domingo, Agosto 31

A escrita

Nunca fui capaz de escrever depressa, porque para mim tudo são obstáculos: o vocabulário, o ritmo, o enredo, o diálogo, o significado, o comprimento das frases, a repetição de palavras. Leio uma página terminada e logo me incomodam dezenas de defeitos. Reescrevo. Releio-a e surpreende-me o abuso dos possessivos, a desarmonia dos sons, as preposições irrelevantes. Reescrevo. Um pensamento racional parece-me horas depois totalmente absurdo. Reescrevo. Dez, quinze, vinte e mais vezes - parecerá exagero, mas não é - a mesma página é acrescida aqui, cortada além, mudo um verbo, desfaço uma rima. Releio, reescrevo, a ponto tal que de puro cansaço o texto por vezes me parece alheio.
Além disso perturba-me ainda o modo bilingue, trilingue, sei lá! do meu raciocínio. Palavras ou frases que me ocorrem numa língua, logo obssessivamente as traduzo noutras, a comparar, a procurar a mais justa, sempre com o receio de que me escape alguma coisa essencial. Cai o Carmo e a Trindade se a memória me nega um sinónimo ou não encontra um significado e, faça dia ou seja noite escura, corro ao dicionário.
Por isso é grande a minha inveja quando oiço que alguém escreveu uma novela em três semanas, um romance em três meses. Que deuses me abandonaram que a esses acarinham?

sábado, Agosto 30

Hospital de Santo António - Porto (1939)

Tenho nove anos. O filho da senhora Emília levou um tiro na barriga, está a morrer. Ainda é parente e vamos ao hospital com os primos que vieram de Carviçais. Já puseram um biombo em volta da cama para que os outros doentes não se incomodem. Há ali um cheiro estranho. Escapo-me de mansinho.
Vou-me pela enfermaria e paro diante de um homem enrolado em ligaduras como uma múmia, buracos para os olhos, o nariz, a boca.
Queimou-se no trabalho, explica a mulher. Calma, como se fosse natural, segurando os gomos de laranja que ele não consegue chupar.
Volto à cama do moribundo. Meu pai esteve na morgue e, sussurrando, conta aos primos que viu braços e pernas em cima das mesas, pedaços de gente, cabeças, muito sangue.
Aquilo agonia-me, começo a chorar. Ele encara-me, franze o sobrolho e, para que a aflição me passe, dá-me uma chapada.

sexta-feira, Agosto 29

Amarguras

Recebe-se às vezes uma confidência ou, com alusões veladas, alguém nos põe a par do seu sofrer. Em ocasiões assim não há conselho que sirva, e talvez esse alguém não deseje senão libertar-se de um peso. Reagir à desconhecida que ontem, sem razão que eu descubra, me mandou um longo mail de amarguras e decepções sentimentais, é ainda mais bicudo.
Quem me conhece sabe-o, de verdade não sou muito de poesia, mas num caso destes valho-me de Florbela Espanca (1894-1930).

A MULHER

Ó mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem de saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
(13.03.1916)

quinta-feira, Agosto 28

Arnaldo Gama

Seja uma forma de homenagem. Antes de Eça, Camilo, Balzac e Zola, Arnaldo Gama (1828-1869) foi o escritor por onde comecei. Livros infantis e histórias de fadas, aí por volta dos nove anos era fase que já tinha ultrapassado, embora durante muito tempo continuasse a ler "O Mosquito" e o "Pim-Pam-Pum" que vinha com "O Século". Arnaldo Gama, pois. Os livros que dele acarinho, e tantas vezes reli que estão a desfazer-se, são edições de 1935.

