domingo, março 11

À espera da vida

(Hong-Kong - clique para aumentar)
Pouco a pouco foi descobrindo que a vida, a sua vida, é uma longa espera. Tempo infindo esperou os namoros que não teve, os amantes que a arrebatariam de paixão, os beijos que não deu nem recebeu. Esperou as horas loucas que tantos vivem, e depois longamente contam, indiferentes à melancolia de quem os ouve.
Uma manhã deu-se conta de que esperava menos. A falar verdade teve o sentimento de que deixara de esperar, e estranhou, sentiu-se vazia, desorientada, como se tivesse perdido um hábito ou lhe faltasse um arrimo.

Aos doze anos queria ser bailarina, aos dezassete matriculou-se em Medicina. Mudou para Economia e Sociologia. Doutorou-se aos vinte cinco. Durante um ano trabalhou na Bolsa de Londres. Passou dois em Nova Iorque, como investment banker, dois num banco de Hong Kong – "Nada de excepcional, sair do trabalho às quatro da manhã e às nove voltar ao escritório" -  e de novo em Londres com o mesmo ritmo.
Aos pais, à irmã, e a duas pessoas por quem tinha amizade, escreveu a mesma carta, falando da sua desilusão e da tristeza de não ter compreendido a vida. Tinha trinta e dois anos. Foi  ontem o enterro.

sábado, março 10

"Sting"

College Tour é um excelente programa da NOS, a televisão oficial holandesa, no qual um personagem em destaque é entrevistado perante um público de estudantes universitários. O programa destaca-se não só pela qualidade, mas também pelas personalidades que consegue atrair, as quais, em geral, aceitam poucos convites.
Em programas anteriores estiveram Madeleine Albright, Johan Cruijff, John Malkovich, Steve Balmer, o Dalai Lama, Richard Branson, Ayan Hirsi Ali, o primeiro ministro Mark Rutte, o arquitecto Rem Koolhaas.
O convidado do programa de ontem pediu que a assistência se reduzisse a umas centenas, em vez do milhar habitual, e eu, entre surpreso e maravilhado, passei uma hora a ouvir Sting.

quinta-feira, março 8

Dívidas

Dinheiro não devo e dispenso crédito, mas tenho dívidas. Dívidas de gratidão. É uma bela e longa lista, a dos que me mostraram caminho, deram a mão, protegeram, acudiram. Me salvaram dos outros e de mim próprio. Me disseram as palavras precisas nos momentos de raiva e desespero, livrando-me da cegueira, repondo-me nos carris donde mais de uma vez saltei.
Vejo-lhes as feições, recordo os momentos, são a galeria nobre onde encontro ânimo e estro. Sorrio a uns, a outros faço vénia, a uns quantos repito solene o meu obrigado. Foram  generosos, deixando-me aproveitar com a sua experiência, o seu saber, o conhecimento que tinham das gentes e da vida. Não fossem eles, e elas, eu há muito teria desaparecido num limbo de frustração, incertezas, desânimo.
São, como a família, aconchego e conforto, aquele porto de abrigo onde deitamos âncora, passada a tormenta da navegação.

quarta-feira, março 7

Falo com defuntos

(Jan van Eyck - 1390-1441. Clique para aumentar)
Não descubro volta a dar-lhe: falo com defuntos. Oiço vozes, tenho na cabeça todo um cinema onde repassam cenas minhas e da vida alheia, guiões que imaginei mas não deram filme, retalhos de querelas, momentos de euforia, tombos, meios desastres, benesses de última hora, precipícios evitados, outros onde ia a cair quando o anjo-da-guarda abriu as asas.
Trocando isto em miúdos, quer dizer que ando meio aborrecido e distanciado do mundo que me deveria ocupar, o dos vivos
É mau sinal, mas não lhe vejo remédio. Sei que abunda a inteligência, a beleza, a solidariedade. Sei que há lugares de eterna Primavera e gente que, dia após dia, tem razões de sorrir e cantar. Gente que reza nos templos, ama o semelhante e os animais, respeita os velhos, acode aos necessitados.
Assim é, mas longe, que aqui em redor pouco disso distingo, ou prefiro não ver. Fecho-me na solidão e chamo os defuntos, querendo saber deles se a viagem é longa, se chegando ao destino se prestam contas, se nos arrumam por tamanho, idade, raça ou nação, se de facto há por lá anjos a tocar harpas e trombetas.

