sábado, abril 7

O terceiro acto

De pequenina tem aquela paixão do teatral, e a mímica, a entoação, os gestos, tudo nela é de quem vive num palco. Explica muitas vezes, com talento, a razão de não ter filhos. Ergue-se de súbito, aponta o baixo-ventre, descreve com dois dedos um círculo, dando a impressão de que segura um bisturi, e exclama com drama:
- Arrancaram-me tudo!
Não só eu, di-lo também a expressão dos outros presentes, vemo-nos de súbito no bloco operatório, o corpo na mesa, o sangue a jorrar, os cirurgiões muito concentrados, aquela aparelhagem toda, as lâmpadas. Depois, aos cicios e passadinhas, seguimo-la na maca pelos corredores, entramos no quarto, assistimos aos cuidados das enfermeiras.
Representa muito bem a visita dos médicos na manhã seguinte, o professor falando de sinartrose e pericárdio, uteremia, palavras que nada lhe dizem, nem a nós, mas que decorou por achá-las interessantes.
Senta-se então lentamente, suspirando, mas logo volta a erguer-se, pronta para o terceiro acto, a representação da impotência do Alberto, da sua sovinice, a discórdia e o divórcio.
Essa é a parte de que gostamos menos - o falecido era bom homem - e então há sempre alguém que diz que se faz tarde, vão sendo horas da deita.

quinta-feira, abril 5

Fazer de conta

Ouve. Vamos fazer de conta, esquecer quem somos, imaginar o impensável, o impossível, sonhar a dois. Sem regras nem cláusulas. Sem memórias. Sem vivências. Num anseio de união. Sussurrando palavras de carinho depuradas de enfeites, livres de medos, nossas, insensíveis ao mundo. Para que assim se torne outra, bem diferente, a linguagem das mãos, dos dedos entrelaçados, libertando devagarinho desejos reprimidos, loucuras, dando forma e brilho ao que se escondeu na sombra.
Nada nos prende. A nós, a ti, de escolher a luz ou o escuro, o sonho ou o despertar.

quarta-feira, abril 4

"Ecologia da língua"

No último número da LER dá Fernando Venâncio alguns exemplos do que está mal na "ecologia da língua", a nossa, a de Camões, Vieira, etc., e atira de início uma das palavras cujo abuso mais me aflige: "incontornável".
Dessa aflição já me ocupara aqui, juntando-lhe as do "absolutamente brilhante" e a do "acutilante". Mas há mais. Sou inseguro em datas, creio que uma década atrás não lia texto nem ouvia sujeito em que não esbarrasse com "vertente". Ele era a vertente dos salários, a vertente do ensino, a vertente estética, dando-me a impressão de que no país e nas pessoas tudo se inclinava. "Negocial" põe-me fora de mim. E para quê tanto "paradigma" e tanta "epifania"? Será que exemplo e revelação pertencem à classe baixa?
Há tempos li num cabeçalho": "A distopia do PSD". Como o texto que seguia não me esclareceu fui ao dicionário em busca da palavra que nunca tinha visto. "Distopia: situação anómala de um órgão". Caramba! Dá chique. Acho que também vou usar.

terça-feira, abril 3

Ah! A Finlândia!

Há dias em que por um nada se vai a boa disposição. Pequenos contratempos, mesquinhices, obrigações que sem vontade se têm de cumprir, uma troca de palavras que caiu mal. A companhia também por vezes involuntariamente contribui.
Cinquentona afável, bem na vida, nem feia nem bonita, estado solteira, tem a febre das viagens e, segundo diz, um enorme desejo de partilhar as suas impressões e experiências. Essa partilha, contudo, deve realizar-se apenas no subconsciente, pois em conversa usa três ou quatro adjectivos, o resto exprime-o com caretas, gestos, exclamações, um pfff! de vez em quando.
- Em 2006 estive no Canadá.
- Gostou?
- É imenso!
A Índia também lhe parece imensa, Nova Iorque, gigantesca. A Tailândia? Adorável! O Brasil? Um mundo! Acha a  Noruega incrível, "Aqueles fordes!"  A Marrocos irá este ano pela terceira vez. "Liindo! Liindo!"
- No Natal estive na Finlândia.
- Não conheço.
- Ah! A Finlândia!

