quarta-feira, Setembro 17

De gajas e do garbo

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Prezado D. Pipoco,
Já que indirectamente me chamou à dança, deixe que lhe diga a minha estranheza pelo seu anseio de polémicas. Os tempos vão de guerras, de crueldades, mas isso acontece longe e entre povos desatinados, incapazes de resolver querelas seculares acerca da família do Profeta e questões de poderio.
Nós, gente de sensata cobardia, usamos a capa dos brandos costumes, já nos parece demais uma zanga no estacionamento ou um olhar vesgo no supermercado.
Fôssemos nós abertamente maus, que não somos, nem conseguimos sê-lo, mas também não nos podemos dizer bons. O nosso drama é sermos bonzinhos, gentilmente viscosos e escorregadios como pele de enguia, netos em linha directa de Janus, o das duas caras.
E com a gente que somos deseja Vossência duelos de florete? Levantou-se em tempos a fábula das mocas de Rio Maior, ficção semelhante à que Camilo tinha escrito de valentões armados de estadulhos a varrer as feiras de Lanhoso e do Arco de Baúlhe.Pauladas e catanadas não é connosco, e quando por acaso é vamos para um longe onde não nos conheçam, como em tempo remoto fizemos em África e no Oriente. 
Se uma ou outra imitação de duelo por aí acontece, é em ambiente perfumado, as mãos enluvadas de camurça a esgrimir penas de pavão. "Coisas de gaja", como recentemente  aprendi a dizer, interessante frase que me leva a referir a palavra "garbo" que Vossência elegantemente usou.
Estava ela tão fundo entre as ferramentas do meu artesanato, que num primeiro impulso quase abri o dicionário. Porque convenhamos: há quantos séculos deixou de haver garbo, se é que alguma vez o houve entre nós, fora da lírica de Camões?
Cordialmente seu,
JRC

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terça-feira, Setembro 16

As belas histórias de amor

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Belas histórias de amor? Pode dizer-se que abundam e delas temos notícia desde que alguém se deu ao trabalho de contá-las no Velho Testamento.
A primeira de que tive conhecimento e recordo foi a de Jacob e Raquel, as outras desapareceram submersas no oceano de paixões que fui encontrando na Literatura, no Teatro, no Cinema, na Ópera e na Televisão. Acidentalmente posso lembrar um nome, a Laura de Petrarca, Cleópatra, Greta Garbo, Jean Harlow, tantas e tão esquecidas outras, mas o que aqui vem ao caso não são as paixões inventadas, romanceadas, sim as pessoais, as únicas e genuínas. As raríssimas que não se vivem em anos mas em dias, por vezes em momentos, as que nada têm a ver com as da ficção, nem lhe imitam os episódios, menos ainda os diálogos, mas ressaltam entre dois seres como faísca e literalmente os atiram para o Nirvana ou o Inferno, que em momentos desses nada importa o destino, só conta o delírio.

domingo, Setembro 14

O coqueiro

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É de mau agouro e contranatura a paz que há décadas, talvez quase um século, reina nas Letras portuguesas.
Entre os que a elas se dedicam, e os que as analisam e comentam, há muito desapareceu a máscula troca de murros e insultos, não há notícia de rixas de café, ameaças, duelos, roubo de amantes ou acusação de desvios. Tudo se mostra estranhamente sereno, cortês, cordial, mesmo a birra entre o prócere que aguardava o Nobel, e o felizardo que o recebeu, se limitou a uma breve e indirecta troca de resmungos.
Semelhante calmaria forçosamente trará resultados funestos, não se descortina  jovem literato que, ansioso de novidade e mudança, se encoraje a  desempenhar o papel clássico do elefante na loja de porcelana.
Uma situação destas não pode de facto continuar, é doentia, anormal, toca o absurdo.
Escreveu A. um péssimo romance classificado com uma única estrela? Pareceria justiça, mas na prosa acompanhante o crítico desfaz-se em louvores e ditirambos, cita a estreia do cujo, prevê o êxito da próxima opus.
Deu a jovem B. simultaneamente à luz um bebé e cento e dezanove páginas de recordações da sua infância em Aguiar da Beira, estremecem os plumitivos, excitados com a promessa do excepcional talento.
É péssimo sinal. Entre louvores, abraços, demasiado respeito pelos ídolos e encorajamentos de infantário, vão-se as Letras portuguesas serenamente afundando num charco de banalidade, em parte alguma se descortina o crítico azedo e competente que dê ao coqueiro a forte e muito precisa sacudidela.

