domingo, abril 12

Bonzinho

 

Descobri que era tímido por volta dos oito ou nove anos, ao ouvir minha mãe dizer a uma vizinha que eu era "bonzinho".

Pelos jeitos aquele "bonzinho" era o nome colectivo para os meus temores, vergonhas, acanhamentos, e o mais que me levava a baixar os olhos, tremer, fechar a boca, punha depois em estado cataléptico e com vontade de sumir.

Já adulto, muitas vezes tive de respirar fundo e, como se o fizesse a um terceiro,  dar-me mentalmente empurrões para ser capaz de subir a um pódio e falar a um público, pois a vontade que tinha era de esconder-me ou deitar a fugir.

O tempo e a experiência foram pouco a pouco diminuindo o meu acanhamento, mas só passados os sessenta me vi definitivamente livre dele. Grande alívio. Já não tropeço no hall dos hotéis, converso nas festas, não gaguejo nas entrevistas, não coro quando se me dirigem, vivo sossegado, senhor de mim, jamais fama, autoridade ou poder me fará baixar os olhos ou arrepiar caminho. Finalmente sou como deveria ter sido desde menino, deixei de ser "bonzinho".

 

quinta-feira, abril 9

A brasa e a sardinha

Neste nosso tempo e sociedade, não há lugar para Eças ou Fialhos. São tudo punhos de renda, unhas cortadas, garras de sardão, entreténs com licenciaturas Express e engenharias domingueiras, fúrias que duram enquanto dão proveito.

A fingir de esquecidos, como se os mandantes tivessem nascido no berço do Poder, estejam lá por acaso, e não pelo empurrão do voto.

É bonita a virtude, e dói pagar as favas, mas nas horas mortas cada um sabe a quem e por quê deu o voto, os favorzinhos que esperava, as cunhas que meteu, os joelhos que dobrou, as bofetadas que ia dar quando os "seus" ganhassem.

Todos juntos somos o país, má sorte é querer a maioria puxar a brasa para a sua sardinha, e mandar o gato comer a do vizinho antes que ele a asse.


segunda-feira, abril 6

Paz de alma

 

Se olho para trás, os primeiros cinquenta anos da minha vida foram de grande agitação, os últimos trinta uma pasmaceira. Tenho eu saudades da turbulência? Não tenho, porque muitas vezes me levou àquelas situações de cara ou coroa em que o destino se joga, e se dalgumas saí a ganhar e noutras fiquei no empate, as que foram quase quase deixaram-me com adrenalina bastante para que, desde então, dispense a busca de emoções ou riscos.

Claro que nesta idade, dirão os inexperientes, emoções só as devo esperar das consultas ao médico ou dos exames no hospital, e o risco maior, se não for a passadeira da rua, virá dalgum trambolhão.

A vida, felizmente, desconhece regras e certezas. O amor não precisa de desaparecer com os anos, a verdadeira amizade resiste aos embates, carinho e simpatia há às mãos-cheias, do sorriso da criança ao desabrochar da flor e à luz da manhã, sobram as razões de alegria.

Assim, ao contrário do que você pode imaginar, a pasmaceira em que vivo não é um nevoeiro de aborrecimento ou o melancólico aguardo do último sopro, mas a paz de alma de quem conseguiu saltar do comboio antes dele se despenhar.