sexta-feira, fevereiro 5

"Parus major"


As andorinhas é que vêm de longe e anunciam a Primavera. Estes não. Um deles – será sempre o mesmo? – vive aqui perto o ano inteiro e desde que o frio começou espreita se na varanda há sementes para debicar. Claro que há. Trazem-se do supermercado, onde a variedade dos menus para a bicharada pede meças à nossa.

Falo disto porque o passarinho, mesmo quando a neve cai, é pontual na visita e dá-me a ilusão de que não somente nos conhecemos, mas também dialogamos.

quinta-feira, fevereiro 4

A raiva e o cozido


Conheci-a e sofri-a ainda miúdo, a raiva à portuguesa. Desde então perdi-lhe o medo, mas continua a fascinar-me, tanto mais que com o correr do tempo me sobraram oportunidades de conhecer outras e fazer comparações.

A nossa distingue-se pela prepotência impotente, pela cobardia. É de gritos – "Agarra-me, ou faço uma desgraça!"- de compromissos e fingimento. Mais manobra calculista do que convicção do íntimo, é de bazófia e teatro. É uma raiva de armadilhas, fintas, esperas no escuro, ajustes de contas que raro ou nunca se ajustam, porque também não era esse o fim. Dá-se a ilusão que é de macho, mas é só de gestos. Ar e vento. Dança. É grosseira. No modo une o estadista e o calceteiro.

É nossa. Tão à portuguesa, como o cozido.

quarta-feira, fevereiro 3

Uma ilusão


Entrou nos sessenta e continua bom rapaz, dândi no vestuário, sapatos de camurça, risca na cabeleira, foulard a esconder as rugas do pescoço. Atencioso, delicado, levanta-se quando uma senhora entra, beija-lhe a mão à antiga.

Sabe um pouco de tudo, mas com esse pouco espevita uma conversa que esmorece ou um silêncio que pesa. E é serviçal. Quem lhe telefona sabe que terminará com um "Se precisares dalguma coisa, manda!", mas a verdade obriga a dizer que das vezes que lhe pedi coisas miúdas – dar um recado, ir a uma livraria – sempre arranjou desculpa para se escusar.

Mas enfim, todos temos os nossos defeitos. O que com dificuldade se lhe perdoa é a cansativa febre de atirar com nomes e pretender relações. Fala-se de uma dor de garganta, logo ele anunciará o notável médico, sempre um professor, que o tratou do mesmo achaque. Acrescentando de seguida nome, sobrenome, morada, prole, parentesco, associados, por coincidência muito amigo do seu primo Alberto, o Alberto que é aparentado com a Maria João Pires. Diz alguém que o Primeiro Ministro tem família em Trás-os-Montes? Ele sabe onde e os nomes, a profissão, com quem casaram, os negócios que têm. Mário Soares? Conhece o Mário há uma vida! Foram unha com carne no tempo da Oposição. "Vocês de certeza se lembram. Estivemos juntos em reuniões. Estivemos juntos em Paris! E na Alemanha, quando se fundou o PS".

Os menos caridosos irritam-se. Eu compreendo-o. A sua vida sempre foi de aparências, uma ilusão que criou para sobreviver, um acto de mágica.

terça-feira, fevereiro 2

A vida

Andaria então pelos quase trinta anos quando alguém, com um modo de inesperada severidade, me avisou de que eu nada sabia da vida.

Ainda hoje o sou pouco, mas nessa altura não era nada dado a acatar a opinião alheia. Dessa vez, porém, por ser pessoa que me estimava e eu tinha em alto apreço, a admoestação não caiu totalmente em ouvidos de surdo. É assim que meio século depois as suas palavras ressoam na memória sempre que me interrogo sobre o que sei da vida, ou melhor: sobre o que julgo que sei da vida.

A resposta é uma dolorosa confissão. Sem falsa modéstia tenho de conceder que os muitos anos não abonaram a experiência que deveria ter dela, nem diminuíram a surpresa que me causa a minha ignorância. Muitos serão os que vivem com o sentimento de que avançam tacteando na penumbra. E como eu, outros haverá também que não conseguem atinar com o que lhes acontece e, em vão desespero, tentam compreender porque motivo a vida lhes troca as voltas e os deixa sem norte.

segunda-feira, fevereiro 1

O oportunista


Interessante no oportunista é aquela qualidade de que agora muito se fala: a transparência. No seu cérebro deve haver uma qualquer alavanca que o impede de se dar conta de quanto é previsível o seu comportamento.

Está você na mó de baixo, o oportunista some-se com a rapidez de neve que derrete ao sol. Começa a melhoria, lá salta ele a recordar a velha amizade e os bons tempos de então. Cheira a sucesso? Nenhum outro tão pronto na lavagem dos pés, nos bilhetinhos, na lisonja. Chegou a hora da sorte? Aí é imbatível: capacho, moço de fretes, burro de carga, pião das nicas, nenhum esforço lhe pesa, nenhuma curvatura lhe dói.

Mas há que manter o alerta. A sua mentalidade é de escravo, a sua ambição a de escravizar, na celeridade da mordedura iguala o escorpião.