sábado, julho 4

São massas da mesma farinha

"Enquanto se desenrolam estes jogos de bastidores, só favoráveis ao actual inquilino do Palácio de Belém, Rui Rio rompe mais uma cura de silêncio, propondo agora o fim dos debates quinzenais na Assembleia da República - sede insubstituível de fiscalização e controlo do Governo. Alegando que «o primeiro-ministro não pode passar a vida em debates», algo de que nem o próprio António Costa alguma vez se lembraria
Com esta declaração em que parece advogar a suspensão da democracia, Rio comprova assim ter mais vocação para mordomo do chefe do Governo do que para "líder" da oposição. Alguém imagina o novo líder do Partido Trabalhista britânico, Keir Starmer, advogar o fim dos debates (semanais, não quinzenais) na Câmara dos Comuns para poupar maçadas a Boris Johnson?"

Pedro Correia no "Delito de Opinião".
 

Fora de jogo


Os políticos e os activistas jogam juntos, os cidadãos ficam fora do jogo
"Sob o disfarce de criar uma base de suporte social e 'governar para o cidadão' há uma tendência para o crescimento da chamada 'democracia participante'. Significa isso – em teoria – que os cidadãos podem exercer maior influência sobre as decisões políticas. Contudo, na prática são sobretudo os activistas, financiados e controlados pelo governo que, juntamente com alguns lobbies, podem exercer uma grande influência nas decisões políticas.
Isso é realizado à custa do cidadão comum, que trabalha duro e não é activista, mas que desse modo literal e figuradamente paga uma política que não desejou. Para restabelecer o equilíbrio deve ser alargada a democracia directa e reduzida a democracia participante."
Extraído daqui.

sexta-feira, julho 3

Sonhos de fotógrafo amador (2)

(Clique)

A morte da ironia


Essa gente que por aí anda, fanática em todos os géneros, tamanhos, cores, preferências, raças e raivas, porque aprendeu pouco e se agacha para ser doutrinada na fantasia de um mundo de igualdades, a espumar raiva e ódio, que ora é o racismo, o colonialismo, a escravatura, "Black lives matter" (só essas ?), os vários "#metoo" e os que aparecerão amanhã, essa gente cega de fanatismo está a matar a ironia, a valiosa e num mundo livre, justo e decente a qualidade que permite escarnecer, criticar, censurar, relativizar, apontar o perigo, o erro, a falha, o desvio, o crime, e tantas vezes é uma democrática e indispensável válvula de escape.
Pobre mundo este, quando a ironia for proibida por lei.  

quinta-feira, julho 2

Coito selvagem


"Às seis, quando o telemóvel a acordou, tinha ido em bicos de pés ao quarto de banho, cautelosa em não puxar o autoclismo e, de corrida, chapinhara água no rosto, que para mais não dava a pressa.
Depois, em baixo, numa mão os ténis, a mala na outra, encostou-se à porta enquanto se calçava, e só então deu conta da falta da chave, mas ainda sem temor, porque ele às vezes a guardava no armário da cozinha ou deixava cair entre as almofadas do sofá.
Procurou,  aflita, já certa de que era em vão, sabendo também que ele trancava as janelas e nenhum martelo seria capaz de quebrar os vidros duplos.
Sentava-se um instante, para logo recomeçar a busca inútil, subiu ao quarto com ideia de que talvez saltasse de lá, embora soubesse que daquela altura nunca teria coragem de arriscar.
Sabendo-se enjaulada, começara a amorrinhar, deixando que a resignação a tomasse, sentindo-se indiferente, insensível ao que fosse acontecer.
Talvez ele não lhe batesse, só ralhasse. E se batesse, se calhar não lhe faria muito mal,  nunca poderia ser como da vez que o "Gandú" a deixara por morta e tinham levado para a Urgência.
- Ora então muito bom dia! Viva a menina!
Estremunha, perplexa, incapaz de compreender, podia jurar que estava acordada,  mas nada viu nem ouviu, e de repente está ele ali a olhá-la de alto, só de cuecas, descalço, cigarro no beiço.
- Perdeste o comboio, hein? Anda. Vai-nos fazer um café.
Sorrindo maldoso, deixa-se cair no sofá, dando a impressão de que é o peso da sua queda que a faz erguer, e ao mesmo tempo assenta-lhe no rabo uma palmada amigável:
- Despacha-te, Isaurinha.

