quarta-feira, março 4

"A Coruja Satânica"

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"Le satané hibou". Satânica, nada menos, assim chamou L'Express à coruja que continua a atacar os moradores de Purmerend, uma cidadezinha aqui ao lado. Até no Japão é notícia. Notícia são também agora os chapéus que um avisado empreendedor pôs à venda para quem se quer defender do bicho.


Feliz aquele

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Feliz aquele que com razão se orgulha da sua pátria. Com a minha sofro. Dói-me a dobrar quando com ela me envergonham, apontando-lhes os males, a pobreza, a corrupção, o desleixo, a desigualdade, a falta de esperança, o triste futuro. Depois, ao dar-me conta de que não vejo como desculpá-la ou defendê-la, dói-me mais ainda.
 

terça-feira, março 3

Um canal em Amsterdam

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A menina é chamariz. Ia passando no canal uma tarde de ventania, graciosa realidade que de certeza perturbará os censores. A ver vamos. Quem quiser ter a impressão de que também a viu, o sítio é aqui. A da menina não, apenas as fotografias do canal, o Prinsengracht, são de Roeland Koning.

segunda-feira, março 2

A camisa de forças


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Domingo. Por grande excepção, e porque nem sempre consigo escapar à camisa de forças do trato social, lá fui ontem como que de rastos, o almoço substancial prolongado num sem fim de risos e conversas.
Voltei KO, dormi nove horas de enfiada, e recordando ocasiões semelhantes fui-me à procura deste velho texto:

Sem ser o que se chama um bicho-de-buraco, também me não posso considerar medianamente sociável, pois fora possuir uma capacidade limitada para o convívio, a minha paciência suporta mal a maioria das conversas.
Francamente, não me interessa saber o que este e aquele ressentiram ao visitar as Pirâmides, ou qual é agora o preço do capuccino nas esplanadas dos Champs-Elysées. Menos ainda que na praça de São Pedro, com vinte e cinco mil outros, tenham recebido a benção do Santo Padre. Que a sogra tenha sido operado a um quisto no pescoço ou que, devido à escandalosa subida dos preços, já não valha a pena comprar casa de férias na Dordogne.
De visitas são poucas as que gosto, mas os jantares, que sempre me foram um momento agradável do dia, nalgumas ocasiões, e com certos convivas, estão-se-me a transformar em martírio.
Fadiga da idade, impaciência inata, o caso é que as mais das vezes, depois de horas à mesa, não consigo evitar que o meu rosto revele o aborrecimento, que os olhos procurem o vazio, o cérebro se me enevoe e a língua recuse participar na conversa.
Transformo-me num macambúzio anfitrião, o que pelos jeitos não afecta esses hóspedes. Indiferentes ao meu humor, eles continuam a contar do Papa e da Dordogne, e do quisto, e da má qualidade da hortaliça, e do que viram ontem na televisão. Incansáveis, repetem as Pirâmides, o preço do cappucino, recordam a pontada que uma vez lhes deu à saída do teatro, remoem os seus pequeninos interesses. Mostram as botas que, regateando, compraram em Lisboa por dez réis de mel coado. Desfiam com minúcia as razões da queda do índice da Bolsa...
Duas, três, cinco, as horas arrastam-se, a minha cabeça oura, revira-se-me o estômago, falta-me o ar. Sinto-me exausto, derreado pelo contraditório esforço de permanecer cortês e disfarçar a misantropia.
 

sábado, fevereiro 28

"Nieuw Amsterdam"

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"Nieuw Amsterdam" 1938  -  "Nieuw Amsterdam" 2014.

Um bilhete de A. Alçada Baptista

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sexta-feira, fevereiro 27

Cogito ergo sum?