segunda-feira, abril 2

"Bangalijst"


Vai na Holanda uma agitação, porque desde há tempos, com o título de Bangalijst (Lista de fodilhonas) circulam na Internet listas em que a rapaziada do secundário faz saber, com nome,  sobrenome e alcunha, quem são as colegas mais despachadas na arte, as que o dão por gosto, o tarifário das que querem dinheiro.
Iam-se fechando os olhos, ao fim e ao cabo as brincadeiras pouco duram, mas duas semanas atrás uma garota de treze anos suicidou-se depois de ver o seu nome numa lista, e a brincadeira tornou-se notícia. Entrou então a gente da Moral, da Polícia, da Justiça, o coro dos pais aflitos, o dos directores de escolas, aos berros de que é urgente pôr fim à bandalheira, levar a tribunal, se for preciso prender os maldosos.
E as maldosas. Porque não são só os rapazes a fazer listas, fazem-nas também as meninas que, sabidas no anonimato da Internet, e rabiosas por ciúmes, invejas, sabe-se lá que mais, descobriram uma muito eficiente  forma de Bullying e difamação.
Como tudo evolui, as possibilidades são sem conta, e a rapaziada depressa se aborrece,  preparem-se as famílias, não só na Holanda, para evolução da crónica escandalosa.

domingo, abril 1

O carreiro

Olho o carreiro na encosta e volto à meninice, às tantas vezes que o desci a correr, ansioso por chegar à ribeira. Imaginava ali o mar, na ponte medieva um castelo, mudavam-se os canaviais em floresta virgem, os melros em águias e condores. Atravessava a vau, pronto para o ataque dos crocodilos. Quando lá passo recordo, junto do muro, o lugar onde matei dois índios e, para lá das hortas, a clareira onde vi a cavalgada de Yala, a Vingadora, e as suas belas  amazonas. As cabras ao longe  eram os meus búfalos, eu o cowboy perito no laço e no tiro rápido dos Smith & Wesson que me pendiam do cinto.
Hoje cedi à recordação e fui carreiro abaixo, tropeçando nos calhaus, amparado a uma bengala , incapaz de sonhos e visões. Sentei-me na ponte. Olhei em redor, perguntando-me que fazia ali, e se teria pernas para o quilómetro e pouco de subida agreste.

sexta-feira, março 30

"Bonzinho"

Descobri que era tímido por volta dos oito ou nove anos, ao ouvir minha mãe dizer a uma vizinha que eu era "bonzinho".
Pelos jeitos aquele "bonzinho" era o nome colectivo para os meus temores, vergonhas, acanhamentos, e o mais que me levava a baixar os olhos, tremer, fechar a boca, punha depois em estado cataléptico e com vontade de sumir.
Já adulto, muitas vezes tive de respirar fundo e, como se o fizesse a um terceiro,  dar-me mentalmente empurrões para ser capaz de subir a um pódio e falar a um público, pois a vontade que tinha era de esconder-me ou deitar a fugir.
O tempo e a experiência foram pouco a pouco diminuindo o meu acanhamento, mas só passados os sessenta me vi definitivamente livre dele. Grande alívio. Já não tropeço no hall dos hotéis, converso nas festas, não gaguejo nas entrevistas, não coro quando se me dirigem, vivo sossegado, senhor de mim, jamais fama, autoridade ou poder me fará baixar os olhos ou arrepiar caminho. Finalmente sou como deveria ter sido desde menino, deixei de ser "bonzinho".

quinta-feira, março 29

"... é como quem não vê".

