quarta-feira, dezembro 18

Nótulas (50)

"Nas últimas décadas ocorreu no Ocidente uma revolução político-social, ocultada pelos politólogos, que explica a actual radicalização, oposta à do século XX. Hoje a burguesia é de "esquerda". Abandonou os trabalhadores e os desfavorecidos – adeus, tempos áureos da social-democracia e do socialismo democrático. A partir de Tony Blair, a ‘esquerda’ conluiou-se com o grande capital, as empresas gigantes, aderiu à globalização sem freios, favoreceu a nova burguesia dos serviços nas grandes cidades, desprotegeu a economia local e nacional. O ‘neoliberalismo’ foi, em parte, obra da ‘esquerda’. Ficou sem causas sociais, impôs as ‘fracturantes’ (do seu eleitorado burguês), que dizem zero aos pobres e desfavorecidos. A agenda ‘fracturante’ do BE exemplifica esta burguesia que nada tem a dar ao povo."

O texto integral de Eduardo Cintra Torres  no Correio da Manhã pode ser lido aqui.

segunda-feira, dezembro 16

Nótulas (49)


Desde que me conheço sempre fui de pressas, enfadado com o hoje, ansioso pelo amanhã, o mês que vem, o próximo ano, só desde há pouco começo a descobrir que é possível travar, que nem sempre as urgências são o que parecem. Nenhum comboio é o último, e as modas, todas as modas, desde as dos costureiros às dos políticos, das Gretas aos inchados salvadores do mundo, não só passam como somem, basta querer olhar um pouco para trás e mesmo fazendo esforço nem a memória as encontra.
Pouco a pouco vou descobrindo que a paz de espírito não necessita de exercícios de respiração, horas a meditar ou seguir profetas, ela própria se anuncia quando é genuíno o desapego do superficial, do supérfluo, das aparências em travesti de realidade.
Estou longe da meta, mas vou perdendo a pressa.

domingo, dezembro 15

Nótulas (48)


A receita continua eficaz, vem da antiguidade: quem quer simpatias não vai contracorrente, e se isso lhe custa pode sempre deitar mão às aparências, o que além de poupar nas inimizades lhe garante a reputação de bom sujeito.
No agitado tempo que estamos a viver, o ser considerado bom sujeito equivale àquelas famosas apólices de seguro da Loyds of London, que cobrem todos os riscos, mesmo os mais disparatados. Um lapsus calami, um descuidado cotovelo tocando um seio, um roçar de nádega, uma pitada de marialvismo, um piropo, ou até um olhar, não darão hoje penas no Inferno, mas caem sob a alçada da Inquisição dos que agora nem precisam de escola, pois nascem abençoados com as virtudes do politicamente correcto, as únicas que não somente conduzem à bênção da alma e da vida, mas também à salvação das águas, dos animaizinhos e do planeta Terra.

sábado, dezembro 14

As "pírulas" do Valentim

Quem vive na cidade tem por vezes curiosas ideias sobre os meios pequenos, imagina nas vilas e aldeias uma grande intimidade, aquelas conversas com tempo de sobra, um vaivém de visitas e portas abertas. Talvez noutras terras assim seja, mas cá na vila mesmo entre parentes e amigos nota-se um certo retraimento, se se lhes bate à porta com um recado o convite para entrar as mais das vezes é pró-forma, ou então fingem pressas, atabalhoando desculpas.
Na semana passada a meio da tarde fui ao Correio para levantar um registo, mas pelos jeitos era o dia dos vales e ao ver aquela fila desisti, fiquei no passeio a hesitar se ia até ao café ou voltava para casa. Foi então que vi o Alfredo acenar-me da porta da farmácia para que lá fosse, e atravessei a rua perguntando-me se teria havido outra vez engano com a receita.
Felizmente não havia, o Valentim é que se tinha esquecido dos comprimidos e não atendia o telefone, ora como eu morava perto…
Por alcunha “O Marmeleiro”, o Valentim abriu a porta, a cara de incomodado logo virada para o cordial, e contra o costume fizesse o favor de entrar, agarrando-me pelo braço não fosse eu desistir.
Agradeceu, puxou uma cadeira para que me sentasse, e já agora que estava ali de certeza não ia dizer não a um cafezinho que ele fazia como antigamente numa cafeteira e era especial, mandava-lho o irmão que vivia em Amboim.
Falámos disto e daquilo, dos nossos achaques, das “pírulas” – o seu sorriso a marcar a ironia – que tomava para ter algum descanso, pois embora só faltassem três meses para cumprir cinquenta anos que voltara de Angola, as memórias da guerra não lhe davam trégua nem paz, muitas noites era como se ainda lá estivesse, sentia os mesmos medos, ouvia os gritos, os estrondos, acordava do pesadelo encharcado em suor.
- Uma noite da semana passada comecei aos gritos, julgava que ia atirar uma granada e afinal tinha adormecido com o telemóvel na mão! Enfim…
Deixou de me encarar, como se hesitasse no que ia dizer ou temesse a minha reacção, a sua voz pouco mais do que um sussurro:
- Só quem  esteve metido naquilo é que sabe, é que pode dizer. Tenho horas em que se fizesse o que me passa pela cabeça nem sei o que aconteceria. Vou tomando as “pírulas” às duas e três, o doutor diz que é um perigo, mas estou-me nas tintas, se morrer morri. Agora como as coisas andam palavra que não sei. Um destes dias vêm eles por aí acima, tomam conta disto tudo. Sabe que já não se pode dizer que os gajos são pretos? Então que são?