quarta-feira, Dezembro 31

Gravura antiga (*)

Chama-se-lhe paixão, mas aos quinze anos não pode ser. Não é. Antes uma espécie de estado febril, tontura das hormonas, pois fora um ou outro poeta ninguém em seu juízo se apaixona por um retrato. Ele tinha-se apaixonado. E nem era retrato, mas a gravura dum anúncio, uma rapariga no alto de um escadote, segurando numa mão uma lata de tinta, na outra um pincel.
- Burrice! – troçaram os amigos. – Uma gaja num escadote? Olha-se p’ra cima e o que é que se vê? Uma lata?
Ténis brancos, jeans, blusa quadriculada de azul e creme, um belo rosto a resplandecer alegria, olhos azuis, cabelos de ouro... Começara pelo fascínio, mas não tardou a sentir-se embruxado. Colada na parede, a página dava a ilusão de que se encaravam. Falava-lhe. Um dia arriscou o primeiro beijo. Depois, longas conversas sussurradas, diálogos em voz alta, risadas, a mãe no corredor a perguntar o que era, se queria alguma coisa.
Não tem ideia do que aconteceu à gravura, de como ou quando aquilo terminou. Muitos anos, muitas vidas depois, muitas águas passadas, Ilse iria dizer-lhe que em alemão havia uma palavra bonita para esse sentimento, Kalberliebe.
Estivera tentado a dizer-lhe que havia uma expressão semelhante em inglês, por certo também noutras línguas, mas Ilse não era para lições e fora a cama e a música, enfim... Águas passadas. Ilse! A Ilse de Munique! A juventude são instantes, não são?

Está sentado numa esplanada na Foz, encarando o mar. Fim de tarde dum domingo sereno. Alheado do burburinho em redor, interrogando-se sobre de que fundos terá vindo a recordação. Com esforço, sim, talvez conseguisse lembrar as feições de Ilse, as doutras amigas, as das mulheres com quem tinha casado, mas a rapariga no escadote surgira-lhe ali sem razão que adivinhasse, misteriosamente fiel nos detalhes, nas cores, a gravura nítida como que projectada num ecrã.
Burrice, de facto. Sorriu à memória dos amigos e das ocasiões perdidas, melancólico com o sentimento de que a certo ponto da vida tudo parece estagnar.
Passou as mãos pelo rosto e esfregou os olhos, ao mesmo tempo que sacudia ligeiramente a cabeça, como exorcismo dos pensamentos que não queria ter.

A mulher deteve-se e encarou-o brevemente, dando ideia de julgar reconhecê-lo. Viu-a depois hesitar na escolha, olhando em redor como se procurasse alguém, para finalmente, escolher a mesa fronteira.
Bela mulher. Modo desenvolto. Ano mais, ano menos, a idade indefinida entre os trinta e cinco e os quarenta. Cabelo preto, a fazer moldura a um rosto sereno, descendo em caracóis sobre os ombros, decote elegante, um colar assimétrico de grandes bolas negras.Trajando um vestido longo, lilás escuro, o ar de quem dali a pouco iria a uma festa. Olhos expressivos.
Em tudo tão outra, e mesmo assim a sua imagem parecia sobrepor-se à da recordação de adolescente, como se entre ambas se fizesse uma simetria. Seria a forma do rosto? A vivacidade do olhar? O indefinido que marca certas pessoas? A estranheza que nos toma inseguros cada vez que a realidade parece diluir-se?
À rapariga da gravura chamara Esther, inconscientemente. Talvez porque nesse tempo Esther Williams era a sua actriz favorita. Mas Esther não serviria para a bela estranha. Ali, junto do mar, antes o clássico Maria, a tradução latina da Vénus grega. E por que não Marina, que lhe recordaria Moscovo, onde fora feliz? Mariana? Marisa?...

Distraído a fabular, só deu conta do homem quando ele já se curvava a beijá-la na face.
Bem proporcionado. Atlético. Não lhe via o rosto, mas tudo nele dizia juventude. Filho? Amante? Ela levantou-se e ele – carinho? paixão? – passou-lhe o braço pela cintura.
Ao vê-los afastar-se devaneceu-se a memória antiga, como se naquele instante a gravura finalmente se despegasse.

