terça-feira, março 31

Derrapagens da alma

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Com a idade vai acontecendo menos, mas continua a ser ratoeira em que caio com ingenuidade de criança: pedem-me conselho, perguntam-me o que penso disto e daquilo, juntam um agradável sorriso, e eu cego para o perigo da mola, só vejo o pedaço de queijo, quando dou por mim é tarde, está o coração perto da boca a debitar a resposta.
Sinceridade que ao interlocutor nada interessa, nem é seu desejo ver apontadas as falhas, as deficiências, a soberba que o faz descarrilar.
Desculpe quem isto por acaso lê. Não deixe que o meu azedume faça contágio, nem me imagine com fúrias e a bater o pé, arrenegado com o semelhante. Nada disso. Ainda há instantes, o sol a nascer, quedei-me à janela a olhar o monte fronteiro, recordando os meus sonhos de criança, a alegria que me dava imaginar os mundos que de certeza havia para lá do cume.
Tudo são horas, derrapagens da alma, variações de humor.

segunda-feira, março 30

Nós, portugueses


"The politics of a country can only be an extension of its idea of human relationships."
V.S. Naipaul
(A vida política de um país só pode ser o alargamento da ideia que esse país tem das relações humanas).

Se nós, portugueses, nos conhecemos o suficiente e nos perguntamos se a premissa é correcta, temos de concluir que seria de bom conselho tornarmos mais civilizado o nosso convívio e encararmos com respeito o que nos separa dos outros.

sábado, março 28

O caso Sócrates

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O caso Sócrates, único na história do país, possui os ingredientes que fazem morder de inveja qualquer romancista, mesmo aquele com provas dadas de ser capaz no imaginar de um enredo.
Tem suspense, interessantes peripécias, detalhes picantes, episódios cómicos, suspeitas, mistérios, envolve figuras históricas, personagens de relevo e gente baixa, decorre num ambiente inacessível ao comum, alude-se nele a milhões, entrosa no historial da sociedade, toca institutos de fama secular e outros de reputação duvidosa, negócios escuros, favores, contratos mirabolantes.
Há ali poses que lembram o jovem Eugène de Rastignac, personagem de Balzac, que dum alto, avistando Paris ao longe, lhe grita: "A nous deux maintenant!"
Como nas tragédias gregas, nas óperas de Verdi, na West Side Story de Bernstein, num sem conta de filmes de cowboys, enfrentam-se os campos com a sanha e a cegueira que só nas ocasiões históricas tem lugar.
Que espectáculo! Raiva, desdém, ódio, idolatria, adulação fanatismo, ataques e contra-ataques, esperanças, temores!
Lia-se dias atrás o comentário de que "ainda a procissão vai no adro", e provavelmente assim é. Resta saber se quando ela entrar na igreja e, acabada a reza, o padre pronunciar o Ite, missa est, em que estado de alma retomaremos o dia-a-dia.

sexta-feira, março 27

Perguntas

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Diz que aos vinte e sete, quando casou, era ainda virgem, e a sua vida sexual durante três casamentos nada foi do que esperava, nem do que ouvia contar. Rotina, ausência de paixão, a simples curiosidade levou-o a ter amantes, mas se de facto uma ou outra conseguiu arrastá-lo a experiências, revelar-lhe sensações, em momento nenhuma conseguiu ainda, nem de longe, compreender os que falam de êxtase, embriaguez da paixão, delírio dos sentidos.
A findar os cinquenta, sem mulher, de momento sem amante, quer saber deste e daquele se o seu caso é raro, se também eles escondem a desilusão.
Ninguém lhe responde.

quinta-feira, março 26

Ana Cássia Rebelo

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Escrevem sobre o seu livro, e justamente lhe atribuem cinco estrelas. Eu próprio falei dela aqui, com a alegre surpresa de ver reconhecido um grande talento. Eduardo Pitta di-lo hoje na Sábado com elegante concisão.

Ter ou não ter galho

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Em controvérsias não participo. Cada cabeça tem direito à sua sentença, alturas  há em que uma noite mal dormida leva a mudar de ideias, para não falarmos das consequência da azia ou da má digestão duma chanfana. Por conseguinte, pense cada um como bem deseja, e alegremo-nos de que não nos obriguem a olhar todos para o mesmo lado.
Há, porém, ocasiões em que esta minha indulgência se arrebita, leva a franzir o sobrolho e a perguntar-me se o outro tem de facto a razão que pensa.
Vem isto a propósito da afirmação recente de uma das cabeças pensantes deste país sobre como, além de danoso para a economia, o ensino é supérfluo.
Claro que o recebeu ele, e bom, mas o Zé Povinho é melhor que não deixe subir a tontura à cabeça, não se meta em filosofias nem ciências, dispense Bach, desista de querer subir a cimos onde não pertence.
Aprenda ele um ofício e ensine essa humildade aos filhos, lembre-lhes que se a cada macaco se  destina um galho, e para benefício dos que aprenderam é melhor que os outros fiquem pelo chão.
 

quarta-feira, março 25

Boa razão

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Com boa razão abriu-se a garrafa ao almoço, pensando bem do amigo que no-la ofereceu e com quem partilhamos devoções.
O queijo é de ovelha transmontana, puro nos ingredientes, clássico na feitura,  com três anos de mergulho em azeite.
Gostos para o corpo, alegrias para a alma.