Dizem os que não sabem, que para tudo há uma idade. A infância para os brinquedos, na juventude os amores, aos trinta e quarenta tratar da vida, a seguir o declínio, para os velhos o repouso e a solitude da antecâmara da eternidade.
Além de que semelhantes asserções se prestam a confusão, quem as enuncia tiraria proveito se pensasse duas vezes, olhasse para si próprio, olhasse depois em redor e, cuidadosamente, só então abrisse a boca.
É escasso o interesse que tenho em saber o que vai na cabeça do meu semelhante, que ideia faz ele do mundo, ou que miragens o divertem, mas de vez em quando sou confrontado com afirmações, não direi de ignorantes, mas de ingénuos que deslizem alegremente na arrogância da pouca tarimba.
Digo isto com conhecimento de causa, pois à volta dos dezoito ou quê também tive essa fase.
Acontece agora que, depois de debitar ontem aqui umas divagações sobre o amor, vêm duas damas, que suponho jovens, repreender-me pelo que lhes parece ridículo e baboso.
Aos seus olhos assim será, e talvez elas encontrem apoio na conhecida expressão: "If youth only knew: if age only could!". Mas excepções abundam, e é privilégio ter um  passado para recordar e fruir alegremente o presente.

quarta-feira, março 28

Sem peias nem travões

Imagino-o por vezes, mas nunca o farei. Não te vou dizer palavras de carinho e conforto, dar  esperança, iludir-te com fantasias de beleza, adormecer-te com a promessa de ilhas encantadas,  juventude eterna. Quero-te bem demais para te enganar ou possuir. E porque assim é não te mostrarei caminhos, nem livrarei de perigos e sorvedouros. Se errares, ou caíres, serei o primeiro ao teu lado, mas não ouvirás culpas nem censuras.
Há quem jure que o amor é prisão, deliciosa prisão, fantasiam-no com grades, desejam-se carcereiros. Esses desconhecem o puro afecto, de nada adianta dizer-lhes que o amor é liberdade sem peias nem travões, comunhão milagrosa dos que por inteiro se querem dar.

terça-feira, março 27

Potência

Discordam sobre os detalhes. Ela já não sabe se tinha visto na televisão ou lido na Caras, ele diz que se lembra muito bem, foi no jantar de anos do Amadeu, a Sílvia é que tinha ouvido na Renascença.
- Não foi não.
- Foi sim senhor.
Tê-los por companhia tornou-se incómodo. Fale-se da seca ou da carestia, ou do último enterro, e eles descobrirão maneira de voltar ao assunto Tomam um ar esquisito, começam a olhar para as mãos dos presentes, e ela, dada a inconveniências, não hesita em usar a força contra quem as esconde, põe-se a examinar os dedos com ares de vidente.
Vira a mão dum lado e doutro, mede, pisca o olho ao marido, este  examina com o modo do clínico que vem dar uma segunda opinião.
- É ou não é?
- De facto é – confirma ele. E dirigindo-se ao examinado: - Testosterona tens tu de sobra!
Esses são os que riem e acham interessante. Os fracos na hormona não apreciam a brincadeira, e há também os que vêm com exemplos e demonstrações em contrário, afirmando que a prova é feita com o dedo médio.
- Nada disso – explica ela. – O sentimento de agressividade do homem, a vontade de vencer, realizar, o drive sexual, tudo é condicionado pelo seu índice de testosterona. E esse é revelado pela diferença de tamanho do dedo anelar em relação ao dedo indicador. Grande diferença, grande potência. Pouca diferença ou tamanho igual…
Não é de estranhar que os amigos tenham começado a evitá-los, e alguns metam as mãos nos bolsos se por acaso os encontram.

segunda-feira, março 26

Cavaleiros, bosques e neblinas

Está nos trinta, mantém um blogue anónimo. Nele escreve uma prosa antiga de sentimentos e paisagens românticas, com abuso de luares, neblinas, manhãs radiosas, sedas e correrias de pés descalços sobre relvas orvalhadas, longos cabelos loiros agitados pela brisa, beijos castos, febres de paixão.
É também uma prosa de queixas. Ele, o amado, ora lhe segreda palavras divinais, ora se mostra frio, indiferente, quase bruto, para numa reviravolta a apertar nos braços e cobrir de beijos.
Não relata cenas de cama. Tudo acontece em jardins, em parques, quintas com casas senhoriais e castanheiros frondosos. Há Porsches junto da escadaria. Perpassam cavaleiros montados em animais de raça, e ela desejaria ver-se raptada, ameaçada, correndo perigo, milagrosamente salva quando já se sentia perdida. Salva, não pelo amado, mas por um belo e misterioso estranho, com quem, no último texto que dela li, caminha de mãos dadas e entranha-se num bosque, "no instante em que as labaredas do Sol poente incendeiam o horizonte."