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De nada adianta dizer estou aqui, em carne e osso, presente, olhos abertos, repetindo que existo. Bem posso gritá-lo, este ou aquele distraidamente dará conta, logo esquecendo, confundindo o meu grito com o seu, imaginando ecos.
Quanto mais tempo existo mais estranha se me torna a percepção do semelhante e de mim próprio, toma-me o receio – de facto o pânico – que vivo a imitar, a supor, iludindo-me que vou por um caminho, negando que há muito não mexo, se é que jamais me dei conta de realmente existir, participar, pertencer.
Sinto-me no mundo, mas acorrentado a ele, estranha cadeia que, embora virtual, é a que mais dolorosamente prende, exigindo a morte como preço da libertação.

quinta-feira, fevereiro 26

quarta-feira, fevereiro 25

O sêlo fiscal

Haverá quem se lembre? Quem tenha saudades dele? - Clique

Uma carta de Mécia de Sena

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terça-feira, fevereiro 24

Um bilhete de Saramago


Postais

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O Rossio em 1980 e Vila do Bispo em 1961.

segunda-feira, fevereiro 23

Cartas e confissões

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É tentação que por vezes me toma, mas avisadamente logo afasto, começar aqui uma correspondência aberta, misturando pessoas de carne e osso com personagens inventadas, exclusivamente mulheres, e desse modo semear entre as eventuais leitoras um apetecível frisson, acordando também num ou noutro macho o desejo de aprender a esquecida arte da galanteria.
Os azedos poderão repontar que devo ter juízo, não esquecer os anos, mas a esses direi o que talvez ignorem: o modo de estar na vida tem pouco a ver com a idade e quase tudo com o gosto do risco.
Razão essa de haver  tanto velho de trinta e quarenta, e – julgando pelo que leio e oiço – tanta mulher desesperada de se dar conta que a juventude são dois dias, de como o tempo do entusiasmo, da alegria, dos ardores, dos beijos ao luar, parece, segundo a imagem clássica, que se lhe escapa fugidio como água entre os dedos.
Seria uma correspondência de consolação e gentileza, um trocar de vivências e esperanças, talvez um bálsamo para aquelas horas passadas a sonhar o que poderia ter vindo, ou consolo para o negrume das insónias.
Aqui chegado dou-me conta de que, por deformação profissional, por vezes nem reparo se o que escrevo é o que realmente penso e desejo escrever. Ámen.




sábado, fevereiro 21

As pragas do Egipto

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O que verdadeiramente me interessa naquilo que escrevo é menos o conteúdo ou o tom, o estilo, o enredo, do que a possibilidade de comunicar. Em minha opinião nem sempre falho no propósito, mas também nunca são tantas como desejaria as vezes que o alcanço, de modo que não preciso de céu nublado para que desalente, basta-me ler um texto que por desleixo tornei público, quando nele haveria muito a podar e a colorir.
Dos textos, infelizmente, não se pode dizer o mesmo que dos filhos – ninguém sabe para o que nascem – certo é que estes crescem e vão à sua vida, mas aqueles, quando me nascem aleijados e assim os deito ao mundo, atormentam-me como as pragas do Egipto.

sexta-feira, fevereiro 20

O sonho do João

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Em Janeiro de 2011 já aqui tinha anotado o ritual, mas a razão de voltar ao assunto é a súplica de um João que teve a pouca sorte de se encontrar em Haia na boa altura e, tendo por acaso ido à praia de Scheveningen, mal acreditou no que lhe acontecia ao ver-se cercado de uma multidão de celerados (este ano foram mais de 50.000) que, ao som de um apito, desataram a correr para o Mar do Norte.
Como não sabe holandês poderia eu dar uma ajudinha? E encontrar a fotografia da menina que foi considerada a Miss do evento? São pedidos que não se recusam, fora que o João, aos dezanove anos, tem direito a todos os sonhos. Bente Eelman, a Miss, fez dezassete.

Os pavões

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Em certas horas é avisado respirar fundo, encolher os ombros, não nos deixarmos arrastar pelo misto de irritação e desdém que causam os actos dos presunçosos auto-promovidos a opinion leaders, tão inchados de si próprios que me recordam um cônsul brasileiro que conheci em Amsterdam. Indo a um hotel para organizar uma festa, perguntou ao funcionário que o atendeu:
- Quem é o senhor?
- Sou o recepcionista.
- Chame o director! Só discuto de governo para governo.
Tinha lido, ao mesmo tempo que franzia o sobrolho, mas ontem, um jornalista holandês que há muito segue a política portuguesa, dela tem suficiente conhecimento e fala bem a língua, perguntava-me, rindo, que achava eu disto.
Não encontrei resposta, mas palavra que me doeram as cruas verdades que sobre nós tive de ouvir.