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quarta-feira, Agosto 27

Esperar

Nem todos os dias têm de ser tristes, maus ou monótonos. Por isso espero, espero, espero pelo dia bom, o momento excepcional de alegria, de satisfação. Enquanto esse momento ou esse dia não chega, conformo-me com as pequenas coisas da vida e continuo a esperar, a esperar, a esperar.
Esperar, aliás, sempre foi para mim um modo de existir e, ao fim e ao cabo, talvez eu não seja mais que um optimista que se desconhece, um tolo, ou alguém que, escondido à espera, julga poder escapar aos seus demónios íntimos.

terça-feira, Agosto 26

Matança

Enxotaram o porco para fora da pocilga e os homens pegaram-lhe, estenderam-no de lado sobre o banco, apertaram as cordas de carro em volta do corpo e do focinho, para que grunha menos.
O Zé ajoelha-se a meter a faca e o sangue espicha, aparam-no num alguidar. Desatam as cordas. Com molhos de palha começam a chamuscar-lhe os pêlos, a pele estala aqui e ali, acastanhada. De repente, com um urro formidável, o porco salta e abala rua abaixo, cego, esbarrando contra as paredes.(*)


(*) A recordação é de Novembro de 1945, a fotografia de Outubro de 68. Clique para aumentar.

segunda-feira, Agosto 25

Escolhas

Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-). Socióloga de renome e nos anos 60 catedrática na Sorbonne. Amiga desse tempo longínquo, partilhava então comigo o interesse pelos “Cangaceiros” e a invasão lusitana de Paris.
Ela contou e provavelmente esqueceu. Eu anotei para não esquecer.
Ambos no comissariado da polícia, esperando para renovar o visto de residência, o rapaz atreveu-se a falar. Depois –ao fim e ao cabo ela vinha de São Paulo, tão longe! – encorajou-se e convidou-a tomar um café, contou da sua vida:
- Quando estive em Lisboa a tratar dos papéis, ainda quis casar, mas a rapariga foi sincera, disse que gostava de mim, só que não podia, eu não era o primeiro. O patrão tinha-a desgraçado.
- Mas aqui em Paris, com tanta mulher… E bonitas!…
- Está enganada, minha senhora! Casar cá? Nunca! São piores do que as da rua! Vão com todos! Fazem tudo!...
- Mas na sua terra de certeza que há boas raparigas… Sérias…
- Pois há!... – e tristonho, baixando a cabeça – Mas envergonham-se! Não fazem nada!

domingo, Agosto 24

Feira dos Gorazes em Mogadouro (1944)

Há três dias que não param os rebanhos, as manadas, récuas, fatos,varas, ciganada, peleiros, gente da tenda, pobres de pedir. A rua cheira a bodum. Não saio dali porque passa o mundo. Aleijados, caldeireiros, o doutor Adelino de Carviçais, magro, com óculos de ouro, vestido de preto sobre um cavalo preto, guardas, almocreves, sardinheiros, burros com cântaros, burros com caixas, burros com gente.
Por fim vamos nós, acordados de madrugada, viajando no escuro. Embalado pelo chouto da mula, adormeço antes de passarmos as Quintas das Quebradas.

sábado, Agosto 23

Adolescência ( Julho,1945)

As meninas vieram da cidade. Pintam-se. Assustam. Não se sentam nas albardas de lado, mas cavalgam escarranchadas como os homens, as saias repuxadas a mostrar as coxas.
Escureceu. Vamos uns quantos para as eiras no alto do monte, ver os foguetes de lágrimas de uma festa lá longe.
Deitámo-nos na palha que ficou da malhada. Das três irmãs calhou-me a mais nova. Porquê? Nunca o saberei. Guia a minha mão, desaperta a blusa, acaricio o seio nu. Procuro o outro e ela trava-me. "Só esse!"
Firme, moreno, macio, o primeiro que não é sonho. A irmã do meio vem, abraça-me, beija-me nos lábios! Vou enlouquecer!

sexta-feira, Agosto 22

Paisagem antiga

Terras de pedra, de pão, calcinadas pelo fogo de Agosto. Oliveiras que os anos retorceram, pinheiros sombrios, fios de água que correm nos vales e não acodem à seca. Abutres circulam alto, vindos ao cheiro da ovelha morta que a aragem espalhou. Vagarosos, à espera que o rebanho se afaste. Chocalhos fúnebres. Montes sem alegria. O fumo pairando sobre as casas, sete da tarde, sol bárbaro. Um carro de bois chia na ladeira, lamento que se espalha, canção de tristeza e desespero. A torre quadrangular e escura da igreja. A casa do capitão - com sentina - alvejando, casas escuras de pedra solta, palheiros cobertos de colmo, a nossa derreada na encosta, caiada de amarelo. Mais longe uma cor-de-rosa, outra de um azul deslavado. À porta do forno um saco de pinhas, um molho de estevas, cântaros de barro sem asa. Uma burra presa à argola. Uma mulher passa com um saco à cabeça.