Prepara o café sem pressa, menos para ser contrária do que a dar tempo a que  lhe passem os nervos, a mesma razão para em vez de só o café dele fazer dois, que talvez assim se lhe note menos o tremelicar.
Mas as xícaras tilintam no tabuleiro, é ela que se assusta ao pousá-las, ele parece não reparar, acenando que lhe deite açúcar, mais açúcar, que o quer bem doce, depois ele próprio tira do maço o cigarro que lhe estende, ela a chegar  o isqueiro.
- Então diz lá, estás a ficar porca? Deixas o mijo na sanita?
O modo não é de censura, antes simpático, quase terno, como faria a uma criança que se repreende, mas não a engana, de sobra lhe conhece as mudanças e sabe quanto ele é capaz de, sem aviso e sem razão, estourar num ataque de loucura.
Por isso evita encará-lo e espera, fuma devagar, atenta sem querer no corpo que não esperava musculado num homem daquela idade, nota a calma com que ele  fuma, o vagar a beber o café.
- Pelos jeitos estavas com a ideia de ir embora, hein? Sem mais nem menos, hein? E nem te ias despedir. Mas pra te dizer a verdade, eu é que tenho a culpa. Deixei-te o troco, não foi? Ora dá cá.
Tira o porta-moedas da bolsa, entrega-lho, ele pega nas duas notas de vinte,  desdenha as moedas.
- Era só isto?
- Era.
- E dava prá carreira?
- São dezanove.
A mostra de calma e a futilidade das palavras escondem o crescer da fúria que o toma quando de qualquer maneira se sente traído, enganado, quando não recebe o que espera ou lhe falham o prometido. Então desconhece-se, cai em transe, não lhe peçam calma ou juízo, encarna nele a besta de todos os males e crueldades.
Nela, por se saber à mercê, vai aumentando o desvario, continua de olhos baixos e a acenar que sim, mesmo depois de ele se ter calado, mostrando que aguenta mal a espera e, venha o que tiver de vir, será mais fácil de sofrer do que o vómito nas entranhas e o aperto da garganta.
Por fim, quando por acaso o olha de lado, basta ele mexer o queixo a indicar-lhe as escadas, para que se levante e caminhe sonâmbula, mas também aliviada de que o fim não tarde.
Despe-se, abre o lençol, deita-se nua, sentindo estremecimentos que não saberia dizer se são de medo, alívio, ou desejo inconsciente do corpo insatisfeito.
Ouve-o subir e cerra os olhos, mas ele próprio a força a abri-los, sentado na cama, segurando-a para que o encare, o aperto dos dedos a magoar-lhe a face.
- Ias fugir, hein? Sem dizer adeus?
A bofetada como que lhe rebenta a cabeça e sente os olhos desencaixar-se, a quentura do sangue a escorrer do nariz, mas queda-se numa aceitação animal, sem  vontade própria, incapaz de raciocínio ou sentimento. E como em estado segundo, assiste, participa, esquecida de ser, ignorante do que faz, do que vê, a modos de sentir seu o corpo e ao mesmo tempo o negar, sofrer-lhe a dor e sair dele.
Num reflexo tinha fechado as pernas, mas logo as voltara a abrir, obediente  quando ele, forçando, lhe pegou às mãos ambas como se a quisesse rachar.
Esperava bruteza e foi o que sofreu: o ventre esgarçado, uma sensação de queimadura, o peso, a asfixia da mão que lhe tapava a boca, a outra a apertar-lhe o pescoço. Coito selvagem, dor que nunca tinha sentido, nem suportado macho com raiva assim."

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In "O Meças" – Quetzal, 2016.