sábado, abril 18

Ler e não ler

 

Não será todos os dias, mas sei que, com atenção, lês Wittgenstein, São Tomás, Confúcio ou Abū ʿAlī al-Ḥusayn ibn ʿAbd Allāh ibn Sīnā, que também conhecemos por Avicena. Por isso te invejo, pois o que aprendi mal dá para seguir Platão ou John Locke, o pensador do verdadeiro ideal democrático, e que tanto contribuiu para impedir a criação de uma aristocracia na sociedade americana.

Outros, menos favorecidos, encontram benefício na leitura de policiais e histórias de amor, na Science Fiction de Asimov, no horror de Stephen King, nas produções da Chicklit, nos imbróglios de José Rodrigues dos Santos, e até relendo As Pupilas do Senhor Reitor ou soletrando o Borda d'Água.

Grande coisa, pois, é a leitura, mas também de variadas consequências, implicando por vezes nas relações, ou emitindo complicados sinais de antipatia, de descrença e aborrecimento. Acontece ao acaso das conversas, por vezes a encher um vazio ou mudando para assunto menos delicado, mas bom seria se evitássemos informar acerca das preferências e entusiasmos sobre o que lemos.

Sabendo-te assim íntimo na leitura de espíritos superiores, tendo-te tantas vezes ouvido citar Descartes, Aristóteles, Freud e outros génios, com a segurança que só a competência empresta, imagina que, pedindo mais um café, me sussurras quanto nos últimas dias te tem absorvido a leitura de, por exemplo, um romance de Óttar M. Norðfjörð.

Como sou razoavelmente capaz de ocultar o que sinto não arregalarei os olhos, nada nas minhas feições trairá espanto ou surpresa. Mas no fundo vou-me perguntar que sonhos escondes, que fraquezas e temores desejas que eu descubra através dessa retorcida prosa, onde é questão de nevoeiros e entranhas furadas, garrotes, quedas mortais nas brechas do Tungnafellsjökull, dentes cravados até ao sangue em gargantas alvas.

Essa é a tragédia. Não quero descobrir quem realmente és, nem sequer desejo que, pela retorcida indicação de uma leitura, me acenes um vício teu, um medo, um recalque. Disso te peço que dês conta: esconde as tuas leituras, fala-me apenas daquelas em que não corres o risco de te mostrar na fragilidade da nudez.

 

quarta-feira, abril 15

Gorjeios

 

Dizia o dicionário antes de ter chegado o fenómeno:

"Twitter1s. gorjeio; agitação; inquietação; algaraviada; estado nervoso.

2vi. gorjear, chilrear; falar excitadamente; estar nervoso." 

A você, que chilreia ao longo do dia, pondo o mundo ao corrente dos seus estados de alma em 140 caracteres, desejo longa vida e recomendo que estude Semiótica, pois o momento chegará em que mesmo o gorjear lhe vai parecer complicado e cansativo. Profetiza-se, aliás, que para o grosso da Humanidade, a que você agora pertence, o futuro está nos símbolos.

E a propósito daqueles 2754 amigos que tem no Facebook, sinceramente espero que se multipliquem, pois quantos mais amizades dessas tiver melhor se assombrará com o vazio que criou. Talvez então se dê conta que é hora de acordar.

Não lhe aconselho livros nem poemas, pois temo que para si já seja tarde, mas talvez ainda se possa despedir do autómato.

Volte a ser gente, reaprenda a língua que lhe ensinaram de pequenino, use a fala que Deus nos deu para que nos distinguíssemos do resto da Criação.


terça-feira, abril 14

Avôs e netos

 

Para todos é diferente, mas falo por mim, sei do que falo: o que mais pesa no que emigra não é a saudade, a receosa excitação do desconhecido, o largar de amarras.

O que mais pesa nele, e sentirá como quem se afoga, é o medo, o estranho medo que mais tarde, quando por vezes, se julga a salvo e protegido, inesperadamente o toma: compreende mal a língua ou desconhece-a de todo, lê nos olhares e nos modos o que preferiria não descobrir, sente que involuntariamente se dobra, se esconde, torna pequeno, chora lágrimas que ficam dentro.

Tem horas de revolta, mas só mais tarde saberá que essas também lhas causa o medo, o medo em infindas versões: a de perder, de falhar, da vergonha, do desespero, da desigualdade, do insulto, do erro que lhe apontam e ele não compreende que cometeu, do modo que não tem, daquilo que dele esperam e não pode, não sabe dar.

Mudaram muito, e felizmente, os tempos. O António, o Miguel, o Fernando, a Isabel e a Georgina, que agora emigram, não o fazem como os avôs, de quem eu um dia escrevi:

" Vão a pé, como em todos os êxodos trágicos, morrem às dezenas nas águas do Bidassoa, entre a Espanha e a França; morrem de fome e de frio nas neves dos Pirinéus, onde alguns se metem sozinhos, na esperança de passar, outros abandonados pelos guias a quem tinha pago.

Aldeias inteiras esvaziam-se. Os homens partem noite escura, com medo das denúncias, alguns nem se despedindo dos familiares, levando na mão o pouco que lhes pertence. Às vezes em grupos de quinze, vinte, apalavrados com o engajador, no lado espanhol da fronteira são apanhados por um camião e, deitados no meio da carga, fazem a viagem até aos arredores de San Sebastián. Depois, a pé, atravessam os Pirinéus, e de novo um camião com fundo falso que os leva a Paris."

Paris! A segunda cidade de Portugal, mais de 600.000 portugueses entre os seus habitantes."

Esses jovens que aqui em Amsterdam agora encontro, vieram de avião ou de comboio, no carro de amigos, o seu futuro será outro, talvez menos duro, quiçá mais trágico, porque é maior e diferente a sua esperança.

Vejo-os e oiço-os no supermercado, nas lojas, nos cafés. Espio-os. Julgam-se a salvo e que ninguém lhes entende a língua.

"Olha prò filho da puta! Viste as mamas da gaja? Dás um empurrão ao velhote e ele espalha-se. Tanto pretinho, pá! Eu a julgar que estava na Holanda."

Não me dou a conhecer. Registo, não censuro. Os avôs não podiam, não sabiam falar assim, olhavam e calavam.

Os netos falam, ainda não sabem, julgam-se a salvo. Deus se compadeça na hora em que os tomar o medo.



 

domingo, abril 12

Bonzinho

 

Descobri que era tímido por volta dos oito ou nove anos, ao ouvir minha mãe dizer a uma vizinha que eu era "bonzinho".

Pelos jeitos aquele "bonzinho" era o nome colectivo para os meus temores, vergonhas, acanhamentos, e o mais que me levava a baixar os olhos, tremer, fechar a boca, punha depois em estado cataléptico e com vontade de sumir.

Já adulto, muitas vezes tive de respirar fundo e, como se o fizesse a um terceiro,  dar-me mentalmente empurrões para ser capaz de subir a um pódio e falar a um público, pois a vontade que tinha era de esconder-me ou deitar a fugir.

O tempo e a experiência foram pouco a pouco diminuindo o meu acanhamento, mas só passados os sessenta me vi definitivamente livre dele. Grande alívio. Já não tropeço no hall dos hotéis, converso nas festas, não gaguejo nas entrevistas, não coro quando se me dirigem, vivo sossegado, senhor de mim, jamais fama, autoridade ou poder me fará baixar os olhos ou arrepiar caminho. Finalmente sou como deveria ter sido desde menino, deixei de ser "bonzinho".