sábado, julho 30

O carro que mais dura

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A entrar nos quarenta, onze de casado, ao fim da tarde veio para uma conversa.
Feitos os comentários sobre o tempo, calor demais, ouvidas as queixas sobre o novo chefe, pergunto-lhe como vai da pontada.
Assim-assim. Da urgência mandaram-no para o hospital e esteve lá a soro quase três horas. Disseram-lhe que felizmente não tinha febre, receitaram-lhe uns comprimidos azuis, se calhar são esses que agora lhe dão tonturas.
Oiço o desabafo com a ideia de que não foi para aquilo que veio. Não foi.
Lá em casa as coisas vão de mal a pior, porque já não é só a sogra, é também a  mulher. Pegou-se-lhe o feitio da mãe, e ambas, de manhã à noite é queixa pegada: dor deste lado, aflição daquele, as pernas que incham, a cabeça que zumbe, as dores nas costas, o reumatismo, as agonias, os joelhos, a vista, os calos, a boca amarga...
Conta pelos dedos e vai nos onze achaques quando decide parar: - Se não fosse o miúdo, não me importava que o diabo as levasse.
Aceno o meu acordo e involuntariamente sorrio do provérbio que me vem à lembrança: "Carro que chia é o que mais dura”.
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Publicado no CM e aqui 

sexta-feira, julho 29

Zé-Ninguém, Zé-Alguém

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"Outro terrorismo: a Corrupção. Ela é o fascismo de colarinho-branco. É também & ainda, por dentro da Democracia, o mais voraz inimigo dos direitos básicos que são a própria essência da dita. O direito ao trabalho, o direito à justiça, o direito à saúde, o direito à educação – tudo é quotidianamente minado e apodrecido em consequência do que por aí vai de gente vil, sem uma pinga de vergonha na cara, que infesta a banca. Por exemplo, a banca – claro que articulada com a sabujice de certa política. O clientelismo amiguista à portuguesa prima ainda, todavia, por um outro fenómeno iniludível. Este aqui: uma substancial porção do povoléu não deixa de sentir admiração pelos agiotas que roubam, pelas gravatas que garrotam, pelos euromilhões públicos gamados à escala industrial. É verdade: muito portuguesinho médio sente a sua veneraçãozinha pelos manhosos cujas roubalheiras tornam o erário público numa gamela a céu-aberto & à boca-fechada. Reforço & repito: há por aí muito Zé-Ninguém que gostaria de volver-se Zé-Alguém, não pela justa recompensa de um trabalho justo, mas pelo “esquema”. Haverá por aí algum Leitor meu que não conheça alguém assim?"
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quinta-feira, julho 28

Perguntas

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Corriqueiras, importantes, necessárias, inúteis, impertinentes, a vida de todos nós é uma série infinda de perguntas. As respostas são em grande parte neutras ou imprecisas, tendenciosas, jesuíticas, de modo que pedir uma opinião, perguntar um caminho ou querer saber um motivo, pode resultar em estranhos quiproquós e nos desacertos ilustrados pela clássica conversa de surdos.
Há ainda as perguntas que por razões várias se não fazem, ora porque tememos a resposta, ou pelo conforto que a ignorância oferece. Doutras justamente se dirá que de maneira nenhuma têm a ver connosco, são apenas coscuvilhice.
É assim que, desde o atentado de Nice, quando li que, dois dias antes, o assassino tinha transferido cem mil euros para a sua família na Tunísia, me pergunto: era ele terrorista fanático, convicto da sua razão, ou um assassino a soldo a quem o "serviço" foi encomendado? É possível que um modesto chofer de entregas acumule semelhante pecúlio?
Perguntas tenho sempre muitas. Não só sobre Nice, outros atentados, tragédias, desgraças, desigualdades, a cobarde sociedade em que vivemos, mas não é a mim nem a ti que darão resposta, se por acaso a souberem.

quarta-feira, julho 27

Opiniões

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Respeitar as opiniões alheias é um dever fácil de cumprir, compreendê-las é que por vezes requer esforço, delicadeza, paciência, boa vontade. O problema dá-se quando nelas é evidente a ganância, a mesquinhice, o pequenino interesse, a falsidade, a cobardia.
Daí que pouco a pouco nos vamos (me vou) dando conta da inutilidade de discutir, quando a discussão espelha convicções e estados de alma que é melhor e mais saudável ignorar.

terça-feira, julho 26

Voyage au bout de la nuit


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Seis décadas atrás e foi um choque, o sentimento de que era estranhamente diferente de tudo o que até então tinha lido. Assustou-me, deu-me uma insegurança de que nunca mais me livrei, e se vezes sem conta me prometi relê-lo faltou-me a valentia, tornei a fechá-lo.
Mas continua a ser bitola. Por isso lhe pego agora, na esperança de descobrir se nalguma coisa melhorei desde os meus vinte e sete anos, ou se continuo às voltas no caminho errado.