quinta-feira, setembro 15

Nem tudo se diz

Conversávamos sobre o que escrevi dias atrás - "A segunda grande mola"-  veio ele com a confidência de que, tirante as duas de quem enviuvou, mal passa da meia dúzia o número das mulheres que levou para a cama.
- Para sessenta anos de vida, e nos dias de hoje, é pouco – conclui.
- Não é muito.
- E só de uma tenho saudades.
Aguardo a confidência, ele perdido sabe-se lá em que recordações, dando a impressão que vai falar, depois fazendo um trejeito de arrependimento, os olhos na colher que tirou da xícara. Finalmente, a partilhar o monólogo interior em que se demorara:
- Não, nem era bonita. Mas foi a única…
Detém-se, força o sorriso, encolhe os ombros numa desculpa:
- Não sei como aguento!
Sei-o eu, sabe-o ele também, mas é entre amigos que nem tudo se diz.

terça-feira, setembro 13

Terça-feira treze

Tinha acabado de filosofar sobre alegrias etc. no post anterior, quando me chegou isto. Afinal o treze nem sempre é de azar.

Pasmaceira

Se olho para trás, os primeiros cinquenta anos da minha vida foram de grande agitação, os últimos trinta uma pasmaceira. Tenho eu saudades da turbulência? Não tenho, porque muitas vezes me levou àquelas situações de cara ou coroa em que o destino se joga, e se dalgumas saí a ganhar e noutras fiquei no empate, as que foram quase quase deixaram-me com adrenalina bastante para que, desde então, dispense a busca de emoções ou riscos.
Claro que nesta idade, dirão os inexperientes, emoções só as devo esperar das consultas ao médico ou dos exames no hospital, e o risco maior, se não for a passadeira da rua, virá dalgum trambolhão.
A vida, felizmente, desconhece regras e certezas. O amor não precisa de desaparecer com os anos, a verdadeira amizade resiste aos embates, carinho e simpatia há às mãos-cheias, do sorriso da criança ao desabrochar da flor e à luz da manhã, sobram as razões de alegria.
Assim, ao contrário do que você pode imaginar, a pasmaceira em que vivo não é um nevoeiro de aborrecimento ou o melancólico aguardo do último sopro, mas a paz de alma de quem conseguiu saltar do comboio antes dele se despenhar.

segunda-feira, setembro 12

Presentes

É tema para interessar sociólogos, a diferença de como na Holanda e em Portugal se reage a um presente.
Os holandeses, que passam por frios e distantes, quando se lhes oferece algo são prontos no agradecimento. Forretas também são, mas no momento apropriado mesmo o mais somítico lá vem com o ramo de flores, a garrafa de vinho, um livro, a caixa de bombons.
No geral da minha experiência - como sou azarento, Deus queira que seja única - o português é tosco no agradecer.
Presente de casamento, aniversário, livro, cerejas do quintal, ovos da capoeira, carote ou modesto, as mais das vezes ele/ela simplesmente "esquece" de agradecer a prenda, ou recebe-a com um ar displicente que tanto pode ser acanhamento como repulsa, fecha-se em copas, dando ideia de que merecia mais e melhor. Às vezes consegue produzir um som incerto que se assemelha ao "Obrigado", ao mesmo tempo que olha de través, como se o receber lhe fosse insulto.
Será que deformo? Haverá nesse proceder uma razão atávica? O orgulho tolo de se julgar superior ao ofertante? Aquele medo de que só o necessitado recebe?

domingo, setembro 11

Amsterdam

Fiz contas. Vai para cinquenta e seis anos que vivo em Amsterdam. Pertenço-lhe como ela me pertence. Deixo-lhe filhos, netos, marca da minha presença na vida social e literária, uns tantos estudantes que recordam o que de mim aprenderam, uma mão-cheia de gente que me quer bem, bastantes que sabem quem sou quando me cruzam na rua. Há livros meus nas livrarias, nas bibliotecas e nos lares, quem procurar no Arquivo Municipal -  Stadsarchief – descobre lá o meu retrato.
Para quem nela começou na estaca zero, é alguma coisa. Para o tempo de uma vida nem por isso. Tenho gasto mais dias e noites a observar a cidade e a maravilhar-me com o espectáculo, do que tenho empregue em obra útil. Mas não me arrependo nem sinto remorso. Foi essa a  escolha, vivo preguiçosamente em consequência.

sábado, setembro 10

A segunda grande mola

É a segunda grande mola. Em primeiro lugar, imbatível, imutável desde o tempo de Moisés, mantém-se o dinheirinho, e assim será até ao próximo Dilúvio. Mas o sexo é um respeitável competidor. Em livros e livralhada, cinema, televisão, em vielas escuras, nos melancólicos cafés de aldeia, congressos, festas de ano, muito se fala de sexo. Em família, à mesa ou no quarto de casal, será tema melindroso, mas na blogosfera quase me arrisco a afirmar que três quartos do conteúdo têm a ver com ele.
Sintoma aflitivo de imaturidade, impotência, frustrações? Serei o último a aventar parecer. Certo é que em mim, adepto antigo da discrição e do sigilo, essa pletora de cenas, testemunhos, narrativas e detalhes, tem contribuído para a perda do que me restava de inocência.
Pior: leio sobre um homem público, vejo na TV uma figura de destaque, um intelectual a discursar, um actor a fazer pantomimas, involuntariamente me afligem miragens dos seus vícios, do que aprendeu no Kamasutra, da esquisitice das suas cópulas.
Pudesse eu, voltávamos ao tempo do beijo casto.

