No começo dos anos sessenta tinha eu em Amsterdam uma empregada – ainda não se dizia assistente da limpeza – avançada na idade, de odores fortes, cómica no feitio e com um hábito alimentar que me parecia absurdo. Gabava-se ela que desde o casamento, uns quarenta anos passados, à sexta-feira comia frango no churrasco com batatas fritas. Festas, doenças, quatro partos, a Segunda Guerra Mundial, nunca tinha arredado do hábito, e às gargalhadas convidava-me a imaginar a fila que fariam os dois mil e mais frangos que já tinha frito.
Veio-me ela ontem à lembrança quando se me revirou o estômago com uma feijoada de marisco comida ao almoço. Não tanto pela feijoada, que por acaso estava má, mas porque -nunca digas desta água não beberei - estando na aldeia, às quintas-feiras vou-me ao "Artur" de Carviçais comer o cozido. Feijoada de marisco e cozido à portuguesa em dias seguidos, não há corpo que aguente. Estou de cama.
Sempre foi assim e não é agora que vai mudar. Vaidosa, egocêntrica, rapariga bonita em tempos muito idos, por razões que só ela sabe inventou-se um passado em que os factos verificáveis engenhosamente se entrelaçam nos da fantasia. Com a perícia de quem tem a mentira no sangue, no momento preciso mostra retratos, cartas, papelada, mas antes que se possa ver melhor, ou controlar, já ela mudou de assunto e, malabarista, recolheu as provas.
Fala muito do que fez, do que testemunhou, tem artes de teatro quando começa a gesticular e facilmente nos transporta para as ruas de Lisboa "naquele fabuloso 25 de Abril". Lá vem uma fotografia:
- Em cima do Chaimite, estão a ver? Entre aquele rapaz e o soldado. Sou eu.
Mas antes de se poder olhar já a foto sumiu, substituída pela de uma manifestação.
- Esta era dos maoístas. Não tenho a certeza, a Joana é que diz que este que leva a bandeira é o Barroso. Deve ser. Pela cara parece.
Não importa que seja. A visão breve, a menção do nome, aquele sorriso em que ela mistura nostalgia, entusiasmo e testemunho, o efeito é seguro.
- O Cunhal! O Álvaro Cunhal! O que eu senti por este homem!
A fotografia passa de mão em mão, volta ao saco, ela agora arrebatada a falar do Bairro Alto naquele "glorioso e inesquecível dia":
- Vocês não viram, não podem imaginar a festa que aquilo era! As ruas cheias! As pessoas aos abraços e aos beijos! Os ramos de cravos!
Nos vinte e pico anos que a conheço devo ter assistido a uma meia centena de representações dessa peça de teatro em que ela, dotada de ubiquidade, testemunha todos os momentos altos da Revolução, conhece os heróis, de Soares a Spínola, Costa Gomes, Salgueiro Maia, a todos aperta a mão.
Os presentes sorriem, comentam com as frases habituais, e então, num suspiro, revirando os olhos que na verdade foram bonitos, anuncia o final:
- Foi nesse tempo que dormi com o Urbano! Ainda tenho um livro dele com dedicatória.
Cai o pano. Nunca mostrou o livro. Supõe-se, mas não há certeza de quem tenha sido esse Urbano.
Há casas que de um modo inexplicável me fascinam. Não tenho interesse em saber quem as mandou construir, quem as habita, ou que ideias teve o arquitecto ao concebê-las. O que nelas me atrai é o facto de que algumas irresistivelmente disparam a imaginação.
Quando passo por esta vem-me à lembrança uma história do comissário Maigret, uma daquelas em que no começo tudo parece simplicidade, mas de modo irremediável se complica depois.
Será das simetrias? Dos materiais? Das persianas corridas? Ou que, por não se ver a porta, aquela escada parece concebida por Escher e não leva a parte nenhuma?
Seja como for, creio que um dia destes vou imaginar que alguém toca à campainha. O seguimento do enredo fica para escrever numa noite de Inverno.
Anos atrás, na Holanda, um sujeito da publicidade deu-se conta que, aplicando-lhe as regras do marketing, o facto da sua jovem esposa sofrer dum cancro e ir morrer em breve, resultaria num best-seller. Meu dito meu feito. Enxertou no relato umas especulações filosóficas, contabilizou os adultérios que lhe apeteceu fazer (ou inventou ter feito) enquanto a mulher agonizava, cobriu o todo com o molho conveniente e, de facto, vendeu-se em redor do mundo mais de um milhão desse curioso testemunho, estão a rodar dele um filme, vai haver uma série na televisão. (*)
Agora é um poeta canceroso sobre cujo livro José Mário Silva escreveu no Expresso coisas profundas: "Previsivelmente, o centro geométrico desta sequência de poemas está no quarto – o espaço do confinamento, o «recife» onde o corpo naufragou e espera a sua sorte. Como única companhia, o sujeito poético tem o tempo. Um tempo que se expande e se sobrepõe a tudo («fundo de um poço / sem fundo que aqui invade a matéria»), lento trânsito das horas que altera a própria percepção da realidade."
