domingo, setembro 12

Morrer duas vezes

 

A gente ouve e cala, às vezes sorri, encolhe os ombros, mas há ocasiões em que custa mostrar que já se perdeu a paciência e a vontade de fingir que se acredita. Tanto mais quando se trata de alguém como o João Fazendas, exemplar de seriedade e bom senso, nada inclinado a patranhas. Por isso custa ficar calmo e de boca fechada quando ele insiste que de verdade aconteceu, foi tal e qual como conta, se não acreditamos pouco se lhe dá, nem se ofende se continuarmos a pensar que é mentira.

Uma tarde no Verão passado estava ele no pátio, deitado na preguiceira a ler o jornal, quando ouviu o telemóvel. Tinha-o esquecido no muro, mas com a artrose há muito perdeu a ligeireza, e quando conseguiu pegar-lhe deixara de tocar. Conta então que nesse momento se sentiu envolvido por uma claridade como a dum nevoeiro espesso, ao mesmo tempo que era agarrado, não por mãos, mas algo invisível que embora macio o imobilizava, sentindo que se despedira da vida.

No começo uns diziam que devia ter sido chilique, um ataquezito, talvez qualquer coisa nos ouvidos, transtorno dos diabetes, a pressão baixa. O João ouvia-os com o ar calmo da sua certeza, desculpava-lhes a teimosia da descrença, e como no meio tempo aparecera o Corona deixou de se falar na "morte do João Fazendas", para susto de todos já bastavam os milhares de vítimas na China e o perigo que corríamos.

Desde essa altura só de longe a longe nos tínhamos visto, mas quis o acaso que na passada quinta-feira nos encontrássemos no consultório do Dr. Magalhães, e como é natural falámos dos nossos achaques, eu com problemas de arritmia cardíaca, ele a sofrer cada vez mais dos diabetes, a tensão alta e a bronquite, desesperado por ser incapaz de deixar o tabaco.

Por mim não tocaria no assunto, surpreendeu-me ele ao perguntar se ainda me lembrava do achaque que sofrera, e como todos riam ao ouvi-lo dizer que aquilo tinha sido uma verdadeira  morte. Estava-me grato por não ter emparelhado com os que zombavam, mas já agora aproveitava a altura para dar prova da estima em que me tinha, confiando-me que se de facto não fora uma morte no sentido clássico, digamos, também não podia aceitar que alguns troçassem do que para ele tinha sido um momento extraordinário. É que, certeza certezinha, esteve no "outro lado" e não é nada do que muitos pensam.
Nesse momento o doutor Magalhães veio e acenou-lhe que entrasse, deixando-me triste pelo modo como, o João já de costas, me encarou e o vi abanar a cabeça num modo de piedade.