domingo, dezembro 21

Who's On Your Site?

(Clique)
Sem que daí venha proveito ou benefício, mantenho este blogue gastando nele horas que roubo a outros afazeres. Em contrapartida, porém, é através dele que realizo um sonho de menino: o das garrafas que tanto quis, mas nunca deitei ao mar, as que levariam mensagens para a gente exótica que se sentiria feliz ao descobri-las nas praias de mares longínquos. Fantasias.
Creio que sou lido - o Sitemeter assinala visitas – mas de facto, como  aconteceria com as hipotéticas garrafas, é comunicação de sentido único. O que, todavia, não impede um contacto que, mau grado etéreo, nem por isso é para mim de menos valia.
Acontece que a horas mortas clico no Who's On Your Site, e me maravilho que nesse instante alguém me lê em Sydney, em Bucareste, no Porto, em Terrugem, Macau, Vialonga, Moscovo, Leiria, Seattle, Rio Tinto, Perafita.
Então, mal me dando conta, recuo por segundos à inocência da infância e quero bem a esses desconhecidos, imagino-os felizes.
 

sábado, dezembro 20

Perguntas

(Clique)
Há momentos em que dentro de nós e à nossa volta se dá uma estranha mudança. Olhamos em redor em busca de um sinal, um motivo, algo que explique a transformação, mas é como se uma cortina nos oculte a nós próprios, impedindo certezas e reconhecimento, desfigurando o que julgamos ver.
Os objectos perdem a dimensão, as ideias chegam sem lógica e em bizarra sequência, nada garante o que vemos ou a solidez do chão em que os pés assentam, aos sentimentos cola-se um visgo de incerteza.
Quem sou? Que razão me tem aqui? Qual é o sentido desta insegurança?
Nesse nevoeiro são sem conta as perguntas e nenhuma tem resposta.

sexta-feira, dezembro 19

Virgindade

(Paul Gauguin - The Loss of Virginity)

Lêem-se aquelas histórias de núpcias em países remotos e sociedades bárbaras, a orgulhosa mãe da jovem esposa a pendurar na janela o lençol manchado de sangue, dando assim prova da virgindade nessa noite perdida.
Além de que vai diminuindo o interesse e a valor do símbolo, e a juventude das sociedades ditas civilizadas há muito se dá conta dos benefícios da promiscuidade, certo é que na vida, no cinema e na literatura, a problemática da virgindade e dos escolhos sentimentais e carnais da primeira cópula pouco interesse desperta.
Mas ouve-se de vez em quando uma história de núpcias burlescas, de desleixo, de bruteza, desencontros que acabam em tragédia. A que segue foi-me confidenciada há uma vida, estava esquecida, veio à tona ao ler as dramáticas núpcias que John Edward Williams narra em Stoner (*)
Esse par que conheci era estranhamente desigual. Ele, espalhafatoso, fanfarrão, indiferente ao resultado da sua jactância, enquanto ela, retraída por natureza e educação, era o oposto.
A noite de núpcias foi um drama: um a julgar-se com direitos de senhor, o outro defendendo-se da violência do assalto. A segunda noite foi idêntica. À terceira foram dormir em quartos separados, e assim continuariam até ao divórcio dois anos depois.
Essa parte tinha-ma ele contado mais tarde, de novo casado, infeliz, perplexo de que também o segundo casamento lhe corresse mal.
O que muito depois ouvi, e ele nunca viria a saber, é que temendo a violência de ser desflorada, ela pouco tempo antes tinha pedido a um cirurgião amigo que lhe cortasse o hímen, só então se dando conta que o noivo iria suspeitar que não fosse virgem. Tempo para explicar não tinha tido, e nessa noite era tarde demais.

………….
(*) Stoner é um livro a não perder.

quinta-feira, dezembro 18

Sem tábua

(Clique)
Há dias em que a miséria do mundo nos cai em cima. Sem aviso. Como as trombas de água ou as trovoadas de Agosto. De nada adianta fechar os olhos e os ouvidos, a miséria alheia não arreda pé, obrigando-nos a testemunhar, chamando a recordação dos nossos maus momentos.
Às luzes e às fantasias dos concertos de rock, festivais, eventos, feiras, exposições, "milagres" do Facebook, notícias de êxitos e vitórias, opõe-se o negrume da pobreza, o espantalho da fome e da humilhação, o descarte daqueles a quem a sociedade não dá lugar.
Raro passa semana que me não chegue o SOS dum e doutro compatriota, mensagens terríveis de aflição, tanto mais trágicas porque vêm de desconhecidos que se sentem afogar sem esperança de tábua que os salve.
Criados no país da cunha, do jeito, do favor,  ingénuos bastante para se alegrarem com a valia  daqueles diplomas festivos que nada são mas muito parecem, descobrem-se sem juventude e sem futuro, não acreditam que ninguém oiça os seus gritos.
……..
Nem a Kafka ocorreu a ideia de um país onde os banqueiros recebessem milhões, ignorando porquê.
 

quarta-feira, dezembro 17

Má ideia

(Clique)

Levado pela proximidade dos festejos do nascimento em Belém, andei uns dias a remoer a ideia, dizendo-me como dentro do espírito natalício seria agradável distribuir cumprimentos a uns quantos blogues. Este e aquele de gente conhecida, outros de anónimos que me divertem, com quem tenho aprendido ou por vezes me levam a rever a justeza de alguns dos meus cavalos de batalha.
Fui anotando nomes e compondo uma lista, com a ideia de, a partir de anteontem, quinze do mês, até ao final do ano, diariamente assinalar um blogue que, por razões várias, me parecesse merecer atenção.
Ainda bem que, acalmado o entusiasmo, e recordando Henry David Thoreau (1817-1862) autor que bastante contribuiu para a minha formação na adolescência, encontrei nele a razão de não levar a ideia por diante. Porque de facto, quem raio sou eu, que autoridade me dou para distribuir cumprimentos?
Afirma esse meu antigo mentor:
"Compliments and flattery oftenest excite my contempt by the pretension they imply; for who is he that assumes to flatter me? To compliment often implies an assumption of superiority in the complimenter. It is, in fact, a subtle detraction."
(Devido à pretensão que implicam, os cumprimentos e a lisonja provocam muitas vezes o meu desdém; pois quem é esse que supõe poder lisonjear-me? Cumprimentar implica com frequência uma pretensão de superioridade por parte daquele que cumprimenta. É, de facto, um subtil desapreço).