sábado, maio 15

Ceterum censeo

O professor era devoto de Flaubert. Nós, rapazes de catorze, quinze anos, que nesses tempos sem televisão e pouca rádio tínhamos na leitura a maior fonte dos nossos sonhos, de boa vontade e por seu mando lemos Madame Bovary. Mas não gostámos. Por mais que ele insistisse em nos apontar as subtilezas do texto, os simbolismos, os momentos de ironia, a tragédia de Emma, o sublime retrato de monsieur Homais, o farmacêutico, continuávamos teimosamente desinteressados.

 Dissemos-lho depois francamente na aula, falando de homem para homem: aquilo eram amores de velhos, adultérios ridículos que ainda por cima acabavam mal. Desesperado mas incansável, o professor tornou a explicar. Prometeu que se nos deixássemos enlevar por aquela criação genial o nosso espírito se tornaria bem mais rico. Mas por fim, cansado de tanta inércia, desistiu e, batendo com a cana no soalho, tratou-nos de alarves. A continuarmos assim, em vez do futuro brilhante para que nos queria preparar, nem a escriturário de segunda chegaríamos. Marçanos, talvez, mais interessados pela bola que pela leitura e o desenvolvimento da inteligência.

No dia seguinte, teimoso, retomou Flaubert. Na biblioteca, disse ele, havia um número suficiente de exemplares de Salammbô. Agora não era sugestão, mas aviso: se lhe viéssemos outra vez com críticas, com incompreensões, ele não somente lavava as mãos do nosso futuro, mas garantia que nunca seríamos capazes de vir a apreciar a verdadeira grandeza literária. Poderíamos chegar a ricos – para isso não se precisava cabeça – mas em questões de intelecto nunca passaríamos duns pelintras.

Salammbô entusiasmou-me. Aquilo sim, era um romance! Nele havia revoltas, batalhas épicas, festins, torturas, intrigas, amores trágicos. As paisagens eram grandiosas, as riquezas desmedidas, os palácios, opulentos, e Cartago, onde a história se desenrolava, tornou-se para mim um lugar de sonho, onde graças ao talento de Flaubert o tempo tinha parado e eu um dia desejava visitar.

A realização do desejo demorou, pois já tinham passado mais de vinte anos quando certa manhã saí de Tunes a caminho de Cartago. No momento em que o guia anunciou que estávamos a chegar senti a excitação e o tremor que precede as ocasiões solenes. Num vasto largo estacionavam dezenas de autocarros e, pelos atalhos que ligavam o local histórico ao hotel situado numa colina próxima, formigava uma multidão espessa: uns desciam a caminho das ruínas, os outros subiam já em busca da cerveja e da retrete.

Estonteado pelo calor, abatido pela decepção de em parte nenhuma ver algo que me recordasse a cidade magnificente, vagueei por entre escavações e restos de muro, colunatas, meias janelas, arcos modestos, montões de tijolos, estilhaços de mármore. Dum recanto subia por vezes um fedor de excrementos que fazia recuar. Ou então era um grupo que barrava o caminho, enquanto o guia explicava em três línguas as guerras púnicas e os feitos de Aníbal. Por fim, relanceando uma última vez aquela sombria desolação, também eu subi a encosta à procura dum refresco e do transporte que me levasse dali.

Agora que se viaja sem trégua e, tal as crónicas gastronómicas, os relatos de viagens estão a ponto de se tornar um subgénero literário respeitado, ocorreu-me retomar o plano que um dia tive de escrever sobre a capital de um antigo reino da costa ocidental da Índia. Ao ler as páginas de notas escritas na minha juventude, logo se me reacendeu o entusiasmo. O melhor seria partir com brevidade, ir ver com os próprios olhos aquilo que no papel já me parecia fascinante.

De novo imaginei palácios, templos grandiosos, multidões a passear em avenidas sombreadas, a grande agitação do porto, o burburinho dos mercados. O apóstolo S. Tomé andara por lá a evangelizar e os chineses tinham-na ocupado no século IX. Depois veio o domínio do Cholas e a instauração de um matriarcado polígamo, prática que aliás mantinham todas as mulheres do reino.

Para sua defesa pessoal, a soberana possuía um regimento de trezentas amazonas, e eu fantasiei como deveriam ter sido belas as paradas com tantas sedas multicolores a revoar.

Em 1497 Vasco da Gama entrou no porto e recebeu licença para de lá fazer o comércio da pimenta e do gengibre. Durante anos tudo foi prosperidade. Infelizmente, porém, um Heitor Rodrigues «tendo ganhado a simpatia da rainha» –com essa delicadeza se referiam então os cronistas às coisas do amor e da cama – não tardou a que se levantassem rivalidades e começassem as guerras que levariam à decadência.

O empregado da agência de viagens ouviu o meu desejo, as razões históricas e olhou-me desconsolado:

Quilon? Não aconselho. Pior que Cartago. Nem sequer tem ruínas.

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in Mazagran- Quetzal 2012 

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