Vai para cinco anos namora um dentista. Os pais são contra. O dentista não mostra entusiasmo, nunca fala de casar nem gosta de crianças, paixão tem-na pelo Jeep Cherokee e o Benfica.
Ela não compreende, entristece, pede que eu lhe explique e também - "Não há pressa, mas gostava" – que lhe diga o que penso da sua escrita.
Não tenho coragem de lhe dizer que não quero pensar sobre a escrita alheia, e que a minha já me esgota o ânimo.

domingo, março 25

O gosto da solidão

Para muitos será da idade, para mim é do temperamento, este gosto da solidão que tenho desde que me conheço, o bem-estar e paz sem explicações, sem respostas a dar ou atitudes a fingir.  Os livros são-me boa companhia, na escrita passo horas sem conta nem queixa.
A família compreende, os cães e os gatos sabem-no pelo sexto sentido.
Atento no que acontece no vasto mundo, oiço os vizinhos, mas é mais obrigação e hábito do que verdadeiro gosto ou necessidade. Não sou uma ilha, faço mesmo quanto posso para demorar a sê-lo, mas em redor vou levantando uma cerca feita de sorrisos, acenos, concordâncias, para na medida do possível escapar aos assaltos. Os da banalidade, mas também os das boas intenções, os daqueles que não se dão conta que nem todas as dores são para partilhar, e os que mantêm abaixo do sofrível a craveira dos seus interesses.
Quero aprender, mas dispenso que pretendam ensinar-me o que já sei ou, ingenuamente,  aconselhem receitas para a cura da minha prazenteira solidão.

sexta-feira, março 23

Altos voos

Desejo de altos voos sempre tive e continuo a ter, porque também para isso a idade não dá cura. Mas altos voos é modo de dizer, são antes esperanças, sonhos tontos, aqueles que nos tomam antes do adormecer, quando o entendimento abranda, dando a ilusão de que podemos moldar o amanhã e corrigir os desmandos do passado.
Numa miragem recorrente vejo-me bem outro do que sou, espanto-me da facilidade que então tenho de resolver questões, evitar atritos, ver só harmonias, de fugir aos perigos e amar o meu semelhante com o fervor que recomenda o catecismo.
O despertar recambia-me para o trivial,  e quando me vejo ao espelho não reconheço o sujeito, demora a que a imagem da realidade se sobreponha à da fantasia. Com verdade digo então  para comigo, cá estamos. Porque realmente somos dois, o dos altos voos e o que se pergunta que maldição o impede de voar.

quinta-feira, março 22

Um quadro

É meio-dia e pouco, ar de pesada quietude, em parte nenhuma sinal de vida ou afazeres, céu sem aves, silêncio de mau prenúncio.
Deste lado da estrada o terreno ondula, vai descendo até ao ribeiro, agora um fio de água bordado de árvores ressequidas. Searas de terra vermelha. Deveriam estar formosas de cereal crescido, mas só aqui e ali aparecem manchas de verdura que nem ao palmo chegam.
No descampado surpreende o vulto de uma anciã coberta de luto, curvada a mondar sabe-se lá o quê, ou a arrebanhar  sabe Deus que gravetos. Companhia não se lhe adivinha, nem burro, se veio só deve ter andado horas, porque aldeias por ali não há.
Abrando a marcha. Paro. Lá longe, ela não dá conta, tão-pouco quero perturbá-la. Fico um instante. Não sei se me impressiona a seca ou aquela solidão.

