As andorinhas é que vêm de longe e anunciam a Primavera. Estes não. Um deles – será sempre o mesmo? – vive aqui perto o ano inteiro e desde que o frio começou espreita se na varanda há sementes para debicar. Claro que há. Trazem-se do supermercado, onde a variedade dos menus para a bicharada pede meças à nossa.
Falo disto porque o passarinho, mesmo quando a neve cai, é pontual na visita e dá-me a ilusão de que não somente nos conhecemos, mas também dialogamos.
Conheci-a e sofri-a ainda miúdo, a raiva à portuguesa. Desde então perdi-lhe o medo, mas continua a fascinar-me, tanto mais que com o correr do tempo me sobraram oportunidades de conhecer outras e fazer comparações.
A nossa distingue-se pela prepotência impotente, pela cobardia. É de gritos – "Agarra-me, ou faço uma desgraça!"- de compromissos e fingimento. Mais manobra calculista do que convicção do íntimo, é de bazófia e teatro. É uma raiva de armadilhas, fintas, esperas no escuro, ajustes de contas que raro ou nunca se ajustam, porque também não era esse o fim. Dá-se a ilusão que é de macho, mas é só de gestos. Ar e vento. Dança. É grosseira. No modo une o estadista e o calceteiro.
Entrou nos sessenta e continua bom rapaz, dândi no vestuário, sapatos de camurça, risca na cabeleira, foulard a esconder as rugas do pescoço. Atencioso, delicado, levanta-se quando uma senhora entra, beija-lhe a mão à antiga.
Sabe um pouco de tudo, mas com esse pouco espevita uma conversa que esmorece ou um silêncio que pesa. E é serviçal. Quem lhe telefona sabe que terminará com um "Se precisares dalguma coisa, manda!", mas a verdade obriga a dizer que das vezes que lhe pedi coisas miúdas – dar um recado, ir a uma livraria – sempre arranjou desculpa para se escusar.
Mas enfim, todos temos os nossos defeitos. O que com dificuldade se lhe perdoa é a cansativa febre de atirar com nomes e pretender relações. Fala-se de uma dor de garganta, logo ele anunciará o notável médico, sempre um professor, que o tratou do mesmo achaque. Acrescentando de seguida nome, sobrenome, morada, prole, parentesco, associados, por coincidência muito amigo do seu primo Alberto, o Alberto que é aparentado com a Maria João Pires. Diz alguém que o Primeiro Ministro tem família em Trás-os-Montes? Ele sabe onde e os nomes, a profissão, com quem casaram, os negócios que têm. Mário Soares? Conhece o Mário há uma vida! Foram unha com carne no tempo da Oposição. "Vocês de certeza se lembram. Estivemos juntos em reuniões. Estivemos juntos em Paris! E na Alemanha, quando se fundou o PS".
Os menos caridosos irritam-se. Eu compreendo-o. A sua vida sempre foi de aparências, uma ilusão que criou para sobreviver, um acto de mágica.
Andaria então pelos quase trinta anos quando alguém, com um modo de inesperada severidade, me avisou de que eu nada sabia da vida.
Ainda hoje o sou pouco, mas nessa altura não era nada dado a acatar a opinião alheia. Dessa vez, porém, por ser pessoa que me estimava e eu tinha em alto apreço, a admoestação não caiu totalmente em ouvidos de surdo. É assim que meio século depois as suas palavras ressoam na memória sempre que me interrogo sobre o que sei da vida, ou melhor: sobre o que julgo que sei da vida.
A resposta é uma dolorosa confissão. Sem falsa modéstia tenho de conceder que os muitos anos não abonaram a experiência que deveria ter dela, nem diminuíram a surpresa que me causa a minha ignorância. Muitos serão os que vivem com o sentimento de que avançam tacteando na penumbra. E como eu, outros haverá também que não conseguem atinar com o que lhes acontece e, em vão desespero, tentam compreender porque motivo a vida lhes troca as voltas e os deixa sem norte.
Interessante no oportunista é aquela qualidade de que agora muito se fala: a transparência. No seu cérebro deve haver uma qualquer alavanca que o impede de se dar conta de quanto é previsível o seu comportamento.
Está você na mó de baixo, o oportunista some-se com a rapidez de neve que derrete ao sol. Começa a melhoria, lá salta ele a recordar a velha amizade e os bons tempos de então. Cheira a sucesso? Nenhum outro tão pronto na lavagem dos pés, nos bilhetinhos,na lisonja. Chegou a hora da sorte?Aí é imbatível: capacho, moço de fretes, burro de carga, pião das nicas, nenhum esforço lhe pesa, nenhuma curvatura lhe dói.
Mas há que manter o alerta. A sua mentalidade é de escravo, a sua ambição a de escravizar, na celeridade da mordedura iguala o escorpião.