domingo, agosto 21

De faca na liga

 

É daqueles casos de que se diz cada cabeça sua sentença, mas neste são tantas as cabeças, tão opostos os interesses e desmedidas as raivas, que na opinião da maioria só pode acabar mal. De modo que a todo o momento se espera o desfecho, mas ao mesmo tempo com esperança que embora tarde, ou por milagre, as coisas acabem por se arranjar e o sossego volte à aldeia.

Mas os milagres são raros, e quem conhece a Filomena Quadrazais, por alcunha a “Engenheira”, solteirona de pêlo na venta e literalmente mulher de faca na liga, sabe que tê-la contra numa ocasião em que sinta prejuízo, melhor é passar de largo.

Começou a guerra quando o Benjamim, como quem não quer a coisa, ao acender o cigarro tirou as mãos do volante, e ao dar conta já de cada lado o tratctor rasgara o bastante do muro para que o atrelado passasse.

Foi penitenciar-se à “Engenheira”,  tinha sido mesmo distração e pagava o que tivesse de ser, mas mandou-o ela àquela parte, com o aviso de que lhe dava dois dias para recompor o descomposto.

Esses dois dias vão em meio ano, o alargamento foi mesmo um “descuido” e dá jeito a muitos, mas coragem de tomar partido ninguém tem, menos ainda de se mostrar contra a Filomena.

Sugeriu um ou outro que se falassae ao padre, o que caiu mal, porque já nem os sotainas têm a autoridade de antigamente, e no caso do padre Fernando ainda menos, dizem dele coisas que é melhor não repetir, tão sérias que quando sai de casa leva o filho do “Marreta” a servir de guarda-costas.

Estava o assunto num impasse, palpites ninguém arriscava, a esperança de milagre caíra abaixo de zero, mas é por isso mesmo que eles acontecem. Como foi ninguém deu conta, certo é que uma manhã apareceu o muro recomposto. O Benjamim garante que não teve a ver, mas diz que  não faltam casos daquilo que do dia para a noite o Diabo é capaz.