quarta-feira, setembro 30

Pisar o risco

Como se afasta a gente de alguém de quem se gosta, a quem se reconhecem grandes qualidades, mas por motivos desconhecidos e com inconsciência infantil, repetidamente pisa o risco? Com que palavras dizer-lhe que, em todas as suas formas, o trato é sujeito a regras? De pais para filhos e vice-versa, entre amigos, amantes, no trabalho ou na rua, há que ter em conta os riscos invisíveis que delimitam o permitido do abuso, o gracejo da impertinência ou da atitude de mau gosto.

O saber quando se deve parar, que uns têm de nascença ou aprendem cedo, a outros, porque têm aquilo no feitio, nem uma éducation permanente dá remédio. Assim, com pena, nos vemos por vezes obrigados a perder o que gostaríamos de ter guardado.

terça-feira, setembro 29

Lolitas

Publicou o seu primeiro romance, teve algum êxito, de toda a parte recebe encorajamentos e, lá da Holanda, comunica-me a sua perplexidade, quer saber se alguma vez me aconteceu o mesmo.

Dá-se o caso que, pelo menos de aparência, escreveu ele o que noutros tempos se chamava um roman à clé, um daqueles em que personagens e lugares se prestam a confusão sobre o real e o fictício.

Relativamente jovem, vai nos trinta, com a sua simpatia e temperamento extrovertido tem abundância de amizades e relações. Mas com o êxito literário, o que deveria ser benesse confessa ele que se lhe tornou um aborrecimento. Dizem uns: aquele personagem sou eu chapadinho e francamente não apreciei. Outros queixam-se de não se reconhecerem em personagem nenhum, deve ser porque o autor nunca os achou interessantes. Com amantes e namoradas acontece-lhe o mesmo: esta insulta-o pelas supostas revelações da intimidade e acrobacias do Kamasutra, aquela pergunta-se que motivo o terá levado a esconder o que tinham feito na cama.

Que recorde tenho escapado a aborrecimentos desses. Se bem que, tendo escrito um romance sobre um amador de Lolitas, aconteceu-me algumas vezes...

Paro aqui. Um blogue é praça pública, não se presta a confidências.

segunda-feira, setembro 28

O PS ganhou


Cartão de eleitor na mão fui votar a meio da manhã. Conferiu-se e a Mesa constatou que o número 164 e os três seguintes não constavam nos cadernos. Conferiu-se uma segunda vez. Telefonou-se para a Junta e de lá confirmaram que realmente não constava. Se eu já tinha o Cartão do Cidadão. Ainda não tinha pedido? Então devia ser disso. Uma outra voz contradisse: por causa do cartão é que aconteciam essas coisas, nada dava certo. Garantiram-me que se ia investigar. Fosse descansado. Fui descansado. Dali a nada batiam-me à porta para saber a data do nascimento. Horas depois outra boa alma a perguntar o número do bilhete de identidade. Uma terceira veio a meio da tarde para controlar o nome completo, acrescentando que a culpa era da Câmara, de lá tinham dito à Mesa que eu com certeza tinha mudado de residência. Como não tinha, e estava ali de corpo presente, a coisa ia-se arranjar. Não se arranjou. Veio a tarde, fecharam-se as urnas, caiu a noite, nada mais ouvi.

O PS ganhou sem mim, não tenho argumento para lhe pedir favores.

sábado, setembro 26

"O Longo Trajecto"

Sabendo como os holandeses são fanáticos da marcha, no começo de 1996, com alguma inocência, meteu-se-me na cabeça que na Holanda poderia fazer alguma coisa por Trás-os-Montes.

Com a ajuda do jornal de Volkskrant, onde então semanalmente escrevia, produziu-se o necessário tam-tam, acorreram um pouco mais de mil pessoas preparadas para, a butes e dormindo em tendas, andarem dez dias por carreiros e atalhos os cento e vinte e pico quilómetros que separam Moncorvo de Miranda. Foi preciso fazer rifa para os lugares disponíveis e saiu a sorte a cem caminheiros. Com mais sete de apoio, camião com tendas, latrinas, cozinha ambulante, carrinha de apoio, tudo organizado à perfeição, deu-se começo em meados de Outubro ao que eu, parafraseando "A Grande Marcha" do camarada Mao, baptizei de "O Longo Trajecto" (Het Lange Traject).