Não julgues que desvario. A tua hora ainda não chegou e para ti, felizmente, a palavra solidão é ainda vazia de sentido.

terça-feira, março 6

Hino de Lamego

(Clique para aumentar - também tirado daqui)

segunda-feira, março 5

Quando éramos simples

(tirado daqui - clique para aumentar)

domingo, março 4

Óculos, deodorantes e ursos

Encontros de acaso na manhã nevoenta e fria deste domingo nos Países Baixos. É dos cheiros e dos olhos. Mais este, para quem gosta dos filhos e sabe educá-los.

sábado, março 3

Muito caminho

De Junho de 1971 a Março de 2012, muito caminho. Em Abril chega às livrarias. A 1a edição neerlandesa é de Março de 1990.
 
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sexta-feira, março 2

Exame

Um bem sucedido homem de negócios, conta da sua juventude na grande propriedade agrícola da família, na província de Groningen, no norte da Holanda, e surpreende-nos com o curioso exame a que o pai submetia os rapazes que o procuravam em busca de emprego.
Mandava que aparecessem na manhã seguinte, às seis, e punha-os no trabalho mais duro, a ver como se comportavam e do que eram capazes. Ao fim do dia convidava-os para o jantar, que nesse tempo, e como ainda hoje nas casas de lavoura por lá é costume, reunia a família em torno da mesa onde fumegava uma única e grande panela. Dadas as graças, servia-se o pai, depois dele os presentes, todos à uma, cada um procurando o melhor bocado.
Inconsciente da prova a que o submetiam, se por acaso ou modéstia aguardava vez, estava o candidato perdido, pois o patrão nem esperava pelo fim da ceia para lhe dizer que não voltasse, e do dia de trabalho, não recebia paga, tinha sido à prova.
Emprego garantido era para aquele que, empurrando os de casa, arrepanhava o que podia logo depois do patrão, dando mostras da boa mentalidade para vencer na vida.

quarta-feira, fevereiro 29

A choldra

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Domingo passado, modorrento com a digestão do jantar, sentei-me a ver na TV a escolha do representante holandês para o próximo Festival Eurovisão da Canção.
Não me divertiu, não gostei, mas pior foi que me trouxe à lembrança as desastradas participações portuguesas a esse festival. Todos os anos espero, todos os anos me encolho de vergonha e tédio, aflito com as canções escolhidas, a prosápia dos que cantam, o mal-estar ao ouvir: "Portugal, one point".
Agora vai o meu jovem amigo Henrique Raposo vociferar que não gosto da Pátria, que sofro do complexo eciano de desfazer dela, que também eu a considero "uma choldra".  Mas não se trata, nem de longe, de desamar a terra de que somos, antes de manter os olhos abertos, dizer onde está o dói, e participar na cura.
Pensando estas coisas ao mesmo tempo que me aborrecia com o programa que estava a ver, ocorreu-me que dias antes tinha lido a bela prosa de outro amigo, também ele eciano de gema, também ele amigo da Pátria, mas muito alerta para o que nela poderia ser melhor. Demonstra Joaquim Gonçalves Guimarães aqui que não sabemos cantar. De facto não sabemos, berramos, desafinamos.
Seja dito que em cantoria os holandeses não são melhores. "The Netherlands, one point".

