domingo, Julho 27

"The human touch"


De uma entrevista com o sociólogo Carl Rhode (1953), publicada no semanário neerlandês  Elsevier no passado dia 12, traduzo o final:


"Num mundo em que se torna vaga a fronteira entre o verdadeiro e o falso, o real e o virtual, sentimos cada vez mais a precisão de 'a little bit of human touch'.
Mais do que nunca iremos ansiar por um muito pessoal e sincero apreço, reconhecimento, atenções, serviço, tudo, enfim, o que reconhece e acentua o nosso valor como indivíduo e como ser humano.
Essa necessidade é intensificada pelo facto de que, neste momento, vivemos numa cultura mundial de desconfiança e desespero, causada pela profunda crise económica. Não acreditamos na integridade nem nas boas intenções dos políticos, dos banqueiros, dos administradores, dos empresários. Temos nojo de toda essa gente que, sem escrúpulos, destrói  a  nossa prosperidade e o nosso bem estar. Sentimo-nos inseguros, remetidos a nós próprios.
O que nos leva a ansiar por atenções e sinais que, sinceramente genuínos, nos falem à alma e ao coração.
- É isso válido para todos? – É um sentimento generalizado. Nas longas pesquisas que temos feito sobre o ADN social das diversas gerações, constatamos que essa necessidade de 'human touch' se repete com notável frequência, revelando um importante 'soft spot'. Esse anseio de um trato humano que se constata em todos as camadas da sociedade, é algo que seriamente deve ser levado em conta."

sexta-feira, Julho 25

Mamas e leite

(Clique)
Fundos mistérios e grandes banalidades ocultam as circunvoluções cerebrais, melhor mesmo é desistir de tentar compreender, já que por um nada cai a gente em fobias, alergias, psicoses.
Talvez porque o meu primeiro contacto com ele tenha sido traumático, o leite anoja-me. Como relatei  em Ernestina, " Sem mãe que me desse o seio, a avó Maria dos Santos tinha alarmado a vizinhança e a notícia fora de boca em boca, até de Valbom apareceram mulheres a oferecer o seu leite, aflitas por me julgarem sem sustento. De longe ou vizinhas, novas umas, outras já passadas das primícias, pobretanas, burguesas, as mulheres da vida que moravam na viela atrás do largo da nossa casa, todas elas me deram o peito com generosidade, eu em todas mamei sem discriminação nem choro."
Pode ser que todo esse desfile de seios me tenha assustado, e quando cheguei à idade de poder refilar cortei com o leite. Mas o nojo ficou, e quando por volta dos treze anos, numa aula de História, o professor, sabe-se lá com que intenção, elaborava sobre o estado do frágil Cardeal D. Henrique, obrigado a mamar nas tetas de uma "Maria da Mota, de nobre geração", não me pude conter e ali mesmo vomitei.
Quase vomitei uma outra vez, já homem feito, ao ouvir um amigo contar que a mãe lhe dera o peito já ele passava dos dez. Questão de ciúme. Os irmãos iam nascendo e, sendo o mais velho, exigia a sua parte, só parava os berros com a mama na boca. E vá de chupar.
Agora ando eu a ler um sério e volumoso livro sobre a Imperatriz CiXi (1835-1908), aprendo  toda a espécie de detalhes sobre a China desse tempo, as guerras, as intrigas,  a política, os vícios, os costumes, o refinamento das torturas, etc.
Pois bem, muito do que leio pronto esqueço, mas vai demorar a que apague a impressão que me ficou da página 170, onde se lê que por volta dos quarenta anos, também por razões de debilidade, os médicos recomendaram à imperatriz o leite de mulher. E apeteceu-o tanto que daí até à morte nunca o dispensou, mantendo no harém um certo número de amas.
A única diferença com o nosso velho cardeal é que não mamava, as amas deitavam-lho numa taça de jade.

