sexta-feira, junho 12

Encerramento


A vontade não basta e de boas intenções está o Inferno cheio, de modo que por força maior o Tempo Contado desta vez fecha em definitivo. A todos que por aqui passaram agradeço o interesse e as demonstrações de simpatia.
 

sexta-feira, junho 5

O emigrante perde sempre

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O emigrante perde sempre. Pode ter sido intensa a esperança com que partiu, grande a sua vontade de vencer, digna de respeito a perseverança com que fez frente às dificuldades, admirável o que alcançou. Podem, aqueles entre quem vive, reconhecer-lhe valia, chamá-lo um dos seus, passar por alto o que lhe encontram de exótico ou diferente. Pode ele sentir-se salvo, realizado, sabe o que aprendeu, julga os outros por si, mas no regresso não vai encontrar entusiasmo nem boas-vindas.
Às vezes pequenas, subtis, nalgumas ocasiões inesperadamente grosseiras, desdenhosas, da menina do balcão ao guarda-republicano, do burocrata ao empregado do café, do taxista à enfermeira, mesmo de amigos e conhecidos não vai faltar quem lhe aponte erros e diferenças. Olhe que não se diz assim! Então não sabe o que é uma francesinha? Disso já cá não há! Tivemos o multibanco antes do estrangeiro!
De nada lhe servirá esforçar-se, insistir, dar prova de que pertence: o ninho rejeita-o. Mas a ninguém  dará conta da sua tristeza e desespero: afivela a máscara do sorriso, finge boa vontade, cegueira, entra no coro, diz que sim, realmente: cá é que é, cá é que temos o solzinho, as praias, a boa comida.



quinta-feira, junho 4

Uma amizade serena


Aqui a experiência de nada vale, a idade não ajuda, vemo-nos numa perplexidade infantil a perguntarmo-nos porque terá sido, como aconteceu e com que motivo, descrentes do sentimento que em parte é vertigem, parte desatino e a raiva que a impotência dá.
Era uma amizade serena, marcada por pequenos gestos, lembranças daquelas  que avivam a certeza do sentir e dão confiança, de palavras ditas na hora justa, de atenções tanto mais graciosas quanto o eram inesperadas.
E de súbito, como um raio que descarrega sabe-se lá que esperanças contrariadas, sonhos perdidos, favores negados, o que tinha a aparência de um pleno de camaradagem abre-nos defronte o vazio do fingimento, deixa-nos mais que sós.

quarta-feira, junho 3

Isto da escrita

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Que isto da escrita tem os seus quês há quem o suspeite, quem julgue sabê-lo, como há quem alegremente passe por cima, ou afirme que isso era antigamente, quando as regras eram outras e a fama se vinha demorava.
Uns carregam em permanência na mesma tecla, há-os que não se cansam de experiências, os atrevidos prometem realizar em fraseado a descoberta da pólvora, este e aquele reconhece o germe de Estocolmo no fundo do seu sombrio talento.
Assim seja, parabéns a todos: os que sabem e os que desconhecem, os ingénuos, os esperançados, os que avançam às cotoveladas, os que precisam da roda-viva, os que escrevem desde os oito.
Está aí agora a Feira, boa ocasião de nos perguntarmos que bicho será o que tão desalmadamente pica tantos, que proveito traz aos que julgam saber e aos que começaram a recruta. Isto da escrita tem os seus quês.

terça-feira, junho 2

Um eterno parceiro

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Uma vez por outra conseguimos isso: afastar o medo com a leveza de quem vira a página que acabou de ler. No geral, porém, o medo entra em nós viscoso e tenaz, sabe na perfeição onde somos frágeis, de nada adianta fintá-lo que ele descobre sempre a pouca valia do que julgamos ser o bom  resguardo, a fraqueza da nossa armadura, a transparência da máscara.
Contra o verdadeiro medo, o grande, não há receita, remédio ou oração. Toma-nos por inteiro, torna real a força das pragas, sussurra no escuro que realmente somos apenas isso: pó, cinza, nada. Depois, com falsa caridade, diz-nos que acordemos do pesadelo, aconselha que sejamos fortes, ilude-nos com amanhãs e promessas de alívio.
Mas sabe quem o sofre: o grande medo é um eterno parceiro.

domingo, maio 31

Viva a Etiópia!

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Muito se aprende ao acaso das preguiçosas leituras de domingo. Que a Etiópia desde há alguns anos tem uma das economias mais florescentes da África, talvez a que mais rapidamente cresce, já eu sabia. Também não me era novidade que várias multinacionais estão a abandonar a China e se instalam a Etiópia, onde os salários são baixos, mas o pessoal é eficiente. Verdade é que a democracia  anda lá pelas ruas da amargura, e quem critica corre os riscos costumeiros. 
Mas o que ignorava é que o governo autoritário leva a sério o combate contra a corrupção, e o faz a todos os níveis, desde o ministro  ao taxista. Muito eficiente prova ser a obrigação do recibo, porque quem vende e não entrega prova do que vendeu vai doze anos para a cadeia. Doze. Seja qual for o montante.