quinta-feira, setembro 17

A viagem coronária (2)

Como se depois de tantos anos o relógio biológico tivesse ganho esse hábito, por volta das nove da manhã abriu-se a porta da garagem, momento que o Tom-Tom  escolheu para anunciar que falhava a ligação com o satélite, aborrecimento de pouca monta para quem conhece o caminho de cor e salteado. Metemos à estrada em direcção a Breda e à fronteira, onde sempre paramos para atestar o depósito, não porque na Bélgica falte gasolina ou nos assuste o vírus local, mas porque o atendimento nas bombas uma vezes é bruto, outras tão complicado com códigos digitais, senhas várias, e um linguajar flamengo que os nativos imaginam ser língua universal, que para manter a calma atravessamos a Bélgica sem parar.

Um pouco depois de Gand há uma localidade com o nome bíblico de Nazareth, e junto à estrada um hotel com um excelente restaurante. Durante anos foi paragem obrigatória para o almoço, hoje acenamos-lhe com saudade, pois os nossos estômagos há muito não aguentam os desvarios que nos levavam então a fazer em cinco ou seis dias o caminho que agora espartanamente fazemos em três.

Muito depois foi preciso encher de novo o depósito, e também aqui a coisa era de códigos, pelo que fui ao estabelecimento perguntar como funcionava o sistema. Em triste hora o fiz, porque teria dado três ou quatro passo no estabelecimento quando em simultâneo aconteceram três coisas: a senhora da caixa a berrar que eu não trazia a máscara, as trinta ou mais pessoas que ali estavam a olhar-me apavoradas, e como o estabelecimento tinha o que creio ser aparelhagem de reconhecimento facial, ouvia-se no altifalante uma voz metálica a repetir: "Dentro deste estabelecimento há uma pessoa sem máscara!"

Saí para ir buscar o cartão de crédito, regressei à caixa já com máscara, mas a minha obediência em nada mudou a expressão dos que, cidadãos cumpridores, continuavam a olhar-me como um potencial criminoso.

O cartaz do Parc Astérix anuncia a vizinhança de Paris, entra-se calmamente no Periphérique, a via circular, e aponta-se o coche na direcção que os painéis dizem ser a de Bordeaux. A paz de espírito desaparece no momento em que a condução ali é em simultâneo louca e disciplinada, com um incrível número de motociclistas a espremer-se a 110/h por entre os carros, o que tem tanto de número de circo como de tentativa de suicídio.

Desde há muito cronometramos quanto nos demora a atravessar o Periphérique e o récorde mínimo está em trinta e cinco minutos, o que nunca mais repetimos, mas o que desta vez nos esperava desafia a imaginação, pois foram um pouco mais de quatro horas para um percurso de 34 km, com a agravante de que de certeza três delas foram a parar e a avançar em primeira e segunda velocidade, o motor a queixar-se, a bateria a anunciar que a qualquer momento entregaria a alma a Deus, nós a rezar para que o não fizesse. De facto deve ter-se apiedado da nossa aflição e sem resmungar pôs-se a caminho dos trezentos quilómetros que faltavam para chegarmos a Poitiers.

 

 

quarta-feira, setembro 16

A viagem coronária (1)

  

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Isto vai ser então uma conversa como se teria entre amigos, só que será ao correr da pena e sem preocupação de que a prosa saia apurada, conversa livre que começa por coisas do passado e anotar que, ao contrário de um imenso número de almas em redor do mundo e dos meus compatriotas em particular, tenho pelo automóvel um interesse banalmente prático. Aí para trás já ficou que pude comprar o primeiro, quase como um presente que me dei aos trinta e três anos, um Fiat 1200 especializado em avarias e de que me despedi sem saudades, no dia em que o destino mandou que a roda da sorte virasse de tal maneira para o meu lado que, sentindo-me on top of the world, me dei ao luxo de comprar o coupé da fotografia, também Fiat, este um 1.600, carrosseria de Pinin Farina, preto, assentos de couro vermelho.

