quarta-feira, Agosto 20

Sinais no céu

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Depois de dias sombrios, e anos que os não via, aparece aqui um arco-íris. Ainda por cima duplo. Razão dobrada para me sentir agradecido ao céu e a quem me acarinha.

terça-feira, Agosto 19

Johnson

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Samuel Johnson (1709-1784) é um dos escritores a quem recorro quando o nevoeiro da alma me impede de ver claro. Tenho o indispensável Life of Johnson, de Boswell, duas biografias, o seu curioso relato A Journey to the Western Islands of Scotland (quem o lê não se arriscará ainda hoje a ir para aqueles lados), e um grosso volume de citações.
Quando o nevoeiro me ensombra é neste último que pego, 'debicando' aqui e ali.
- A man who exposes himself when he is intoxicated has not the art of getting drunk.
- I am always sorry when any language is lost, because languages are the pedigree of nations.
- What is written without effort is in general read without pleasure.
 

segunda-feira, Agosto 18

Ao que chegamos!

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É verdade! Ao que chegamos! Um puto de dezassete anos, ainda por cima familiar chegado, desconhece o respeito devido e as fronteiras da idade, sugere que eu descarregue esta foto de Bar Refaeli e a use como Wallpaper no meu PC. Ao que chegamos e onde isto irá parar!

domingo, Agosto 17

'A Flor e a Foice' NL/BE

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Pequeninas coisas que fazem sorrir: a 2a edição neerlandesa de A Flor e a Foice, na FNAC em Bruxelas. Mais quarenta anos e talvez um dia também lá chegue a edição portuguesa.

"Parlez-vous Français?"


Crentes ou não, a confissão é para muitos um alívio. Eu próprio, sem nunca ter entrado no confessionário, já uma ou outra vez pus a alma a descoberto e contei do meu sentir, guardando, porém, suficiente reserva. É que nunca se sabe, as consequências podem resultar funestas.
Dois anos atrás, num voo para o Recife, coube-me um vizinho de cadeira daqueles que nasceram a falar e detestam o silêncio. A peculiaridade do senhor era a linguagem, pois se exprimia mal em todas as línguas que falava, saltando de um Francês mascavado para frases numa mistura de Espanhol, Alemão, Russo, aqui e ali qualquer coisa em Português, sons que poderiam ser do Urdu ou do Parsi. No meio da trapalhada compreendi que vivia em Paris, era dos negócios e há anos passava as férias no Brasil, onde algures tinha casa "num praia molto bien."
Disse ainda que o lugar onde estava era de facto o da mulher, tinha trocado porque não a aguentava, mas ia mudar de novo para jogar com o filho uma partida de xadrez.
Com alguma ironia, mas só em pensamento, desejei-lhe boa viagem.
A mulher sentou-se. Pesadona, vulgar no traje, no modo, caricata na maquilhagem , passada dos cinquenta.  Ajeitou a saia, remexeu na bolsa, virou-se para o meu lado e disparou:
- Parlez vous Français?
Perguntem-se agora porque mistério eu, que falo como um parigot da nascença e criação, abanei a cabeça na negativa. Então a senhora, desinteressada do significado do meu gesto, ou nas tintas para a ignorância de que eu dava mostras, desatou em excelente Francês numa tirada contra o monsieur, narrando-me em detalhe a sua mesquinhice, o carácter forreta, a impotência na cama, o descaso da higiene, o mau gosto e as más maneiras, enfim, um  chorrilho de misérias conjugais que pediria meças às que se lêem nos romances de Balzac e de Céline.
Eu ouvia calado, mantendo a expressão que se espera de quem não compreende o falar das Gálias, e ao fim de um bom bocado a madame deu-me com o cotovelo, anunciando que ia mudar.
Veio de novo o marido e quis saber se a cara metade se tinha queixado. Que lhe havia de responder? Ainda tínhamos umas quatro horas de voo e eu aprecio o descanso.

sábado, Agosto 16

O meu maior amigo


Há quem os arranje a todo o momento, os tenha desde a primária, desde sempre, há uma vida, e com subtileza, cuidado, sentido utilitário das conveniências, os saiba arrumar em graduações, finamente discernir entre o vagamente conhecido, um amigo, um bom amigo, uma grande amigo, o meu maior amigo, mais o que podem arranjar de permeio.
Isto para dizer da inveja que essa abundância me provoca, pois além de nunca ter sido de muitos amigos, sempre me foi mais fácil perdê-los do que encontrá-los.
Fui pouco de cafés, nada de clubes, capelinhas, igrejas ou tertúlias, e cedo dei conta que para angariar um número respeitável de amigos, além de carácter maleável se necessita também de uma certa arte no manusear o idioma, ser capaz de com a intonação, o gesto, o que com os olhos se exprime, a maneira de premir os lábios, torcer o nariz, dar às palavras aquele duplo ou mesmo triplo significado que é o código necessário para encontrar o bom comprimento de onda.
Falhei nisso mas, embora poucos, tenho amigos e amigas. Do que não sou capaz é de distingui-los por graus. Seria um insulto à amizade.

sexta-feira, Agosto 15

Ó pudica Margarida!