terça-feira, fevereiro 28

É contigo

É contigo que falo, me abro, deixo entrever boas e más horas, te mando em código sentimentos, abjurações, raivas e alegrias. É para ti que componho frases onde tudo está, e tudo se esconde, a aparência mascarada de realidade, o acontecido embrulhado em fantasia, o eu tantas vezes multiplicado que não reconheço a própria sombra e desconfio que não seja minha a voz que julgas ouvir.
Falo-te, e contudo não existo, nem sequer como me imaginas, porque a todos os momentos me refaço. Escondo e escondo-me, reapareço, invento-me. Iludo-te com palavras, e elas, fazendo ricochete, transtornam a imagem que de mim formas, a do espelho em que julgas ver-me e onde nunca estou.
Falo, tu escutas. Parece realidade e é só aparência, distância, sonho, a bela ilusão do possível que nunca acontece, o poder volátil do desejo tonto. Enfio palavras como contas num rosário de orações, sem credo nem sentido, ignorando que música te farão ouvir, ou se de alguma dor sentirás alívio.
São só palavras, migalhas de mim, sacudidas com fingido descaso, mas na esperança de que, se as apanhares, te dêem a ilusão de que estivemos a falar e nos compreendemos.

segunda-feira, fevereiro 27

Soubesse eu de poesia

(As Três Graças - Lucas Cranach, o Velho, 1472-1553)
Soubesse eu de poesia. Num quarteto, soneto ou ode, pronto soprava para longe o nevoeiro que cega e entontece. Soubesse eu, mas não sei.
Cavo na prosa, que não é de brisas, antes de pesos, arrastos, algemas e grilhetas. Desconhece a inspiração. Nada lhe vem do alto ou do sublime, é obra de enxada em terra dura, com morosidades de boi antigo nas voltas da nora.
Obriga-me a escrever beijo, quando por vontade escolheria ósculo. Falo de lusco-fusco, envergonhado de dizer arrebol. Mas poeta não é qualquer, nem quem quer, só aquele que as Graças favorecem.

sábado, fevereiro 25

Club Transmontano de Angola, 1912 - 1946

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Em 1946 festejava o Club Transmontano de Angola 34 anos de existência. Para marcar essa  efeméride da "primeira instituição regionalista criada em Angola" editou-se um número comemorativo da sua revista. Um exemplar da mesma foi nesse ano remetido para Lamego ao Padre Aníbal Rebelo Basto, provavelmente pessoa conhecida, pois bastou o nome, não precisou de endereço.
Em 1996, no Outono, querendo dar publicidade a Trás-os-Montes, organizei eu uma excursão com 100 holandeses que, em 10 dias, descansando e pernoitando em várias aldeias, caminharam os quase 100 km de Moncorvo a Miranda. Desse grupo fazia parte uma jovem que, tendo gostado da terra e das gentes, desde então volta com frequência a Portugal.
No Verão de 2001, encontrando-se em Lamego, despertou-lhe a curiosidade uma maleta atirada para um monte de lixo. Uma vez aberta, descobriu nela uma revista, um par de óculos, uma boquilha e alguns postais. Guardou a revista, esqueceu-a, redescobriu-a esta semana e decidiu que eu era a pessoa a quem a iria oferecer.
Assim me vejo na posse de uma interessante publicação, de cujo conteúdo, a par de poesia e curiosidades, faz parte um "Recenseamento dos Transmontanos residentes em Angola". Contando por alto, estão nesse registo cerca de 1300 nomes de pessoas e as respectivas localidades de origem, residência e profissões.
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Transmontanos residentes em Angola em 1946

Numa apressada vista de olhos pelas listas, procurando vizinhos, encontrei gente de Freixo-de-Espada-à-Cinta, Lagoaça, Bruçó, Carviçais, Adeganha, Moncorvo, Carrazeda de Ansiães, Vila Flor, Vila Nova de Fozcoa, Alfândega da Fé, Sambade, Meirinhos, Mogadouro, Castelo Branco, Miranda, Chacim, Azinhoso, Poiares, Larinho, Vilar Chão...















