sexta-feira, julho 1

A Aspirina

(Clique)



A modo de homenagem, e recordando, porque o simpático senhor que lhe deu origem faleceu ontem, repete-se este texto publicado em 6 de Junho de 2009.

É como num teatro. Sorridente, vem a acenar com uma casca de árvore:
- Ora diga-me lá o que é isto.
- É uma casca de árvore.
- Muito bem. Mas de qual? De que árvore é que será esta casca?
Não se lhe leva a mal o modo enfático, nem a cansativa repetição do "Sou autodidacta, mas posso pedir meças a muito doutor que anda por aí!"
Foi camionista em Moçambique, depois empresário, salvou-se a tempo e vive dos rendimentos.
Entrega-me a casca:
- Pegue-lhe. Estou a ver que não sabe. Nem o que é, nem para o que serve. E estudou! Olhe que eu posso ser um autodidacta, mas peço meças a muito doutor! Então?
- De árvores entendo pouco.
- Pois isto é casca de salgueiro. Com esta casca já os gregos da antiguidade faziam chá para as dores de cabeça! Foi daqui, tome nota, foi daqui que saiu a Aspirina! Mas quem inventou a Aspirina?
- Procurando no Google…
- Google coisa nenhuma! A Aspirina foi descoberta em 1897 por um químico alemão, Félix Hoffmann! E eu tive a honra de conhecer o neto desse senhor. Tive a honra de o ouvir contar como o avô…

Ai que lá vem a muito repetida história! Salva-me a carrinha dos CTT. O jovial senhor Afonso abre a janela, diz que traz um registo e é preciso assinar.

quarta-feira, junho 29

Nós e as quadrilhas messiânicas

(Clique)


Lê-se e dói:

"Essa harmonia que parece reinar na engrenagem social portuguesa é uma harmonia toda fictícia. A nossa organização social é uma organização mentirosa, sem estabilidade, sem unidade, uma ficção de engrenagem civilizada, encobrindo a torpeza dum parasitismo desenfreado e impudente."

"Em Portugal não existe o egoísmo da nação vencendo e disciplinando o egoísmo de cada português. A nossa vida política, económica e moral não tem sido senão uma série lastimosa de actos de egoísmo individual impondo-se despoticamente ao egoísmo colectivo, ao interesse da nação, e subjugando-o."

"As quadrilhas messiânicas bebem-lhe o sangue e vendem-lhe o pão por um preço fabuloso. E esse povo humilde, secularmente escravizado, intrepidamente, com uma heroicidade animal que só a ignorância dá, deixa-se sugar, deixa-se morrer de fome, e, quando não se resigna a morrer de fome – emigra."

"Não compensar o trabalho é aniquilar o estímulo de trabalhar. E até certo ponto, se não é justo, é pelo menos explicável que homens, que em outros meios seriam prodigiosas fontes de riqueza e de progresso, respondam invariavelmente aos que os incitam a fazer qualquer coisa: "Não vale a pena."

............
Manuel Laranjeira     (1877-1912)
Miguel de Unamuno   (1864-1936)


terça-feira, junho 28

Boa vizinhança

(Clique)
Manhosos, sornas, virulentos, entremeiam sorrisos quando falam do tempo, mas são como doninhas, prontos no morder. É cansativo tratar com eles, porque obriga a aceitar-lhes o teatro, ter de falar no mesmo tom, sofrendo que as palavras percam o significado e se transformem em mero barulho, tudo um fingimento, rasteiras mesquinhas, ganâncias de tostão, a cada pausa uma vontade de os mandar àquela parte e, contudo, manter o sorriso, fingindo boa vizinhança até que haja uma aberta e, com um suspiro de alívio, se lhes possa virar as costas.

segunda-feira, junho 27

Explicar o Vara

(Clique)

A trabalhar a terra desde os catorze, tendo por única riqueza os braços e boa saúde, até há uma semana o senhor Adriano era um ancião acomodado com o seu destino, colhendo alguma paz ao folhear a caderneta e certificar-se dos seis mil duzentos e trinta e dois euros e sessenta e três cêntimos que são a sua poupança da vida inteira.
Mas desde que a televisão fala nos perigos da Caixa, que a situação está tremida, e com certeza todos vamos ter de pagar, o senhor Adriano vive no terror de que  o seu diminuto pecúlio desapareça, e nem sobre dinheiro para lhe pagarem o enterro.
Ontem veio pedir-me que lhe explicasse como é que pode ser, que razão haverá  para que o governo deixe à solta os que tinham metido a mão no saco. E em voz baixa, receoso, perguntou se teria sido o Vara, de quem se lembra bem, porque às vezes o atendia ao balcão da Caixa, em Mogadouro.
Respondi-lhe que não se sabe, a Justiça terá de deslindar, mas ele, perdido a remoer os seus medos, não me ouvia, demorou com a última pergunta:
- Mas diga-me lá, como é que um sujeito chega àquelas alturas?
Foi a minha vez de ficar calado. 
................
Publicado no CM

domingo, junho 26

Se o vento muda

(Clique)

Fácil é a queixa, o deitar culpas, o papel de vítima, encontrar razões para o que  desagrada e desaponta. Fácil também é o encolher de ombros ou o virar as costas, o desinteresse, a ladainha do não tenho a ver.
Só que a vida, o dia-a-dia, não se comove nem se interessa, não dá contas, desconhece garantias, prossegue num implacável desfiar de hábitos e contratempos, alegrias passageiras, dores fundas.
Por isso de nada serve a ilusão de ser timoneiro, o esforço de calcular bem a rota: muda o vento, vai a barca ao fundo.