quinta-feira, Agosto 21

Confissões

Embora já me tenha ocorrido consultar ambos, ainda nunca me confessei a um padre, nem consultei um psicanalista.
Não por descrença nos seus poderes, mas por deformação profissional minha: tenho a certeza de que chegado o momento de confessar os meus pecados, ou abrir os esconsos da minha alma, eu involuntaria­mente assumiria o papel de um personagem de romance, mais interessado no espectacular da ficção, do que na banalidade do real.

quarta-feira, Agosto 20

Uma vida

Herdeiro de grande fortuna, vive num majestoso prédio num dos canais nobres de Amsterdam. Dentro em pouco fará noventa anos e de si próprio diz com desinteresse , “tenho um IQ escandalosamente alto.”
Tem. Engenheiro de profissão, correu mundo, trabalhou em mais partes do que as que consegue recordar e, belo homem que foi, perdeu a conta de quantas mulheres entraram na sua vida. Dessas casou com quatro, e aquela que realmente amou, faleceu. As restantes aborrecem-no com exigências de aumento da pensão alimentar.
Conhecemo-nos por acaso em São Paulo, nos anos cinquenta, e a simpatia permanece. Une-nos também o interesse pela História, por computadores e pela internet, talvez porque ambos vimos do tempo em que mesmo o rádio era maravilha.
Encontramo-nos uma vez por outra no seu café, onde chega por volta das seis. De táxi, porque as pernas já não aguentam os trezentos metros da caminhada. Bebe ele duas ou três “cabeçadas”, fico-me eu pelo copo de tinto. (*)
Ontem, rememorando uma tumultuosa peripécia da sua vida, surpreendeu-me o modo sombrio como em certo momento disse: “No passado, quando me zangava com alguém, havia nessa zanga um certo respeito. Actualmente recuso zangar-me com quem quer que seja. É uma forma de desprezo.”
……………………………….
(*) A fotografia (©Ad Nuis) não se relaciona com o texto, ilustra apenas a maneira como se bebe a “cabeçada” (kopstoot em holandês), começando pelo cálice a trasbordar de genebra e alternando com cerveja.





terça-feira, Agosto 19

Águas

Debates, teorias e controvérsias sobre o meio ambiente, o aquecimento global, etanol, biodiesel, energia eólica etc., não somente me levam a franzir o sobrolho, como aumentam o cepticismo com que sempre encarei modas, activismos, e a generalidade das manifestações de rebanho do meu semelhante.
Razões para tal encontro-as por toda a parte e a cada passo. Por exemplo esta notícia no jornal de sábado (16.08.08): “A Grã-Bretanha exporta anualmente 20.000 toneladas de água mineral para a Austrália, e da Austrália são exportadas 20.000 toneladas de água mineral para a Grã-Bretanha”.
É navio para cá, navio para lá, com a sujidade correspondente. E estou a vê-los daqui, os defensores do planeta, com a garrafinha de água pura ao alto, a gritar “Morras!” à poluição dos ares e dos mares.

segunda-feira, Agosto 18

Repetições

Atento e preocupado, um jovem amigo escreve a avisar-me que ando a repetir textos. Pergunta-se ele se é a memória que me falha ou, visto os anos que já por cá ando, não serão achaques de Alzheimer ou Parkinson.
Nada disso, felizmente. Acontece sim, que muitos desses textos apareceram algures – na saudosa Periférica e nos blogs A Oeste Nada de Novo e Os Canhões de Navarone, do meu amigo Rui Ângelo Araújo. Outros apenas foram publicados em neerlandês.
Se fosse questão de comércio, poderia julgar-se que procuro o lucro, seguindo aquele princípio da Economia que aconselha “Move the product!” Mas neste caso a razão é mais simples: trata-se apenas de arrumo, vou pondo aqui o que na casa alheia e na minha andava disperso ou quase perdido.
A repetição tem ainda um outro motivo: entre a média de quarenta visitantes diários deste blog, haverá dois ou três que antes me leram. Esses por certo compreenderão que, para manter a porta aberta e não desapontar quem a ela bate, “sirvo” prosa que para eles é requentada, mas novidade para os mais.

