quarta-feira, fevereiro 15

Fazendo contas

Fazendo contas não destrinço se é das recordações ou da imaginação que me vem  proveito, se da rotina ou duma ou doutra tarefa a que me obrigo. Ao certo sei que me interrogo sobre a utilidade do que faço, do pouco que faço, e em que fundo nascerá este agudo sentimento de independência que me obriga a não participar, mesmo quando daí me viria benefício.
É dizer que sempre andei e continuo a andar desacertado do mundo, há horas em que me desconheço, momentos em que a certeza de existir me vem apenas do peso do corpo, porque o espírito, esse esvoaçava pelos longes da irrealidade e do impossível.
De modo que até para mim próprio sou má companhia, e abundam as ocasiões em que de bom grado me despediria desse outro que também sou. Pagaria, mas não há à venda, para ter uma alma como tantas invejo, as que possuem certezas fortes, traçam um caminho e o seguem sem desvios nem hesitações.
No que me toca, e desde que dela tomei consciência, a minha rota tem sido de hesitações e recuos, desvios, estranhos confrontos, perguntas sem resposta. Ganhei? Perdi? O Diabo que o diga, e Deus me dê paz.

terça-feira, fevereiro 14

"Guerra de trincheiras"

Comecei bem o dia. Se também lhe interessa esta Pátria de nós todos, lhe dói o espectáculo, anseia por melhores dias, gente com mais cabeça, menos ódio e livre de mesquinhez, leia aqui.

segunda-feira, fevereiro 13

O meu escrever

Escrever, pelo menos o meu escrever, é forma de loucura mansa. Escrevendo imagino-me, construo-me, sou quatro, dez em vez de um só, voo sem asas, marcho sem fadiga, amo, luto, conquisto. Escrevendo desfaço nuvens, sou pai de mil, invento dores, ressuscito mortos e fantasmas, ganho em roletas, nenhuma altura me estonteia, não há duelo que perca, precipício que tema, mágoa que não sofra e depois vença.
Escrevendo perco-me, refaço-me, cresço e mingo, oiço o eco dos gritos que ninguém deu, sofro medos que fantasio, por terras que desconheço traço rotas que não seguirei, visto cem trajes, ponho cem máscaras, por detrás delas finjo outras tantas vidas e mais uma, a única que não conta.
Escrevendo gozo por igual a liberdade e a prisão. Defendo, acuso, perdoo, insulto, sou sempre outro e pelo menos dois, às vezes multidão em que me escondo, fugindo do súcubo que eu  próprio crio e no qual me torno.
O meu escrever é isso e mais, é também o caminho que um dia tomei, ignorando que era só caminho, sem meta, sem destino.

domingo, fevereiro 12

Pobre antigamente

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Já Bocage e mais antes dele o assinalaram, fizeram-no também Camilo, Eça, Fialho e outros, mesmo assim continua a surpreender: à medida que diminui a sua capacidade de intervir ou a possibilidade de agir, mais o português analisa e palra, cheio de certezas e conhecimento dos arcanos da política, da economia, do mundo da banca, dos subterrâneos do poder.
Palra com a convicção e fervor que são a marca da impotência, do medo dos confrontos, da incerteza em que vive, da desarranjada balança em que pesa os seus direitos e deveres.
Palrar e bazofiar podem ser agradável passatempo, entre amigos, durante e depois do almoço, mas são mau sinal quando se tornam maneira de ser.
Em Portugal discute-se muito, sofre-se em demasia, mas raro se faz o preciso a tempo e horas. E palavras leva-as o vento. Sem obra nem alicerces, os que vierem depois de nós não vão ter um antigamente de que se possam orgulhar.  
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A ilustração é de Hilary Senhanli.

sábado, fevereiro 11

Frio (5)

Hoje em Alblasserwaard
Hoje em Amsterdam
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Gostaria

