg e Castedo, pouco me custaria fechar os olhos à vaidade, à jactância, ao egoísmo de que dá  mostras e provas, à infantilidade do comportamento, ao grotesco da sua necessidade de imitar.

O que não lhe perdoo é a alma de merceeiro, o espírito mercantil, a escassez de vergonha, a  ganância de comer a dois carrilhos, a habilidade de ter amigos em todos os pontos da rosa dos ventos.

 

sábado, abril 18

Ler e não ler

 

Não será todos os dias, mas sei que, com atenção, lês Wittgenstein, São Tomás, Confúcio ou Abū ʿAlī al-Ḥusayn ibn ʿAbd Allāh ibn Sīnā, que também conhecemos por Avicena. Por isso te invejo, pois o que aprendi mal dá para seguir Platão ou John Locke, o pensador do verdadeiro ideal democrático, e que tanto contribuiu para impedir a criação de uma aristocracia na sociedade americana.

Outros, menos favorecidos, encontram benefício na leitura de policiais e histórias de amor, na Science Fiction de Asimov, no horror de Stephen King, nas produções da Chicklit, nos imbróglios de José Rodrigues dos Santos, e até relendo As Pupilas do Senhor Reitor ou soletrando o Borda d'Água.

Grande coisa, pois, é a leitura, mas também de variadas consequências, implicando por vezes nas relações, ou emitindo complicados sinais de antipatia, de descrença e aborrecimento. Acontece ao acaso das conversas, por vezes a encher um vazio ou mudando para assunto menos delicado, mas bom seria se evitássemos informar acerca das preferências e entusiasmos sobre o que lemos.

Sabendo-te assim íntimo na leitura de espíritos superiores, tendo-te tantas vezes ouvido citar Descartes, Aristóteles, Freud e outros génios, com a segurança que só a competência empresta, imagina que, pedindo mais um café, me sussurras quanto nos últimas dias te tem absorvido a leitura de, por exemplo, um romance de Óttar M. Norðfjörð.

Como sou razoavelmente capaz de ocultar o que sinto não arregalarei os olhos, nada nas minhas feições trairá espanto ou surpresa. Mas no fundo vou-me perguntar que sonhos escondes, que fraquezas e temores desejas que eu descubra através dessa retorcida prosa, onde é questão de nevoeiros e entranhas furadas, garrotes, quedas mortais nas brechas do Tungnafellsjökull, dentes cravados até ao sangue em gargantas alvas.

Essa é a tragédia. Não quero descobrir quem realmente és, nem sequer desejo que, pela retorcida indicação de uma leitura, me acenes um vício teu, um medo, um recalque. Disso te peço que dês conta: esconde as tuas leituras, fala-me apenas daquelas em que não corres o risco de te mostrar na fragilidade da nudez.

 

quarta-feira, abril 15

Gorjeios

 

Dizia o dicionário antes de ter chegado o fenómeno:

"Twitter1s. gorjeio; agitação; inquietação; algaraviada; estado nervoso.

2vi. gorjear, chilrear; falar excitadamente; estar nervoso." 

A você, que chilreia ao longo do dia, pondo o mundo ao corrente dos seus estados de alma em 140 caracteres, desejo longa vida e recomendo que estude Semiótica, pois o momento chegará em que mesmo o gorjear lhe vai parecer complicado e cansativo. Profetiza-se, aliás, que para o grosso da Humanidade, a que você agora pertence, o futuro está nos símbolos.

E a propósito daqueles 2754 amigos que tem no Facebook, sinceramente espero que se multipliquem, pois quantos mais amizades dessas tiver melhor se assombrará com o vazio que criou. Talvez então se dê conta que é hora de acordar.

Não lhe aconselho livros nem poemas, pois temo que para si já seja tarde, mas talvez ainda se possa despedir do autómato.

Volte a ser gente, reaprenda a língua que lhe ensinaram de pequenino, use a fala que Deus nos deu para que nos distinguíssemos do resto da Criação.