A coisa deixou nome, plantou a longínqua província lusitana nas mentes batavas, resultou em dezenas de artigos e uns cinco ou seis longos programas de televisão.

Não vou historiar, recordo apenas estes episódios.

Todas as câmaras e aldeias de Moncorvo a Miranda foram generosas no acolhimento, mas quando no Verão anterior, me apresentei na Câmara de Miranda, em mangas de camisa, o senhor presidente de então azedou e a sua parca oferta foi o uso, por uma noite, do parque de campismo.

Estranhou ele também a coisa e, avaliando por mim, quis saber:

- Então vêm a pé? Pelos montes? Não deve ser gente de muitos meios.

Engoli e poupei-lhe o detalhe. Entre os cem havia desempregados e estudantes, donas de casa, reformados, médicos, secretárias, advogados, os burgomestres de duas relativamente grandes cidades, um cozinheiro, enfim...gente de poucos e alguns meios.

O povo do Felgar, onde se assentou o primeiro acampamento no recinto de Nossa Senhora do Amparo, excedeu-se nos comes e bebes, fazendo estourar também uma dúzia de bombardas em forma de boas-vindas. Desconhecendo o uso, e supondo que em terras meridionais por um nada se faz guerra, a maioria dos viandantes assustou-se de tal modo que, para acalmar, teve de carregar nos copos. Noite memorável.

Aqui em Estevais ficaram dois dias e duas noites, mas não serei eu a contar como se comeu, bebeu, dançou e se ouviram fados. Basta dizer que na manhã de partida, com beijos a abraços, lenços e braços a acenar, e um ou outro holandês não resistindo às lágrimas, a despedida teve o seu quê do Adeus à Virgem.

Em Sanhoane preparam o acolhimento de tal modo que até puseram idosas a fiar e a tecer linho, a cardar lã, a mostrar como se fazia queijo e não sei quantas outras artes. Ceia ao ar livre, como nos mais lugares. Mas que ceia! E que vinho! Grande gente, boa gente.

Foi também em Sanhoane que uma das jovens e muito lindas holandesas do grupo (se o senhor presidente da Câmara de Miranda tivesse sabido!) me contou que, quase ao fim da festa, se aproximou dela um homem dos seus cinquenta e, no fraco alemão que um dia aprendera, quis saber se era casada.

- Não sou.

- E tem filhos?

- Não tenho.

- Namorado?

- Também não.

- Sanhoanhe é terra boa. Acha que era capaz de gostar de vir para cá?

- Para aqui? Não!

Do vinho ou da decepção o homem encarou-a estupefacto:

- Pois ainda se há-de arrepender! Olhe que eu tenho dois tractores!

sexta-feira, setembro 25

Estevas


Deve ser do carácter que fui formando e dalguns desencontros genéticos que herdei, mas ameaças e ultimatos não é comigo, tão pouco o prometer e não cumprir. Em situações dessas vem à tona em mim um sujeito com quem até eu próprio tenho dificuldade em lidar. É que aos olhos desse não há força física que o assuste, autoridade que se lhe imponha, voz que o chame à razão ou benefício que o acomode.

Ameaçou em coisa pequena ou grande? Recebe paga a dobrar. Prometeu a sério e não cumpriu, arranja desculpas tolas? A tesoura não perdoa nem atenta na grossura dos laços.

Um modo assim, sei-o há muito, não é confortável para mim próprio nem facilita o convívio, mas só seria funesto se o meu dia-a-dia fosse do comércio ou da política.

A que propósito vem esta introspecção matinal? Tinham dado as sete quando subi ao monte a cortar estevas para pôr nuns vasos – com o calor cheiram que é uma delícia - e assim sem mais nem menos comecei a pensar em gente e momentos que gostaria de esquecer.