domingo, julho 25

É liberdade demais

 

- Com tanta liberdade hoje não se pode dizer nada!

O Cardoso olha em redor, mas dos que estão ali, bebendo os "finos" do costume, nenhum sente vontade de o contradizer, por experiência sabem que pouco é preciso para que se abespinhe e dá sempre zanga.

Vive certo e seguro da sua razão, do direito que tem de ser contra, não lhe venham com tretas de que pensa assim porque se criou em Angola, pois se se tivesse criado em Santa Maria das Aves sentiria e pensaria da mesma maneira. Por isso…

A experiência manda não reagir, só que no fundo, e não é por estarem todos a entrar na velhice, pouco importa que seja sobre política, os costumes, as novas ideias, a pandemia, e isso das raças ou do género, melhor é não ter o coração perto da boca, pois por pouco se criam inimigos, ganha-se má fama e vê-se a gente na esquadra ou no tribunal.

Há um ano ou dois as coisas não tinham chegado a este ponto, mas hoje em dia fingimos que é tudo paz e sossego, tudo bem, ao mesmo tempo andamos de pé atrás, porque em ninguém se pode confiar, mesmo nas famílias unidas acontecem desavenças por assuntos que ainda há pouco davam para rir, e agora são barris de pólvora.

De casos como o da nora do Almerindo até é melhor não falar, nada adianta ser a favor ou contra, a razão está sempre do outro lado, às vezes dá ideia de que as pessoas são assim de propósito, só pelo gosto de se mostrarem diferentes.

Uns diziam que a rapariga era de Timor, outros da Tailândia, mas ao certo ninguém sabia e ao Xavier não se perguntava, porque além de trombudo às vezes tem uma maneira de responder que deixa a gente de cara à banda.

- Seja donde for é escurinha – resmungou o Cardoso, uma tarde que estavam na esplanada e a rapariga ia a passar.

Ó palavra que disseste! O Amorim saltou da cadeira como se um lacrau o tivesse picado, o dedo quase a tocar o nariz do pobre, que de boca aberta  o encarava sobressaltado.

- Dizes isso outra vez e parto-te a cara, racista de mer….!

- Racista? Eu? – tartamudeava o Cardoso – Nunca fui!

- Ai não? O que tu julgas é que ainda estás em Angola!

Num gesto de paz o Moreira estendeu a canadiana a separá-los, resmungando que ninguém era racista, não se queriam zangas, estivessem sossegados.

Sobre o que aconteceu a seguir nenhuma opinião confere. Uns dizem que ao bater com a cabeça no passeio o Cardoso ali ficou, outros viram-no cair redondo quando a canadiana lhe tocou no peito. Ao certo ninguém sabe, mas concordam que quando havia menos liberdade  coisas destas não aconteciam.