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(*) Foi esta história escrita para Marisa, como presente de Natal. Oferece-a ela a quem a ler, como presente de fim de ano.

terça-feira, Dezembro 30

Frases

Duas razões para citar algumas frases de Arthur Schnitzler (1862-1931). A primeira é a admiração pelo seu formidável talento de escritor e dramaturgo. A segunda é que, tomando-as de empréstimo, elas me permitem “falar” a alguns amigos e amigas que compreenderão o que lhes quero dizer.


“São muitas as maneiras de fugir à responsabilidade. Pode-se escapar a ela através da morte, da doença, e finalmente através da estupidez.”


“Nenhum fantasma nos ataca em tantos e tão variados disfarces como a solidão, e o amor é uma das suas mais impenetráveis máscaras.”


“Cada relação amorosa passa por três fases que imperceptivelmente se sucedem: a primeira é aquela em que, mesmo em silêncio, um se sente bem com o outro; na segunda um sente-se silenciosamente aborrecido com o outro; na terceira o silêncio torna-se um vulto que se ergue entre ambos os amantes como inimigo mortal.”


“O que torna tão problemática uma relação amorosa é o facto de nos sentirmos tomados por um permanente anseio de liberdade, ao mesmo tempo que procuramos prender o outro, embora sem estarmos convencidos de que temos o direito de fazê-lo.”

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(*) A minha tradução não é a melhor. Quem sabe a língua leia - Arthur Schnitzler, Buch der Sprüche und Bedenken.

domingo, Dezembro 28

Dr. Armando Sanches de Morais Pimentel (1913-2008)

O mais antigo e um dos melhores, se não o melhor dos meus amigos, faleceu ontem.

A primeira recordação que dele guardo data dos seis ou sete anos, e a partir daí, numa longa enfiada de vivências, foi companheiro, guia, mentor, sempre cuidadoso em nunca me tratar como criança ou adolescente, mas seu igual. Que em muitos aspectos o éramos. Ambos fanáticos da leitura e do cinema, do amor da história, do interesse pela política, dele cedo aprendi que na vida e na sociedade é escassa a nitidez do preto e do branco, do bem e do mal.

Jurista sabedor e experiente, com outras e bem fundadas perspectivas, ele via mais longe e sabia que pouco se consegue sem compromissos, enquanto que o jovem rebelde que eu era drasticamente os recusava.

Permitiu-me, talvez mais que a ninguém, partilhar da sua intimidade, do segredo dos seus amores. Depois fui-me a correr mundo, ele teve de ficar, mas isso só fisicamente nos separou. A amizade, essa manteve-se numa correspondência que daria volumes e ele, avesso a deitar fora, deve ter arquivado entre a sua imensa papelada. Ao contrário do seu hábito, das muitas dezenas de cartas que me escreveu guardo apenas duas: uma a contar as circunstâncias do seu casamento, a outra dizendo da pena sofrida com a morte da mãe.

Cronista de prosa elegante, devo-lhe o ter-me encorajado a escrever e, no quinzenário Torre de Moncorvo, que nos anos cinquenta ajudou a fundar, ter publicado os meus primeiros contos.

O mais, desde então, é uma longa e excepcional história que valeria a pena contar, mas não é para a praça pública.


O uso manda que dos mortos se enalteçam as virtudes e passem por alto os defeitos, mas na minha amizade por Armando Sanches de Morais Pimentel não cabe a hipocrisia. Seria diminuí-lo dizê-lo superior ou único. Ninguém o é. Como todos nós teve qualidades, e como todos nós errou. Mas em muito se distinguiu do comum: pela inteligência, pelo conhecimento da literatura, pelo saber jurídico, pela clareza do raciocínio, a gentileza, a modéstia. Duas vezes o convidaram para ministro da Justiça e de ambas recusou, ciente de que a integridade é pouco compatível com os jogos e os interesses da política.

Advogado por dever familiar, o seu gosto seria a engenharia mecânica, mas essa vocação exigia sacrifícios e separações que não queria nem se podia permitir. E assim, nas horas vagas fez-se apaixonadamente ferreiro. Com oficina completa, saber, e arte de que deixa provas.