Foi festa durante coisa de um ano e meio, ao fim do qual a sorte desandou. E de tal modo que me vi a frequentar as ruas da amargura, tempo bastante para aprender umas quantas lições sobre a vida, as amizades, a natureza humana, a solidão e as horas negras de certos dias. Escapei the wiser and the sadder (usarei anglicismos de vez em quando, como prova de que leio o Observador) e os carros que comprei desde então foram poucos e todos práticos: cinco Ford, um Renault, um Citroën Picasso, e finalmente o Opel Zafira que está na fotografia. Poucos carros para tantos anos, os dois últimos em segunda mão, o Citroën passou para a filha mais nova e ultrapassou recentemente os 300.000 km. Pelo mesmo andar vai o Opel, que comprei quando rodara uns magros 30.000 e com treze anos ao meu serviço marca agora 137.400 km.

Este arrazoado, contudo, não o faço para falar de carros nem de quilómetros, mas de gentes, da pena que uns têm de mim e o desdém que muitos não escondem, porque um gajo que ano atrás ano vem com a mesma carroça, não serão os pneus que estão nas lonas, mas deve ser esse o estado das finanças do cujo. Sucede que por vezes nem conseguem esconder o que lhes vai na alma, e como se não confiassem no que os olhos lhes mostram, olham-no lentamente, a seguir encaram-me e perguntam descrentes: - É o mesmo?

De facto é e continuará a ser enquanto sem avaria continuar o bom serviço.

Até amanhã. Fiquem bem

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PS Mil desculpas aos que aqui vieram esta manhã. O texto desapareceu durante umas horas, e não terá sido feitiçacria, mas fraqueza da internet por estes lados.

terça-feira, setembro 15

Um caso do dia

O relato da viagem vai devagar porque são demais os contratempos, é incrível como custa repor a funcionar uma casa depois de um ano de ausência. Mas o prometido é devido e a altura chegará, só que por vezes o caso do dia como que faz parar tudo, tão desagradável e inesperado é o choque.

O BMW muito topo de gama parou junto da bomba de gasolina onde eu estava a encher, o cavalheiro saiu, veio para o meu lado, irreconhecível devido à máscara, uma barba de profeta, cabeleira idem, e nesta um curioso chapéu que se diria de cowboy. Finalmente vi quem era, homem que conheço há uns quarenta anos, fizemos aqueles gestos que agora são os tele-abraços, e reparei que no carro estava uma figura feminina que julguei pudesse ser uma filha, e isso me levou a perguntar pela esposa. E ele, com um daqueles sorrisos de satisfação dos grandes momentos, dá uma gargalhada que quase o sufoca: "Arranjei outra!"

As aparências enganam, e muito. Nunca eu suspeitaria que no homem comedido, com aparência de excelente pai de família, se escondia o D. Juan clássico que muito à portuguesa não tardará a ser depenado, só porque no Outono da vida se quer oferecer o que julga que o dinheiro compra. "Arranjei outra!", todo um programa.

segunda-feira, setembro 14

Bom-dia a todos

Para satisfazer a curiosidade de quem a tiver: a mulher, eu, a bagagem e o carro, fazendo fé no conta-quilómetros mais uma vez – creio que foi a 66ª em cinquenta e oito anos - fizemos os   2.331 km entre Amesterdão e Estevais de Mogadouro. Também desta sem problemas de saúde, disposição ou mecânica,  mas com interessantes manifestações do fascismo sanitário, curiosamente não por parte das autoridades mas dos cidadãos, criando ambientes que nada anunciam de bom.

Isto foi só para agradecer o interesse e, como atrás disse, dar satisfação à curiosidade de uns poucos a quem demoraria a informar.

Vamos arrumar a tralha de catorze meses de ausência, ir às compras e refazer as forças, então será hora de em paz e sossego voltar aqui e desabafar contra a natureza humana, que quando as circunstâncias lhe dão oportunidade mostra como gostaria de poder usar um cassetete e mandar o próximo pôr-se joelhos.

domingo, setembro 13

Quando o coração pára

Se o tivesse lido no jornal ou ouvido a outra pessoa, na melhor das hipóteses o Cipriano acharia interessante, e depois, ao saber dalgum falecimento talvez lhe ocorresse lembrar o caso, mas não seria assunto para uma atenção por aí além. Contudo, ouvir aquilo da boca do Figueiredo deixara-o mesmo transtornado. Primeiro, por ser amigo de toda a vida e homem de grande honestidade, catedrático de Física com fama internacional, mas também pessoa que nunca, mas mesmo nunca, apanhariam a gracejar com coisas sérias ou, valendo-se da sua reputação, a querer impor certezas ou converter alguém às suas convicções.