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sexta-feira, fevereiro 24

De boca aberta

Esperar vinte e cinco anos depois da morte do homem  para maldizer do Zeca Afonso, não me parece de uma coragem exemplar.
Felizmente, não é só a fealdade dos sentimentos que nos deixa de boca aberta. Vai-se aqui e descobrem-se maravilhas.

quinta-feira, fevereiro 23

O rapaz de Aveiro

Esperávamos pelo eléctrico e tirei-o pela pinta. Telefonava, dizia a alguém num razoável inglês que se tinha atrasado, dei conta do saco de Viagens Abreu pousado no chão. Fechou o telemóvel e suspirou desconsolado: "Grandessíssima merda!"
Meti conversa. Fazia frio, o eléctrico demorava, estávamos defronte da Centraal Station onde há um bom café. Convidei-o e lá fomos.
O Alberto, solteiro, 36 anos, estudou História da Arte, Ciências da Comunicação, Sociologia, Relações Públicas, Inglês. Tudo pela rama, esperançado de descobrir uma paixão, desiludido de que nada o fizesse vibrar o bastante para terminar um curso.
Conta que já teve duas namoradas a sério, um T2 em Oeiras, um Audi. Esteve em Jerusalém e não gostou. De Londres também não. A falar verdade nem de Paris. A primeira namorada, muito apegada à família, não era de viagens, mas com a segunda visitou Cuba e o México, estiveram em Bali, no Nepal, na Índia, em Dubai, em Abu Dhabi. Num outro Verão andaram pela Turquia, a Geórgia, a Ucrânia - "Kiev! Espectacular! – a Rússia, a Polónia.
Oiço. Nada pergunto. Diz agora que a vida mudou muito, as coisas estão más, já não tem apartamento, carro, namorada. Faz dois meses que veio para Amsterdam, um bocadito à sorte. Um amigo holandês ofereceu-lhe cama e mesa por duas semanas, e prometeu que o ajudaria a procurar trabalho.
- Mas o trabalho… - ergue os braços, desconsolado.
Pergunto que trabalho era e ele, tristonho, fala de plantar flores em estufas, colher hortaliças, empacotar sementes.
- Pagava mal. Aquilo era mais para polacos. Andavam lá muitos.
Um rapaz de Aveiro ofereceu-lhe um quarto. Pode ficar o tempo que quiser, mas tudo é muito caro, e se não conseguir qualquer coisa terá de voltar. Um problema, porque os pais já cuidam dos netos e da irmã divorciada.
- O de Aveiro trabalha nas limpezas. Só dá 8 euros por hora e é às noites. Acho que não posso. Ele próprio se queixa, diz que é pesado. Não sei, mas a minha ideia vai mais para um trabalho de Relações Públicas, ou no ramo de viagens.
Pergunta o que penso, o que me parece, e eu respondo que se deite ao que vier. Limpeza, asilo de velhos, descargas, porteiro, moço de recados. Esqueça os estudos que não terminou e a vaidade que não pode nem deve ter. Ganhe o pão-nosso de cada dia. Dou-lhe em exemplo um amigo meu, brilhante doutor em Física, que quando, por falta de meios, a universidade inglesa onde trabalhava não lhe renovou o contrato, passou anos a lavar pratos e a fazer de jardineiro.
O Alberto não gostou de me ouvir, nem que lhe dissesse que o rapaz de Aveiro tem razão e está no bom caminho.

quarta-feira, fevereiro 22

Desespero meu

É desoladora, sem conserto nem cura, a obstinação nacional da crítica injuriosa e do maldizer, palavreado pelo gosto do palavreado, botar figura seja de que modo for, a querer provar que se sabe da poda, que se tem voz na matéria, se é incontornável presença, se nasceu tribuno e detentor exclusivo do único bom caminho.
Cafés raro frequento, cortei na leitura de jornais, e agora ponho de parte os blogues onde, com as fortes certezas da vaidade, me explicam os males nacionais da economia e da política, os erros de quem manda ou de quem mandou.
Não há volta a dar-lhe e com tristeza o repito: continuamos irremediavelmente os Alpedrinhas "das nossas terras palreiras da vanglória e do vinho". E para quê, senhoras e senhores? O palavreado não convence, a ninguém engana, se alguma coisa prova é o mau fado de querer poder, mas empurrando para outros a responsabilidade e o esforço.

