sábado, fevereiro 1

Os sarilhos da igualdade


Antigamente nem por sombras lhe passaria pela cabeça semelhante ideia, porque além dos tempos serem outros havia mais respeito, outras maneiras, ninguém em seu juízo iria de caras ao presidente, a um ministro, ou mesmo ao presidente da câmara com perguntas, num tu cá tu lá que só com os amigos se tem. Mas enfim, tudo muda, muitas coisas de que ainda há pouco não se podia falar agora tem de se fazer de conta que se aceitam, que gostamos todos do mesmo, é bom assim, somos todos iguais.
Infelizmente não somos, mas isso é assunto em que deixou de mexer pois sabe no que dá, que por um nada se criam sarilhos, basta lembrar-se da trapalhada no Verão passado quando a pequenita do Cardoso vinha da praia queimada do sol, ele disse que parecia uma mulatinha e a mãe desatou aos berros, que não aceitava discriminações, a acusá-lo de racista e se calhar até era do Chega.
Por essas e por outras mesmo com os da sua idade cada vez se abre menos, já não é como antigamente quando dava gosto discutir e ver cada um a defender as suas ideias. Por isso fecha-se em copas, não lhe venham pedir opinião porque encolhe os ombros, mas é aparência, ferve por dentro com uma raiva que dantes não sentia nem sabe como descarregar. E pode ser que sim, que esteja a ficar racista sem se dar conta, pois já não é só questão de não se gostar de pretos, chineses ou ciganos, racista serve para o que cada um quer, as palavras são etiquetas, colam-se onde derem mais jeito.
Quando está com os amigos, se a conversa azeda e sente que vai pisar o risco, não tem problema vira-lhes as costas, mas em casa ou quando a família inteira se junta para o almoço no último domingo de cada mês, às vezes é como se houvesse ali uns cartuchos de dinamite:  todos a pensar o mesmo e com medo que algum se distraia, use a palavra errada e deite fogo ao rastilho. Parece que falam de tudo mas são nuvens de fumo, um faz-de-conta, quando se riem das mariquices do “Gaivota” do rés-do-chão é como se o Carlos não estivesse também à mesa, ficam nuns risinhos patetas a olhar uns para os outros, sentindo que a coisa está por um fio, vai dar bronca.
Ao fim é sempre ele quem despoleta a bomba, às vezes com uma anedota ou então com recordações dos anos de Salazar quando tudo era proibido, e eles riem ou fingem que se admiram de como era a vida num tempo que não conheceram, mas no íntimo pergunta-se se continuará a ter paciência ou um destes dias acaba com a comédia, chama os bois pelos nomes e eles que se arranjem.