sábado, novembro 16

Viva o Feng shui


Digam-me lá com que cara se ouve um amigo como o Pina, jurar a pés juntos que há meses, quase sem falha às sextas de madrugada, acordava sobressaltado e, o tempo de um relâmpago, noutras ocasiões dois ou três segundos, via surgir junto do guarda-fato um vulto que no aspecto tinha qualquer coisa do traje dos pauliteiros de Miranda ou dos evzones, aqueles soldados gregos que vestem saias, parecia encará-lo como se lhe quisesse falar, deslizava para a porta da varanda e sumia.
Se isso tivesse acontecido logo depois que enviuvou era capaz de julgar que teria a ver com a Lisette, seria ela ainda a persegui-lo, pois os quatro anos de casamento tinham sido um inferno, ambos se perguntando que poder diabólico entrara a funcionar para que se unissem dois corpos e duas almas que, finda a paixão, tinham vivido em constante pé-de-guerra.
Confessa que não sentiu pena quando lhe telefonaram a dizer que ela tinha se tinha despistado numa curva do IP2 e falecera na ambulância.
Houve depois uns problemas com os sogros, gente simples do Minho emigrada em Bordéus, a quem se metera na cabeça que queriam herança. Advogados, intimações, ameaças, uma vez teve de chamar a Polícia, mas desde aí, provavelmente convencidos de que não iriam vencer, deixaram de o importunar, era caso arrumado.
Assim pensava, até que recebeu uma carta sem remetente, o seu endereço escrito numa caligrafia tosca e contendo apenas um trapo manchado do que não saberia dizer se era sangue ou tinta.
Aquilo só podia vir dos “franciús”, não ia ligar, já lhe custara demais esquecer tal gente, mas tudo mudou quando numa visita à tia Judite falou do envelope, julgando que gracejava, e a viu transtornada, exigindo que se apressassem, era urgente irem à casa neutralizar as energias negativas que lá tinham entrado.
Uma vez chegados a tia começou às passadas dum lado para o outro, nuns resmungos e a  parecer que fazia invocações, diz ele que só vendo se acreditaria que uma mulher franzina tivesse força para mudar sozinha o lugar dos móveis.
Virou a cama ao contrário, mandou-lhe que tirasse o espelho, o cadeirão e a arca  não podiam ficar ali, as energias precisavam de ter o corredor livre. Se não desse certo teria de vir alguém que soubesse mais de Feng shui.
- E deu certo? – perguntei, fingindo interesse.
- Deu e não deu. Aquilo pelos jeitos sumiu, mas tenho de me calar, porque a tia acredita mesmo no Feng shui e diz que a minha casa é um perigo. Por isso que a venda e ela dá-me a que tem no Campo de Ourique.