segunda-feira, fevereiro 20

Terra Alta

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- Quando foi isso?
- Em 2012. Tinha feito uns biscates para o National Geographic, e assim sem mais nem menos convidam-me para umas reportagens sobre criadores de cavalos de raça, gente endinheirada que costumava vir a Portugal comprar lusitanos. E logo eu, que não entendo nada de cavalos, ia correr a América de Maryland até ao Texas.
Chego a Baltimore em Dezembro, um domingo de manhã. Montes de neve, trânsito parado, quase ninguém nas ruas, parecia uma cidade abandonada. No hotel tinha uma mensagem do fotógrafo e telefonei para o número, esperava que fosse um gajo, aparece-me depois uma loira despachada, com tendência a segurar as rédeas, tipo Charlie's Angels. Lembras-te?
- Lembro.
- Erika. Boa profissional. Fingia um bocadito de Farrah Fawcett, o caso é que não simpatizámos. Um ponto de acordo foi que ela conduziria, porque carro sem mudanças não é comigo, levou-nos quase oito horas para fazer trezentas milhas. E não vais acreditar!
- Quantos quilómetros é isso?
- Quatrocentos e vinte ou trinta. Demorou por causa da neve. Mas como ia dizer, não vais acreditar. Está a gente em cascos de rolha nas Américas e chega aonde? Diz lá.
- Não faço ideia.
- A um buraco chamado Terra Alta!
- Portugueses?
- Nada. Só o raio do nome. Fomos ao senhor dos cavalos, fiz o meu trabalho, ela achou que tinha fotografias bastantes e despedimo-nos. Daí a nada começa um blizzard de meter medo. Ciclone, neve, escuro como de noite. Havia acidentes e às tantas, por causa do perigo, a polícia a barrar a estrada. Voltámos para trás, perdemo-nos, mas tivemos sorte e encontrámos um motel.
Diz ela: - Enquanto arrumo o carro pergunta se têm dois quartos. Se não houver, então um com duas camas. Se for só uma cama, dormes no sofá.
Só tinham um, com uma cama. Palavras dissemos poucas e ceamos o que havia no automático: uma barra de chocolate, um pacote de bolachas, duas coca-colas.
Às tantas desaparece no banheiro. Deito-me no sofá, tão chateado que nem ligo a televisão.  Daí a nada volta, só de tanguinha, e mete-se na cama.
- Apagas a luz?
Apaguei a luz. A ventania era terrível, o pisca-pisca do anúncio do motel começava a mexer-me com os nervos. Passado uns minutos diz ela toda natural:
- Quando te vens deitar?
Durou quase um mês e foi bom, depois perdemo-nos de vista, mas às vezes tenho pena.

Uma história mete de tudo: realidade, ficção, pitada disto, dois dedos daquilo. Pode nem ter enredo, mas o que mais conta é o que o leitor faz com ela: se o distrair já é bom, se der para sonhar é ainda melhor.


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Publicado na DOMINGO CM


sexta-feira, fevereiro 17

Falsa lisonja

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Do semanário holandês Elsevier (18.02.2017):



“Falsa lisonja


Islamofobia / O secretário-geral das Nações Unidas lisonjeia os seus anfitriões sauditas e asneia.

A vida de um diplomata de topo não deve ser fácil. Não obstante as opiniões que tiver, para alcançar o fim em vista, será por vezes obrigado a manter um bom entendimento. Sobretudo quando se trata dos influentes estados-membros que, financeiramente, mais contribuem para o orçamento da ONU.
Mas há uma grande diferença entre a arte diplomática de navegar à bolina e a absoluta hipocrisia.
O português António Guterres é, desde 1 de Janeiro, quem manda na ONU. Visitou esta semana a Arábia Saudita, o ultraconservador estado islamita do Golfo e generoso doador da ONU. Guterres discursou elogiosamente acerca dos seus anfitriões. A Arábia Saudita é um “exemplo na luta para a mudança e o crescimento.” Tais palavras testemunham de uma estranha opinião sobre um país em que, por exemplo as mulheres, pouco melhoramento vêem no amargo atraso da sua situação.
Pior ainda foi a declaração de Guterres acerca do terrorismo. Esse é “a consequência dos sentimentos de islamofobia e da orientação contrária ao Islão em certas partes do mundo”. É este um mirabolante ataque à direita populista do Ocidente. E também falso, pois não é a islamofobia uma consequência dos atentados dos islamitas?
Além disso são os próprios sauditas quem tem uma tradição de espalharem mundialmente o fundamentalismo e de financiarem os jihadistas – como acontece na Síria. Por parte de Guterres, ao fim e ao cabo líder de uma organização que aspira à paz mundial, teria sido mais corajoso mencionar esse aspecto. Do modo como procedeu confirma apenas o papel de vítima que o Médio-Oriente gosta de representar: o malévolo Ocidente é o instigador da desgraça. Que pateta este.”

Robbert de Witt