sexta-feira, setembro 9

Campeão

Fundada em 1883 como  associação de ciclistas, a ANWB – Algemene Nederlandsche Wielrijders-Bond – é o "Automóvel Clube de Portugal" dos Países Baixos e, com mais de 4 milhões de associados, uma formidável instituição.
Claro que sou sócio e recebo mensalmente Kampioen, revista que, para lá de informações úteis, oferece uma secção de "Cartas do Leitor"" que ora faz rir ou dá para chorar. No último número vem uma lista de casos absurdos de sócios que, em férias, telefonam a solicitar auxílio.
Na piscina, em França, roubaram a este a roupa e a bagagem, está nu, embrulhado numa toalha, quer que lhe digam o que há-de fazer. Outro telefona a caminho da Bósnia que se lhe avariou o carro; mandem alguém a desenrascá-lo, mas para que não haja surpresa informa ainda que leva na bagageira o cadáver do tio, que tinha pedido para ser enterrado na sua aldeia natal.
Um caso deixou-me de boca aberta, menos pela bizarria que pela preocupação de que gente desta tirou carta, passa ao meu lado na estrada, e pelos jeitos tem uma cabeça capaz de perigoso funcionamento.
Perguntou o senhor: tenho intenção de visitar a Inglaterra de automóvel. Será que, como turista, também sou obrigado a circular pela esquerda?   

quarta-feira, setembro 7

Queixas


- Queixas? Razões de sobra. Os políticos? Estes como os outros, corruptos e incompetentes. Os bancos, uma quadrilha. A Alemanha não virá por aí fora com tanques e Stukas, mas esmaga-nos ainda melhor com o poderio dos seus cofres. Deixámos de interessar à China, estamos tão em baixo que nem à Espanha apetecemos, pouco há-de tardar a que mesmo os angolanos nos virem as costas. Sabes que pelo preço de uma semana no Algarve vão os nórdicos duas ou três para a Grécia?  Obrigam-nos a apertar o cinto. Mas que cinto? E em volta de que barriga, se só já temos pele e osso?

Oiço-o, não o contradigo, antes me maravilho da minha concordância, de como, piscando o olho, somos realmente bons no queixume, fingindo de coitadinhos. E tão competentes na arte da rasteira. Que o diga quem nos dá crédito.

segunda-feira, setembro 5

Birdland

- Estás enganada. Foi em Paris.
- Não estou não. Hamburgo. No Birdland. Nunca tinha ouvido Stan Getz.
- Stan Getz? Vê se recordas. O programa começou com Chet Baker…
- Exacto. My Funny Valentine, mas depois…
Acabaram a sobremesa, pedem café, quando o empregado se afasta e ela faz menção de continuar, beija-lhe galantemente os dedos, como para evitar que continue. Um casal de meia-idade bate discretamente palmas, ergue os copos numa saúde.
O telemóvel toca, desculpa-se, atravessa a sala falando num murmúrio, seguido pelo olhar da senhora das palmas que depois a encara e articula qualquer coisa com exagero, em silêncio, conversa de surdo-mudo.
Acontece-lhes  tantas vezes, ultimamente. Discordâncias que ainda não são discórdias, mas criam um sentimento desagradável, aquele modo de parecer apostado em contradizer, contrariar, sempre a ter razão, a querer impor

Birdland. Um mar de gente, os desconhecidos que se tinham sentado com eles, Chet Baker a transformar My Funny Valentine num sublime lamento. A sala na histeria do aplauso.
Sentiu a mão na coxa, uma suavidade de dedos na pele que a minissaia deixava nua. Da mesma idade, olhos no palco, roçando os lábios no copo de cerveja como a procurar-lhes frescura, a rapariga ao seu lado, sonho ou droga, dir-se-ia  longe dali.
Ombro contra ombro. Um rapaz apoiou-se nela, saltou para cima da mesa. Palmas, gritos, assobios. Ele, excitado, continuava a aplaudir. Debruçou-se quando voltou a sentar-se, mas não deu atenção ao que ela sussurrava, nem ao gesto.
Um homem aproximou-se do microfone:
- Mr. Stan Getz! On Green Dolphin Street.
Carícias lentas, quase imperceptível o roçar de unhas, um toque mais ousado. Temerosa da  surpresa e da inesperada volúpia. Encararam-se, mas não se mediram, que da outra vinha a força que lhe quebrava a vontade, e incapaz de parar o tremor deixou que os dedos se entrelaçassem, mal deu conta que a estranha a puxava contra si. Beijo longo, fogo dos sentidos, choque, olhos cerrados, braços pendentes, o corpo a desfalecer. E no instante seguinte, quase entregue, o desnorteio de ver a rapariga erguer-se e sumir por entre a massa de vultos.

