quinta-feira, Abril 30

A gaja dos orgasmos

São memórias que ficam. Gargalhavam, a sufocar do riso. Então um levava a mão à braguilha, fazia o gesto de sacudir o que devia ter parecenças com tromba de elefante, e dizia à roda:
- Disto é que ela quer!
Adolescente romântico e testemunha involuntária, perturbava-me tanto a grosseria como a demonstração tola do desejo impotente.
Outra memória. Edith Piaff. Metro e meio de gente, umas poucas arrobas de pele e osso, grande voz. Ouvi-a cantar, na antiguidade em que Charles Aznavour era o seu pianista. Cama para aqui, légionnaire para ali, mon homme assim e mon homme assado, chansons de fodas de dois dias e três noites. Passada a novidade aquilo tornava-se cansativo, e a voz não bastava para fazer esquecer a discrepância entre a aparência frêle e os urros da luxúria.
Agora é ele que telefona, excitado, a perguntar se já li “a gaja dos orgasmos”. Uma que toda a gente conhece. Quase grita a contar que ela diz que ao ler certos livros tem orgasmos secretos, proibidos!....

Oiço e calo. De facto é isso: nem casto, nem virtuoso, e todavia continua a tomar-me um certo acanhamento perante a imposição do erotismo alheio.

quarta-feira, Abril 29

Mães


Se Isto É um Homem, de Primo Levi, é livro que reli e por vezes abro em momentos em que me pesa a crueldade do meu semelhante.

Das três biografias dele até agora publicadas li a de Carole Angier, The Double Bond - The Life of Primo Levi (2002) e ultimamente Primo Levi – Tragedy of an Optimist, de Myriam Anissimov (2006).

Em ambas é feito extenso relato dos sofrimentos, terrores, doenças e humilhações que Levi sofreu durante os dois anos que passou em Auschwitz. Ambas relatam o carácter tirânico da mãe, que em permanência exigia a sua presença e os seus cuidados. Na última é mais detalhada a terrível situação do escritor e de sua mulher, vivendo como que enclausurados com as mães nonagenárias, a dela cega, a dele caindo aos poucos na senilidade sem nada perder da tirania.

É também na biografia de Anissimov que se lê a extraordinária passagem de uma carta de Primo Levi a uma amiga, dois meses antes de se suicidar. Nela escreve que o período que estava a viver era pior do que o que tinha sofrido em Auschwitz.


Ao ler isto, e sabendo de certas mães, como que perdi o fôlego.

terça-feira, Abril 28

Fini

- Acabou – diz ele – Fini.

O sorriso parece de descaso, mas é melancólico, e eu, a dar-lhe tempo, porque embaraçado com a confidência não encontro palavras, levo o copo aos lábios.

- A grande asneira foi a pressa. – continua – Quem esperou quase dois anos, bem podia...

Aceno que sim, como se concordasse ou compreendesse, ele ergue os braços num gesto de desilusão e acrescenta:

- A falar verdade fui uma besta. Deixei-me ir nas fantasias, no sonho. Mas sabes como é, com a internet tudo parece possível, mais fácil, perde-se a cabeça... No princípio menti um bocadito e a coisa ia bem. Ríamos muito. Se falávamos de idade ela dizia sempre que a idade não conta, o que conta é o espírito, mas quando descobri que tinha vinte e quatro!... E eu com netos!

A asneira, a minha grandessíssima asneira, foi aceitar o encontro. Calava-me. Desaparecia. Mas não senhor! Queria encontrá-la, falar-lhe! A dizer-me que talvez... Com a primeira saiu errado, quem sabe se com esta!...

Olha! Não sei como não me deu uma coisa! Ainda me apertou a mão, mas a cara era a de quem vê um espantalho. Nem me lembra o que dissemos. Não deve ter sido muito, porque quando se despediu vi que nem tinha tocado no café.