sábado, Setembro 13

Diáfanos e perfeitos

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Devíamos ser só espírito, diáfanos e perfeitos como os anjos da nossa imaginação, mas o Criador achou divertido meter-nos num envelope e, talvez para que admiremos que Ele de facto tudo pode, cria-nos todos diferentes, os milhares de milhões que somos desde Adão e Eva, e os que iremos sendo até que Ele decida pôr termo à experiência.
Esse envelope, sabemo-lo alguns, é um sem fim de incómodos e aflições, pouco nos é poupado entre a constipação e a má nova do cancro terminal. Ao mesmo tempo, sacanice divina, é desse mesmo envelope que retiramos grandes prazeres, alegrias, as emoções que nos fazem sentir únicos.
Únicos, sim, mas chega sempre o momento em que, os corajosos defronte do espelho, os outros fechando os olhos, nos perguntamos se "aquilo" somos nós.
Creio que os jovens e os inocentes ouvirão a resposta afirmativa. Dos outros não sei. De mim próprio devo dizer que o corpo é uma companhia que lavo, visto, alimento, mas com quem não falo e prefiro não ver. Infelizmente não sai do meu lado.
 

sexta-feira, Setembro 12

As tais

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Espírito inocente, mau grado um doutoramento em Filologia Clássica, solteirona, corpulenta, vivaz, D. Rosa que Deus tenha veio muitos anos passados de visita a Amsterdam,  no seu pitoresco dizer, “a primeira incursão à estranja”.
Com ela visitámos os canais, os museus, os moinhos, os campos de tulipas, Marken, Volendam, o Palácio da Paz em Haia, as ruas de Delft, e mais, cansativamente mais, para quem como nós, passado meio século já vezes sem conta fez de guia.
Comemos com pauzinhos no Nam Kee, com garfo e faca os trinta e dois pratos de Rijsttafel da incomparável cozinha indonésia do Tempo Doelo. Comemos arenque cru. Fizemos como Ramalho Ortigão quando aqui esteve, e fomos beber genebra ao diminuto Wijnand Fockink. Levámo-la a jantar ao clube literário Arti et Amiticiae, onde Ramalho também jantou, e onde noutra ocasião tínhamos convidado Saramago.
Foi já na sobremesa que D. Rosa, a modos de puxão de orelhas,  disse que lhe tínhamos mostrado muita coisa, mas não o que ela gostaria tanto de ver.
- A Biblioteca? A Casa de Anne Frank? A Casa de Rembrandt?
- As mulheres. As tais.
 

quinta-feira, Setembro 11

Estupidez

Desde que, distraído pelo estrondo do Big Bang,  deixou escapar da sertã a almôndega a que chamou Terra, e pôs nela a espécie que sabemos, o Todo-Poderoso continua a lutar em vão contra a estupidez.
Estúpidos há-os grandes e pequenos, cómicos, perigosos, ineficientes, alguns são-no por maldade, outros porque assim nasceram. A maioria anda à solta, outros, como os que querem "reformar" a língua portuguesa, deviam ser isolados no Rilhafolhes e mantidos lá por tempo indefinido.
A língua não é dos gramáticos nem dos políticos, a língua é do povo, nós todos, e também nela é o povo quem mais ordena.
Para que se saiba quanto me é querida, repito este texto de 16.06.2013.