quarta-feira, março 21

O teatro do meu ontem

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Não preciso de fingir, nem sofro com a recordação das lutas e o amargor das derrotas: vivo o hoje, espero o amanhã, todas as noites baixo a cortina de ferro no palco do teatro do meu ontem.

terça-feira, março 20

As "maminhas" do Henrique

É assunto que há tempos me rodava na cabeça, mas disparou quando o Henrique Raposo anunciou aqui a agitação que ia na Tunísia devido às "maminhas" da menina e do desdém do rapaz pelo que manda o Profeta, copulando neste mundo com a huri a que o crente só tem direito no outro.
Devo dizer que, do caso, me ficou primeiro a impressão de que era uma fotografia tola, e o olhar e a boquinha entreaberta da menina não prenunciavam cabeça com excessiva cabeça. No futebolista mal atentei, talvez porque continuo desinteressado  da sublime arte de pensar com os pés. Mas continuei a remoer sobre o caso das "maminhas" e o fascínio que nos machos exercem, mau grado séculos de arte, de pornografia, décadas de liberdade sexual para tutti quanti, e uma internet que, em permanência,  oferece oceanos delas.
Ocorreu-me também o Corta-Fitas, de que sou visitante diário. Aprecio o que lá se escreve , embora muitas vezes discordando, mas saboreio em particular a subtil estratégia de marketing, a qual combina as "maminhas" à sexta-feira com a exegese dominical dos textos sagrados.
Há outros exemplos, mas não me quero alargar, nem vou discorrer sobre o que se passa nos lares e nas camas, quando o senhor sonha com as "maminhas" que viu no E Deus Criou a Mulher, e a madama, capaz como todas de ler pensamentos, reflecte sobre o conteúdo do seu próprio estrofião.

Domingo passado, uns quilómetros antes de Bordéus, dou-me conta de que preciso encher o depósito, e o estômago avisa que é hora do almoço. Para não deixar a autoestrada submeto-me de mau grado à roubalheira de € 15 por um prato de batatas fritas, duas rodelas de pepino, uma andouillete. Os 35 cl. de mau vinho são € 8, o pãozinho € 2, a sobremesa será €5, o café € 3.
Começo pela andouillete, por acaso saborosa, é então que os três se sentam na mesa ao lado.  Compatriotas. Quarentões despachados. Fatos Armani ou semelhantes. Vozes de quem gosta de ser ouvido, modos e gargalhadas a marcar a distância que os separa da plebe em redor. Um deles vai buscar qualquer coisa ao carro, BMW de topo, e quando volta o colega diz-lhe que estacionou num lugar para inválidos.
- Que se fodam os inválidos!
E vá de gargalhar. Amesendam, mas precisam de largueza, puxam outra mesa. Para mim começa o espectáculo.
Os senhores trabalham na Polónia, vão a caminho de Lisboa, por momentos tratam a sério de assuntos profissionais, telefonam, riem muito. Entrementes vêm as "maminhas" de Varsóvia e arredores. As da secretária de X., que também é uma grande foda, e o cu divinal da Maria não sei quantos, os "odres" de sicrana; e a Franciska, essa é que eu ainda um dia destes enrabo, é só apanhá-la a jeito.
- Cuidado, pá. Pode estar alguém a ouvir.
Os olhos passam por mim e pelo resto, mas quem somos nós? Vamos ter ainda um quarto de hora de fodas e de mamas, de como as polacas são boas na cama, do entusiasmo com que corneiam os legítimos e apreciam a tesão meridional.
Levantam-se, saem a gargalhar na mesma balbúrdia em que tinham chegado. E eu, que de propósito demorei a sobremesa, fico a pensar neles, nas "maminhas" do Henrique, nas do Corta-Fitas, e de como é divertido este nosso mundo.


domingo, março 18

As "maminhas" do Henrique

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COMING SOON! 

