sábado, setembro 21

Noutra vida?


Noutra vida? Noutra era? Em lugar sem nome, tempo sem história? Pesadelo? Visita ao Purgatório? Revivo a cena, a hora da tarde, a ventania a sarilhar poeira na rua sem calçada, as casas de pedra solta, uma ou outra coberta do barro amarelado que pertence às aldeias de Castela.
Longe demais para distinguir se é homem ou mulher, passa um vulto e logo depois outro, um terceiro, curvado sob um molho de galhos, os braços erguidos a segurar o fardo. Lentas, como de enterro, um sino badala pancadas que não são de relógio a dar horas nem das Trindades, porque o sol ainda vai alto.
Não sei onde estou, quem sou, porque me vejo ali, e contudo nada me surpreende ou transtorna, sinto minha a vestimenta grossa, pesada, de feitura antiga, os tamancos, o gorro de lã, as mãos calejadas.
Ignoro o que me trouxe, donde venho, porque paro defronte daquela casa de paredes toscas, janelas estreitas, um fumo de lareira a subir na telha-vã.
Estaco e aguardo, como se mo ordenassem, oiço o rangido, vejo que uma das janelas se abre, puxada por mão invisível.
Demora a que um vulto de mulher se mostre, anciã de cabelo revolto, olhos a sair das órbitas, o rosto uma estampa de desespero e fúria, os lábios torcidos num esgar. Coberta do que parece um sambenito de pano grosseiro, debruça-se e aponta-me o braço descarnado, ruge palavras guturais que me trespassam como lâminas, mandamento em língua estranha:
- Diz à minha filha que vou morrer!
E de repente, como se tivesse caído num alçapão, some da janela. Petrificado, nada reconheço no lugar nem no tempo. Irregular, espaçado, o tanger do sino vai e vem, só agora dou conta que os vultos que apercebi repassam numa monotonia de figuras de carrossel.
Que poder traduziu o recado para que eu o compreendesse? Para que fui chamado? Terá sido desnorteio ou sonho em que me perdi, laço que me prende à estranha e a tão assombrado lugar? Delirei? Iludo-me de viajar no tempo, acorrentado a outro eu?