quinta-feira, Julho 24

Podridão

(Clique)
No geral são diminutos os sintomas que prenunciam o fim de uma amizade e, também no  geral, raros aqueles que sabem apercebê-los quando ainda em embrião.
Começam com ligeiras diferenças no tom de voz, pequeninos esquecimentos, subtis mudanças nas fórmulas de cortesia, têm por vezes a jocosidade despropositada que trai a falta de à-vontade. Sente-se que o abraço é forçado, e o aperto de mão, sem ser ainda o de pele húmida que denuncia o impostor, transmite algo da moleza própria da falsidade.
Como ia dizendo, raros se dão conta, mas verdade é que tudo se aprende. Eu próprio, duro da cabeça, precisei de tarimba para distinguir os sintomas do amigo-da-onça, mas hoje em dia, felizmente, até parece que tenho faro de cão. E ajo em consequência: mordo logo, o que desagrada a quem prefere a amizade que vai lentamente definhando e apodrecendo.

segunda-feira, Julho 21

Já matei


Desatinado se pode chamar o que mata com veneno, armas brancas, a tiro ou usando o garrote. Quem tem algum senso comete o assassinato perfeito, aquele que não dá cadeia nem  deixa rasto de sangue, e dispensa álibis.
Uma noite, por volta dos quinze anos, matei o meu pai. Não me surpreendeu vê-lo de manhã ao pequeno-almoço a fumar e a ler o jornal enquanto bebia o café. Para mim estava morto, o resto eram aparências.
Por esse tempo matei também a professora de Latim, uma avantesma que, de casaco comprido, tacões rasos, cachecol e chapéu com peninha, recitava frases dos Commentarii De Bello Gallico batendo com o ponteiro no soalho. Foi dum só golpe.
Matei a Emília por crime de lesa-majestade, ao descobrir que tinha trocado a paixão dos meus dezoito anos por um tenente de Cavalaria 7.
O sargento que no Outono de 1949 iria matar no Quartel da Graça, em Lisboa, caiu  instantâneo, nem tempo teve de dar conta da chama assassina do meu olhar.
Depois desse perdi a conta, e se recordo um ou outro, é mais uma questão de pitoresco: a forma como este levantou os braços dizendo-se inocente, a bajulice dum outro caído de joelhos, as lágrimas de crocodilo daquela que me enganou e, ao ver-se descoberta, morte nos olhos, pediu perdão, jurando arrependimento.
A idade acalmou a minha sede de sangue, e o último que matei já lá vão bons anos. Era um merdeiro, humilde de nascença, mas tão convicto da fineza aristocrática do seu espírito que  julgava poder permitir-se extremos de pulhice. Com esse usei o desdém numa única dose.
Fatal como cianeto.

sábado, Julho 19

Um retrato


É um raivoso daqueles que os ataques de raiva tornam cómicos, porque então de facto rebola os olhos, espuma da boca, todo ele estremece como se sofresse da dança-de-são- vito.
A mola forte da sua raiva é a inveja. Inveja do talento alheio, do sucesso que queria ter e não alcança, o reconhecimento dado a este e aqueloutro e que esperava seu.
Tem por meta o proveito, e tão fanático se torna a querer alcançá-lo de qualquer maneira que não poupa o esforço, a ponto de, fisicamente, ganhar o aspecto dos  rafeiros que, exaustos e sequiosos, vão pela berma dos caminhos.
Para um qualquer em seu juízo bastaria o talento que Deus lhe deu, mas a ele não contenta: quer esse, mais o do vizinho, e também o que o Altíssimo, por distracção, esbanjou nos figurões que lhe fazem concorrência, os mesmos que, sem parar, recebem prémios, benesses e louvores.
Consegue o milagre de contrair os maxilares quando fala, resultando daí que as palavras que articula parecem voluntariamente sibiladas, como para melhor condizerem com o chispar dos olhos.
Lá dentro, lá no fundo, deve ter também boas qualidades, por certo conhece momentos de devoção e altruísmo. Infelizmente, só se vê dele o que não consegue esconder.