terça-feira, março 3

Perdas e ganhos

A adolescência passou rápida, juventude creio que não tive, mas uma certeza vem-me de longe, a de que nasci idoso.

Digo isto porque é forte o contraste entre a minha precoce velhice e a benesse que tantos receberam e, mesmo no Outono da vida, lhes permite continuarem jovens.

Conheço alguns, mas são modorrentos, pois se mantêm dentro dos limites e respeitam as conveniências. Agradam-me mais certas senhoritas e muchachos da blogosfera, e de vez em quando, se se amontoam as nuvens do aborrecimento, faço-lhes uma visita, descubro nelas e neles como foi escasso o que tive, muito o que me faltou, mais ainda o que perdi.

Amordaçam-nos os medos, claro, a vergonha, as convenções, Deus nos livre de sairmos à rua com os nossos vícios e desejos, mas quanto sonho imberbe há por ali, quanto frenesim,  quanta impotência também. Namorados e namoradas, amantes, onanismo, s-m e orgias, tercetos, quartetos, não se me esbugalham os olhos porque tenho lido o preciso, há mais de setenta anos que vou ao cinema e vejo televisão desde os começos, mas que abano a cabeça abano.

Aliviado do aborrecimento e satisfeita a curiosidade, põe-se-me a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: será melhor não ter tido ou ter perdido?

 


domingo, março 1

O invejoso

 

Em cada geração da intelectualidade há sempre um curioso tipo: o invejoso. Perito na delicada arte de montar a sua reputação, enciclopédico nos interesses e no conhecimento, dotado de algum talento e cautelosamente arrimado ao Poder, cria ele fama e proveito de autoridade.

Manuseia com perícia a dosagem de cumprimentos, torna-se reverente para com o jovem poeta, aplaude o obscuro romancista que descobriu na Roménia, e assim vai elevando a própria estátua.

Anuncia urbi et orbi as suas andanças e raro passa ano em que, ora poesia, ora romance ou ensaio, não publique livro seu. Por vezes mais que um. Toda a gente o conhece, ninguém o lê, mas nunca ferra nem se agita, que isso são modos de que no Olimpo se desdenha.

Secretamente, porém, a sua vida é um inferno, pois dotado de inteligência e perspicácia ele sabe como poucos distinguir o trigo do joio. E sofre. E inconscientemente revela a inveja que o mortifica: quando enfrenta ou descobre noutro verdadeiro talento, bem podem tocar alto as trombetas, a sua ficará no saco.

 

 

sexta-feira, fevereiro 27

Misantropia

Posso ser um misantropo que se ignora, mas de verdade sou pouco dado à convivência social. Não que me escasseie o interesse pelo semelhante e o gosto da conversa, mas desespero quando, passado o intróito dos bons modos, em vez de uma troca de impressões, ideias ou experiências, me vejo a soprar vento e a receber baforadas de banalidade.

Daí que pronto me fatiga o trato e acho conforto na solidão. Perco assim o ensejo de encontrar mais gente interessante, e aprender o que não sei, mas feito o balanço tenho de concluir que, na vida que levo, a probabilidade de conversas excitantes iguala a sorte de encontrar no clássico palheiro a perdida agulha.

Há ainda o cansaço. Bom número de almas parece insensível ao facto de usar os argumentos com impacto igual ao do aríete nas guerras antigas, mais a agravante de que dominam a arte da fala sem pontos nem vírgulas.

Contudo, e isto dito, não são elas e eles que têm de mudar. Eu é que, mea culpa, devia aprender melhor  as andanças do mundo.

 

quarta-feira, fevereiro 25

Admiração

 

Estou no  mundo, aceito o geral das regras da vida em sociedade, mas no contacto directo com o semelhante o meu comportamento deixa por vezes a desejar. Ou porque emitimos em ondas diferentes, os caracteres se desajustam, ou fala cada um em sua "língua", uma conversa comigo pode descambar em irritação.

Falávamos de literatura, influências, estilos, leituras feitas, quando com genuína curiosidade e simpatia, a senhora disparou:

- Quais são os escritores que mais admira na literatura portuguesa contemporânea?

- Nenhum.

Tive a impressão de vê-la recuar, chocada com a bruteza, a falta de tacto, e o meu descaso pelas regras da conversa.

Ela esperava nomes, e mais tarde, tentando apaziguar-me, falou da inevitável Agustina, de Saramago, do Vergílio, enquanto que a minha cabeça, desinteressada das várias famas, continuava presa ao significado da palavra e ao sentimento de admiração.

Evidentemente há colegas que leio com interesse e simpatia, mas, oficial do mesmo ofício, a leitura que deles faço tem exigências que o leitor comum dispensa. Respeito-lhes o trabalho, sim, louvo-lhes o esforço – porque esforço é – a persistência, a coragem e a teimosia. Gostaria de vê-los remar mais contra a maré? Pois gostaria. De ver menos a sacrificar às modas? Seria bom.

Mas se respeito e louvor é coisa para muitos, o merecimento de admiração, de verdadeira admiração, cabe a poucos, todos mortos, facilmente se lhes faz a lista.