domingo, dezembro 15

O que foi não volta

 

Seria difícil, creio mesmo impossível, fazer o rol das mudanças que testemunhei ao longo dos meus muitos anos. Para não falar da, agora praticamente diária, avalanche de novidades e melhorias, algumas capazes de um dia para o outro obrigarem a aceitar hábitos, maneiras de ser, de estar, de vestir, até a achar normal que alguém caminhe só, e falando em voz alta, o que num tempo não muito distante seria tomado como sintoma de desarranjo mental.

Contudo, mesmo se a minha paciência e o conhecimento dessem para compreender o mínimo – tempo tenho eu para dar e vender – nem por sombras me iria ocupar com o incrível, infindável número de mudanças e avanços em todos os ramos da Ciência e da Técnica.

De modo que, nascido para as Letras  e sentimentalmente criado no século dezanove, a minha ambição de contabilizar mudanças fica pelo comezinho: observar o diário e directo, o choque de modernices, a recordação nostálgica de sons, cheiros, sabores e modos para sempre perdidos. Costumes seculares que julgava eternos, desapareceram em meses. Raro se vê agora um grupo a conversar na esquina. Dos pregões das vareiras, dos amoladores, dos ardinas, dos cauteleiros não há som gravado, mas para que serviria se houvesse? E com que palavras, compreensíveis para os jovens e adultos de agora?

Correm eles impacientes na urgência do imediato, arrasto-me eu com a lentidão que os anos exigem,  grato pelo que me foi dado ver e viver, mas também inquieto de que, no futuro que os  espera, guardem sobretudo memória dos sons discordes que os rappers produzem, dos festivais em que saltitaram, julgando-se indivíduos, mas sendo apenas as ovelhas obedientes de um melancólico e maleável rebanho.

 

 

domingo, dezembro 8

Venha o Dilúvio

 

Seria despropositada arrogância, a do Zé-Ninguém que, ao sofrer uma derrota, se quisesse comparar a Luís XV, desejando o fim do mundo com as enchentes bíblicas do Dilúvio.

Quando as coisas nos correm mal, ou saiem às avessas, as mais das vezes encolhemos os ombros. Porém, se o azedume leva a melhor e perdemos as estribeiras, costumamos escolher uma das expressões em que o verbo mandar serve de muleta verbal, remetendo o que ou quem nos incomoda, para inúmeros, mas sempre desagradáveis destinos.

A grande dificuldade está, então, em decidir se os mandaremos para a merda da fossa, as labaredas do Inferno, as Urgências, o útero infame onde foram gerados, ou em busca de um genital viril que satisfaça, sabe Deus que fraquezas, vergonhas, ou desejos recalcados.

Pessoalmente, e desde há demasiado tempo, aborrecem-me os aflitos com o aquecimento do planeta, os que exigem uma agricultura “natural”, os tontos que chamam assassinos aos talhantes. E paro aqui, porque nos momentos em que cedo à irritação que me causam as soluções disparatadas que essa gente propõe, também não resisto – em pensamento – a mandá-los para os mais variados, e nem sempre bem cheirosos destinos.

Isso não só pela evidente tontura, mas por se tomarem por elite, destinada a indicar o caminho certo ao povinho ignorante, e esse que aguente, pague, agradeça a bemfeitoria, continue como esperam que se manenha: de joelhos, e mão estendida.

De qualquer modo, mesmo os de fraca cabeça dão-se conta de que, por muito que temam o aquecimento da Terra, também esperam que ela os não surpreenda, e de um dia para o outro, rebentando pelas costuras, desate a soltar vulcões, se transforme numa colossal frigideira onde nós todos, diminutos que somos, desapareceremos ainda antes de sermos fritos.

 

 

 

sábado, dezembro 7

Grande livro

 

É de um amigo, é, mas de longe e sem concorrência o melhor que em muitos anos, e em quatro línguas li.

Um grande livro. Nele, três palavras ditas por uma criança, e ficas de coração negro e lágrimas nos olhos.

quinta-feira, dezembro 5

Dá jeito, dá

 

https://blasfemias.net/2024/12/04/descarbonizados-e-famintos/

domingo, dezembro 1

Meia idade


 


 

Burros e elefantes


São suficientes as limitações que me apoquentam, mas razão de queixa não tenho, há muito aprendi a verdade do adágio antigo que “o que tem de ser tem muita força”.

Sendo assim, contento-me com uns resmungos sobre isto, aquilo, aquele, aqueloutro, e na medida do possível valho-me da surdez para escapar a discussões sobre política, que de modo geral se podem de facto igualar às muito aborrecidas conversas de chacha.

Desse modo não me aquenta nem arrefenta o que anuncia, pensa ou decide o Primeiro Ministro. Não dou um chavo pela ministra sicrana, pelo almirante beltrano, o general comentador de guerras, as Cristinas em que a plebe se espelha. Vivo quieto no meu canto, embora este quieto seja relativo, pois quando para os seus negócios o Zé Costa vem a Amesterdão  - felizmente só de três em três meses – não será a primeira coisa que faz, mas não tarda que venha de visita.

