sexta-feira, Outubro 3

FINIS CORONAT OPUS


ENCERRADO

ESTE BLOGUE ENCERRA HOJE. AO CONTRÁRIO DO QUE POR DUAS OU TRÊS VEZES ACONTECEU, É IMPROVÁVEL QUE REABRA. AGRADECE-SE A TODOS OS QUE O VISITARAM.
 

Diferenças

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Desde que o descobri, o site neerlandês www.925.nl é para mim leitura diária; pela informação que em parte nenhuma encontro; pela ironia com que lá tratam coisas muito sérias; pelos detalhes que por vezes dão ideia que ali se ajustam contas e abrem janelas que permitem dar uma vista de olhos nalguns interessantes bastidores da política internacional e do mundo dos negócios.

Portugal aparece de vez em quando. Já por lá segui, com detalhes que a imprensa portuguesa parece ignorar, as andanças do GES, da PT, de gente nossa,  angolana e brasileira, não só com nome e posição, mas também a morada holandesa das suas companhias e os balanços  que legalmente são obrigados a apresentar.
No meio de tudo isso, porém, e com suficiente humor, fala-se de luxos e extravagâncias, e foi assim que dias atrás dei lá com Richard Branson a fazer ski aquático; soube que Putin ganha por mês o equivalente de 102.660 dóalres, possui uma fortuna avaliada em 70 mil milhões de euros, uma colecção de relógios duns 700.000, e nessa coleção um Tourbograph que lhe custou meio milhão na mesma moeda.
 

Vim também a saber que o sultão do Brunei possui 6 dos únicos 7 Ferrari Venice Station  existentes, cada um deles valendo 1.5 milhão. Esse soberano tem ainda na garagem uns 6.994 outros carros de grande luxo e preço, para rodar nos 126 km da única autoestrada da sua ilha.
Entre os imensamente ricos não fica atrás o califa de Abu Dhabi, que não somente é dono do Burj Khalifa, o edifício mais alto do mundo, mas por 650 milhões de US$ mandou construir nos estaleiros Lürssen, de Bremen, o maior dos iates privados que navegam os oceanos, o Azzam, que com os seus 180 m. de comprido deixa atrás muito navio de cruzeiro.
O acaso ditou isto, não era minha intenção procurar o contraste. Estava a ler as interessantes coisas do www.925.nl quando recebi um mail de um jovem amigo holandês que, anos atrás, com coragem e forte espírito empreendedor, emigrou para Mumbai e lá fundou uma companhia de internet, especializando-se na feitura de programas especiais para a indústria cinematográfica. Começou com dois computadores, duas mesas e dois programadores. Ao fim de três anos tem vinte programadores em dois andares, chofer, criadas e duas amas para os bebés.
Uma coisa sinceramente o aflige quando vai para o trabalho: os pobres que, deitados no passeio, lhe dificultam a entrada no prédio. O que ele acabava de descobrir, e no mail me queria contar, era que os infelizes que dormem no passeio não o fazem de graça, têm de pagar umas quantas rupias ao manager do passeio, em geral um ou outro que nessa rua tem loja.
 

quinta-feira, Outubro 2

Sacos Hermès e ferraduras de prata

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É previsível, monótono, pendular: na proximidade do assalto à manjedoura começam os revelações, os escândalos, os dedos a apontar para os do outro lado, partido, camarilha, seja o que for. Os outros são os pulhas sem vergonha, nós os bons e capazes salvadores da Pátria.
Mas o acervo de pulhices, trafulhices,  o lavar de roupa suja, só põe de boca aberta os simples, os que desconhecem a sociedade em que vivem, os que acham cansativo estudar a interessante, e tantas vezes tristemente cómica, História de Portugal.  Escândalos pequenos e grandes, roubalheiras grandes e descomunais, corrupção que nem na Bulgária ou no Congo, tudo nela cansativamente se repete.
Contam-nos agora as peripécias do casal que fez isto e aquilo,  tem isto e mais aquilo, e a impressão que guardo é a do cansaço de tantas vezes ouvir o mesmo disco.
Tem a senhora um quarto de milhão de euros em roupas no guarda-fatos? Muitos sacos Hermès a onze mil euros a peça? Nunca gasta menos de quatrocentos no cabeleireiro? Regala-se o casal com pequenos-almoços de mil e quinhentos euros (ou serão dólares)?
Que importa? O que é que de facto mudou na nossa sociedade? O escândalo do casal em questão, os escândalos anteriores e futuros, os que nos contam e os que ignoramos, não nos virão em linha directa, mas herdámo-los dos antepassados, que quando vieram ricos da Índia imitaram Nero, ferrando de prata as suas mulas; andaram depois dois séculos de mão estendida esmolando aqui e ali; voltaram às ferraduras de prata quando lhes chegou o ouro do Brasil.
Seguiram-se outros dois séculos de penúria e vergonha, até que nos aproximaram a teta que o senhor Mário Soares aconselhou a chuparmos ao máximo.
Os que estão perto dela de novo ferram de prata as suas mulas, ou o moderno equivalente. Os outros terão de esperar vez. Onde está a novidade? Qual é a surpresa?
 

