segunda-feira, março 18

Sobre Céline

                                                               (Clique nas páginas)


domingo, março 17

Um livro interessante - mas não para todos









Isto acaba mal


Acontece de longe a longe, mas o Fernando Alpedrinha arrelia-se cada vez que um ou outro gracioso lhe recorda o personagem queirosiano. Não fosse senão porque sendo ele há vidas um respeitável farmacêutico, desconfia das intenções e não compreende o gozo dos que, pela coincidência do nome, lhe vêm com a figura do pelintra que acabou a vender odres de água nas ruas de Jerusalém.
Falávamos disso, falávamos do sabor de uma boa chanfana e da pitoresca dicção do Primeiro Ministro, falávamos de como certas situações são mel para os vários oportunistas, e a que ponto eles se rebaixam para tentarem alcançar os quinze minutos de fama de que Andy Warhol falava em 1968, e hoje nem quinze segundos são.
Como não podia deixar de ser falávamos também das questões de violência doméstica, uns a favor do pobre juiz, lamentando os apertos em que se vê por querer interpretar a lei a seu modo, outros dando mostras de insuspeitada crueldade, rosnando que o mínimo que merece seria desfazer-lhe a cabeça à força de pauladas de uma moca cravejada de pregos.
O Alpedrinha sorria, de vez em quando encolhia os ombros mas não tomava partido, tinha mesmo afastado um pouco a cadeira como quem se aborrece, e só depois, tudo já calmo, perguntou se nos lembrávamos da frase do banqueiro que na crise de 2013 afirmara que o nosso povo ‘Aguenta, aguenta!”
Disse então que era a isso que queria voltar, porque no meio de toda a bandalheira da violência doméstica, da política, da corrupção, das feministas, e da mariquice das igualdades, tinha a certeza que em as coisas chegando a certo ponto o povo não aguenta. E com um modo grave que não lhe conhecíamos, jurou que às vezes se pergunta se o povo português será de facto tão manso como supõem os vários Donos Disto Tudo, ou se vem isso do seu natural carinho e precisa de tempo, muito tempo, até que finalmente rebenta, perde as estribeiras, e então vem à tona a sua natureza subterrânea, que por ser excessiva na ferocidade o torna irreconhecível.
Ouvíamo-lo calados, surpresos também, porque regra geral é de poucas falas e raro se mostra entusiasmado pelo que quer que seja, mas ele ainda não tinha terminado:
- Todo esse berreiro é fandango, parece revolta mas não é, são merdices de alfacinhas. O Zé Povo ouve o paleio, olha para a TV e está-se nas tintas, aquilo não é com ele. Sabe demais que nenhum desses betinhos os tem no sítio para lhe dizer de caras que não bata na Amélia. Venha um que se atreva e temos aí uma Maria da Fonte. Isto acaba mal.

sexta-feira, março 15

Bilhetes (1)


A sabedoria aconselha a não ter repentes, pensar duas vezes antes de agir, ser cauteloso no  julgamento, não tomar as aparências por realidade. Esse é o sermão com que nos aborrecem no começo da vida e depois habituamos a ouvir calados, acenando que sim com a cabeça, os olhos postos no interlocutor, temendo que de um momento para o outro a paciência se esgote, o sorriso se torne escárnio e o que nos vai no íntimo se leia nas feições. Ouvimos, mas não aprendemos, a vontade que dá é pisar o risco e esquecer as consequências, depois se verá, tudo há-de correr bem.
A irresponsabilidade de semelhante atitude espera-se de um adolescente, raro se perdoa num adulto, assusta num povo quando se constata que o fatalismo parece parte maior da sua essência, que usa os queixumes para esconder a realidade do seu egoísmo de pobre e o descaso que tem pela res publica.
Olhado de longe ou de perto a visão é a mesma: somos um país de queixas e melancolia.

sábado, março 9

A estupidez pega-se


 Há momentos em que a surpresa de algumas notícias tem efeito parecido ao de uma cacetada que nos deixa atordoados, naquele estado de descrença em que as emoções levam a melhor sobre o entendimento, e de seguida, não podendo reagir doutra maneira, desatamos às patadas no chão, aos murros na mesa, aos berros e aos insultos, fúria inútil que não alivia, apenas testemunha da nossa impotência.
Segunda-feira 25 de Fevereiro. Anoto a data, embora me pareça que a não vou esquecer tão cedo. Aqui em Amesterdão pego no jornal Het Parool e fico de boca aberta (a fúria virá logo a seguir) com um título que em letras gordas ocupa toda a largura da capa e anuncia que uma das duas universidades da cidade, a Vrije Universiteit, vai terminar com os estudos da língua neerlandesa, por razões tão várias como a falta de interesse por parte dos estudantes, que preferem as ciências exactas, mas também porque o estudo da literatura e da língua-mãe não é fashionable, e em muitos cursos o neerlandês já foi substituído pelo inglês. Aos argumentos práticos e económicos de no departamento de Línguas e Literatura já serem mais os funcionários do que os estudantes, acrescenta-se o de que os rapazes e as raparigas que no liceu se interessam pelas Letras ‘não contam’, nem são populares entre os colegas. Por último uma inesperada objecção que seria cómica se não fosse estúpida, sem pés nem cabeça, a de que  actualmente ‘o estudo das línguas é um hobby de esquerdistas’.
Os dias vão correndo, a agitação abrandou, um ou outro tolo poderá argumentar que essa decisão me entristece porque toca em algo que afecta o que foi a minha vida profissional e continua a ser a minha paixão, mas assim não é, e se por acaso fosse seria o menos. O que me faz descarrilar é a cegueira, a estupidez mandante dos que querem e têm o poder de tornar supérfluo o que deveria  permanecer essencial, de suporem que tudo é técnica, mecanismo, algoritmos, de que a vida são os computadores, a internet, e a única sociedade real a do Facebook. 
Com os muitos anos que levo conheço o desespero da impotência, sei de sobra o pouco que o indivíduo conta e a amargura que dá ver como um a um se vão desfazendo os sonhos, mas sei também a força que pode encerrar um ideal, e por vezes encontro algum alívio na certeza de que a esperança é a última a morrer. Contudo, e por muito que queira, não consigo libertar-me de uma outra bem desagradável certeza, a de que a estupidez é contagiosa e demasiadas vezes é ela quem vence.