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Pra arreliar a Margarida da esbórnia, com promessa de não reincidir.

quinta-feira, Agosto 14

Os bastidores do meio ambiente

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São notícias destas que confirmam como é curioso este mundo e interessantes os seus bastidores.
Traduzo o final de um artigo do jornalista Syp Wynia no semanário neerlandês Elsevier de 09.08.2014):
"Sete anos atrás a Philips, juntamente com a Greenpeace, desenvolveu uma intensa actividade de lóbi em Haia e em Bruxelas para que (na Europa) fossem proibidas as lâmpadas incandescentes - às quais pouco ou nada se podia apontar - mas de modo a que (a Philips) pudesse ganhar dinheiro no fabrico e venda das lâmpadas LED e de poupança de energia. Que a Philips tenha agora decidido vender essas actividades, é daquelas coisas que nos deixam de boca aberta."

Esperemos pelas próximas lâmpadas, mais eficientes, muito 'verdes', funcionando a ar e vento, e de certeza mais caras. Viva a preocupação pelo meio ambiente e a saúde do planeta.
 

quarta-feira, Agosto 13

Cuidado com a sujidade

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Entrou você aqui por acaso, é melhor que saia já, mas antes leia a opinião de Margarida Bentes Penedo sobre o post anterior (Bentes deve ser o ramo antigo e aristocrático dos humildes Rentes de quem nasci), compartilhe com a agravada senhora a repelência e aproveite para saborear a palavra "esbórnia":


PS. As aspas que a madame estranha estão no texto porque, quando Deus quiser, o mesmo poderá ser (re)lido num romance meu, provisoriamente intitulado  O 'Meças'.
 

terça-feira, Agosto 12

Quarteto


"O Mercedes, uma pechincha, arranjara-lho o Penacova, que fazia biscates numa garagem, e foi mesmo como tinha garantido: azul, cromados, jantes de alumínio, só um dono,  poucos quilómetros, os papéis em ordem. E então, quando lho entregaram, o tal Meisner disse que era preciso festejar, fosse lá comer no sábado.
Perdeu-se, que nunca tinha ido pra aqueles lados, mas depois de muita volta encontrou: casa de dois andares, jardim, um luxo.
Estava o sujeito, a mulher e uma outra dos seus quarenta, forçuda, vestida de motociclista, já tinham começado por aquelas canecas de litro, cerveja boa, e deitaram-lhe o mesmo.
A petiscar disto e daquilo seguiam na conversava, ia topando alguma coisa do que diziam, mas era mais por acenos. Também não faria diferença, mesmo se os entendesse não havia de ser conversa pra ele, de certeza coisa de negócios, de vez em quando escreviam uns números e punham-se a discutir, tão distraídos que nem reparavam que tinha a caneca vazia.
Mas quando viram encheram-lhe outra, logo a seguir veio a comida, uma travessa de Sauerkraut, encheram-lhe o prato como se fosse pra dois. Já a tinha comido na cantina algumas vezes, mas tanta carne e tanto enchido nunca tinha visto, eles a rir, a gostar que mostrasse apetite, provasse tudo, a botar-lhe mais isto e mais aquilo, presunto, orelha, chispe, uma chouriça que sabia a cravinho, e outra vez couve, outra vez batatas, costeletas.
Farto, a rebentar, quando o alemão desapertou o cinto fez o mesmo, as mulheres à gargalhada, tocando-lhe na barriga quando vieram com o café e uma garrafa de aguardente que sabia a pêssego.
Ao segundo copo foi-se-lhe o tino e deve ter demorado a acertar, porque do depois só se lembra que tinham começado na brincadeira das cócegas, aos abraços, a meter a mão aqui e ali, ele a ver onde a coisa ia parar, quando deu conta estava sem calças, a da mota a chupá-lo, os outros já em pêlo a tirar-lhe a camisa.
O quarto parecia o barbeiro: espelho por todo o lado, até no tecto, e a cama,  não fazia ideia que as houvesse daquele tamanho, eles a engatinhar uns por cima dos outros, o Meisner aos berros, Ficken! Ficken!, a empurrá-lo pra cima da sócia, que essa pelos jeitos nem podia esperar e já estava na fressura com a amiga.
Aí sentiu que o filho da puta o queria enrabar, e não esteve com meias medidas: saiu da comadre, agarrou-o pela trunfa e assentou-lhe um directo na cornadura.
A mão a doer e meio zonzo da pinga, ficou à espera do que naquilo ia dar, mas ou o gajo estava ainda mais bêbedo do que ele, ou era maluco de todo, porque se pôs a arreganhar os dentes, como se estivesse no gozo, e ao fim deitou-se de costas, a lambuzar-se com o sangue que lhe escorria do nariz.
Vai não vai, porque ainda tinha vontade, quis meter o escovilhão na da mota, dar-lhe uma esfregadela como deve ser, mas essa também já estava perdida de todo, nem abria os olhos, quando acabou de se vestir estavam os três a roncar."