domingo, março 24

Bilhetes (5)


A vista do precipício
 
Vai adiando, diz-se que talvez ainda sobre tempo, mas tem horas em que pagaria para poder fugir de si próprio, com a ideia de que se desconhece, possesso de medos que chegam não sabe donde, com intenções que nunca descobre.
Ignora quantos meses ainda terá fôlego, ou como tantas vezes antes vai cair no desalento. Só que desta seria final, não se vê capaz de limpar a lousa e recomeçar, trazer à lembrança os rostos, os nomes, os momentos, o que parecia certeza e era ilusão, noutras ocasiões certeza mesmo, com efeitos de cacetada.

Porque sabe que não há bóia a que se possa agarrar, força que o livre do garrote da memória, ou se ainda terá paciência para fingir que continua à espera do que nunca virá, pois só foi assim no sonho, a esperança de que pelo menos uma vez pudesse acontecer e encontrasse salvação.

Perde-se a rever, a recordar, fazendo inventários, tentando descobrir explicação para os altos e baixos, a querer lógica onde tudo parece contraditório, irreal, desnorteante. Os momentos que deveriam ser de repouso são de cansaço, impedem-no de ver claro em si próprio, nos outros, no que aconteceu e o que desejou, o que estava ao alcance, o que parecia real e era só miragem. Numa ou noutra altura quase consegue ver-se apenas no agora, um curto instante, esquecido das humilhações, da crueldade sua e alheia, das horas de desespero, do terror que dá a vista do precipício. Mas é alívio de pouca dura, o pensamento logo o devolve para o que foi, obriga-o a chamar o que quer esquecer, parecendo que assim o avisa de que tudo tem preço e terá de pagar.

O mais que guarda são vergonhas e sentimentos de culpa, como se fosse ele o alvo preferido de não sabe que poderes ocultos ou, tal um escravo numa galera, o tenham posto à sujeição de vontades alheias, que dispõem, o forçam a proceder de um modo razoável na aparência, insensato na prática.

Marcam-no ferretes de que não se livra, vexames que lhe mostraram como é fácil perder a cabeça, dar o passo irremediável. Umas vezes salvou-se por um triz, um negro de unha, noutras acudiram-lhe, desde então olha com pena para o rapaz que foi, o homem na meia idade, os medos que não conseguiu vencer, as aventuras que sonhou, a crueza das que viveu.
Sofreria menos se conseguisse parar o fingimento e calar as vozes que só ele ouve, pôr fim às imagens que desfilam sem descanso, como se a vida, pelo menos a sua, tenha de ser um repisar de raivas e misérias, lutas, esperas, decepções, armadilhas, escuridão, becos sem saída.

sexta-feira, março 22

Bilhetes (4)


Passados oito meses de ausência amanhã volto à minha aldeia, mas a viagem será bem diferente da que fiz em Março de 1964, depois de mais de uma década de desterro voluntário.  

Por boa sorte e muito trabalho, desde há algum tempo a vida corria-me tanto de feição que perdera o medo dos fins do mês e das ameaças do fisco, de modo que um belo dia me pude dar ao que era então verdadeiro luxo: comprar um carro. Nada de extravagâncias, porque não me está na maneira de ser, mas também porque a aprendizagem de como pode ser dura a realidade da vida me deixara  vacinado para todo o sempre.
Foi assim que uma manhã, num stand, apontei o Fiat 1500 de quatro portas que desde algum tempo trazia de olho, paguei de contado, umas semanas  depois, dando voltas pelas ruas de Amesterdão, via finalmente realizado o sonho que acalentava desde que, ao redor dos sete ou oito anos o senhor Artur, nosso vizinho e chofer da Ferreirinha, a histórica firma de Vinho do Porto, me sentara a segurar o volante do seu camião, mostrando como se apertava a corneta do cláxon.
“Ao menino e ao borracho bota Deus a mão por baixo”, mas o provérbio de certeza é também válido para ignorantes e desastrados, pois doutro modo não se explica que com a carta tirada havia pouco, e coisa de mês e meio desde que tinha comprado o carro, metesse nele a mulher, as filhas - então com dois, cinco,  sete anos - e bagagem para dois meses de férias, com uma vaga ideia das distâncias e do tempo preciso, levando por única bússola os mapas Michelin.
No que respeita hotéis esperava que os houvesse nos lugares onde decidíssemos pernoitar, o mesmo também de bombas de gasolina e garagens, se bem que a probabilidade de avarias num carro acabado de estrear me parecesse  nula.
Mais de meio século passado, dos episódios dessa viagem há um ou outro que de vez em quando vem à tona, sobretudo por serem abissais as diferenças de conforto e segurança.
Nos quinhentos quilómetros de Amesterdão a Paris, que hoje faço em pouco mais de quatro horas, gastámos então dez, e porque de auto-estradas nada havia na Europa fora as que Hitler construíra na Alemanha, custou-nos quatro dias para atravessar a França, com o bónus de passarmos por uma infinidade de pitorescas vilas, aldeias, lugarejos,  e o susto de em certas curvas lermos em letras gordas o aviso de que ali tinham morrido sete pessoas, mais além ia a conta em onze, que desde o começo do ano somavam já vinte e dois os acidentes, ou que os quilómetros seguintes eram zona onde se tinham dado trágicos desastres.
Sem compreender o que era aquele aparato de me ultrapassarem com sirenes, luzes a piscar e grandes gestos, em duas ocasiões tive de pagar multa aos gendarmes que, postados numa curva, me tinham visto passar sobre a faixa contínua.
A tortuosa travessia dos Pirenéus tenho-a bem presente pela estreiteza da estrada, a infindável sucessão de curvas fechadas, os muitos buracos no asfalto, e o incrível número de camiões caídos nas bermas, alguns há tanto tempo abandonados que a ferrugem lhes tinha comido a pintura.
Em Espanha, algures depois de termos passado Burgos, espantou-nos um insólito povoado com três ou quatro casas, só depois nos dando conta que a gente que ali vivia em extrema pobreza tinha por moradia as muitas cavernas escavadas na encosta.
Na tarde desse mesmo dia esperava-nos ainda uma surpresa mais estranha, quando fomos à procura de água numa povoação a alguma distância da estrada. As ruas eram poucas, mas em nenhuma vimos gente, cão vadio, coisa que parecesse café ou taberna. De fonte, fontenário ou nascente de água, nada, o que em desespero me levou a bater a uma porta. Silêncio total. O mesmo na seguinte e nas duas ou três  que ainda tentei.
Talvez fosse por ser hora de siesta, mas causou-nos aquilo um tão pesado  sentimento de hostilidade e mau agouro que as crianças deixaram de se queixar.
Um feliz acaso fez-nos descobrir Baltanás, onde nos mataram a sede, deram de comer, de dormir, a gente do albergue mostrou-se tão simpática e acolhedora que aí teríamos demorado não fosse a febre em que eu ia de rever a minha gente e a minha terra.