Gostaria, mas não me é dado, tudo compreender, de tudo gostar, sorrir a todos, ser cristão nos sentimentos e mandamentos. Gostaria, mas não me é dado, esconder a raiva, perdoar o insulto. Gostaria, mas não me é dado, voltar à inocência, viver loucuras, alegrar-me com o voo da águia, o fulgor das estrelas, o sol poente. Gostaria, mas não me é dado, ser de jeito manso, só ver harmonias, ter ilusões, acreditar em sonhos, fadas benfazejas, dormir a sono solto, não sentir o corpo.
Gostaria, mas não me é dado esperar amanhãs.

sexta-feira, fevereiro 10

Reviravolta

(Ilust. Frank Frazetta - Clique para aumentar)
Rapaz que fecha os olhos e, por comodismo, ignorância, desleixo, anseia ficar parado no tempo, está em maus lençóis. Digo-lho eu, que venho do século XIX (*) , ou ainda de mais longe  e, julgando ter visto muita mudança, me dou conta que elas são tantas, e tão rápidas, que ainda o meu espírito não se habituou à novidade, já outra mais recente me confunde.
De facto venho de longe, de um tempo em que a mulher, sem ser de facto coisa, e estando um pouco acima do cão, só na aparência gozava de estatuto humano. As leis podem ser justas e  generosas nos parágrafos, mas a realidade doméstica pouco ou nada tem a ver com as intenções do legislador. Daí a minha dificuldade em apagar da memoria as violências e humilhações que testemunhei, a vergonha que ainda sinto das vezes em que, por um ou outro motivo, me pareceu que, como queria a Igreja e diziam os costumes, a mulher nascera para a subordinação e a obediência.
Paris deu um pontapé no atavismo das minhas convicções. Ali, se num ou noutro momento a mulher se mostrava no papel tradicional, fazia-o por interesse, jogo ou coquetterie e, findo o teatro, logo pronta também a vestir as calças e pedir meças ao companheiro.
Daí por diante não passou ano sem abalo para as minhas certezas. Perplexo, uma vez ou outra com genuíno receio de castração psicológica, testemunhei o avanço das hostes femininas e a sua vitória no assalto à fortaleza do machismo. Tive depois a impressão de que a guerra dos sexos entrara numa espécie de armistício, ora perturbado pelas exigências feministas, ora pela oposição masculina  à demasia das perdas.
Com um temor que, por estar fora de jogo não devia sentir, mas elimina os resquícios do que em mim ainda restava de orgulho macho, leio agora num inquérito que as jovens mulheres com estudos superiores e boas posições, encaram séria e pragmaticamente o casamento com rapazes de  bom físico e só o secundário. Nada de ideias, discussões sobre a Arte, a Economia ou a Política, o futuro do mundo, mas dos que ignoram a ambição, tenham um emprego que lhes dê para os alfinetes e deixe tempo para cuidar dos filhos e da lida de casa.
Venho de longe. Calhou-me assistir à igualdade dos sexos, preparo-me para, dentro em pouco, testemunhar a reviravolta completa, e ler nos jornais que o rapaz se queixou à Polícia de que a sua senhora lhe deu um par de bofetadas por não ter a comida pronta.
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(*) Não é erro. Nasci em 1930, mas em Gaia os costumes ainda eram dos meados do século anterior. Em Trás-os-Montes datavam da ocupação romana.

