terça-feira, maio 3

"o quotidiano a secar em verso"

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Quem me conhece um pouco sabe das dificuldades que tenho com alguma poesia, alguns poetas, e a idolatria que ataca certas almas, levando-as a perder as estribeiras se, num acesso de franqueza, lhes confesso a pouca valia em que tenho o seu ídolo e a obra do dito. Cai o Carmo, cai a Trindade, por vezes finda assim o que parecia amizade.
Deve ter sido pelas razões acima que ontem, num jantar, embasbaquei os convivas ao dizer-lhes que, num livro que por acaso me viera às mãos, tinha lido com interesse e apreço a poesia de uma senhora de que nunca ouvira falar.
Perdi-me de amores pela obra? Converti-me à obrigação de, a partir de agora, todos os dias ler poesia? Longe disso. Mas foi grande e agradável surpresa a novidade do tom, directo, simples e forte, a franqueza sem rodriguinhos nem lamechices, a desenvoltura do vocabulário quase – desculpem lá – parecendo ser obra de homem.
Foi uma boa surpresa, e ao talento de Eugénia de Vasconcellos aqui deixo vénia.
 

segunda-feira, maio 2

BMW 328 Mille Miglia


De modo geral os editores preferem livros com títulos curtos, e fazem cruzes aos subtítulos, porque  "desarranjam" a capa. Mas de vez em quando há belas excepções.
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domingo, maio 1

Linguado

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Chamava-se linguado à tira de papel que, quando comecei nos jornais, representava o espaço de uma coluna impressa. Muitos anos depois mediam-se os textos pelo número de palavras, actualmente a contagem é feita em "batidas", jargão das redacções para os caracteres incluindo espaços.
Tem ares de satisfação infantil, mas nos muitos anos de jornalista (holandês) fazia ponto de honra em não exceder o número de palavras. Era necessária  disciplina, mas contribuía também para depurar o texto do que lá havia de "gordura".
Os tempos hoje são bem outros, o espaço é valioso, para as crónicas que agora escrevo para o Correio da Manhã, a regra a manter é não ir além das mil "batidas, o que mais coisa menos coisa equivale a cerca de duzentas palavras. Ideal para o título é ficar pelas vinte e sete "batidas" e, na medida do possível evitar os emes, letra que "come" muito espaço.
Um dos benefícios destas regras, e não pequeno, é pensar mais de duas vezes naquilo que escrevo.
 

sábado, abril 30

A mula e o Maserati

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Devia censurar, mas não posso: enternece-me a senhora que espatifou o Maserati, quer outro, e já gastou 1 milhão em carros. Ternura igual sinto pelos emigrantes em bólides de milionário, que me ultrapassam a caminho da Suíça. Idem para com a legião de compatriotas que, custe o que custar e doa a quem doer, realizarão o sonho de afagar o traseiro num BMW, Audi ou Mercedes.
Esse carinho pelo síndrome nacional das aparências, acordou-mo na juventude  este texto de Oliveira Martins:

«O que tornava da Índia rico passeava na Rua Nova num estado oriental. Precediam-no dois lacaios, seguidos por um terceiro com o chapéu de plumas e fivelas de brilhantes, um quarto com o capote e, em roda da mula, preciosa de jaezes e luzidia, um quinto segurava a rédea, um sexto ia ao estribo, amparando o sapato de seda, um sétimo levava a escova para afastar as moscas e varrer o pó, um oitavo a toalha de linho para limpar o suor à besta, à porta da igreja,
enquanto o amo ouvia missa. Eram ao todo oito escravos pretos, vestidos de fardas de cores, agaloadas de ouro ou prata.»

À senhora do Maserati agradeço a prova que dá, de que em quinhentos anos ainda não houve poder capaz de nos fazer mudar.
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Publicado ontem no CM.

quinta-feira, abril 28

Frank Sinatra

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É raro, porque evito incomodar, mas quando as incertezas me toldam o entendimento, acontece pedir a pessoas com quem tenho intimidade, e cuja opinião aprecio, que me esclareçam sobre um ou outro aspecto dos meus escritos.
Daí sempre tiro proveito, talvez tanto ou mais do que, por elogiosa que seja, me vem da crítica profissional.
Todavia, o caso agora é que, tornado figura pública, e a internet facilitando em demasia o contacto, o escritor se vê alvo de opiniões que não pediu e, bem pior, lançam uma estranha luz sobre alguns dos seus leitores.
Assim recebi eu há tempos o e-mail de uma senhora que me censurava por lhe parecerem "fininhos" os livros que escrevo, e que neles "a história acaba logo, nunca se fica a saber mais", insistindo em recomendar que no próximo tome essa falha em consideração.
A uma outra incomoda-a a escassez de diálogos. "Nos dois livros seus que li quase não há diálogos! E eu gosto de diálogos, porque se ouve o personagem falar".
Remédio não conheço, paciência tenho muita, recordo Sinatra e canto My Way.

quarta-feira, abril 27

O nosso pequenino mundo

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Atrocidades da guerra. Chacinas. Depurações étnicas. Atentados suicidas... Quase na vizinhança – Paris e Bruxelas três horas de voo, Istanbul quatro, a Síria pouco mais - e contudo tão longe do nosso interesse. Os horrores do genocídio e da fome são-nos servidos na televisão entre desastres na estrada – "um morto, dois feridos graves" - as cotações da bolsa, um novo Iphone. Para os próximos dias as previsões meteorológicas são de tempo soalheiro e temperaturas a rondar os vinte graus.
Jantamos, discutimos, fazemos planos de férias, dormimos o sono dos bem-aventurados.
Solidariedade? Claro que sim, sentimos. E até pena, durante os minutos que passam no ecrã os corpos esqueléticos, os rostos dos mortos, dos refugiados, dos que em terramotos perderam lar e família.
Abanamos a cabeça, descrentes, dizemos que é terrível, que não se compreende que no mundo em que vivemos possam acontecer semelhantes tragédias.
Infelizmente, e para mal de nós todos, o mundo em que vivemos pouco mais longe alcança que a nossa porta. Na melhor das hipóteses a nossa rua.