domingo, Agosto 17

A nossa vida

A nossa vida gira em torno de quê? Ponho-me a pergunta e envergonho-me de para a minha não saber onde achar a resposta.
As gerações anteriores podiam responder com a família, a pátria, o trabalho, a religião, as ideologias, mas entretanto todos esses alicerces da existência se foram esboroando.
A minha vida gira em torno de quê? De mim próprio? Acho que não, pois para isso me faltam egocentrismo e vaidade suficientes. Em torno dos meus livros? Menos ainda, porque jamais qualquer deles se me afigurou definitivo como a chegada a uma meta, antes me parecem etapas curtas num moroso e difícil percurso que não sei onde irá terminar.
Mas então? Não faço ideia. Aparentemente a minha vida não gira em torno de coisa nenhuma, talvez seja apenas uma sequência de hábitos que ficaram no lugar dos objectivos de que por vezes desdenhei, e outras vezes me esqueci de ter.

sábado, Agosto 16

Leonino

É interessante vê-lo quando, pontualmente às seis, chega ao café: a porta abre-se e durante dois ou três segundo não acontece nada, a pausa teatral antes do galã apare­cer no palco.
Surge então, grande, pesado, a cabeça leonina erguid­a, os olhos flamejantes. Entra, roda sobre si mesmo a fechar a porta, cumprimenta este, acena a outro, a passos medidos procura uma mesa.
Escreve, pinta, canta, represen­ta, esculpe, compõe, toca piano, realiza performan­ces, vê-se com fre­quência na televisão, ouve-se com fre­quência na rádio. Raro passa semana sem que num ou noutro jornal não apareça escrito seu, ou não se fale de uma das suas muitas acti­vidades.
Dinâmico, empreendedor, verdadeiro furacão que é causa ciúmes. Mesmo eu já me tenho perdido a sonhar sobre que extraor­dinário poder pos­suirá quem consegue realizar tanto, no mesmo tempo em que tão pouco faço.
A minha inveja, porém, vai menos para o que faz, do que para o modo como se mostra. Eu francamente pagaria para saber entrar assim no café, vestido de preto, o grande cachecol vermelho enrolado no pes­coço, cabeça ao alto, olhar flamejante, e aquela esplêndida segurança de si mesmo.

sexta-feira, Agosto 15

Liberdade

É um sentimento perturbante, quando o que sempre se repudiou surge por vezes com um inesperado atractivo. Fazer parte dum exército, dum convento, duma seita, duma quadrilha. Seguir um regulamento. Aceitar um chefe. Eliminar as incertezas e as dúvidas daquele que caminha sozinho.
Cadeias? Laços? No diário faço por esquecê-los, mas nem assim pesam menos os grilhões que me acorrentam à liberdade.

quinta-feira, Agosto 14

"O País de Salazar"

"O País de Salazar" - data de 1941 e pela capa ninguém diria, mas é um laudatio. Com fotografias do tempo, como estas da Casa dos Pescadores (1939) em Matosinhos e do Instituto Superior Técnico (1939).



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quarta-feira, Agosto 13

"Vinho cobarde"

Ainda nunca usei drogas e com o que consumo de álcool ninguém será capaz de se embebedar. Não que eu seja assim por virtude, mas ao primeiro aviso de que me se me tolda a cabeça, o medo de deixar de ser eu próprio pode mais que a curiosidade pelos efeitos do trip ou da bebedeira.
Não é isso que me encartará como moralista e longe de mim condenar quem, levado pelas inúmeras razões que a vida oferece ou a que a vida obriga, se droga e se embebeda. É certo que me falta paciência para ouvir os longos monólogos da carraspana. Também passo de largo pelos que têm o "vinho mau." Mas esses, pelo menos, não me dão pena como os que têm o "vinho cobarde." Deus me livre de um dia procurar na bebida ou na droga a coragem de me assumir.

terça-feira, Agosto 12

Remexendo nas gavetas (30)

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Remexendo nas gavetas (29)

No Diário Popular em Setembro de 1968. (Clique para aumentar )

segunda-feira, Agosto 11

"Boca-a-boca"

