segunda-feira, Abril 14

Curvas e declives


Há quem alimente a ilusão de que a vida se assemelha a uma estrada, os avisos a anteceder as curvas perigosas, os declives anunciados em percentagens, os cruzamentos assinalados, nos miradouros sempre bela a paisagem.
E então, iludidos pela própria ingenuidade, há os que se julguam capazes de, na estrada como na vida, indicar aos outros o melhor percurso, prever as curvas, os obstáculos, aconselhar paragens e cuidados. Pena perdida. Muito pouco, quase nada, valem os avisos e as boas intenções dos que nos querem proteger. Para a vida tão-pouco há mapas, programas ou instruções, mesmo à luz do dia cada passada é dada no escuro, nunca se sabe se virar à direita é melhor do que à esquerda, se seguir em frente é erro.
Felizmente vamos andando, cegos de olhos abertos, contentes de que as pernas nos levem, iludidos de que sabemos para onde.

sexta-feira, Abril 11

Ladrar à Lua


Uns ladram, furiosos, sem que se lhes descubra inimigo ou adivinhe porque o fazem. No ganir doutros pressupõe-se um sofrimento. Pelo modo como este e aquele de súbito estaca e começa a uivar, ocorre que deve ser desarranjo da cabeça ou ataque de inveja. Há os que grunhem e os que produzem uns silvos, incapazes de soltar de vez o ódio que os aflige, os que roncam agachados num canto, os que andam às voltas como os loucos num manicómio.

Estive no canil municipal e achei que era boa metáfora para as redes sociais.

terça-feira, Abril 8

Sargento Getúlio


Entre Julho e Agosto de 1996 escrevi no jornal neerlandês de Volkskrant uma série de cartas a personagens literárias. Esta para  Sargento Getúlio,  de João Ubaldo Ribeiro. Já foi publicada aqui em Setembro de 2007, mas repete-se hoje com intenção particular.

Prezado sargento Getúlio,

Que me lembre, poucas vezes ao começar uma carta terei ressentido um tão singular desencontro de sentimentos como o que me toma ao escrever esta.
Em primeiro lugar, porque não sei bem se o modo que uso em epígrafe é o mais adequado para me dirigir a si. Sê-lo-ia, certamente, para com um dos sargentos pouco militaristas de agora, desses que foram à escola e possuem uma noção democrática do respeito que se deve às pessoas e às instituições.
No seu caso, creio que não. Sargento da Polícia Militar Brasileira nos anos 50, analfabeto ou quase, autoritário até à loucura, você tem sobre o respeito ideias tão suas que, embora pareça absurdo, elas se tornam simultanea­mente ridículas e universais, humanas e perigosas. Num momento provocam a minha ira, mas por um estranho poder de corrupção, logo a seguir me sinto obrigado a conceder que me parecem razoáveis.
Acontece também que nunca escrevi a um morto, o que faz acompanhar o acto de uma curiosa sensação de irrealidade. Isso, contudo, não evita que noutra parte do meu ser, aquela em que existo sem as peias do espaço e do tempo, você tenha adquirido a qualidade de figura eterna e ponto de referência. Não que lhe inveje a crueldade de lentamente esfolar vivo um inimigo, de gozar ao fazer com que outro vomite os próprios intestinos, ou ao abrir à faca o ventre duma mulher grávida.
Tãopouco posso apreciar o modo cego como você acata ordens, menos ainda a agudez animal de, em tudo e todos, procurar o ponto fraco para depois, sem dó nem perdão, pensar apenas em destruir.
Todavia, nas horas escuras em que o impossível deixa de existir e o espírito anseia por liberdade total, tenho-me surpreendido a imaginar que talvez não desgostasse de viver uma vida linear como a sua, em vez de me ver submetido aos solavancos e à confusão do meu dia-a-dia. Porque o que sobretudo em si me fascina é a aceitação da existência sem regras, limitada a um único bem, o cumprimento da ordem, e reconhecendo somente um único mal, a desobediência à ordem. O resto: crueldade, medo, fome, dor, sofrimento, desaparece esmagado entre esses dois pilares que, no seu ver, com terrífica simplicidade delimitam tudo.
Você prova o que eu preferiria não ver provado: que a vida pode ser vivida sem moral, sem beleza, sem amor. Que todos os entusiasmos são fúteis, a alegria indecorosa, o carinho um acto mecânico.
Felizmente, a minha sensibilidade e a consciência - ou serão apenas as minhas limitações? - levam a melhor e, passado o desvario, retomo o que julgo ser a paz que me permite ir existindo. Só que essa paz dura pouco. Tendo conseguido semear em mim a desconfiança, no final é você quem vence. Cruel e assassino, indiferente ao sentimento próprio ou alheio, maníaco com apenas uma ideia, avesso a tudo o que seja mudança, mesmo assim qualquer coisa em si toca o religioso, algo de inefável, de puro. Algo que se apercebe ainda menos que o ligeiro toque da brisa, e contudo se ressente forte como uma presença sólida, uma certeza.
Muitos dos bons sentimentos que a você faltam, conheço-os eu de nascença, e quase tudo o que você é, representa, o que faz e o que sente, é para mim odioso. Porém, e esse será o mistério da admiração que você me causa, e até certo ponto o da minha inveja: enquanto eu nunca torturei nem matei, tenho a certeza que no dia em que comparecermos no Julgamento Final, Deus fará para o meu lado um gesto de demissão, e o acolherá a si com um sorriso de ternura.
Porque só Ele sabe as razões que O levam a escolher a um para Seu instrumento do Mal, e a atirar a outro para a anonimidade da massa que, respeitosa da moral por temor ao castigo, cobardemente se conforma.