A nossa língua

 É mais que gosto ou apreço, é amor de verdade e misterioso sentimento, o que me dá a nossa língua. Demoro em certas palavras a saboreá-las, encanta-me a melodia, o significado, pergunto-me que feitiço se esconde nelas, capazes como são de tanto exprimir, outras vezes negando o entendimento ou, travessas como crianças, fugindo quando as chamo, aparecendo no lugar errado.
E que grande tesouro é! Quantas maravilhas esconde! Que pena dá que dela saibamos tão pouco, mais pena ainda de ver como alguns a desleixam e desprezam, achando fino deitar mão a estrangeirismos, inventando modismos que são outros tantos sinais de debilidade mental.
Porque a alguns falta o ritmo, a outros o ouvido, mostram por vezes os literatos alguma falta de jeito na dança com as palavras. E enriquecer-lhes o significado é dado a poucos. Nesse particular surpreende como são por vezes os simples mais capazes de seguir o filão e encontrar nele o diamante.
Contava-me um médico que, muitos anos atrás, tendo começado a trabalhar para as bandas de Monção, lhe aparecera um dia um paciente que, a modos de queixa, disse:
- Vou pró campo e é só vento!
Depois de alguma conversa descobriu o jovem clínico que o lavrador, para quem a leira era a única retrete, ao querer aliviar as entranhas só lhe saíam peidos.
O meu exemplo é de anteontem. Adoeceu o vizinho, mas o bichanar das mulheres não adianta para saber se é grave e necessária a ajuda. À volta doutros afazeres descubro que aquele que o levou à urgência não diz mais que "Ficou lá. Puseram-no a soro".
Retorno às mulheres. Pergunto, mas de nada adianta, com ar de inquisidor agarro pelo braço a que me parece mais assustada, ela cede:
- Há três dias que não fecha!
- Não fecha?
- Há três dias que não fecha!
Demorou, mas à força de circunlóquios e apontando vagamente lugares da anatomia, lá conseguiu explicar que o vizinho há três dias andava com tal soltura que não saía da retrete.
Maravilhoso intsrumento,a língua portuguesa.

quarta-feira, Setembro 10

Saltimbancos

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Quando toco ou canto é de ouvido, é também de ouvido que vou opinar, pois não se me meteria na cabeça gastar tempo a assistir ao debate de líderes políticos, sobretudo meus  compatriotas, pela mesma razão que não paro na rua para assistir a uma demonstração de 'vermelhinha'.
Os dados são falsos, o jogo é mau, de certeza se falou de progresso, de um belo  futuro, menos impostos e mais farturas, igualdade e fraternidade, etc. Se não foi assim não há-de ter sido muito diferente. Mas como já disse, isto é a minha música, a que toco de ouvido, ideias opiniões que há muito tenho na cabeça  nada garante que sejam das boas.
Mas se não vi o debate de ambos os senhores, regalei-me com as opiniões dos seus adeptos, apaniguados, simpatizantes e camaradas.
Para os defensores do senhor Costa, o senhor Seguro é burro, um canalha sem vergonha, manhoso, rufia pimpão (gostei desta), mesquinho, frio, populista…
Os groupies do senhor Seguro acham mais ou menos o mesmo do senhor Costa, com a terrível agravante de que durante o debate o senhor Costa "transpirou".
E agora diga-me você, se ainda está a ler, que espectáculo é este? É nas mãos de "líderes" de tal quilate, ou do dos que agora nos governam, ou que antes deles rapinaram e rebaixaram este desgraçado chão, que devemos entregar o nosso destino, o fruto do nosso trabalho e os nossos sonhos?
Você ainda lhes ouve o paleio? Interessa-se pelo dizem? Será que a sua inocência vai tão longe que de um, do doutro, ou de um terceiro, espera governação decente, contas certas, esperanças de um futuro digno?