Conhecemo-nos desde a juventude, nunca fomos íntimos, mas encontramo-nos de longe a longe e, duma maneira ou doutra, com o passar do tempo criou-se entre nós um sentimento de amizade.
Escrevemo-nos espaçadamente. Porém, como se padecesse de uma estranha falha da memória, há mais de dez anos as cartas dele são sempre idênticas à que recebi hoje, e resumem-se mais ou menos a um texto assim: "A minha vida vai indo calma na forma do costume. Pinto nas horas vagas. Também tenho escrito umas coisas que deixo na gaveta, porque não me atrevo a relê-las, e que um dia gostaria de te mostrar. Sinto falta do teu senso crítico. Manda dizer quando nos voltaremos a encontrar."
Mas quando nos encontramos ele fala de tudo, menos do que escreveu ou pintou, esquece o meu senso crítico, e as conversas que temos rondam sobretudo em torno do comezinho. De modo que a nossa amizade ganhou um toque surrealista: parece viva quando estamos longe, mas assim que nos vemos só à custa de muito "boca-a-boca" conseguimos evitar que ela faleça.

domingo, Agosto 10

O escritor

É um romântico. No jardim que tem atrás de casa, uns escassos metros quadra­dos, avulta uma tília secular. Quando o tempo o permite leva para junto da árvore uma mesita, uma cadeira da cozinha e, horas a fio, escreve o seu livro. Com uma pena de aparo de aço, um tinteiro e cadernos escolares, porque lhe repugna usar meios a que falte uma longa tradição.Escrever à máquina parecer-lhe-ia uma falta de respeito, dum computa­dor nem quer ouvir falar. Escreve, por isso, morosamente, mas diz que só desse modo consegue provocar a passagem do misterio­so fluído com que o cérebro canaliza as ideias para a mão.

O livro não é uma qualquer obra de narrativa fictícia, mas a síntese das observações e pesquisas filosóficas, intelectuais, morais e psíquicas a que se dedica desde a adolescência, e agora, na meia idade, lhe parece terem atingido o ponto de maturação. Anos atrás tinha enchido o equivalente a novecen­tas páginas dactilografadas e, quase certo de ter produzido um magnum opus, levou o manuscrito ao editor.

Este foi cruelmente sincero no seu juízo: "Ilegível, incompreensível, um desarrazoado." Com razões idênticas o editor rejeitou uma segunda versão do texto, mas a vontade que o anima de oferecer ao mundo o livro último, aquele onde se encontrem todas as perguntas e quase todas as respostas, não é das que esmorecem com um revés. Nem com dois. E à sombra da tília, diligente, imper­turbável, continua a escrever, certo e seguro de que sabe o que ninguém mais sabe, que tem para dizer aquilo que ainda nunca ninguém disse.

sábado, Agosto 9

Pernas falantes

Foi legenda. E ficou-o na recordação dos que a conheceram nesse tempo. Tinha um corpo formoso, pernas de entontecer, e como não sofria de modéstia começou cedo a tirar proveito da beleza.
Casou rica, divorciou-se, casou ainda mais rica, voltou a divorciar-se. No dizer de um antigo amante conseguia transformar os seus gestos e movimentos em momentos de arte, chegando - as palavras e a estupefacção são dele - "A essa coisa extraordinária de, com as pernas, se exprimir numa verdadeira linguagem."
- Falava com as pernas.
- Realmente era como se falasse - responde ele, indiferente à minha ironia.
Vi-a hoje pela primeira vez num beberete em que se festejava um aniversário. Passa dos sessenta e infelizmente envelheceu sem amadurar. No corpo e no rosto há ainda vestígios da beldade que foi, mas a sua voz mantém um artificioso timbre infantil, e aquele pestanejar e as boquinhas que com certeza a tornavam atraente na juventude, mas agora incomodam como um esgar nervoso.
Quando a vi sentar-se os meus olhos seguiram curiosos as pernas que tinham "falado", mas surpresos com a curteza da saia e os estragos da idade, mandei-lhes discretamente que se afastassem.

sexta-feira, Agosto 8

Lang Lang

Lang Lang, o genial e jovem (26) pianista chinês que hoje tocará na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, recebeu tempos atrás do seu progenitor o conselho de, sobretudo, dar atenção às críticas negativas, pois “mesmo a opinião de um tolo nos pode ensinar algo.” (*)
O seu mentor americano deu-lhe um conselho mais adaptado à realidade: “Não faças caso das palavras (nos artigos críticos), mas conta as linhas. Quanto mais escreverem sobre ti, mais atenção te darão.”