Esteve cá na passada quarta-feira, e se felizmente já ultrapassei o estado de choque, ainda não me recompuz de todo, pois dados os abraços entrou ele de súbito no resultado das eleições na América. Ao ouvir-me esperançado de que a equipa de Trump o levará a acalmar os desmandos, julguei que lhe dava ataque. E foi sério o medo que senti ao vê-lo reagir assim, a cara retorcida, a esbracejar, tão furioso que se lhe entupia a voz.

Felizmente acalmou, avisando que se se punha em tal aflição, o fazia por ser muito meu amigo, e admirador de longa data. Mas ficassse a saber que alguns nossos conhecidos me têem por “direitolas”, o que ouvira também a uma senhora da televisão, amiga da Matilde, E a Matilde, a sua mais velha, não perdoava e nunca esqueceria, o eu ter fingido que me enganava na pronúncia  e chamar “Kamela Harris” à candidata Democrata.

 

 

quinta-feira, novembro 28

Revista de Portugal

 

                 Eça de Queiroz fundou-a em 1889. Morreu, ressuscitou 21 anos atrás. 



segunda-feira, novembro 25

Vi e pasmei

 

Vi, com estes olhos que a terra há-de comer. Ontem à noite, num dos principais canais da TV neerlandesa vi - e chamei a minha mulher para ter uma testemunha - um chef, com uma faca na mão e movimentos vagarosos detalhar a maneira eficaz e segura de descascar uma laranja.

domingo, novembro 24

A ilusão de guardar o tempo

 

É em parte uma questão de hábito que ganhei na juventude, mas também porque lhe reconheço utilidade, de modo que quando o fim do ano começa a aproximar-se compro uma agenda para o seguinte. Agenda de papel, evidentemente, e desde há duas décadas o mesmo modelo. Umas quantas vezes por desleixo, mudanças de casa e razões sem conta, foram muitas as que perdi ou deitei fora, mas tenho comigo as vinte quatro deste século, e dias atrás comprei a do ano que daqui a nada chega.

Para os mais novos, e os fanáticos do progresso, será este meu um hábito típico de alguém que  irremediavelmente, e há demasiado tempo, alinhou na categoria bota-de-elástico, o que de bom grado se lhes perdoa. Além de ser mais que evidente o terem eles razão, pois faz pouco sentido querer comparar a simplicidade, e morosidade, do uso de uma agenda em papel, com o que permite e torna possível a surprendente maravilha técnica que dá pelo nome de telemóvel.

Assim sendo, e de bom grado, não me resta mais do que aceitar ser visto como alguém que, com mediano entusiasmo pelas inúmeras vantagens do progresso, continua preso a hábitos que por muitos, provavelmente a maioria, são vistos como arcaicos, ou ligeira e doentiamente desfasados da modernidade.

Todavia, sem remorso nem vergonha o confesso, para lá do necessário ou festivo que aponto na agenda, nunca esqueço de anotar também a data do passamento dos fdp que me tramaram a vida, ou tentaram fazê-lo. Pouco falta para que lá estejam todos, mas pelo que me chega aos ouvidos, os que ainda por cá andam têm razões de sobra para temer o Inferno lá em cima, pois mesmo sem labaredas já sofrem um neste mundo.

 

domingo, novembro 17

A maratona do progresso

 

Que com o correr dos anos muito se aprende é afirmação válida em tempos passados, e para outro tipo de pessoa, pois no que me diz respeito, esse suposto muito, que me deveria ter cabido pelas nove décadas de caminho andado, mostra-se excepcionalmente escasso.

Por preguiça não foi, e por ser essa a minha natureza tenho-me desunhado a aprender, a ouvir, a aceitar, a fazer das tripas coração cada vez que a necessidade ou a gentileza o pedem. Também não foi por desinteresse, pois creio raras vezes ter-me poupado o esforço de observar, manter-me ao corrente, aceitar as normas que por vezes me incomodam, mas considero necessárias ou indispensáveis ao bem-comum.

Mau grado a boa disposição e apressada curiosidade, a armadilha com que o progresso me apanhou foi traiçoeira. Mostrou-se com tentações que não destoariam das de Cleópatra, iludiu-me a ponto de, com pressa e excesso de entusiasmo, deitar fora a máquina de escrever, que durante meio século tinha sido o meu arado, e render-me à maravilha do progresso, comprando um computador.

Seria injusto, e faltaria à verdade, se não confessasse que os oito ou nove que até agora “gastei” cumpriram o que deles esperava. Mas o que desde há cerca de um ano e pico me troca as voltas, e com irritante frequência põe à beira da crise de nervos, ou na iminência de por desespero me dar em espectáculo, é a para mim incrível, e estonteante celeridade da mudança de programas, códigos, fórmulas, passwords -  nem por gracejo me atreveria a dizer senhas -  tudo à mistura com um vocabulário que, além de arrevezado, tem toda a aparência do linguajar de iniciados numa seita.

Ao leitor parecerá isto o queixume de um tonto, mas de verdade é apenas a confissão de me ver sem músculo para correr na maratona do progresso.

 

sexta-feira, novembro 15

Bom senso

 

É o bom senso que poucos exprimem, pois no rebanho está o proveito que a moda dá. Aqui