quarta-feira, julho 6

O Vampiro de Curitiba


 

(Isto é de 2 de Janeiro de 2012, mas o acaso quis que no domingo desse com O Vampiro de Curitiba e não resisti, leio-o pela terceira vez)

Comecei bem o ano e dando-me conta de que a surdez é incómodo, mas também benefício. Enquanto à meia-noite tudo eram berros, foguetes e descargas de escopeta, estava eu no quente, a reler consolado O Vampiro de Curitiba.

A primeira leitura, há quarenta e pico anos, deixou impressão forte. A de agora, à luz de mais quatro décadas de vivências, tocou a campainha de alarme e, pudesse eu, saía à rua com um cartaz: Proíbam este livro a menores de quarenta anos!
De momento não recordo personagem que nas muitas e complicadas andanças do sexo, do desejo, da luxúria, do desencanto pré e pós-coital, alcance a triste e trágica comicidade de Nelsinho.
Ele é todos nós, os que viemos depois de Adão e os que nos sucederem. Ele é o que vai para a cama nu, mas ainda com as peúgas e os sapatos. Depois, "Sentado, deixou-se abraçar pela velha; foi beijar a bochecha rechonchuda e arrepiou caminho – uma grossa verruga no queixo, três cabelos crespos que nem mola de relógio".
Nelsinho, pobre Nelsinho, retrato de tanta paixão imerecida, das más horas que deixam cicatrizes - " riscou-lhe nas costas a unha afiada – a do mindinho mais longa" - dos dolorosos  e inesquecíveis diálogos  que atormentam a vida inteira.
"Bem o marido tinha razão: a maravilhosa roupa de baixo - sedas e rendas! Aos beijos de pé. Aos beijos, sentados no sofá. Deitados no tapete, rolando.
- Quer que morda ou beije?
- Sim.
- Beije ou morda?
- Sim. Ai, sim. Ai. Sim.
- Abra o olho.
- …
- Gema comigo, anjo. Agora.
O herói gemeu. Ela o acompanhou em tom mais baixo."
- Ai, ai. Eu morro.

A sério: proíbam a leitura de Trevisan a menores de quarenta anos. Homens ou mulheres.

terça-feira, julho 5

Adiar a despedida

 

Cada um sabe de si, mas quantas serão as formas do adeus? Que laços se quebram com um simples desviar de olhos, a palavra que se não profere, a falsa promessa que se faz porque a coragem não chega para aceitar a despedida? Forma triste, essa de calar o evidente, a da falsa esperança, o adiamento que nada resolve.

Ele sabe que perdeu, no íntimo já se conformou, mas nem a si mesmo o confessa. E  espera, sabendo que não deve esperar, que ganhou o que era melhor não ter ganho, recusa a perda como se o destino e a vontade alheia lhe devessem obediência.

Não aprendeu ainda que adiar a despedida aumenta o sofrimento.

 

segunda-feira, julho 4

Ver em grande


Há cerca de duzentos anos que a intelectualidade portuguesa demonstra grande interesse pelo estrangeiro. Até aos anos 70 do século passado a França – valha-nos aqui a recordação de Mao-Tse-Tung – era o grande timoneiro do pensamento, das artes e da literatura nacional, o espelho onde se ansiava ver reflectida uma imagem que num e noutro caso correspondia aos sonhos, mas de modo algum encaixava na realidade.

Porque não era feita à nossa medida, e de empréstimo, a fatiota, além de nos ficar curta nas mangas, como apontou uma figura célebre, tolhia-nos o andamento, impedindo-nos de ir além da imitação.

O 25 de Abril, e uma dezena e pico de anos depois a mão que nos estendeu a Europa, puseram fim à antiga subserviência às ideias de França, dando lugar a um não menos servil anseio de visão global, idêntico ao que os psiquiatras constatam nos indivíduos que querem e não podem, e em linguagem corrente se chama a mania das grandezas.

Desse modo, em tudo o que é meio de comunicação abundam os explicadores, que com imitada ciência e pose de seriedade, esmiuçam os arcanos da finança, as razões da política internacional, os desmandos da economia grega.

O próprio, o necessário, o de casa, pouco ou nada lhes interessa. Em vez da lupa preferem o telescópio.