segunda-feira, janeiro 23

Ar puro e carro seguro são luxos de rico

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A vida ensinou-me a ser cauteloso em matéria de certezas, sobretudo quando apregoadas pelos que, inchados da própria competência, não hesitam em afirmar como se endireita a política e se governa um país. Aliás, acerca de políticos, apenas dois continuam a merecer o meu respeito: o presidente Truman, que tinha na  secretária uma placa com a frase: The buck stops here ( A responsabilidade é minha); e Pierre Mendès-France , " uma referência, e símbolo de uma concepção exigente da política".
Temos agora o presidente Trump, que assanha atrizes, costureiros, activistas, e bem pensantes, ao mesmo tempo que uma massa de "seres desprezíveis" espera vê-lo endireitar o que outros deixaram torto.
No que me respeita, o personagem não desperta simpatia, mas devo conceder que o modo directo e a sua rudeza fazem um interessante contraste com a banalidade das afirmações dos políticos em geral, sejam eles estadistas, bonzos da EU, ou os moços de recados que chefiam ministérios.
De qualquer modo, e porque muitas das suas decisões a todos afectarão, vou seguindo as críticas que uns lhe fazem e as esperanças que outros nele põem, cuidando de não me deixar arrastar pelos argumentos dos que lhe são favoráveis, nem pela histeria dos oponentes.
Dei assim com uma entrevista de Edward Luttwak (1942), que foi consultar de Reagan e é agora assessor de Trump. Está longe de ser um comentador qualquer, pois os governos da China, Israel, Itália, Japão e várias multinacionais são clientes da sua consultoria. E concorde-se ou não, fala claro:
“Quando os media se referem a Trump é sempre questão de sentimentos de vingança e ódio, o que demonstra apenas arrogância intelectual. Do que realmente se trata é da redistribuição dos rendimentos, pois nos últimos vinte e cinco anos a deslocação da prosperidade da classe trabalhadora para outras classes, resultou numa mudança estrutural na sociedade americana. Um exemplo: a classe média exige carros muito seguros, o que obriga a satisfazer tantas regras que o preço médio de um novo é de 13.000 dólares. Metade dos americanos não podem pagar esse dinheiro, têm de conduzir carros em segunda ou terceira mão, e daí menos seguros. É como se para quem possui menos a segurança não conte.”
“O meio ambiente? Claro que somos todos a favor. Mas subsidiam-se os cientistas e as indústrias da energia solar e eólica, e fecham-se as minas de carvão, atirando dezenas de milhar de pessoas para o desemprego. Será então estranho que elas se revoltem?”


Se é demagogia, o tempo o dirá.

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Publicado na DOMINGO CM.

segunda-feira, janeiro 16

Já morri





Morri pela primeira vez aos quatro anos, na Exposição Colonial, no Porto, onde tinham cavado um lago rodeado de palmeiras. O nosso barquito chocou com outro, e meu Pai, na pressa de me proteger, atirou comigo à água.
Morri por volta dos dez, com os banhos fortificantes que me davam de madrugada no rio Douro. E na adolescência morri em Lanhelas, junto da Capela da Senhora da Saúde: a bicicleta a derrapar, eu aos trambolhões,  chorando a minha morte. Voltei a morrer em Viana, a correnteza do Lima a arrastar-me para a barra.
Nesse ano morri no comboio para Braga. O revisor, vendo-me pendurado na janela, deu um berro e puxou-me para dentro. "É perigoso debruçar-se! Ne pas se pencher au dehors. È pericoloso sporgersi". Ó palerma! Não viste o letreiro? Tinha visto, mas palavras assim é que não.
Sentou-se a morte ao meu lado no céu do Amazonas. O avião que me levava para os Estados Unidos caiu num poço de ar tão fundo que na cabine voavam coisas e as hospedeiras pareciam ter-se libertado da força da gravidade.
Nas Astúrias morri na C-630, uma estrada pitoresca que vai de Fonsagrada a Puerto de Vega. Travei ao ver a mancha de óleo, e foi um rodopio que ora me levava para a borda do abismo à direita, ora punha à esquerda um outro ainda mais fundo.
Em Paris morri no metro Saint Lazare; ao atravessar a Place des Vosges; engasgado com uma asa de frango no restaurante Cambronne,  familiarmente conhecido por Chez la Merde; e quando, mal saído da cama de madame Marie Louise, me cruzei nas escadas com o monsieur dela e, cortês, ele me deu as boas-noites.
Morri com outros quatro no ascensor de um hotel em Valladolid. Por mais que fizéssemos, a gaiola não parava nos andares nem abria as portas, e é curioso como a claustrofobia corta a respiração.
Em São Paulo aceitei um convite para, do céu, admirar "a imensidão da nossa metrópole". Bom rapaz, bom piloto, mas tarado, fez-me sentar num biplano, apertou ele próprio os cintos todos, disse OK, e vá de voar em curvas mansas. Quando lhe pareceu que bastava, deixou o aviãozito "cair" em saca-rolhas, a fazer loopings, a dar cambalhotas, eu certo de que os cintos não iam aguentar. Então devo ter morrido umas dez vezes, mas escondi o medo, tão-pouco lhe dei o gosto de ter borrado as calças, o que ele esperava e, a gargalhar, disse ter acontecido a outros.
Desde então não voltei a morrer, embora às vezes me pergunte se estou vivo e se o pandemónio à minha volta é o mundo.

(*)  Palavra, nesse tempo as janelas das carruagens podiam abrir-se.


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Publicado na DOMINGO CM