sexta-feira, novembro 22

Nótulas (34)


Como se explica que no Portugal moderníssimo, cibernético, 5G, ponta de lança em tantas novidades, haja instituições, departamentos, gentes de várias espécies, firmas mundiais e supers de bairro, autarquias, juntas de freguesia, clubes grandes e pequenos, que se dirigem aos cidadãos e clientes tratando-os por V. Exa ?
Como não rir – por vezes a tristeza dá isso – do Exmo Snr e do Exma Snra D.? Excelentíssimo em quê? Senhora Dona de que fidalguias? Que Excelências?

quarta-feira, novembro 20

Nótulas (33)

Nos momentos em que por qualquer motivo me inclino para a introspecção, dou-me conta  que desde o começo a minha vida tem sido uma curiosa mistura de altos e baixos, com a particularidade que, duma maneira ou doutra, algumas das ocasiões desfavoráveis resultam num improvável benefício.
Assim é que, armado com essa experiência, tenho aprendido a não ter repentes, a pacientar nos juízos, a dar vez à opinião alheia, fazendo quanto posso para não cair em dogmatismos ou cegueiras, nem me deixar arrastar por paixões.
No plano pessoal tem-me vindo daí paz do espírito, algum optimismo, e viveria sossegado não fosse o caruncho do amor ao meu país e à minha gente, que me atacou por volta dos quinze anos, foi crescendo, é hoje a razão maior das minhas sombras e mortificações.
Dá-me pena, mas não posso alinhar com os entusiastas da onda de benefícios que o turismo, a mais aleatória das indústrias nos traz. Menos ainda com os que se sentem felizes e honrados com as peneirices de uma Web Summit, de startups e semelhantes, se vejam já a pedir meças a Silicon Valley. Também me ensombra que sejam tantos os estrangeiros super-ricos que de súbito descobrem Portugal, isso pela simples razão de que nem a nossa sociedade nem os nossos políticos – tantos deles reconhecidamente corruptos – dispõem de experiência ou meios para fazer frente ao poderio e às consequências dessas riquezas. E os nossos ricos, mesmo os que aparecem na lista da Forbes, não são quem para com eles competir.
O Zé Povinho, esse continuará onde todos os reis e políticos esperam e querem que se mantenha, e a classe média, a classe que é a espinha dorsal dos países prósperos e civilizados, vai descobrir que o seu destino repete o dos que nos anos cinquenta e sessenta deitaram a fugir, porque a Pátria era madrasta. E continua a sê-lo. Os seus filhos e netos serão os próximos “vacanças”.

terça-feira, novembro 19

Nótulas (32)


Anteontem, domingo, estive num jantar de aniversário. Boa companhia, boa conversa, ambiente animado, eu de longe o ancião, com o dobro da idade do mais velho dos restantes, todos eles na força da meia idade, bem na vida e aparentando saúde.
Falou-se de tudo e mais alguma coisa, até que Portugal veio à baila, porque é país que os presentes conhecem bem, quiseram eles então que lhes explicasse por que motivo, sendo Portugal tão pobre e indo-se tudo degradando a olhos vistos, seja desmesurada a apatia dos cidadãos, o descaso que mostram pelo seu próprio interesse, a modorra em que parecem viver.
Não soube que resposta dar. Fiquei, como aqui se costuma dizer, com a boca cheia de dentes,  incapaz de encontrar razão que explique a nossa passividade, tanto mais que eu próprio me vejo como um dos da multidão que há tantos séculos espera que o hábito lhe entrou no sangue.
Os outros ganharão um futuro, nós e os que vierem depois terão o que lhes derem. O que não nos abona e antontem em tão boa companhia me envergonhou.