Por isso foi mesmo um choque ouvi-lo contar o que até então só a família sabia, que dois anos atrás, num congresso em Filadélfia tinha caído sem sentidos, e já no hospital, os médicos em cuidados com a condição em que o viam, durante uns cinco minutos deram-no como clinicamente morto, o que foi confirmado pela enfermeira, que entrou em pânico ao ver que as curvas no monitor de súbito eram apenas a linha horizontal que assinalava a paragem do coração.

Salvaram-no, recuperou, confessa agora a estranheza desses minutos em que esteve morto, mas durante os quais teve consciência de um indescritível sentimento de paz e serenidade, e ao mesmo tempo uma forte aversão em retornar à vida donde momentos antes partira. Diz que nesse instante se sentiu a fazer um grande esforço para evitar a perda daquele estado de bem-aventurança.

A confidência ficou por ali, e se bem que gostasse de ter ouvido mais não insistiu, do que sente pena, mas também sabe que o espírito cientifico do seu amigo é avesso a especulações e nada adiantaria começar com perguntas. A ele é que aquilo não lhe sai da cabeça, gasta horas a magicar se terá sido uma ocasião reservada a uma única pessoa, como nos milagres, ou se em circunstâncias idênticas o mesmo se pode dar com qualquer um. Como se isso não bastasse também o preocupa o incómodo que há coisa de um mês o aflige, mas vai adiando a consulta, porque não saberia explicar o que sente e ainda com medo de que seja coisa ruim e lhe venham dizer que só tem meses de vida.

Com a Guilhermina não desabafa porque ela por um nada cai de cama, os dois melhores amigos já Deus os levou e por muita vontade que tenha não vai importunar o Figueiredo. Certo é que a curiosidade não pára de atenazá-lo. Se de facto não se morre, o que acontece então? Vai-se para algum lugar? Continuamos iguais? Temos sentimentos? Falamos? Andamos por aí invisíveis?

quinta-feira, setembro 10

Até à volta

É um curioso sentimento despedir-se a gente de quem não conhece, mas estima por razões de simpatia e pela afinidade que vem de, também nelas, imaginar o desejo de através da escrita e da leitura tecer aqueles laços que, se não nos tornam melhores, deixam que às vezes encontremos a serenidade precisa para aguentar o dia de hoje e ter esperança no amanhã.

Seja então um "até à volta" a todos os que aqui vêm e a quem agradeço a visita, quanto mais não fosse porque a sua presença me ajuda a sair daquela morrinha do espírito de que muitas vezes julgo sofrer, mas é apenas o disfarce da preguiça.  

quarta-feira, setembro 9

Quase de partida (4)

Este texto já aqui esteve em data que o Google não me ajuda a descobrir. A razão por que o repito é de ontem me ter visto numa dessas situações a que o trato social obriga e nos deixa com um travo de boca.

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"Chega sempre o momento em que nos perguntamos qual é o propósito de certas amizades, de certas conversas, o que é que nos leva a tomar este ou aquele ponto de vista, a fingir que participamos, quando no fundo é escasso o que importa e o que pessoalmente para nós conta.

É certo que a vida em sociedade exige o ritual, pede o teatro, ninguém pode andar com a alma à mostra,  ou abri-la com a mesma inocência com que às vezes se exibe o corpo. Mas quanta saliva gasta, quanto tempo perdido, tanta energia desbaratada sem que se adivinhe o que rende ou que moinhos a aproveitam

Não é que ao fim do dia me ponha a contabilizar a utilidade do trato social, apenas me toma um sentimento que balança entre a irritação e o desalento, de ver que também eu faço o que não quero, afirmo o que estou longe de pensar, gasto-me em salamaleques que só a contragosto, ou por necessidade do enredo,  atribuiria a um personagem de romance.

Esse teatro derreia, leva a fazer má cara ou, pior ainda, a afixar o sorriso da hipocrisia."