segunda-feira, Abril 7

Um entre tantos


(Clique)
Ouve-se o caso à mesa do almoço, o cérebro regista uma ou outra frase, uma cena, uma imagem, e passa-se à sobremesa, bebe-se o café, esquece-se o sujeito.
Mais tarde, involuntariamente, recorda-se a conversa, formam-se outras imagens, abana-se a cabeça em descrença, vão-se inventando desculpas para um procedimento assim, talvez seja herança genética, resultado da educação que nem os pais nem a escola lhe deram, maus exemplos, mau destino.
Talvez seja tudo isso. Insidiosa, porém, levanta-se a questão: será caso único nos detalhes, todavia, guardando as proporções quantos, e cada um à sua maneira, da chamada plebe à suposta burguesia rica, do malandrim ao advogado, do escriturário ao ministro, não fazem igual?
Dizem-no inteligente e capaz em tudo a que deita a mão: electricidade ou carpintaria, soalhos, telhados, aquecimento, é chamá-lo e ele fá-lo perfeito como deve ser. Mas por regra trabalha três dias por mês, que esse ganho e a pensão da mãe lhe bastam.
O resto do tempo dá umas voltas no BMW.

sábado, Abril 5

Snobes


Sofro de uma afeição ridícula por snobes. Gosto deles com aquele misto de afeição que se tem pelos adultos que se comportam como crianças; pelos atrasados mentais; pelos que acreditam em OVNIS e os que bebem chás para a cura do cancro.
A senhora é snobe, escreveu um livro snobe, e como é daquelas filhas que, por adorarem o progenitor, deslizam nos sentimentos e na realidade, de tantas em tantas páginas é um louva a Deus do homem que foi na vida um escritor medíocre, mas manteve relações de amizade com "os últimos grandes senhores" da Literatura. E para que, postos ao corrente pelos fac-símile documentais que ilustram a obra, devidamente nos pasmemos, segue então uma basbaquice de lugares-comuns.
Ao mesmo tempo que agradeço à senhora o quanto me diverte, com gulodice igual à que tenho para os "jesuítas" e os pastéis de nata salto de postais para cartas, de páginas caligrafadas para dedicatórias, retratos amarelados, fotos de grupo.
Bem haja ela que, além do divertimento, fornece prova de que os snobes deveriam ter lugar cativo nos palcos das variedades.

quinta-feira, Abril 3

Quantos serão?


Quantos serão? Os que nos habitam, os que no íntimo se guerreiam e nos afligem, incapazes de harmonia, puxando para extremos, levados por interesses que se contradizem e nos tiram a paz. Quantos serão?
Feliz aquele que se julga apenas um, traçou caminho e por ele vai desinteressado do que vê, desinteressado do semelhante, insensível à paisagem, indiferente ao azul do céu e ao que em redor acontece.
Mas a vida, a estranha vida, desconhece a compaixão. A todos ilude e castiga, tão pronta em fazer brilhar a réstia de luz, como dum só golpe decepar um braço; oferecer ao mesmo tempo o sorriso do inocente e a carantonha do malfeitor; confundindo o bem e o mal; levando-nos de escantilhão quando julgamos ir pelo nosso pé; iludidos de que uma e outra vez mandamos, quando não fazemos mais que obedecer.