terça-feira, setembro 27

Lero-lero


O questionário é duma revista literária e compõe-se de perguntas assim: Donde lhe vem a inspiração? Quais os temas que prefere tratar? Como escreve? Tem um lugar preferido para escrever?...
A minha pobre cabeça mói e remói ideias que não valem um chavo, para finalmente, exausta, pegar numa sem saber se é a pior ou a melhor. Será isso inspiração? Não me parece. Para os temas a mesma coisa. Como escrevo? Com um computador. Lugar preferido? Não. Devido ao acanhado espaço o computador está num canto, e é aí que tenho de me sentar.
Que esperam de mim? Manias? Comportamentos bizarros? Fetichismo?
Tudo o que se relaciona com a minha escrita é prosaico, trabalho de artífice, não conhece romantismo nem elevação. Por conseguinte, e para não desiludir ninguém, é melhor não preencher.

segunda-feira, setembro 26

Boa escolha

 

“Better be a fake somebody, than a real nobody.”

 

domingo, setembro 25

Um arroz de miúdos

 

Falarmos dos outros é, por vezes, um modo esquivo de falarmos de nós próprios, diminuindo assim o perigo de, como diz o Basílio Pontes, ficarmos de careca à mostra ou se nos vejam os “pordentros”, vocábulo que os dicionários ignoram, mas a sua avó materna usava, umas vezes para descrever as entranhas dos frangos que ia cozinhar, aludindo noutras a raivas mais fundas, as que além dos apertos no peito nos mexem com as entranhas e causam azedia.

Jovem de cinquenta primaveras, é o delfim do grupo de octogenários que somos, e nos esforçamos, não só por manter a saúde, mas fazer quanto podemos para acompanhar as desconcertantes, e muitas vezes desnecessárias, mudanças de tudo e mais alguma coisa.

Diverte-se o Basílio a, como ele malicioso afirma, nos surpreender com a “marcha atrás”, nome que dá ao seu maníaco hábito de, nem sempre a propósito e por vezes errando no sentido, polvilhar o que diz com arcaísmos e provincianismos.

Se estamos na esplanada do “Chiquinho” e vem a passar uma desconhecida jeitosa, piscamos o olho uns aos outros, porque não falha: o Basílio olha-a de cima a baixo, sorri, encara-nos e decide: - Aposto que é teúda e manteúda!

Cansativa, porque abusa, aquela sua maneira leva por vezes a inesperadas consequências, já que a maioria sofre de surdez e, verdade se diga, também nem todos têm conhecimentos bastantes para apreciar - talvez seja mais acertado dizer suportar – as boas intenções do nosso jovem camarada, em nos querer manter ao corrente do seu fascínio pela língua portuguesa.

A mistura de surdez e distração resultou ontem num desagradável quiproquó. O Benjamim elogiava o delicioso sabor do arroz de miúdos que a avó fazia, quando o Lousa, surdo e confuso, ao ouvir “miúdos” arregalou os olhos e furioso pôs-se em pé. Devíamos ter vergonha! Estando ali não admitia porcarias!

 

 

 

sábado, setembro 24

Rogai por nós

 

Desde pequeno ensinaram-me a crer em Deus, Jesus Cristo, na Virgem e nos santos. Falaram-me de mistérios, de milagres, da Santíssima Trindade, do Sagrado Coração, de Lourdes e de Fátima. Ao mesmo tempo ensinaram-me a rezar, o que durante anos fiz com o automatismo da inocência.
Depois, sem de todo perder a fé, vivi longos períodos em que as relações com a divindade se me tornaram nebulosas, tal um hábito perdido que vagamente se recorda. Como houve também alturas em que, sem outra porta onde bater, a aflição e o desespero me levaram a orar.
Hoje, com a calma que a idade empresta e a perspectiva do fim próximo, retorno à candura inicial, mas agora despojada do que acho supérfluo.
Creio em Deus. O resto - Jesus, Virgem, profetas, santos, milagres e mistérios... - parecem-me atributos, folclore, perturbam a minha concepção do Criador Uno e Todo-Poderoso.
A Bíblia não a tenho por livro sagrado, sim como documento histórico. Cristianismo, Budismo, Islam, essas e as mais religiões, olho-as com o respeito que merecem os fenónemos de massa milenários, e a perplexidade de que continuem a ser causa de tantos horrores. Os templos interessam-me pela sua arquitectura, os rituais pelo seu colorido. E como na teologia não encontro certezas, somente interpretações e suposições, vejo-me a sós com Deus e debato-me com o problema da oração.
Os padre-nossos que dizia como um autómato, deixaram de satisfazer a minha vontade de comunhão, e não resistem às dúvidas que me ponho, nem à análise do texto.
“Venha a nós o vosso reino” - mas haverá nele também o mal, a crueza e a desigualdade que nos afligem neste em que estamos?
“Seja feita a vossa vontade” - então de nada adianta esforçar-me por um objectivo, querer seja o que for, pedir seja o que for. Aceitar que a Sua vontade seja feita parece contradição, pois desdenha das qualidades que Ele próprio me deu para viver e sobreviver, faz de mim um títere, condena-me a um existir fatalista.
Assim cheguei à fase em que as minhas orações, despidas do supérfluo, traduzem apenas um sentimento de fé, comunhão e humildade. Creio em Deus Padre, Todo-Poderoso. Digo-o de olhos fechados, e esforço-me por não desesperar da minha insignificância e do vácuo que sinto.