Não li os poemas, só o artigo, mas hoje tudo me deprime. Além de que me mordo de raiva pelo facto de três anos atrás, quando fui operado a um cancro, não me ter ocorrido que poderia mudar isso em mina de ouro ou arte poética.
Ainda bem que a meio do dia fui aqui de visita e à Ana agradeço o neste momento me sentir menos só.
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(*) Ray Kluun, Love life – de coração aberto. Traduzido doinglês por Manuel Alberto Vieira. Lisboa: Presença, 2009.
É simpático, bom rapaz, diz-se que se contam pelos dedos os que têm um talento assim. Pontes é com ele. Verdadeira paixão, nascida misteriosamente nos anos de menino e desenvolvida no Técnico com rapidez de foguete, deixando atrás de si colegas e mestres, brilhante a ponto que nem sequer se lhe pode ter inveja.
Damo-nos bem, temos um vago parentesco de trisavós comuns, de longe a longe juntamo-nos a almoçar, e ele então preocupa-me. Ia dizer que me assusta, mas acho que me devo conter. Preocupa-me porque, forapontes e surf, o vasto mundo parece desinteressá-lo, a sua ignorância toca o bizarro, conversar com ele não é um agradável intercâmbio de opiniões e assuntos, mas um exercício de paciência. Fala-se dos templários a propósito do castelo aqui perto? Tem de se lhe explicar. Lutero e a Reforma? Idem. Reykjavik? Dá-lhe para rir. Um amigo falava de Monet, abespinhou-se ele por não compreender o que é que monnaie tinha a ver com pintura. E assim por diante.
Bom moço, tudo se lhe perdoa. Semanas atrás mostrou-me uma fotografia da namorada. A primeira, pois até há pouco só se dera à paixão das pontes.
- Que acha?
- Muito linda.
- Parece-se um bocado com a Monica Bellucci, não parece?
Digo que sim, e de facto...
- É a sério?
- É. Vamos casar na Primavera.
O que durante uns segundos, em simultâneo com a conversa, se passou no meu cérebro deve ser mesmo deformação profissional. É que visualizei cenas inteiras do seu futuro. Fantasiado, evidentemente. Vi-o a esperar longas horas até que a sua Monica Bellucci terminasse a maquilhagem. Vi-o impaciente à porta de casa, enquanto Monica pela quarta ou quinta vez voltava ao espelho, ora a retocar os lábios, ora a corrigir as pestanas, a compor o penteado, a ajeitar o chapéu. Vi-o na cama, sonolento, olhando de vez em quando o relógio, perguntando-seporque duravam tanto as horas que Monica demorava à noite no quarto de banho. Vi-o sorumbático e de lábio descaído em lojas de modas e sapatarias, em centros comerciais, de braço dado com Monica defronte de vitrinas, a folhear revistas em salões de cabeleireiro, desnorteado por não saber que opinião dar sobre o vestido assim, o tailleur assado, este creme, aquele gel...
Porquenão sou de conselhos, meti a viola no saco. O que vier virá.
Estamos no adro à espera que a missa acabe, um pouco afastados do grupo à porta da sacristia. Num sussurro, virando-se ligeiramente para que os outros não vejam. Que me parece e se o acho bonito.
Relógios não me excitam, tenho um Omega de quando fiz dezasseis anos e que guardo numa gaveta, para as horas basta-me o telemóvel. Mas concordo que é bonito, provavelmente caro.
- Nas lojas aí uns setecentos euros. Ou mais. Seiko Kinetic. Não tem pilha, não precisa de corda...
- Conheço.
Tira-o do pulso e passa-mo para a mão. Viro e reviro como que a apreciar, mas de facto desinteressado.Desinteressado do relógio, da conversa e da companhia, porque embora nos conheçamos de há muito o contacto é superficial, sempre o considerei um rastaquouère- de vez em quando acodem-me destas palavras perdidas - chamar-lhe pulha talvez fosse exagero, mas as águas em que navega não são claras e há nele qualquer coisa de retorcido, um viver em viés, mesmo no vestuário se lhe lêem sinais que põem de aviso.