terça-feira, fevereiro 21

Manuel António Pina

Não é hábito, mas também raro acontece ler entrevistas deste teor.
Parabéns a Manuel António Pina pelas respostas, e a Nuno Ramos de Almeida que tão inteligentemente o entrevistou.  

segunda-feira, fevereiro 20

Duas perguntas (resultado)

Ficou longe de ser uma avalanche. Não seria de esperar nem o prémio o justificava, mas sempre foram sessenta e sete os leitores que se deram ao trabalho de formular as duas perguntas que me fariam se fossem jornalistas.
Reuniu-se o júri a meio da tarde de ontem. Leu-se, discutiu-se, ponderou-se, e com pena se descobriu que muitos, de facto quase todos, tinham uma pergunta boa, mas outra fraca. Finalmente, de novo debatendo e deliberando, foram nove os papelinhos metidos no saco. Chamou-se criança inocente e foi ela que de lá tirou o nome de Isabel Gonçalves, que tinha perguntado:

- Viajado como é, pelo mundo e pela vida, se lhe desse para fazer um balanço introspectivo, gostaria que me dissesse, à luz desse balanço, se, para si, são as circunstâncias que fazem o homem ou, antes pelo contrário, o homem forja e molda as suas próprias circunstâncias?

- Certezas não tenho, mas se fosse possível forjar e moldar as próprias circunstâncias, creio que a minha vida teria sido bem diferente, sem aventura, com menos sobressaltos, moderada nos resultados. Por outro lado, isso implicaria também a perda de momentos de muita  adrenalina, de sentir extrema alegria, alguns êxtases, viver revelações surpreendentes, ter motivos para admiração e paixão. Posso dar-me a ideia de, uma vez ou outra, ter sido o timoneiro da barca, mas a força da corrente sempre pôde mais e levou a melhor sobre a minha perícia ao leme.

- Como leitora diária e atenta do seu blogue infiro que são muitas as características, digamos, menos nobres do ser humano que lhe causam sentida e sincera tristeza. A minha pergunta é, por oposição à minha afirmação, que resultados, que efeitos, da sua escrita, lhe causaram e continuam a causar-lhe uma profunda e genuína alegria?

- Uma das desagradáveis características da alegria, mesmo profunda e genuína, é a velocidade com que perde impacto e se vai esvaindo da memória. Tivesse ela a força e a permanência da tristeza. Mas eu seria desagradecido e hipócrita se quisesse esconder ou diminuir as alegrias que a escrita me tem dado. Conto por alto: ver impresso o meu primeiro romance; os primeiros artigos de jornalismo; o impacto de Com os Holandeses no público holandês; as excelentes críticas aos meus livros na Holanda, na Bélgica, na Alemanha, no Le Monde e no International Herald Tribune; o êxito de Portugal, um guia para amigos; a recente edição da minha obra em Portugal.
São de facto muitas, grandes e pequenas, as alegrias que me têm vindo da escrita, mas entre as mais íntimas conto os testemunhos dos leitores, quando me dizem como, e por que motivo, os tocou um ou outro livro meu.

domingo, fevereiro 19

Amstrad 1512

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Nada a fazer: rendo-me à evidência de que me falta cabeça e vontade para continuar ao corrente da evolução da Informática.
Em 1986 comprei o meu primeiro computador, um Amstrad 1512, gémeo do que se vê acima, e desde então anda à volta de duas dezenas os que funcionaram e funcionam cá em casa.
Aprendi muito e esqueci ainda mais. Formatar disquetes , decifrar MS-DOS, lidar com WordPerfect e Corel Draw, as primícias de Word, modems que eram externos e depois incorporados. Mandar mensagens, as avós de e-mail, era nesse antigamente acompanhado de silvos, ruídos e muita incerteza quanto ao resultado.
Para não me atrasar no conhecimento, cedo comprei livros e assinei revistas, e até recentemente fui leitor fiel e estudante devotado, mas chegou a hora de parar. As revistas da semana passada, empregando uma linguagem para mim esotérica, falavam de Android,High-End Routers, Spotify, Password managers, IPv6, Streaming, Cloud, SSD 600MG/s, Virtual Private Servers, iTunes Backups, Torrent, SpotGrit…
Folheei. Li, compreendendo muito pouco.Terminei as assinaturas. De hoje em diante, em matéria de computadores continuarei no estádio em que agora me encontro, deixo de acompanhar e dispenso aprender.

sábado, fevereiro 18

Allah nos livre!

