quinta-feira, janeiro 22

A findar o dia

(Clique)
São muitas as vozes da partida, mas poucas como esta.

A roda de cavalinhos

(Clique *)

De longe a longe dá-me vontade de escrever sobre o amor, paixões, sonhos, desejos, segredos, mas logo o bom-senso manda calma, passo então à sensaboria da política, aos mortos daqui, aos escândalos de acolá, às leituras de ontem, ao que pensei de madrugada.
Verdade é que chegando a certa idade, a maioria dos homens e mulheres como que se deixa arrumar em convenções, verga-se às ideias feitas, aceita, por vezes até cobardemente deseja, a fragilidade do corpo e o definhamento das emoções. Porque é mais repousante, evita chatices, há conforto no papel que os outros querem que representemos.
De um ancião não se espera concupiscência, menos ainda que a exprima alto e bom som, avozinha que se respeite sabe de ginjeira o papel de recatada virtude.
De maneira que novos e velhos desejamos mudanças, a realização dos nossos sonhos, a liberdade das nossas fantasias, mas sentamo-nos na roda de cavalinhos das convenções, iludidos que giramos, fingindo não dar conta que a volta é sempre a mesma.
...........
(*) Foto de Erwin Olaf, Chess Men.

quarta-feira, janeiro 21

Carapaças


Gostaria de me libertar de algumas das carapaças com que por razões várias me cubro, mas uma coisa é querer, outra o ser capaz.
Uma delas é a arrogância com que de vez em quando recordo os piores momentos da minha vida, me digo que poucos os terão conhecido assim, e  de seguida me felicitar por ter sido capaz de verdadeiro heroísmo e tanta resistência.
Ainda bem que logo me recomponho, deixo de parafrasear o "pobre de mim" de Fernão Mendes Pinto, e de novo sinto o chão debaixo dos pés, abrando a soberba.
É certo que nunca tive a vida fácil, adundam nela as inimizades gratuitas e da espécie mais perigosa, a dos espíritos doentes. Todavia, se faço comparações, limitando-me a algumas vidas que conheço, o que ocorre à minha volta, fica-me a impressão de ser tolo e mal agradecido.

terça-feira, janeiro 20

Por que será?

(Clique)

Se abrisse a boca e desse opinião ia causar tristeza, aborrecer gente, ia ter de ouvir os especialistas que tudo sabem e explicam. Por isso me fico pela pergunta:
- Qual será a razão do desinteresse da literatura pelos problemas da sociedade portuguesa? De até agora não termos tido alguém como Zola, ou mesmo só metade dele?
Portugal merecia.
 

segunda-feira, janeiro 19

Um passo em frente

(Clique)

Culpado ou não, fosse José Sócrates meu amigo eu certamente o iria visitar à cadeia. Contudo, certamente também, não me ouviriam  proferir juízos e cair no ridículo de clamar a sua inocência quando abundam, se não as provas definitivas, suspeitas fundadas o bastante para mantê-lo preso.
Toda essa agitação, porém, interessa-me menos pelo que é e tem de ridículo, do que por ser  sintoma de que certa classe política parece não se dar conta de que já alguma coisa mudou e mais está para vir; que a coutada que tomaram de assalto quarenta anos atrás,e esperavam viesse a ser herdada por filhos e sicários, talvez venha a conhecer melhor destino.
Seja como for, tanto a prisão e a personalidade do ex-Primeiro Ministro, como a curiosa e ainda patente soberba do ex-DDT, além de interessantes capítulos da nossa história, funcionam como o vidro de aumento que ajuda a que melhor olhemos para nós próprios, o país que somos, a realidade que nos cerca.
À luz do que tem acontecido, bem podem os bonzos políticos e os vários "históricos" agitar-se, esbracejar, iludir-se de que ainda estão no poder. Não estão. Já o perderam. Por muito que gritem que sem eles será o caos, o poder cairá na rua, todos sabemos que assim não é. O poder cairá nas mãos doutros, mas esses terão aprendido que os Sócrates, os Soares, os vários donos disto tudo e mais alguma coisa são o passado, que será mais curta a sua margem de manobra.
Sempre é um passo em frente.
 

domingo, janeiro 18

3 de Março, 1969

(Clique)

sábado, janeiro 17

Pela monarquia

(Clique)

No meio da bandalheira dos Sócrates, Varas, Loureiros, advogados mafiosos, dos "históricos" senis que são Charlie, dos traficantes e trafulhas, dos deputados patetas, dos governantes incompetentes, do dono disto tudo e sus muchachos, e mais, muito mais, palavra que não é pela merecida simpatia do casal, mas pelo sólido das instituições e o excelente funcionamento da maquinaria do Estado: são muitas as horas em que me sinto monárquico.

sexta-feira, janeiro 16

O chá da cobardia

(Clique)

Cineasta, colunista, enfant terrible, Theo van Gogh (1957-2004) pagou com a vida a crença que tinha de viver numa sociedade em que a liberdade não era conceito vão, mas uma certeza enraizada no mais fundo das instituições e das convicções, algo tão genuíno que só um espírito doente o poria em dúvida.
O marroquino que o degolou, e lhe deixou cravada no peito a faca a segurar uma mensagem de ódio, veio dar prova que a liberdade em que Van Gogh acreditava era coisa do passado e muito na Holanda tinha já fundamentalmente mudado. Ridicularizando o credo dos que ele chamava "fodilhões de cabras" e, tal Sancho, ingenuamente julgando que lutava contra moinhos, Van Gogh não se deu conta do poder do inimigo, da traição dos que com ele deviam ser solidários, de como uma sociedade se espelha nos que a governam.
Pouco tempo depois do assassinato, o então burgomestre de Amsterdam (felizmente o actual é doutra têmpera) foi de visita a uma mesquita, para tomar chá com o imã e os fiéis, no propósito de "acalmar os ânimos".
Acalmar os ânimos? Será possível descer mais baixo? Virar tudo do avesso? Será que o medo e a cobardia dão cegueira? Que teremos de pedir perdão a quem nos mata?