quarta-feira, Outubro 1

Encarnações

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Aquele que escreve sabe que, a menos que lhe dê a ilusão de que espreita pelo buraco da fechadura, o leitor aprecia pouco os desabafos. Espera cenas que reflictam, não as suas vivências, mas os sonhos que não se arrisca a realizar, e lhe forneçam uma espécie de salvo-conduto para a fantasia.
Exigência difícil de satisfazer e que em geral, por desespero do autor, conduz à produção daquelas obras de três ao vintém e oitocentas páginas de grossura, onde ad nauseam se repetem as vinte e sete posturas que, segundo a afirmação da Princesa Margaret de Inglaterra, que Deus tenha, fez nos idos de 1962, e mau grado  as promessas do Kamasutra, são o máximo que os músculos e o esqueleto aguentam.
Dias atrás , com um colega holandês, gracejava eu acerca da bicuda questão de agradar ao leitor, quando ele me surpreendeu, dizendo que isso o preocupa menos do que o que ultimamente lhe acontece: escreve com dificuldade porque tem medo dos personagens que cria.
- Mas porquê?
- Tenho medo que encarnem em mim. Ou eu neles.
Como sou prudente, calei-me. Pode ser que o colega esteja a transtornar. Ou talvez não, ao fim e ao cabo também Flaubert disse: Madame Bovary c'est moi.
 

terça-feira, Setembro 30

A fixação anal

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É de sobejo conhecida nos povos nórdicos em geral, e no povo alemão em particular, o fascínio da fixação anal. Freud estudou-a em minucioso detalhe, os seus seguidores não se cansam de nos falar das consequências e complicações do fenómeno que toma conta de nós por volta dos dois anos, e pode depois descambar nas mais complicadas neuras.
Giulia Enders, graciosa jovem de 24, que terminará em breve o estudo de Medicina, decidiu tratar o assunto de forma igualmente científica, mas limitando-se ao funcionamento dos intestinos. Sobre isso escreveu um curioso, inteligente e interessante livro, Darm mit Charme, título que com ligeireza se poderia traduzir por O Charme da Tripa. Aí trata ela os interessantes, importantes e complicados aspectos da maquinaria intestinal, dá conselhos sobre a melhor postura para a defecação, (*) assusta-nos dizendo que 1 grama de fezes contém mais bactérias do que Terra conta actualmente de habitantes, que os intestinos se renovam cada duas semanas e, last but not least, que os micro-organismos intestinais influenciam o nosso humor e o nosso apetite.
Muito mais conta a jovem no didáctico compêndio, de que até agora na Alemanha se venderam para cima de 750.000 exemplares.
……….
(*) Desde há uns anos, os folhetos incluídos nos medicamentos holandeses que duma ou doutra forma referem a descarga intestinal, levam em conta a ignorância, de modo que cada vez que lá está escrito  "ontlasten" = defecar, à cautela põem entre parêntesis "poepen" = cagar.

segunda-feira, Setembro 29

Adultério

(Jesus e a mulher adúltera, Nicolas Poussin -1594-1665 - Clique)

Na passada sexta-feira, o acaso pôs-nos ambos na mesma sala de espera do hospital, os últimos da consulta, partilhando o aborrecimento da demora com gracejos sobre as doenças em geral e a fragilidade da existência.
Mulher no princípio dos quarenta, muito classe média no aspecto, no trato e no vocabulário, nada que me fizesse recordá-la ou reconhecê-la se por acaso a voltasse a ver.
Reconheceu-me ela à tarde na esplanada do hospital, onde me tinha sentado a tomar café e, sorrindo, pediu licença, porque todas as mesas à sombra estavam ocupadas e ela tinha uma alergia qualquer que obrigava a evitar o sol.
Ninguém pergunte a sequência da conversa, porque se me foi totalmente da memória, como não faço ideia do que em certo momento a levou dizer que vivia com um homem quinze anos mais velho e, estranho desabafo, era mãe de três filhos.
- De pais diferentes.
Sorri a mostrar compreensão, o resto veio numa catadupa de paciente na primeira visita ao psiquiatra, e eu, como se o fosse, ouvi calado.
-A minha vida foi sempre de chatices, tenho faro para arranjar brutos e más companhias. Com este estou há quatro anos. Já estava casado há uns vinte, mas a mulher deixou-o, e finalmente é o homem que me convém, estou com ele para sobreviver.
Sabe que ele há vinte e nove anos, vinte e nove! tem o mesmo emprego? O senhor é capaz de compreender? Eu não.Chega a casa, atira com os sapatos, cai no sofá. Do resto trato eu e trato bem. Às oito põe-se a ver as notícias e adormece. Mais insosso não deve haver, mas é fiel.
Uma vez apanhou-me com o meu amante. Um rapaz que me deitou a mão quando eu estava mesmo em baixo, durante mais dum ano foi quem pagou o meu aluguer. Não tenho gozo em ir com ele prá cama, porque é um bocado bruto e mandão, mas enfim, tenho ideia de que pago o que meu deu.
O meu homem ficou fulo, mas expliquei, e ele perdoou. Fecha os olhos. Compreende que quando lhe dou muitos beijinhos é porque venho do meu amante, mas não diz nada. Para não me perder até era capaz de aceitar mais.
É isso, sabe, precisamos um do outro: eu salvo-o da solidão, ele salva-me da pobreza.