- Se quiser...
A pausa e o meio sorriso prenunciam a proposta. Este não, que o quer para si, mas por cento e vinte, cento e cinquenta, arranja-me igual ou até melhor. Não mo pode dizer, mas fique eu descansado que não é negócio de ciganos.
- São uns rapazes... Está a compreender?
Mesmo sem o gesto de rapina já tinha compreendido e agradeço, aceno que não.
Sai o préstito da igreja. Os acólitos com a cruz e as lâmpadas, o padre lendo alto o breviário, o povo atrás, nós também.
Há estatísticas, para tudo as há, mas falta-me paciência para ir procurá-las, e neste caso basta-me o que oiço. Vem isto de há muito, mas nesse tempo a fenómeno afligia-me menos edeitava-o eu à conta da simplicidade da vida de então, do analfabetismo e das condições em que se vivia. Mas hoje tudo são belas escolas, rádios, televisões, montes de jornais, montanhas derevistas e, contudo, ora me faz rir, ora me assusta, a pobreza do vocabulário com que, para falar à moderna, as pessoas interagem.
Anunciando talvez o futuro, já me aconteceu noutro país ter tido estudantes que quase exclusivamente se exprimiam de forma não verbal, com Ughs e Achs, Pffs, Sshhit, Buhh, mas pelo que observo há por aqui gente de estudos cuja linguagem me leva a temer que aquilo que dizem, e como o dizem, traduz um assustador vazio. Todos se afirmam envolvidos em projectos que são um verdadeiro desafio; têm trajectos; começam e terminam as frases com um "Pronto!". O riso tanto lhes serve para exprimir aceitação como discordância, e com "gajo", "coisa", "foda-se!", "bordamerda" e que tais, escondem mal os buracos do raciocínio.
Recordo ter lido que o falante se serve em média de dois mil vocábulos, mas isso foi nos longesdo século passado. Hoje, avaliando pelo que oiço, pergunto-me se chegarão aos duzentos.
Uma tarde, a rir, no mesmo café onde tudo tinha começado, fizeram contas e discordaram. Ela dizia que fora em Outubro, fazia exactamente dois anos. Ele segurou-lhe as mãos e, paciente, pediu que recordasse. Tinha sido no começo de Dezembro, quando o Sérgio... Que não. E não lhe falasse no Sérgio. Estava absolutamente certa, até se lembrava do que tinha vestido e do casaco, aquele de alpaca com uma gola de raposa que...
Cedeu. Ouvia-a, sorria-lhe, acenava paciente que sim, mas o pensamento disparara. Ligação invulgar, clandestina, perigosa, apaixonante, a deles, cada um descobrindo no outro como que a metade que lhe faltara. E agora... Não, não, era ridículo, não era possível que semelhante ninharia... Lembras-te do casaco? Aquelas botas que eu tinha comprado, de Pollini, as de verniz com um tacão...
À medida que, entusiasmada, ela tentava convencê-lo, sentia crescer um sentimento de quase pânico, fundo, incompreensível, o acordar de uma hipnose.
Voltou a segurar-lhe as mãos. Sim, de facto devia ter sido em Outubro. Depois falaram doutras coisas e quando ela, com um sorriso malicioso, lembrou o encontro combinado para o fim-de-semana, teve um momento de hesitação. Era pena, devia ter-lho dito antes, mas tinham de adiar. Não deu razões, nem ela quis saber, o acordo tácito que tinham desde o começo.
Despediram-se com carinho e ainda se veriam uns meses, o sexo continuaria agradável para ambos, mas nunca lhe diria que, inexplicavelmente, por uma ninharia, naquela tarde tudo terminara.
Que ninguém se aflija ou irrite, se zangue, comece com insultos e a chamar--me nomes, pois como todos (todos?) os meus semelhantes quero ser um poço de compreensão. Creio até que exagero no anseio de compreender. Que alguém me explique as suas razões e logo eu as subordino às minhas, um nada basta para que me flagele pela desastrada maneira que tenho de rir em vez de, sossegadamente, me imaginar na pele alheia.
Costumo repetir aquela frase de samba que diz "pau que nasce torto fica torto", e como nasci torto não é agora que vou mudar.
Mas oiça, chegue cá, não é preciso berrarmos estas coisas.O homem é holandês, tem sessenta e oito anos, chama-se Jan Jansen e goza de fama como designer de sapatos. Quando estou em Amsterdam, ele tem lá loja, se me acontece encontrá-lo desvio o olhar, ponho cara de pau. O que é que você faria? Estou certo de que não ia rir. Fico contente. Prova que também compreende.