Agora pr’aqui estou. Há quase meio ano. Ainda não consigo... Há tempos ouvi dizer que vai casar. Com um gajo que tem uma quinta pr’ós lados da Barca d’Alva. Coisa grande. Um que aparece por aí num Range-Rover branco. Já deves ter visto.

segunda-feira, Abril 27

Facebook

O Facebook veio perturbar o meu descanso. Primeiro foi um amigo de longa data a fazer a ligação. A seguir veio outro. Aceitava? Pois claro. De súbito aparece uma desconhecida. E outra. E mais outra... Uma a escrever isto: “Ahahah! Olhe, foi-me recomendado não sei por quem... Para além disso, já partilhámos um óptimo arroz de parto. Foi há uma eternidade (2001), mas estava excelente. E nunca mais conseguimos repetir a proeza. Havemos de lá voltar...”

Arroz de parto? Tinha sido de pato. Tinha de ser lapso, e logo adivinhei: é a mãe da Inês.

Mexi nos botões do Facebook, mas a técnica e as possibilidades da coisa são complicadas em demasia para a antiguidade da minha cabeça. Daí que num repente as três centenas e pico de endereços de e-mail que tenho no computador estavam a mandar pedidos de amizade para os quatro cantos.

Não sei se travei. Estou travado. Lapso! Estou tramado.

domingo, Abril 26

Domingo, 26.04.09

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The Fame Formula

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Há livros interessantes que era melhor não ter lido.The Fame Formula é desses.

Há muito sabemos como se fabricam estrelas, famas e escândalos que dão dinheiro, tanto dinheiro que em torno deles se criam comércios e indústrias. Lemos ou ouvimos falar de como, a troco de pagamento, raparigas desmaiavam em público ao ouvir a voz de Frank Sinatra. De como outras, pagas também, e de modo a que os jornalistas “testemunhem” o que sabem que vai acontecer( ó mundo sem vergonha!), atiram a este e àquele cantor as chaves dos seus quartos de hotel. De como se manufacturam namoros, casamentos, ligações e escândalos, para que os tolos paguem e as indústrias da ignorância continuem prósperas

Valentino, Clark Gable, Joan Crawford, Marilyn Monroe, Andy Warhol, os Beatles, Michael Jackson, Tom Cruise, Amy Winehouse... para só citar estes entre centenas, você dormirá melhor e viverá mais alegre se ignorar o muito de repelente que em geral está por detrás da celebridade.

Divirta-se e entusiasme-se no cinema, nos concertos de rock, mantenha a sua admiração por aquele Bonno Salvador do Mundo e Santa Angelina Jolie, padroeira dos pretinhos, o profeta Al Gore e as mais Madonnas. Não leia o estupor do livro.

Eu próprio dispensava o que nele aprendi, mas já minha mãe o disse no dia em que, puto de quatro anos, me pus a ver o sol através duma lente e queimei a pálpebra: “A curiosidade ainda te há-de matar!”

sábado, Abril 25

Surpresa

Alegre surpresa num sábado de chuva, frio e melancolia. A escrita por vezes tem disto

25 de Abril

Trigésimoquinto aniversário do dia das ilusões.
Festa?
Que festa?
Onde?
Para quem?

sexta-feira, Abril 24

Defuntos e vivos

Em Amsterdam não tenho defuntos, mas aqui na aldeia, há ocasiões em que um impulso me leva ao cemitério. Finjo que entro ali com um propósito, quando na verdade não sei o que me chama, nem sou dado a expressões públicas de pesar.

Paro nas campas dos meus, na dum ou doutro parente ou amigo, passo com respeito pelas viúvas que carpem dores sinceras e fingidas, toco o ombro do Ti Alberto que, contrito e em lágrimas, todos os dias reza junto da campa da mulher a quem fez a vida negra.

Na minha imaginação vejo rostos, vem-me a memória de cenas, de momentos, retalhos de frases, surpreendo-me a tomar parte em conversas com os que desapareceram, a perguntar-lhes se recordam isto, se ainda sabem aquilo...

Não guardo noção de quando de lá saio e demora a que as pessoas que encontro me pareçam reais. Isso que faz que, com algum desassossego, me pergunte depois quem são os mortos e se os vivos estão vivos.