O conde de Morny (1811-1865) teve o seu momento de fama ao responder do mesmo modo ao criado que, assustado, uma manhã o acordou com a má nova de que os jornais estavam cheios dos escândalos e patifarias de monsieur: “Não importa o que escrevem sobre mim, importa sim que escrevam muito”.

(*) interessante em You Tube: Lang Lang gone mad.

quinta-feira, Agosto 7

Ingmar Bergman

Noite de Verão. Acordo sufocado pelo calor. A porta está aberta e saio, vou debruçar-me na varanda. Na maioria das casas há luz, um homem e uma mulher fumam sentados na pequena ponte sobre o canal, na ponta dum muro um gato olha pensativo para a água. De vez em quando ouve-se ao longe o ruído dos comboios de mercadorias que passam na linha Amsterdam-Utrecht.

Éramos jovens, fáceis de entusiasmar, os filmes de Ingmar Bergman pareciam-nos o sumo do que se realizava na arte cinema­tográfi­ca. Ao fim de cada sessão corríamos ao café a discutir, a analisar, a incensar o trabalho do realizador. Mesmo no corriqueiro ou no acidental dos seus filmes adivinhávamos intenções geniais. Quanto mais estáticas as cenas, mais elas nos pareciam prenhes de significado, e o nosso apreço não tinha limites quando um personagem, de costas para os espectadores, fi­cava minutos imóvel a olhar para um horizonte vazio.
Gradualmente, porém, fui-me perguntando se uma tão incondicional admiração não era igual à dos súbditos que aplaudiam a passagem do rei nu. A vinda ao de cima do meu senso crítico resultou num apreço mais moderado pelo cineasta sueco, e num frequente franzir de sobrolho quando os meus amigos insistiam em me explicar o simbolismo hermético de certas cenas.
Assim, não sei em que filme, no momento em que um personagem moribundo olhava fixamente o céu, ouvia-se ao longe o ruído dum comboio e, muito ténue, o silvo de uma locomotiva a vapor. Eles afirmavam que se tratava de uma subtileza sonora, usada por Bergman para assinalar o momento em que a alma se despegava do corpo. Eu retorquia que na filmagem da cena em exteriores, a gravação do ruído tinha sido acidental. Eles que não, eu que sim, até que de tão excitados tínhamos passado dos gritos aos insultos.

O gato saltou do muro, o homem e a mulher continuam a fumar sentados na ponte. A aragem virou e o matraquear dos comboios na linha Amsterdam-Utrecht tornou-se quase indistinto na distância. É pena que as locomotivas tenham deixado de apitar.

quarta-feira, Agosto 6

Viagens

Mesmo na mocidade nunca fui viajante aventuroso, e se de vez em quando invejo os que são capazes de correr o mundo de mochila às costas, dormindo ao relento, a ideia de viajar sem conforto logo me cura da inveja.
Também nunca tive um interesse por aí além em me misturar com os povos que visitei, ou de conhecer em cada país as opiniões do "homem da rua." E as paisagens... Ah! As paisagens podem ser grandiosas, inesperadas, espectaculares, mas quando se é apenas viajante, aquele que passa preso ao fio ténue da novidade, mal a surpresa esmorece logo elas fatigam.
Assim, curiosamente, as viagens que até agora mais me enriqueceram o espírito nunca foram as que eu próprio fiz, mas aquelas alheias em que, pela leitura, participei como que por procuração. E pouco se me dá que a minha visão do mundo, dos exotismos do mundo, seja desse modo quase toda emprestada.
A viagem ideal? Atravessar a Índia com um bom livro, sem sair da cama.

terça-feira, Agosto 5

A aldeia

Houve um tempo em que idealizei a aldeia, que me parecia uma fonte de virtudes, uma fonte de harmonia e paz. Depois veio o tempo em que a odiei, porque se assemelhava a um cárcere, e o meu desejo era um só: fugir.
Com a ausência recomecei a idealizá-la e mais tarde esforcei-me por redescobri-la. Para me embeber do sonho antigo percorri de novo todos os lugares, procurei ouvir de novo o bater do seu coração. Mas finalmente tive de me resignar ao irremediável: ela mudou, eu envelheci, somos ambos personagens secundários num romance histórico que ninguém vai escrever.

segunda-feira, Agosto 4

Porque será?

