segunda-feira, outubro 25

Buracos

Nessa altura trabalhava eu sob as ordens de Bernardo T., Charlie para os amigos, filho do proprietário do jornal, playboy cinquentão e herdeiro único de uma fortuna tão colossal que o seu rendimento salvaria as finanças de alguns países.

Avisado pela experiência anterior, cada vez que o ouvia referir-se ao seu «buraco» de Paris, eu imaginava qualquer coisa dez vezes maior que o verdadeiro buraco que em São Paulo me servia de domicílio. Mas mau grado a minha prudência e as cautelas que sabia ser necessário usar na interpretação das palavras dos muito ricos, no dia em que por razões que não interessa agora detalhar o fui procurar no «buraco», caí como plebeiamente se diz «de cu p’rò chão».

O «buraco» eram os dois últimos andares num prédio quase à esquina da Avenue de Wagram e da Étoile, encimados por um terraço tão sabiamente construído que, invisível da rua, oferecia uma soberba vista da cidade e do Arco do Triunfo.

Mais tarde, quando me coube o encargo de guardar a chave e uma vez por semana fazer o controlo da sua manutenção, é que de verdade pude apreciar as dimensões e luxo do «buraco». Nessa altura, porém, já pouco me fazia embasbacar e filosoficamente aceitava a realidade de que o mundo se dividia entre os que nada tinham, os que tinham alguma coisa e os que tinham muito.

A vida destes últimos, embora sujeita às contingências gerais das doenças, dos humores e dos acasos desastrosos, como que decorria num planeta diferente. E não me refiro ao conforto nem às facilidades que o dinheiro compra, mas a todo um comportamento e sistema de valores que só em aparência tinham alguma coisa de comum com os do mundo em que a minha vida decorria.

Entrar ou sair daquele e outros «buracos» equivalia a transmutações tão radicais que, muitas vezes, me perguntei se ler Alice no País das Maravilhas me seria útil para compreender a discrepância entre a minha existência e as que só pareciam verdadeiras no outro lado do espelho.

Allô!Allô!

Digam que será por ser segunda de manhã, o céu aqui em Amsterdam estar cor de chumbo, a Feira do Livro ter terminado sem tambores nem trombetas, ou porque a minha cabeça dá desagradáveis sinais de vazio, que me ocorreu uma pergunta simples, mas à qual talvez ninguém saiba responder: por onde andará a jovem literatura portuguesa? Porque não há por aí explosões de talento literário? Ou pelo menos romances de protesto, com sinais de uma juventude revoltada? Será que a comida vegan os amoleceu? O aquecimento do planeta lhes tirou a genica? Perdem tempo na praia à espera de ver o mar subir?

É que não tenho idade para sonhos nem para iniciativas, mas não haverá por aí alguém que pense uma maneira de dar um empurrãozito a esta tão triste afasia literária?

 

domingo, outubro 24

Tudo são sinais

É questão de feitio, nada a ver com estudos ou inteligência, há os que não acreditam em nada coisa nenhuma, enquanto outros, seja ele a borra do café, o vôo dos pombos, a matrícula do autocarro, em tudo descobrem prenúncios e avisos.

Se vêem um manco mudam de passeio, nos dias treze andam com uma figa no bolso das calças, entram sempre com o pé direito, e não lhes digam que são taradinhos, deviam envergonhar-se da maluquice, pois se os há que não se importam que se riam deles, outros não o dirão de caras, até são capazes de fingir que sorriem, mas levam a mal. O que vale ao gracioso é que as pragas são o que são, não há prova de que mesmo a muito rogada “Raios te partam!” alguma vez tenha tido efeito.

Assente esse ponto entre em cena o meu camarada Adelino Carqueja, recordista de signos e superstições, estudioso do Livro de São Cipriano, obra do santo e feiticeiro, segundo ele injustamente ridicularizada pelas seitas de positivistas, ignorantes encartados, cheios de certezas que tudo reduzem aos cinco sentidos e desdenham das evidências do sobrenatural.

Ora segundo o Adelino, se houvesse nas pessoas mais humildade em relação aos mistérios do mundo, e fossem capazes de interpretar os signos, iriam dar-se conta, como ele próprio se dá, de que estamos na véspera de acontecimentos que irão afectar o país, e também as circunstâncias da vida de muitos.

- Mas atenção! Não estou a falar do clima ou da subida do nível dos oceanos, que  isso são questões do planeta. Estou a falar de nós, de Portugal, dos portugueses. E digo-to com toda a sinceridade, ando mesmo muito preocupado, durmo mal, estou a ficar embirrento, falta-me o apetite.

Fora de que os amigos são para as ocasiões, entre os deveres da amizade não é menor o da compreensão, mesmo quando além de paciência isso implica que se ponha de lado o sentido crítico e a malícia, se leve a sério a necessidade do fingimento, o que num caso como o do Carqueja não é pedir pouco.

Nada virei a saber dos males que nos vão afligir, nem das bases em que o meu velho camarada alicerça o seu temor, pois isso o mantém ele em segredo, oferecendo apenas, à maneira de prémio de consolação, que devo reparar num curioso movimento da mão direita do Primeiro Ministro quando discursa.

O significado do gesto e o que ele tem de profético, os males que anuncia, tudo se encontra no Livro de São Cipriano, mas não vai adiantar mais. O que lhe custa, mas também não esquece terem-me ouvido dizer que com as bruxarias ele está meio cheché.