quinta-feira, fevereiro 9

Sem futuro

 
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Na minha idade não há futuro. Se me tornar excepção poderei viver ainda dez e chegar aos noventa ou, alcançando o século, tornar-me notícia de primeira página no boletim da paróquia.
Por isso conto apenas com o dia de hoje. Sem pessimismo nem optimismo, temperando os assomos, repelindo da memória as paixões que me mostraram como é o Inferno, repelindo também, mas docemente, as que abriram a frincha por onde apercebi o Paraíso.
Na medida em que o posso vou temperando os sentimentos, controlo as febres, esforço-me por evitar os picos de raiva e as funduras da decepção. Esforço-me, mas raro consigo, porque mesmo sem futuro tudo me obriga a ter consciência do mundo, a sofrer e a alegrar-me com ele. Ora de pé, sorrindo, logo depois sombrio, aos rebolões, temendo a queda.
Vivi em pleno, mas por mais de uma vez, testemunhando a tragédia alheia, fiz vénia, e disse também: "There, but for the grace o God, go I." Infelizmente, nem o que vivi ou aprendi me serve agora de amparo, pois já não tenho futuro onde  empregar o que ganhei de experiência, tão-pouco me abençoou a sabedoria. E assim vou indo, de longe a longe olhando para trás, surpreso cada vez que o dia nasce.

Frio (4)

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quarta-feira, fevereiro 8

Mpemba?

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Desconhecia, aprendi hoje: o efeito Mpemba ocorre quando a água quente congela mais rapidamente que a água fria. A temperatura estava a 15 graus negativos e este senhor atirou ao ar uma panela de água a ferver para fazer a experiência, e de facto assim acontece.


Nós

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Tanto grito e tanto insulto, tantas raivas, invejas e despeitos. Tanta energia esbanjada a exigir o que ninguém pode dar. A fanfarronice a esconder o temor e a impotência, a ignorância, o desespero, a aflição, as lágrimas que se choram para dentro. As mostras de pequenez, o egoísmo velhaco, o tolo apontar de culpas, o fingimento de vestir o sambenito, o gozo parolo de ser bom no papel de coitadinho.

Como nos desenharia Bordallo se voltasse? Por onde andarão os jovens Bordallos? 

terça-feira, fevereiro 7

A mensageira de más novas

Neelie Kroes, a eurocomissária holandesa, diz hoje numa entrevista ao jornal holandês de Volkskrant:

"Que importa que a Grécia saia do euro? Afirma-se que se um país deixar a zona do euro, ou pedir para deixá-la, será uma derrocada, mas não é verdade…Os gregos devem estar cientes de que 'nós, os holandeses' e 'nós, os alemães', só podemos convencer os nossos contribuintes da necessidade do auxílio à Grécia se esta der provas de boa vontade em cumprir o que dela se exige. Até agora não deu".

O governo grego anunciou ontem a demissão de 15.000 funcionários, parte da exigência da UE de que sejam demitidos 150.000.

segunda-feira, fevereiro 6

A crise

Esta manhã, numa conversa em que estavam também um político e um economista, ambos holandeses:
- Anda toda a gente aflita porque o poder de compra na Holanda, este ano, vai baixar 1% ! Enquanto que na Grécia, por exemplo, o poder de compra dos funcionários públicos diminuirá 25% !
- E em Portugal? - perguntei.
Porque não sabiam, o que não creio, ou para me poupar, responderam vagamente que nos países pobres da Europa demorará até que a situação se componha.

Champanhe

Não é razão para champanhe, mas como se pode verificar aqui, o Tempo Contado alcançou a média de 500 visitantes diários. Os seguidores são 200. A uns e a outros o meu agradecimento.

A alegria do gelo

(Ontem, em Groningen.Clique para aumentar © Dimitri Janowitz)
O Padre António Vieira chamou-lhes anfíbios, e verdade é que, para ver os holandeses alegres e felizes, basta que as águas gelem e eles, imitando Cristo, possam caminhar sobre elas. 
Desde há dias a nação inteira suplica que o gelo atinja os 12 a 15 cm de espessura, e mais uma vez se realize este extraordinário acontecimento.

