terça-feira, maio 24

Para onde?

 


Há quem alimente a ilusão de que a vida se assemelha a uma estrada, os avisos a anteceder as curvas perigosas, os declives anunciados em percentagens, os cruzamentos assinalados, nos miradouros sempre bela a paisagem.

E então, iludidos pela própria ingenuidade, há os que se julguam capazes de na estrada, como na vida, indicar aos outros o melhor percurso, prever as curvas, os obstáculos, aconselhar paragens e cuidados. Pena perdida. Muito pouco, quase nada, valem os avisos e as boas intenções dos que nos querem proteger. Para a vida tão-pouco há mapas, instruções ou programas, mesmo à luz do dia cada passada é dada no escuro, nunca se sabe se virar à direita é melhor do que à esquerda, se seguir em frente é erro.

Felizmente vamos andando, cegos de olhos abertos, contentes de que as pernas nos levem, iludidos de que sabemos para onde.

 

domingo, maio 22

O casaco de galões dourados

Chegando ao que se costuma referir como idade avançada, no meu caso passados os noventa, as memórias sofrem por vezes uma distorção. Assim acontece que quando lembro o Dino pela última vez que o encontrei, revejo sempre o estranho janota que tinha sido, pois numa aldeia onde as calças grosseiras de burel eram a norma, vestia ele umas de fazenda, que embora remendadas o distinguiam, um pouco à maneira de um inesperado homem da cidade.

Diferente era também o seu calçado, porque se todos usavam botas cardadas, a ele viam-no aos domingos e dias de festa com uns sapatos pretos, que davam nas vistas pelas pontas, afiadas à maneira de bicos de pássaro, mas mais ainda por em tempos distantes terem sido de verniz.

Como se essas bizarrias não bastassem para o distinguir, na festa do padroeiro completava ele a vestimenta domingueira com um casaco de riscas azuis, vermelhas, castanhas, brancas,  galões de borlas douradas, medalhas e sobra de pingentes. Já com muito uso, esse extraordinário casaco mandara-lho o seu único parente, um primo  que vivia na África do Sul, como testemunho de que tinha subido na vida, e folgadamente ganhava o pão a tocar numa banda de música.

O que segue ouvi-o, pois já então vivia longe, mas o testemunho é fiel. Sentindo o fim próximo, o Dino fez saber que quando fosse a enterrar, das calças ou dos sapatos não fazia questão, mas casaco teria de ser aquele, pois nunca tinha visto um mais bonito.

Faleceu, e porque já não tinha parentes dividiu-se a aldeia, uns achando que se devia respeitar a sua vontade, a outros parecendo falta de respeito aparecer assim diante do Senhor.

Ganharam estes últimos com apoio do padre Vítor, que meses depois teve um ataque e ficou entrevado. Uns diziam que era porque tinha de ser, os outros calavam-se, certos e seguros de que Deus não dorme.

sábado, maio 21

Voltará a acontecer

 

Ontem foi assim, e voltará a acontecer. Às vezes dura apenas um instante, mas ensombra que uma resposta, um jeito, um gesto, bastem para sentirmos que diminui uma simpatia, se perde uma amizade. E nos deixar sós, quando tanto precisávamos do abraço e da certeza de que podíamos partilhar a nossa aflição.