Vai hoje a enterrar e com ele se enterra também muito de mim.

sábado, Dezembro 27

Refúgio

Contado ou não, seria exagero dizer que nestes dias me falta o tempo. Falta-me, sim, a ciência de o acomodar à minha inquietude, a sabedoria de distinguir entre o verdadeiramente urgente e o que poderia sofrer demora. Todavia, circunstâncias há em que o transtorno leva a melhor, o caos instala-se a perturbar as horas do dia, e aquelas da noite em que o sono se torna luxo.

Como se isso não bastasse, vem este com as suas diminutas preocupações, aquele com o desarranjo que teme, um terceiro com os distúrbios da fraca cabeça que Deus lhe deu, um outro precisado de companhia...

São tantas as pontas que, indeciso por qual começar e a fingir que me ocupo, me escondo aqui.

quinta-feira, Dezembro 25

Consoada

Chegámos a ser mais de vinte. Dez à mesa grande, perto da lareira, os mais novos em mesas redondas na outra ponta da cozinha. Nada de árvores de Natal, que nunca as houve por estas bandas. Nada de penduricalhos, enfeites, bolinhas coloridas,nem sequer um presépio. Esse está na igreja e é lá que pertence.

Uma simplicidade assim notam-na os que vêm de fora e têm hábitos de luxo, mas só antes de se darem conta de que a Consoada será das que lhes deixarão memória funda.

Pela quantidade e o tamanho, as travessas de bacalhau, de polvo, dos ovos a decorar as batatas cozidas, das couves e grelos, já os surpreenderiam. Isso tem de facto, e apenas, a modesta função de entrada: é para dar um jeitinho ao estômago, acalmar o apetite do que segue.

E o que segue é pantagruélico. Entre rabanadas, leite-creme, pão-de-ló e bolo-rei, arroz-doce e aletria, milhos, tortas disto e daquilo, bolachas, bomboms, vinho fino, licor, uísquezito, para um regimento não daria, mas se fosse um batalhão sobrava.


Ontem éramos seis. Dentro das proporções estava a mesa posta com a fartura de sempre, mas se a disposição era boa, júbilo não sentíamos, antes melancolia.

Bem contados, lembrou um, estavam ali quatrocentos e dezassete anos de vida. Sorrimos o sorriso da circunstância, mas esse logo se nos foi quando o mais idoso entre nós se sentiu mal.

Levámo-lo para a cama. Sossegou-nos ele que aquilo era coisa de nada, um enjoo, logo passaria, fôssemos comer. Mas nem o comer nos soube, nem o fizemos em descanso, e a cada visita víamo-lo piorar.

Correu-se a outra aldeia a buscar médica amiga. Entretanto tinha-lhe dado um ataque e perdido a consciência. Veio a ambulância do INEM e nela o levaram para o hospital.

No povoado ninguém deu conta do acontecido. O que ainda há de gente estava em redor da grande fogueira que se faz para aquecer o Menino.

terça-feira, Dezembro 23

Rectificação

As chamadas "forças vivas" apontaram que as luzinhas da foto anterior, postas pela junta de freguesia, eram nada coisa nenhuma. Espectaculares, sim, as da "comissão fabriqueira", colocadas a seguir. Se é certo que estas com o seu fulgor escondem o relógio, de que na prosa era questão, provam por outro lado a vitória da fé generosa sobre a forretice autárquica.

segunda-feira, Dezembro 22

O relógio parou

Avaria? Desleixo? Falta de peças? Fraqueza de pernas para subir até lá a compô-lo? Receio das cobras que moram no campanário?

Anos atrás, o relógio da igreja parou nas quatro e vinte. Misteriosamente, sem que lhe tocassem, apareceu um dia nas cinco, e assim se mantém. Símbolo de que em Estevais de Mogadouro o tempo parece ter parado. Parece. Porque ainda não parou de todo. Provam-no as luzinhas penduradas nas amoreiras do adro, a anunciar o Natal.

Parou o relógio, mas ainda temos o calendário.