(Hendrick Averkamp 1585-1634)
(Herengracht, Amsterdam, Inverno 1962)

domingo, fevereiro 5

O semelhante

Cristo assim exige, mas é mandamento difícil de cumprir, esse de amar o semelhante. Fosse ele como nós, semelhante mesmo, boa cópia nossa, eventualmente aqui e ali uma diferençazita, mais paz  haveria no mundo, grande sossego reinaria nos lares.
Por má sorte, o semelhante em geral esquece a obrigação de sê-lo, ou de se comportar como se fosse, um nada o desbrida e põe aos coices, a bradar que as suas ideias são justas, correcta a atitude que mostra, o seu clube o da boa camisola.
Em lugar de sê-lo, ou pelo menos tentá-lo, o semelhante muito faz para se mostrar avesso, regurgitando bílis e ressentimento.
Mas é bem provável que seja essa a intenção do Senhor que, dificultando as coisas, põe à prova a nossa fortaleza de ânimo. No que me toca, confesso que, mau grado a boa intenção, nunca fui muito cumpridor do mandamento. Mas como ao Altíssimo apraz escrever direito por linhas tortas, é a contragosto, e porque o não amo, que cada dia me revejo mais no semelhante.

sábado, fevereiro 4

O patrioteiro

Além de sofrer de miopia, o patrioteiro aumenta-a com óculos cor-de-rosa. Fora isso, e em geral, a bagagem de que dispõe para compreender o mundo deve ser ligeirinha, caso contrário saberia moderar as afirmações e, como o ditado diz do sapateiro, não iria além da chinela.
Pior fica o patrioteiro, se também é de fé antiga, quando incapaz de resistir à tentação de mostrar o ódio solapado que aflige o verdadeiro crente.
Veio-me a prosa deste patrioteiro senhor e logo reparei no "holandês-novo". Dou graças: já não há PIDE para perseguir os inimigos da Pátria, nem Inquisição para queimar os filhos de Moisés.
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PS. O cavalheiro acobardou-se. Depois de receber alguns comentários, não meus,  achou que era melhor fechar o guichê dos mesmos. Fraco da espinha.

Frio (3)

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A noite passada, na província de Flevoland, o termómetro desceu aos 22.7 graus negativos, a temperatura mais baixa registada na Holanda desde 1995.
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© da foto: Ton Heijnen

A longa espera

À procura do que não encontrava, dei com este texto que, em 1992, escrevi para prefaciar um livro.
Agora, que o releio, pouco me adianta ver o sol brilhar e a neve a reluzir. Há sombras que nada desfaz.

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A LONGA ESPERA


Espera-se a vitória do clube. Espera-se o destino cantando o fado. Perfilam-se os forcados à espera de vencer o touro. Arrastam-se os crentes pelo chão de Fátima à espera do milagre.

As circunstâncias do afastamento podem diferir, e o estado de espírito do emigrante que voluntariamente deixa o seu país em busca de vida melhor, ou o do expatriado que corre à aventura, não é por certo idêntico ao do exilado político. Mas ao redor dos vinte anos são poucas para o aventureiro, o emigrante ou o exilado, as oportunidades de sofrer com o afastamento. No estádio inicial da expatriação há em cada novidade mais caos do que harmonia.
A paisagem é e ficará estranha. Mesmo com o tempo só em parte a chegaremos a absorver, só em parte se tornará nossa, pouco importando que ultrapasse em beleza ou majestade a que deixámos.
Esse sentimento desnorteante de apenas conseguir absorver em parte, apreciar em segmentos, compreender em retalhos, conhecer à superfície, vem logo de princípio e fica para sempre a marcar as relações do estrangeiro com a sociedade que o rodeia, as pessoas, as coisas, os hábitos e os modos.
A experiência evidentemente contribui para limar as asperezas. Além disso, a passagem dos anos permite desenvolver de tal modo o instinto camaleónico, que o estrangeiro chega por vezes a conseguir funcionar como nativo. Mas de facto só na aparência, só até certo ponto, pois à medida que se desenvolve nele o sentido e a necessidade do disfarce, mais grossas se tornam as raízes que o prendem à origem.

