sexta-feira, maio 29

"Vou bem"

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Antes o silêncio do que deixar ouvir o queixume, a desilusão, a melancolia, pois também aos outros há-de ser de sobra o que os aflige. Por isso melhor é calar, esconder a mágoa, e ao corriqueiro "como vais?" dar sempre a esperada resposta, embora o "vou bem" não iluda. É apenas ruído, máscara, subterfúgio igual ao dos animais que, por defesa, escondem o ferimento.
Para sossego geral há que esconder a pena, mostrar o sorriso, ir de cabeça erguida como quem tem um propósito ou corre para uma meta.


quinta-feira, maio 28

Sem raízes nem mistério que nos empurre

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Ao nascer do dia passam curvados, sacho ao ombro, num andar lento e comedido que lembra o dos lapões e dos tibetanos, que por pequeno que seja nunca levantam os pés sobre um obstáculo, mas o rodeiam, a poupar energia para a jornada e a tarefa.
Estão a chegar ao fim da velhice, há muito esqueceram as alfaias que lhes pareceram modernas e mais que precisas, mas agora enferrujam no cabanal, o atrelado a servir de capoeira, os pneus vazios, as pitas a chocar no assento do tractor.
Meia dúzia de anos, se tanto, iludiram-se com as novidades, aprenderam a usar isto, aquilo, mas o atavismo e o tempo breve se encarregaram de lhes fazer ver que não era esse o caminho. Infelizmente não havia retorno, e quando deram conta já os anos lhes tinham gasto as forças.
Mas só a morte os há-de parar. É assim que todas as manhãs, tornados autómatos pelo instinto milenário, vão a caminho da tarefa inútil de plantar batatas que não precisam, couves que ninguém quer, gastando o que lhes resta de força na poda e na cava das oliveiras.
A sua presença impõe respeito. Há neles algo de primitivo e natural que nós outros perdemos. Nós, os que vamos existindo,sem raízes nem mistério que nos empurre.

quarta-feira, maio 27

A grande felicidade


Há algo de insólito e injusto nos momentos de grande felicidade. São intransmissíveis, desconhecem a partilha, as palavras com que se tentaria descrevê-los ficam aquém. Resultam, de facto, numa forma de solidão e abandono, como se a grande felicidade tivesse por único fim deixar aperceber uma réstia de esperança pela existência de algo mais elevado do que a condição humana.
Pede recolhimento, pudor, traz consigo a visão da nossa incrível pequenez, e ao fazer-nos melhores deixa-nos desamparados.
Sermos medianamente felizes, balançando entre um pouco de sofrimento e um pouco de satisfação, é mais conforme com a nossa natureza.

terça-feira, maio 26

Admiração

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De repente levanta-se, ergue os braços ao modo de um muçulmano invocando Alá, detém-se um instante, volta sentar-se e conta pelos dedos, não vá eu ter dificuldade em seguir: fulano, sicrano, beltrano.
Para que ninguém se aflija ou aborreça, passo os nomes.
Encara-me, dramatizando o gesto, elevando a voz:
- Gigantes! Pense você o que quiser, mas são gigantes! Verdadeiros gigantes!
Aceno que sim, não porque concorde, mas para que se acalme.
- E há aquele rapaz – cerra os olhos em concentração. – Aquele rapaz que possui  uma escrita maravilhosa. Se você não leu deve ler, absolutamente. Estou a ver a cara. Tem umas barbas. O outro também tem, mas não é esse. Daqui a nada lembro-me do nome. Quando me irrito ou quando parece que nem à viva força, é sempre isto… Tenho excelente memória, o problema é que não consigo, se as pessoas se mostram…
O telemóvel toca e ele atende, ouve calado de sobrolho franzido, os minutos passam. Tempo depois acena uma desculpa, que se despede, vejo-o ir por entre as cadeiras da esplanada.
Passa dos setenta e, como D. Quixote, imagina gigantes: não para combatê-los, mas para satisfazer o seu anseio de admiração.

segunda-feira, maio 25

Santo de casa ...

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A entrevista pode ser lida aqui, aqui e aqui.

domingo, maio 24

Escrita criativa

Quem estiver interessado em aprender como se faz boa figura com a roupa alheia pode ir aqui Curioso cabeçalho. O texto sem aspas. No fim, como se caído ali por acaso e a fazer de má desculpa, o abaixo assinado.
(*) O original

sábado, maio 23

Perder não importa

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Leio sobre lugares inacessíveis, gozos proibidos, ocasiões que não voltam, cumes inalcançáveis, esperanças perdidas.
Entro no sonho alheio, fascinado, e continuo a ler, seguindo o trilho de uma vida  que foi e já não é, porque a idade não perdoa, deixando a quem tudo quis e muito viveu o amargo da memória e a impiedade do tempo, a erosão do corpo, o rosário de perdas, quedas e decepções.
Mas perder não importa, o verdadeiro inferno é reservado para quem se dá conta de não ter vivido.
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O testemunho é de Andrea Stuart.