segunda-feira, agosto 3

Bruxelas parece Roma

"Seja-se a favor ou contra uma Europa federal, não faz sentido que, como nação soberana, a Holanda seja desmantelada sem a aprovação dos cidadãos. Quanto mais não fosse senão porque é difícil imaginar como seria possível que uma Europa federal pudesse alcançar algum poder sem o explícito assentimento dos cidadãos.

Um cenário como o da Itália fica à espreita. É uma nação que foi criada por um segmento da classe política, e mesmo passado mais de um século e meio de integração continua a ser uma nação frágil. A lealdade (dos cidadãos) é para com as cidades, as aldeias, as regiões, não para com Roma. Mil e cem anos da República de Veneza (697-1797) não se apagam de um dia para o outro.

Por isso a Itália sempre foi um joguete de outros estados: a Grã-Bretanha, a Alemanha, a França, os Estados Unidos, e nos últimos tempos a China, que vai ganhando influência. A classe política que formou a Itália desejava que através da unidade se evitasse que as cidades, as repúblicas e os pequenos reinos da península se tornassem o joguete doutros…

Foi sempre esse o argumento da França para a integração europeia. A posição de uma Europa sob o mando de Paris, livre dos Estados Unidos e da União Soviética,  actualmente dos Estados Unidos, da China e ainda da Rússia…

A perspectiva da França para União Europeia – e a da sempre "obediente" Alemanha – é a que conta. Ou como disse Bruno Lemaire, o ministro francês das Finanças: "A França e a Alemanha chegam a um acordo, o resto só tem de concordar."

Assim a lição que se pode tirar do século e meio da situação da Itália deveria ser que os cidadãos dos países da União Europeia explicitamente desejem trocar a lealdade nacional pela lealdade federal. Se tal não acontecer resulta daí uma construção intrinsecamente fraca. Enquanto que o poder primário – impostos, monopólio do poder, política exterior, direito, moeda, fronteiras – tudo se encontra ao nível da União Europeia, enquanto que a lealdade dos cidadãos é nacional ou regional. Isso pode levar a que, conscientemente ou não, os cidadãos da União Europeia a vejam como uma "força ocupante". Os italianos cospem em Roma, tentam escapar ao fisco e esquivar-se aos regulamentos de Roma. Só quando Roma começa a distribuir dinheiro é que saem à rua com a bandeira italiana.

A União Europeia vai pelo mesmo caminho. Bruxelas vai ter para os cidadãos europeus o mesmo significado que Roma tem para os italianos. Será que os holandeses querem isso? Parece duvidoso."

(Tradução de um excerpto de um artigo de Jelte Wiersma – Blijt de kiezer dit pikken? - "Continuará o eleito a aceitar isto ?",  no semanário neerlandês Elsevier de 01.08.2020

domingo, agosto 2

E Portugal?

(Clique)
É só um anúncio entre milhares, mas tão poucos os que oferecem Portugal. Entristece.

O medo de ter sorte

As pessoas que se conhecem bem aceitam as razões da sua maneira de ser, por isso vive o Guilherme em paz com a natureza rotineira que Deus lhe deu, fica doente se um motivo inesperado o obriga a mudar o horário ou os hábitos.

Avesso a prisões e obrigações cedo compreendeu que o celibato era a sua natureza, ainda nunca se arrependeu de viver sozinho e a reforma, que para tantos é um tempo  de tristeza e desespero, foi para ele uma libertação, pois nos últimos oito anos não terá havido meia dúzia de ocasiões em que as circunstâncias o levassem a falhar a disciplina a que se obriga.

Em pé às seis, gasta meia hora na higiene e na barba, quinze minutos no pequeno almoço, segue-se uma hora de passeio. De volta a casa durante hora e meia faz ginástica e halteres, a seguir cuida dos arrumos, e como se andasse de cronómetro na mão à uma menos um quarto entra no "Zé do Barraco" onde tem mesa reservada.

Chega a casa às duas, faz a sesta e acorda sem falha às três e meia, ocupa-se então nos afazeres domésticos ou vai ao supermercado. Como é pouco de cozinhados janta o que tiver à mão, vê o Jornal das Oito, depois um programa ou outro, às vezes procura um filme, à meia-noite em ponto está na cama.

Amigos de verdade nunca teve, com os conhecidos e os vizinhos pouco mais adianta que o bom-dia boa-tarde, ou fica por aquelas conversas em que a falar sem nada dizer se finge o convívio. Porém, e de nada adianta que lhe chamem Destino, Providência, Sorte, Deus, Fado ou Acaso, é por vezes nas vidas mais regradas que essa força de súbito intervém e as transtorna. Isso descobriu o Guilherme à espera de vez na bomba e a desconhecida lhe tocou no braço. Que desculpasse mas tinha de lho dizer: a sua aura estava a mudar do azul para o violeta, por certo era do signo Balança, na sua vida iam dar-se grandes mudanças, só não sabia se para bem ou para mal.

Sorriu a esconder a irritação que lhe causava a cinquentona de pequena estatura, nada de cigana, antes burguesa com um ar de autoridade, que sem mais recuou uns passos e de súbito pareceu desaparecer na loja.

Nunca foi de crendices, orgulha-se de ser alguém com os pés bem assentes no chão, mas desde o encontro anda preocupado, pois embora ainda nada tenha acontecido de mau, bom, ou surpreendente, verdade é que pode falar de um antes e um depois. Vive agora no temor de um acontecimento que ponha fim à calmaria da sua existência, e não o dirá em voz alta porque lhe chamariam maluco, mas até tem medo de ganhar o Euromilhões.