segunda-feira, abril 27

A técnica do beijo


Aos quinze anos a primeira namorada, a descoberta das carícias, das tremuras pelo corpo, a febre, os arrepios, o primeiro beijo.

Dias depois, a fumar num banco de jardim, ela disse aquilo com a naturalidade, o sorriso e o  modo desprendido de quem assinala uma ninharia:

- Não sabes beijar.

O verdadeiro choque viria mais tarde, mas de momento atirou com o cigarro, puxou-a contra si, como se quisesse grudá-los apertou os lábios contra os dela, ficaram assim até que a rapariga, zangada e estrebuchando, se libertou.

O boato tinha corrido, e das namoradas que a seguir teve, se uma ou outra se mostrou discreta, as mais não demoravam a censurar-lhe a ignorância e a falta de jeito.

Quente do sangue, caridosa de feitio, Luísa, mais velha um ano, mais alta um palmo, chamou-o uma tarde para um sessão de apalpões e, agradecida, disse que lhe ia ensinar como se beijava.

Ensinara uma dúzia de vezes, mas foi pena perdida, o trauma ficou. Com o correr do tempo, estrangeiras engatadas na praia, às vezes colegas, ligações de acaso, bar flies, acompanhantes para matar a solidão nas noites de hotel, mesmo as que se calavam lho faziam sentir, afastavam os lábios, algumas  escondendo discretamente o desagrado.

Já lhes tinha nascido o segundo filho quando uma noite, ambos a ver na televisão um filme em que Gwineth Paltrow era lenta, mas fogosamente, beijada pelo comparsa, é que a mulher, acendendo outro cigarro, o encarou sorrindo e disse:

- Este sabe beijar.

- E eu não sei?

- Não, querido. Não sabes - e num gesto carinhoso tinha-lhe passado o braço pelo ombro, depois fora buscar mais gelo, enchera de novo os copos.

 

 

domingo, abril 26

Raiva e amargura

Quanta raiva e amargura corre por aí, quanta danação, pragas, insultos, tanta certeza vã de que estes fazem mal, os outros fizeram bem, só a vitória do nosso clube é gloriosa, justa, porá isto direito, a funcionar como deve.

Já os de ontem o disseram e os de amanhã dirão o mesmo, como em todos os tempos o dizem os tolos, os mesquinhos, os do venha a nós, nunca a eles.

E eu, que não visto camisolas, não dou vivas nem morras, só tenho a bandeira da terra em que nasci e onde pertenço, olho em redor abismado com a malvadez, a estupidez, a ignorância que cega, o fanatismo que destrói, a impotência do ódio.

Assusta-me o modo como a minha gente julga esconder o pavor que sofre, imitando raivas e desdéns, sabendo que no fundo, bem no fundo, o que a atormenta são as incertezas, as incógnitas, a insegurança, a vontade de ter um futuro mas querê-lo único, bom, apenas seu, como se jamais tivesse sido possível fugir à realidade numa ilha, ou escapar ao mundo por detrás de muralhas.

 

 


sexta-feira, abril 24

Corno e contente

Uma garrafa de Ouzo, a recordação disto e daquilo, o conhecido sentimento de como o tempo passa e tudo muda, antes de dar conta põe-se a gente a efabular.

"Corno e contente" era expressão que punha ferrete naquele que, por razões suas, aceitava a infidelidade da cara-metade. Sou desse tempo. Mas como disse atrás as coisas mudam, e muito. Apareceu a pílula, vieram outros costumes, outras moralidades, outras liberdades, maiores licenças, desejos de novidade, experiência, mudança, Deus sabe que mais.

Voltaram de um mês de férias em Creta e, para ajudar a conversa, trouxe ele uma garrafa de Ouzo. Desagrada-me o sabor, mas tenho feito sacrifícios maiores, lá fomos bebendo, ele a contar como se tinham divertido, a contar do sol, e das praias, e dos restaurantes, do souvlaki, se eu por acaso já tinha comido dolmadakia, e assim por diante, até que chegámos ao fim do Ouzo e propus continuarmos com um tinto australiano que vale mais que os seis euros que custa.

A encher um vazio na conversa perguntei-lhe se a Regina estava bem, se também tinha gozado as férias, ao mesmo tempo a visualizar-lhe involuntariamente as formas e a perguntar-me se…

Mas já ele informava que sim, tanto que resolvera ficar mais umas semanas. Porque, eu com certeza sabia, em nova tinha vivido em Creta, os dois filhos eram do grego com quem acasalara e todos os anos visitavam. Davam-se muito bem, havia muita harmonia, compreensão de parte a parte.

Não sei o que a iluminou, mas nesse instante vi a expressão como que projectada em maiúsculas num ecrã. Depois achei feio deixar-me arrastar pela ideia. Corno e contente? Não. São os tempos. Eu é que vivo noutros que há muito passaram.