O sentimento de, pela primeira vez, me achar de verdade desenraizado e estrangeiro, só o tive ao chegar à Holanda em Março de 1956. Ao contrário da minha experiência fui encontrar aí uma sociedade muito diferente das que tinha conhecido, inesperadamente conservadora, provinciana, dócil na sua obediência às autoridades e às regras. Uma Holanda onde mesmo Amsterdam era bucólica.
Tendo decidido ficar, e numa idade, os vinte e seis anos, na qual, além de se ser ainda muito sensível ao ambiente, tanto a personalidade como o carácter estão longe de alcançar a maturidade, eu creio que, umas vezes por oposição, outras vezes por simbiose e simpatia, foi na Holanda e entre os holandeses que se desenrolou uma fase decisiva da minha formação.
A Portugal voltei pela primeira vez em 1964, depois de uma ausência de quase catorze anos, intimando-me, pelo caminho, a não fazer comparações materiais, morais, sociais, menos ainda políticas.
Atravessei a Espanha em ânsias, passei a fronteira a tremer, mas tanto as impressões dos primeiros momentos, como as dos dias seguintes, confirmariam o mal fundado dos meus temores.

As transformações eram poucas, menos dramáticas e menos visíveis do que eu esperara: a idade tinha envelhecido os rostos que eram jovens quando eu partira; devido ao dinheiro remetido pelos emigrantes notava-se um modesto bem-estar; a guerra nas colónias era um acontecimento de que se falava com o desprendimento das catástrofes que acontecem longe. Em Lisboa materializava-se, finalmente, o sonho secular de unir com uma ponte as margens do Tejo.
Os laços familiares e sociais, emperrados pela longa ausência física, pela artificialidade das cartas obrigatoriamente bem humoradas, dos telefonemas obrigatoriamente optimistas, retomaram a normalidade. E assim regressei à Holanda, num estado de espírito mais calmo do que aquele em que partira, justificando-o com o género de certezas que não resistiriam à análise, mas tinham as vantagens do sedativo: o ditador não seria eterno, o país era pobre demais para se pagar o custo de uma guerra, a desigualdade social fatalmente acabaria por ser menos gritante.
Desse modo, além das que já antes possuía, a partir desse ano Portugal ganhou aos meus olhos as característica de um parente idoso e adoentado, que eu visitava com frequência, desejando sinceramente que não tardasse a melhorar.
Quando o sedativo deixou de surtir efeito, e me dei conta de que as melhoras desejadas não passavam de ilusão, comecei a sofrer de um sentimento de culpa. Pessoalmente vivia com conforto, tinha liberdade, conhecia mais dias de alegria que de sombra, encarava o futuro com esperança. Mas todo esse meu luxo se tornava em fardo ao lembrar a miséria, as circunstâncias primitivas, as indignidades e injustiças da repressão, as humilhações a que tinham de se sujeitar os sem dinheiro nem padrinhos.
Foi essa a época dos presentes excessivos, dos grandes remorsos, do desespero de me sentir jovem, livre, forte, mas acorrentado a uma pátria atrasada e exausta pela sua longa espera.

A mudança veio com a Revolução de Abril, mas diferente e menos brusca do que seria de esperar.
O que primeiro me surpreendeu durante as visitas que então fiz a Portugal, foi a politização de tudo e o curioso uso do voto, empregado antes como instrumento de discórdia e vingança, do que como expressão dum ideal político.
Para mim continua a ser uma experiência desconcertante ouvir alguém, normalmente sensato, afirmar a sério que nas próximas eleições votará comunista, só porque o padre este ano preparou mal a procissão.

Outras surpresas no período seguinte à revolução: a mudança profunda das relações sociais, o surgimento de uma agressividade que eu - e a minha opinião não é única - julgava não se coadunar com a branda maneira portuguesa de ser; o aumento da indiferença entre as pessoas; a visível desagregação da família.
Em cerca de década e meia Portugal “renovou-se”, eu “amadurei”. São poucos os pontos de contacto que tenho com as gerações novas, desinteressadas como se mostram do passado – para elas 1974 já é a antiguidade. Desesperantes são também as minhas relações com a “velha guarda”, a qual, tendo no seu tempo desistido de agir e de “viver”, sofre agora acessos patéticos de modernismo.
A fortuna dos já ricos continua a aumentar, surgem novas castas de abastados, e a linha que separa os que possuem, dos deserdados, vai-se tornando cada dia mais nítida e inibitória como uma fronteira ou uma cerca.