Começou hoje em Teerão o processo de 32 pessoas acusadas de uma fraude de dois mil milhões de euros. Além de terem falsificado documentos de várias instituições financeiras, pondo em perigo a estabilidade económica do país, mantiveram-se impunes através da corrupção de autoridades.
O principal arguido é acusado de "corrupção laica", o que no Irão o classifica como "inimigo de Deus". Se o juiz o considerar culpado será condenado a morrer na forca.

Deixem-nos em paz e fiquem os iranianos onde estão, não lhes vá dar a ideia de exportar o código para a Lusitânia. Felizmente, cá não dava. Os nossos brandos costumes não suportam selvajarias.

Gorjeios

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Dizia o dicionário antes de ter chegado o fenómeno:
"Twitter,  1 – s. gorjeio; agitação; inquietação; algaraviada; estado nervoso.
2 – vi. gorjear, chilrear; falar excitadamente; estar nervoso."

A você, que chilreia ao longo do dia, pondo o mundo ao corrente dos seus estados de alma em 140 caracteres, desejo longa vida e recomendo que estude Semiótica, pois o momento chegará em que mesmo o gorjear lhe vai parecer complicado e cansativo. Profetiza-se, aliás, que para o grosso da Humanidade, a que você agora pertence, o futuro está nos símbolos.
E a propósito daqueles 2754 amigos que tem no Facebook, sinceramente espero que se multipliquem, pois quantos mais amizades dessas tiver melhor se assombrará com o vazio que criou. Talvez então se dê conta que é hora de acordar.
Não lhe aconselho livros nem poemas, pois temo que para si já seja tarde, mas talvez ainda se possa despedir do autómato.
Volte a ser gente, reaprenda a língua que lhe ensinaram de pequenino, use a fala que Deus nos deu para que nos distinguíssemos do resto da Criação.

quinta-feira, fevereiro 16

Auto-ajuda

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Talvez porque desconfio de receitas e sou avesso a mudanças de comportamento em que não tenha mão, ainda nunca li um livro sobre auto-ajuda. Se me acontece passar os olhos por  artigo que trata do assunto, leio a coisa em diagonal e não fica recordação, curiosidade ou interesse.
Na minha juventude tinha fama a ainda hoje muito estudada "bíblia" de Dale Carnegie  (1888-1955), How to Win Friends and Influence People, e os avós dos que agora se estafam em ginásios e Pilates seguiam as doze lições do método Dynamic Tension de Charles Atlas (1892-19720), de seu nome Angelo Siciliano, considerado então, de Brooklyn à Califórnia, "O Homem Mais Bem Proporcionado do Mundo".
A idade obriga-me a poupar energia, mas também é facto que por natureza sou contrário à demasia de esforço físico. No que respeita fazer amigos sigo a intuição e ainda nunca me subiu à cabeça a tontaria de querer influenciar o meu semelhante.
Por isso não irei mudar de ideias, nem tornar-me fanático de Mensendieck para manter a forma, mas agora que os anos vão pesando e começo a dar-me conta de certa moderação nos juízos, pergunto-me que motivo, fora a malícia ou a inveja, me leva a rir dos que querem aumentar dois centímetros à estatura e doze aos peitorais? E que mal pode haver na crença de que um método ajude alguém a ser feliz, ou pelo menos mais ajustado?
Não leio livros de auto-ajuda nem entro em maratonas, mas talvez por isso sou fanático de horóscopos e do que predizem as cartas.

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