Meu caro Portugal,
Dizem-me que mais
uma vez está você em maus lençóis, mas essa é, creio, a opinião dos que o
conhecem mal a sua História. Tanto quanto sei, e para falar apenas da
experiência dos meus mais que muitos anos, você raro esteve em bons.
Recorda o que lhe
aconteceu depois dos Descobrimentos? Lembra-se do Volfrâmio? Tem presente como
há vinte e poucos anos se deixou ir no vigário de que para ser feliz e rico
bastava fazer-se pequenino e chupar as tetas da UE? Porque os gajos eram mesmo
burros e você esperto sem igual?
Que fez com os
milhares de milhões que lhe deram para que crescesse e melhorasse? Descanse,
não vou esfregar sal nas feridas, mas para quê esses estádios, essas inúmeras e inúteis Casas da Cultura em terra de analfabetos?
Não se envergonha do quarto miserável que em sua casa é o Nordeste
transmontano?
Deram-lhe fortunas
para aplicar no bem comum, gastou-as você, pobre novo-rico, em relógios de
ouro, Mercedes, Jaguars, e reformas milionárias, esquecendo que um terço dos
seus familiares não tem dinheiro para aquecer o lar no inverno, que são sem
conta os miseráveis, os desesperados, os que sofrem porque ninguém lhes acode
na doença e morrem sem amparo.
Entretanto, você,
meu caro Portugal, dança, esbanja dinheiro que não é seu, gasta em férias exóticas o sustento dos seus
filhos. Já alguma vez lhe passou pela cabeça que o que paga pelos almoços de gourmet
em restaurantes chiques é tirado da boca dos seus compatriotas?
E diga-me: que
cara devo pôr quando aqui onde vivo, sabendo-me português, me apontam e se
riem, me envergonham dizendo de si as verdades cruas? Já nem o comparam às
repúblicas bananeiras, que essas são de longe, não pertencem à Europa, mas
colocam-no numa categoria à parte, a dos trafulhas, (*) os que sabem
que um dia virá em que inevitavelmente se descobre a trafulhice, o que pouco
importa, porque lhes falta vergonha na cara e outros terão de pagar o
desfalque.
Poupo-lhe o que me
contam da sua Justiça, da suas autoridades, das camarilhas e quadrilhas que,
fingindo governá-lo, lhe sugam o que tem e o que lhe emprestam.
Para mim, meu caro
Portugal, e isso desde que nos conhecemos, você sempre foi uma dor. Mesmo
naquele momento de euforia dos cravos não pude esquecer quem você é e como
sempre se comporta. Quer acreditar que não dei vivas? Em coisa de meses já as
quadrilhas e as camarilhas se deitavam ao bolo, deixando ao povo dois ossos: o
da democracia e o da liberdade, ambos fraco sustento para quem tem fome.
Muitos anos
passados, com um humor que escondia o pesar, sugeri que, para o salvar de si
próprio, um consórcio de nações o comprasse e transformasse numa reserva.
Mas nesta altura creio que ninguém o quererá, mesmo dado. Teremos de continuar
a suportá-lo nós, seus maltratados e desprezados filhos, da mesma maneira que
fazemos há séculos: mourejando no chão de pedras ou indo amargar em terra
alheia.
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(*) The Garlic
Belt (A Zona do Alho) em europês.