Não é possível, contudo, desprender-se a gente daquilo que nos é mais querido. Nem eu o desejaria. Além disso, quanto maior é no tempo e na vivência, a distância que nos separa da pátria, com mais tenacidade nos agarramos a tudo o que ela para nós foi e é, mais intenso se torna o medo de perder e esquecer.

O país eu perdemos a ditadura, o inimigo comum que nos unia, e em vez dele ganhámos interesses diferentes que nos separam. Velho para cima dos sessenta, eu quero manter, guardar, conservar. O Portugal de hoje, metamorfoseado em jovem desastrado, quer gastar e gozar. Vive de empréstimos, viaja de Nikes e mochila, tapa os ouvidos com o Walkman. Ele procura o ruído, eu busco a quietude. Cada casa grande de granito secular em ruínas é para mim uma dor. Ele festeja com música e foguetes os provisórios gavetos de betão que sobre essas ruínas constrói. Vistos do ar, os estaleiros das autoestradas que o entusiasmam e vão aproximar da Europa rica, aparecem-me como outros tantos caminhos de perdição.

No íntimo arreigou-se-me o temor de que o “meu” Portugal, aquele que me é querido, o Portugal que espera, parece lenta e fatalmente ir-se desintegrando.


sexta-feira, fevereiro 3

De ilusões vive

De ilusões vive. Das promessas que descobre nos sorrisos, a esperança que imagina noutra rua, na cidade distante, num longe de paraísos, areia branca, muito sol, palmeirais e actrizes.
De ilusões vive. De miragens, de poemas que sabe de cor e falam de amor, beleza, mundos perfeitos, eternidade. Saboreia nomes: Tamanssaret, Niagára, Patagónia, Yucatán. Repete-os num encantamento, levita, é monge tibetano, Superman, escolhe um destino e lá, onde as horas não passam, sente-se feliz.

Frio (2)

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© Paul van Haasen

quinta-feira, fevereiro 2

Frio (1)

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-34 em Constanta, na Roménia; - 20 em Kiev. Amanhã, na Holanda, a caminho de -15.

Cínico e entradote na idade

É uma senhora anónima,  tem este blogue, e no meu parecer deve a sua opinião ser trombeteada, se bem que, como a própria confessa, seja pobre o seu entender. Mas no mundo cabemos todos, mesmo aqueles como eu que, embora  "já entradote(s) na idade", teimam em pensar pela própria cabeça.


Acabei de ler, com agrado, “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, livro de contos de J. Rentes de Carvalho. Não sendo, no meu pobre entender, grande literatura, é, contudo, um livro cheio de narrativas limpas, escorreitas, com apurada sensibilidade e sentido de humor.
O autor, que vive em Amesterdão, tem um blogue – TEMPO CONTADO, onde no dia 1 de Fevereiro escreveu isto:

Estamos de parabéns. É admirável como há portugueses que, com aflições de sobra, de pouco tempo dispondo entre o futebol, a televisão e o café, arranjem oportunidade para, ferrenhos, erguendo o punho, brandindo a Moral, se mostrarem solidários com a Grécia.
É um exemplo que nos dignifica, uma atitude enérgica, muito capaz de levar a que a Alemanha reconsidere a teimosia de não satisfazer o calote.