O estranho modo com que certa gente entra e sai da nossa vida. Não falo dos amigos que se perderam de vista, dos que se tornaram indiferentes ou inimigos, mas daquelas pessoas que como que nos assaltam com a sua amizade, e tudo são empatias, atenções, concordancias, carinhos. Até ao dia em que, sem razão aparente, parecem levar sumiço.
Encontramo-nos depois por vezes numa rua, no café, ao acaso de uma cerimónia. "Há que tempo não nos vemos !"
Embrulham-se em desculpas frouxas sobre as andanças da vida, os afazeres, complicações …
Mas a pergunta fica: ao que é que não correspondemos? O que é que nos quiseram dar ou receber que nos escapou? O que é que não somos e eles julgaram que éramos? O que é que em nós lhes meteu medo?

domingo, Agosto 3

Mendigos (6)

Repete-se o texto:
A maioria dos que agora somos ainda não tinha nascido. Uns quantos viram e romantizaram. Outros não viram ou não se lembram. Eu não esqueço, e continua a doer-me a recordação do tempo em que os mendigos batiam às portas da minha aldeia transmontana. Às portas dos pobres, que eram quem mais pronto lhes dava a esmola. (*)
(*) As fotografias são do começo dos anos 50.

sábado, Agosto 2

São gostos

Tradução: Na opinião unânime do júri, Sanae Chirar tem as pernas mais bonitas dos Países Baixos. Na final do concurso em Amsterdam, organizado por uma revista feminina e um fabricante de lâminas de barbear, participaram 25 mulheres.
(fonte: Het Parool 30.05.08)

Mistério

Será mistério ou avaria? Culpa de Google.com? Não. Microsoft.com que o diga! Hoje, durante cerca de quinze horas Tempo Contado não abriu com Internet Explorer, só com Firefox! Já abre.

sexta-feira, Agosto 1

Diário (3)

Fosse eu como gostaria de ser, e não como me fizeram e me fiz!
Seria racionalista, arrojado, não sofreria insónias, nem dúvidas, nem os medos que azedam as horas do dia e tornam temerosas as da noite.
Infelizmente é grande o fosso entre o ser e o sonhar, e mais vale confessá-lo já, desmesurado o que me perturba. Para meu mal encaro o mundo como uma teia, onde várias e perigosas aranhas se penduram com o fito único de me amargurar os dias. Por isso, e à falta de defesas melhores, há muito me tornei supersticioso.
Desconfio de gatos pretos e acredito no mau olhado, em bruxedos, nos poderes maléficos do jade e da ametista, na eficiência das receitas do Livro de São Cipriano, nas más vibrações, no perigo de certas correntes de ar, nos venenos da espirradeira, do acanto...
Vem isto a propósito de um cáustico mail que anteontem recebi, no qual um desconhecido, tendo espiolhado um dos meus romances, encontrou nele tantas "erros de palmatória" e tão irritantes contradições que não resistiu a encher duas páginas de comentários.
Passada uma vista de olhos à argumentação do homem, breve me dei conta de que lhe faltava razão e que, verbalmente, pouco custaria dar-lhe a merecida sova.
Voltei a ler e de novo me subiu a mostarda ao nariz. De modo a cuidadosamente rebater a acusação, impunha-se imprimir o mail. Confesso que me sentia raivoso, possesso de uma força má ao premir “Enter”. E então aconteceu.
A impressora, que com escassos meses de uso tinha funcionado sem empeno, deu uns estalos e uns saltos, estremeceu, aquietou-se um instante, para logo de seguida, com silvos e soltando faíscas, espichar tinta de vários coloridos e disparar rodinhas de plástico.
Um racionalista dirá que foi acaso. Pessoalmemte inclino-me para a hipótese de que, não podendo atingir o homem, as minhas más vibrações destruiram a máquina.
Pense cada um o que quiser, verdade é que ao certo nunca se sabe.