domingo, fevereiro 25

Sujar as mãos

 

Foi grande e genuíno o interesse que, ainda miúdo, me levou a ser fanático leitor de jornais e romances, então as únicas fontes de que dispunha, para saciar a desmesurada curiosidade de compreender o mundo, o passado, o que me rodeava, a sociedade em que vivia.

Por boa sorte, condições de vida, razoável estado da cabeça, tronco, e membros, ser-me-ia possível, fosse essa a disposição, manter a curiosidade antes citada, se bem que com os ajustes inevitáveis num percurso de nove décadas.

Todavia o transtorno, se assim lhe posso chamar, não vem porque me falte curiosidade ou interesse pela vida e o que acontece, antes o sinto derivado da ingénua crença de haver bons e maus, voluntariamente fechando os olhos, pondo de lado a sabedoria do nem tudo o que reluz é ouro.

Em consequência, e ao contrário da minha esperança, quanto mais leio, estudo, vejo e oiço, mais se me baralha o entendimento, cresce em mim a suspeita e o medo, a dúvida, a insegurança.

Aos poucos tenho vindo a descobrir que para continuar no caminho certo – aquele da Liberdade, Igualdade, Fraternidade  - se me torna em excesso pesada a canseira de escolher lado, ouvir comentários, analisar opiniões, ter paciência com os que se mostram eficazes em branquear o que, aos meus olhos e de tantos, é preto retinto.

Desse modo, a notícia dos agricultores se revoltarem contra os pachás da UE, recebi-a eu com um mixto de entusiasmo infantil e melancolia da velhice. Porque muito terá de mudar. As Excelências entendem de imposições, de proibições, multas e taxas, mas arregaçar as mangas e sujar as mãos não é com eles. Como também não se lhes dá que os seus ridículos ukazes levem à miséria e ao sofrimento, ao desespero.

A mim resta a sincera pena de que não irei testemunhar a mudança.

 

sábado, fevereiro 24

Palhaços

 

"Portugal tem contribuído galhardamente para a transformação do debate político em luta livre sem conteúdo político. Só com adjectivos e sem discussão relevante. Elevação e respeito pelo eleitorado são géneros raros na caixa de ferramentas dos candidatos. É só minas e armadilhas." Aqui

 

 

 

terça-feira, fevereiro 20

Tantos séculos

 

A pergunta data provavelmente dos netos de Adão, mas esses não dispunham das possibilidades publicitárias do Novo Testamento, e assim nos encostamos a Pilatos quando, com ênfase, queremos saber o que é a verdade.

Com a nossa e a alheia se confecciona a História, o curioso refogado de factos, mentiras e aparências que, segundo o interesse dominante, levianamente muda de sabor e colorido.

Por isso te digo que é tempo de leres ou releres a "História de Portugal" e o "Portugal Contemporâneo", de Oliveira Martins, e te admirares, como eu em permanência me admiro, que desde há tantos séculos sejam diminutas as mudanças de atitude do bom povo português em relação à res publica e aos pulhas que a tratam como coisa sua.

 

domingo, fevereiro 18

Leitura fácil, escrita sofrida

 

Questão de sensibilidade, modo de encarar a vida, temperamento, por vezes até a disposição nesse instante, a alguns os cumprimentos parecem sempre poucos. Outros há que, como eu, reagem de modo desabrido em que a timidez e o embaraço levam a melhor, dando assim uma  impressão de sobranceria, assemelhando-se noutras a crianças envergonhadas com o tamanho do presente.

Ocorre-me isto a propósito de uma frase que li há dezenas de anos quando, aprendiz da escrita, a fome de leitura levava a melhor sobre a da comida, adormecia com os olhos baralhados e a doer.

A frase em questão era atribuída ao escritor inglês Ford Madox Ford (1873-1939), a quem um dia uma leitora cumprimentou, dizendo-lhe “O que o senhor escreve lê-se com muita facilidade!”, ao que ele com algum azedume respondeu: “A facilidade com que a senhora me lê, vem da grande dificuldade que eu tenho em escrever.”

Fora o apreço que me causou, recordo que invejei não ser capaz de uma resposta assim. Mas ontem, para meu desgosto e surpresa, ao acaso de uma pesquisa na internet sobre outro assunto, dei com a frase citada que, afinal, foi originalmente escrita por Nathaniel Hauwthorn (1804-1864) e desde então, confirma o Google, plagiada de várias formas por alguns com nome na praça, e sabe Deus quantos mais, ansiosos por botar figura.

Tem isso importância? De facto nenhuma, como também nada adianta discorrer sobre a vaidade, literária ou outra, pois além de ser assunto com pano para mangas, o risco é grande de, ao apontar o dedo ao semelhante, nos esquecermos de dar uma olhadela ao espelho, e arrotando postas de pescada com um vanitas vanitatum et omnia vanitas, nos iludirmos de que a vaidade alheia é desmedida, nada que se compare à pouca que temos.