Palavras cínicas, e até ofensivas, dum homem já entradote na idade.
Primeiro, alvitra que os seus compatriotas mais não são do que consumidores de futebol, televisão e café, isto é, não trabalham.
De seguida, mostra que o seu tempo está mesmo muito contado porque não usa nenhum dele para se informar sobre as causas da dívida grega ou a maneira como a união monetária foi construída à medida dos interesses germânicos.
Homem público com pretensões a intelectual não pode limitar-se a emprenhar de ouvido o que se diz lá no paraíso fiscal em que vive – a Holanda, e isso de escrever o que nos dá na real gana é bom para mim e para os meus colegas bloggers sem nome na praça nem livros no escaparate.
J. Rentes de Carvalho, se não quer perder o seu contado tempo com as toneladas de informação disponível, podia, ao menos, ler o seu colega Manuel António Pina

Resumindo: o livro “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” recomenda-se, mas o blogue de J. Rentes de Carvalho – TEMPO CONTADO – esse, eu vou evitar, para não contaminar a imagem que criei do escritor. Se é que ainda vou a tempo".

quarta-feira, fevereiro 1

Um resto de sol

Um resto de sol ao findar a tarde.

O calote alemão

Estamos de parabéns. É admirável como há portugueses que, com aflições  de sobra, de pouco tempo dispondo entre o futebol, a televisão e o café, arranjem oportunidade para, ferrenhos, erguendo o punho, brandindo a Moral, se mostrarem solidários com a Grécia.
É um exemplo que nos dignifica, uma atitude enérgica, muito capaz de levar a que a Alemanha reconsidere a teimosia de não satisfazer o calote.

terça-feira, janeiro 31

Naufrágio

Com a reforma garantida, a poupança a salvo, isto são apenas números, abstracções com que nada tenho a ver. Deveria anotá-los com o desprendimento dos que da praia assistem, e dão graças de terem desembarcado do Costa Concordia em que Portugal se tornou.
Todavia, são números que me retiram a paz da alma e continuam a revoar na cabeça, profetizando para a minha gente amarguras, sofrimentos e tempos negros.
Desconhecia, mas aprendi: não são os gregos os mais pobres, somos nós, com um PIB de apenas $ 21.000 contra os $ 26.000 do deles. Traduzo um assustador parágrafo: "Se bem que o governo grego tenha recebido avultados empréstimos de dinheiro e o tenha esbanjado, os consumidores gregos e as empresas mostraram-se relativamente constrangidos. Os portugueses não. Segundo números do Bank of International Settlements, o total da dívida portuguesa ascende a 479% do PIB (comparada com 296% para a Grécia). Ou seja, 783 biliões de euros para Portugal e 703 biliões para a Grécia."
E os bancos europeus têm $ 244 biliões em aberto em Portugal, contra $ 204 biliões na Grécia. Quem vai pagar? Quem acredita no perdão de dívidas?
Tivemos a pimenta da Índia, dois anos de volfrâmio, um quarto de século a comer fiado e, como povo, continuamos duros da cabeça, confirmando o ditado de que burro velho não toma andadura.
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Agradeço parte do susto ao Eduardo Pitta.

segunda-feira, janeiro 30

Dia corriqueiro

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Caiu a primeira neve. Escuro de noite às seis da manhã, quando saio com o cachorro. Um pequeno grupo empurra um carro que deslizara para o passeio. A caminho do estacionamento passa uma rapariga negra, alta, elegante, vestida de preto. Um rapaz mete jornais nas caixas de correio, levando a bicicleta à mão. Corvos e gralhas, mais de vinte, debicam os saquinhos de grão que alguém pendurou numa árvore.
Porque o frio aperta e o vento corta, a volta matinal pelo parque fica pelo quarto de hora, e entre os dois abaixo de zero fora e os vinte dentro de casa, o retorno ao conforto e à xícara de café é mais que agradável.
Ligo o computador. Dou uma vista de olhos às notícias, aos blogues favoritos – o meu  amigo Zé Borges ganhou um merecido primeiro lugar – abro a In box e, surpresa, lá estão elas, agora em Davos. E também em Kiev, muito masculinas na apresentação dos traseiros.
Enfim, corriqueiro como quase sempre, assim começou o meu dia.