Ele volta, guarda o telemóvel.
- Quem era?
- O António. Parece que se amanhã não conseguirem…
Ouve-o, acena a concordar, mas a sua atenção perde-se.
- Vamos?
- Vamos.
Dá-lhe o braço e sussurra, a fingir de agastado:
- Tenho a certeza absoluta que foi em Paris, no Olympia. Parece que estou a ver o Chet Baker.
Ela volta-se e faz uma pequena vénia à senhora de meia-idade, leva a mão ao rosto, disfarçando o brilho das lágrimas, a compaixão que a toma de um dia se imaginar também assim: com ele no restaurante, silenciosos, erguendo os copos num brinde à felicidade alheia.



domingo, setembro 4

Graças


Escasseia-me ciência para especular sobre as razões do existir, os porquês da dor, da euforia, do sossego e da turbulência.
Seria duro se todos os dias fossem de amargura, Deus nos livre de um permanente júbilo. Graças se dêem a Ele que, conhecedor de como somos, nos põe rédea, doseia sabiamente a festa com a tristeza, o medo e o alívio, à secura do real junta montes de fantasia.
Empurra, mas, clemente, deixa-nos a ilusão de que vamos por nosso pé.

sábado, setembro 3

Este é que mente

Afirmavam e provavam os oponentes que, como primeiro-ministro, o senhor Sócrates descaradamente mentia. Afirmam e provam agora os seus seguidores que o senhor Passos Coelho descaradamente mente.
Cidadão sem partido, sem tacho, amizades ou dependências políticas, livre que nem  andorinha, pergunto-me  que proveito move as senhoras e senhores que tanta energia e palavras gastam no fingimento de que protestam contra a mentira, e sinceramente querem endireitar o torto. Será mau hábito que têm? Achaque que lhes dá? Sendo apenas figurantes e vassalos, imaginam-se actores de primeira?
De qualquer modo o espectáculo é deprimente, menos pela fantochada do que pelo que põe à mostra de sabujice. E mal, muito mal, vai à vida política da nação, quando o debate público ganha o tom das rixas de taberna.

sexta-feira, setembro 2

Mon ami Mitterrand

Uns festejam, outros carregam o sobrolho: o ex-primeiro-ministro foi a Berlim visitar frau Merkel, sua grande amiga, e depois a Madrid, abraçar o senhor Zapatero, também ele grande amigo e compincha.
Não era o caso de Salazar, esse dispensava amigos, mas depois da Abrilada o componente amizade entrou na política portuguesa pela mão de Mário Soares, incansável a nomear "mon ami Mitterrand" , mon ami Olof Palme, mon ami Den Uyl, mon ami Willy Brandt e os mais "amis"  à porta dos quais batia a mendigar a ajudinha.
Entristece, porque revela muito da pobreza e atraso de uma nação, a crença bacoca de que a  amizade conta na política, nas relações internacionais, nos interesses do mundo, ou nas voltas e revoltas da sociedade.
Um "mon ami Mitterrand"  é basófia parola. Publicitar a visita do senhor Sócrates aos seus amigos, pressupondo nela ameaças para quem agora manda ou esperança de favores e ajudas, é de tolos. Na realidade do mundo adulto e da gente séria não há negociatas ao jantar, nem visitas, tomam-se decisões durante pequenos-almoços de trabalho, às sete da manhã, com uma sande e mau café em copos de plástico.
Infelizmente, quem é pequenino usa lentes de aumento e até a si próprio se vê ampliado.  Faz de Portugal uma Alemanha, imagina o senhor Sócrates com a estatura da chanceler, quiçá capaz de influenciá-la com a magia da sua profunda amizade.
Desiludam-se, meninos. Há que pagar o que se deve. Não lhes digo que vão trabalhar, sabendo que o trabalho escasseia e é pouco o ganho que dá, mas esqueçam as amizades, aprendam que as nações não vivem de jeitos, nem às ricas interessa a miséria das necessitadas.

quinta-feira, setembro 1

Oiçam

São vinte e quatro na minha lista de favoritos. Aí pelas seis da manhã – sim, madrugo - depois do que antigamente se chamava "as abluções", mas antes do pequeno-almoço, corro por esses vinte e quatro blogues, mais um ou outro que referem. Tornou-se-me hábito. Mantêm-me alerta e interessado, curioso do que irei encontrar de inteligência, conhecimento, humor, sensibilidade, ironia, civismo, dedicação.
Com eles retorno também à alegria dos anos de menino, quando meu pai me mandava ao quiosque comprar o "Janeiro" e eu, lendo-o, atrasando o passo, descobria que grande era o mundo para lá do Porto, de Gaia e a praia de Lavadores.
Imprensa e televisão dispenso, mas esses blogues não perco. Às mulheres e aos homens que neles escrevem fico grato pelo que partilham.