Fazia o possível por me manter calmo, mas à medida que nos aproximávamos da fronteira crescia em mim o desconforto, censurava-me de ter cedido a um ímpeto, não levando em conta o que para a minha mulher e para as filhas ia ser mais que um choque cultural, talvez mesmo um abalo demasiado forte e de consequências imprevisíveis, pois nada as preparava para a grande mudança  que desde a paisagem aos costumes, aos hábitos, às formas de convivência, à comida, e outra sensibilidade, em todos os aspectos as esperava.
O meu nervosismo ia aumentando, a vista do primeiro painel a indicar a direcção de Vilar Formoso foi um choque desagradável, de mau agouro o tom prepotente dos guardas-fiscais a revistarem com demora a bagagem.
Pior, e ainda mais autoritário, o cavalheiro da PIDE que sentado a uma mesa, cigarro pendurado nos beiços, folheando distraidamente os passaportes, me interrogava com minúcia e sem me encarar, tamborilando a espaços, como se as respostas que lhe dava o irritassem e pusessem à prova a sua paciência.
A minha mulher assistia à cena com surpresa e alguma preocupação, pois embora estivesse ao corrente das diferenças entre as instituições do seu país e do meu, nada a preparara para o confronto com a realidade. Por sua vez as crianças, sensíveis à estranheza do lugar e ao modo hostil do funcionário, agarravam-se  intuitivamente a nós em busca de protecção.
Finalmente, ainda sem me encarar, o pide atirou-me os passaportes, e com um gesto desdenhoso, sacudindo o braço como se nos enxotasse, apontou a saída.


quinta-feira, março 21

Bilhetes (3)


Em volta de uma tragédia, resumindo conta-se assim: na manhã da passada segunda-feira, num eléctrico no centro da  cidade de Utrecht um homem dispara sobre os passageiros, faz mortos e feridos, desaparece. Quase imediatamente começam os boatos. Ouviram-no gritar Allahu akbar, mas pelos jeitos trata-se de um crime passional. Passam-se horas de incerteza, as autoridades  nada dizem sobre o número ou a identidade das vítimas, até que devido à improvidência de  ter feito um telefonema o assassino é descoberto e preso.
Gökman Tanis, 37 anos, turco e há muito residente na Holanda, tem um passado de alcoolismo, criminalidade, assaltos, vendedor de droga, culpado de roubos e violação e mais. Uns dias antes tinha sido mais uma vez preso por um roubo numa loja, mas o juiz libertou-o “porque o suspeito tinha prometido que se apresentaria às autoridades quando o chamassem para fazer um exame psicológico.”
Depois de muitos boatos e secretismo, quase ao fim do dia sabe-se que há 3 mortos e 9 feridos, alguns em estado grave. Na quarta-feira, finalmente, informam que os mortos são duas raparigas e um treinador de futebol. Sabendo que o pai de uma das raparigas não tem meios para lhe pagar o funeral, uma vizinha faz um apelo nas redes sociais, resultando daí que dentro de poucas horas são doados cerca de cem mil euros. Amanhã, sexta-feira, será organizada em Utrecht uma marcha silenciosa.
Ontem houve eleições para o Senado. O grande vencedor foi um partido recente, Forum voor Democratie, que é pelo encerramento das fronteiras e até certo ponto próximo do PVV de Wilders, embora com um carácter menos populista e daí apelando à classe média.
O futuro? Esperarmos calmamente pelo próximo atentado.