AS "MAMINHAS" DO HENRIQUE
 

sexta-feira, março 16

Envelhecer

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 Tinham-me dito que assim seria, e contudo surpreende. Mudam os ambientes, mudam os cheiros, estranho as ruas que tão bem conheci e onde agora passam outras gentes, com outros modos. Os ruídos são diferentes. Nos corpos e nas caras, nos gestos, leio expressões novas, algo que me põe à distância e recorda o tempo em que me sentia estrangeiro e tudo era novidade.
Dão-me a vez, cedem lugar no eléctrico, afastam-se deixando-me passar, oferecem o braço nas escadas. Graças a Deus ainda dispenso ajuda, mas a cortesia não é apenas dar, é também saber receber, por isso aceito o braço, sorrio, agradeço. De bom grado, por vezes exagerando, desempenho o papel do idoso frágil e simpático. Escondo que assim me põem de parte e, sem querer, por bem querer, discriminam e magoam.
Mas aceito, não lamento. Revejo-me neles. Também tive pressa, também julguei que os outros pouco mais eram que paisagem. A paisagem que eu agora para eles sou.

quinta-feira, março 15

Quando dói!

O texto é de 1893. De 1932 a 1968, Salazar, o "subalterno audaz", tornou verdade a profecia de Fialho, mas depois dele voltou tudo ao mesmo, e em 2012 cá estamos, a "caterva de humildes pulhas que nós somos", aceitando o chicote. Dói.


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quarta-feira, março 14

É fado nosso

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a) in Os Gatos; Fialho de Almeida (1857-1911)
a) Fontes; António Maria de Fontes Pereira de Melo (1819-1887) chefe de vários governos da Regeneração.

terça-feira, março 13

Teatro de amor


De amor sabem falar os poetas. Nós, o comum, desajeitados e menos sensíveis, dizemos alguma coisa com os olhos, os gestos, mas sempre a pensar que ficamos aquém, incapazes de arriscar, perdendo-nos nos temores que imaginamos. Somos bem melhores no fingimento.

Vem. Deita-te. Apaga a luz. Cerra os olhos. Não fales. Imagina a quem queres que empreste as palavras que te vou sussurrar.

Lembras-te da esplanada, aquela tarde, o acaso do nosso encontro, quando ias sentar-te tropeçaste e eu te segurei para que não caísses? E depois combinámos jantar, ambos inocentes, descuidados, sorrindo de tudo, adivinhando os subentendidos, felizes com aquela alegria ingénua de crianças. E o primeiro beijo, lembras-te?
Não respondas. Ouve. Ainda não era amor, só a excitação do início, o aperceber da descoberta. A iminência do destino que, soldando-nos, de dois faria um.
O que veio depois é vivência de poucos, romance de paixão e loucuras, do espanto das confissões, da partilha dos segredos que envergonhavam e agora nos unem. A suavidade das mãos que se procuram quando nos deitamos. A harmonia dos sorrisos trocados. Certos olhares. O que os dedos aprenderam a soletrar na pele. A ternura dos momentos em que, compreendendo e perdoando, celebramos o reencontro.
É amor, sim, minha querida. Amor que se alimenta de pequeninas e grandes coisas, destes sussurros, dos beijos na escuridão das nossas fantasias, do modo como nos encaramos quando o dia começa.

Não digas nada. Aquieta-te. Espera até que eu saia e oiças fechar a porta.
....................
A fotografia, datada de 1920, é de Anndré Kertész (1894-1985).

segunda-feira, março 12

Cá estamos então

Cá estamos então, manhã de segunda-feira, olhos no longe, o pensamento rodando em torno da morte da bezerra.
Um desejo vago de que seria bom ter muito poder, e com ele melhorar o mundo, curar os doentes, valer aos aflitos, pôr em ordem o que está torto, distribuir esperança e alegria, ordenar o milagre de sol na horta e chuva no nabal.
Enfim, sonhos de soberania, tentando, seja ele por instantes, escapar ao diário, à obrigações, à rotina doméstica, telefonemas a fazer, desculpas a inventar, promessas que aborrece cumprir.
Quero voos, e sei-me preso a um rosário de miudezas, do que me dou conta lavando as xícaras do pequeno-almoço.