segunda-feira, abril 20

A modo de alívio

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Seria engano dizer que o assunto me tira o sono, e é fugidia a preocupação que me dá, mesmo assim ocupa-me mais do que desejaria, obrigando-me a balouçar entre extremos de piedade e raiva, de pasmo e aversão.
Por isso, porque não sei, porque o meu poder de cidadão é nulo e opiniões nada resolvem, é assim a modo de me dar alívio que alinho aqui uma amostra de factos. Absurdos ou contraditórios, impedem-me de pensar claro e nada contribuem para a minha paz de espírito como cidadão e ser humano.
- Afogaram-se setecentos, oitocentos, ou mais; ninguém sabe, de nada adianta a conta.
- Ao verem o porta-contentores que se aproximava, correram todos para o mesmo lado e o navio virou. Salvaram-se vinte e nove? Trinta e dois? Quarenta? Importa a notícia a alguém?
- Não há bilhete, mas a passagem está longe de ser grátis. Conforme o estado do barco e a possibilidade de chegar à Itália, o preço variava semanas atrás entre os sete mil e os doze mil euros. É improvável que esteja ao alcance dos pobres. As crianças pagam "bilhete" inteiro.
- Até chegarem à Líbia, os emigrantes que vêm dos países ao sul do Saará atravessam um sem-número de controles de polícia e pagam de cada vez seis euros por pessoa.
- Na televisão italiana vejo um deputado que, discursando no parlamento,  enfatiza a absoluta necessidade dos imigrantes ilegais para a prosperidade da agricultura.
- Vejo um político alemão dizer o mesmo acerca da indústria.
- Vejo na televisão holandesa um refugiado da Somália que trabalha clandestino numa plantação de tomates na Calábria, e se queixa de só receber vinte euros e viver num casebre que ele próprio construiu, enquanto o trabalhador italiano tem casa, privilégios sociais e ganha cinquenta euros limpos.
- Dos cerca de cento e cinquenta mil refugiados que chegaram à Itália desde o princípio do ano (passado ?), só de uns cinquenta mil há registo, e a ninguém interessa saber dos restantes.
- Na televisão holandesa uma jovem refugiada etíope, exprimindo-se num Inglês quase perfeito, mas raivosa no modo e nas palavras, grita: "Nós temos direitos, exigimos habitação, um modo de vida decente e possibilidade de estudar".
- Quando são legalizados, os imigrantes na Dinamarca recebem casa e mobília, passando de imediato a gozar todos os benefícios sociais, sem que para eles tenham contribuído.
- O mesmo sucede na Holanda, com a particularidade de que um holandês tem de aguardar em média dez anos antes que possa alugar casa num bairro social.

No meio disto tudo e tanta miséria mais, desses desesperados e de nós todos, os senhores ministros da UE reúnem-se pela enésima vez a discutir.


sexta-feira, abril 17

"O Rio Somos Nós"

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Dois anos atrás escrevi este texto para a série "Os Maias" no Expresso. Houve quem não apreciasse, alguns acharam heresia.
Pessoalmente, não só fiz o melhor que pude, mas, caso raro, é um dos meus textos que releio com satisfação e alguma nostalgia, talvez porque acorda memórias do tempo em que eu, abismado, começava a descobrir o mundo.
De vez em quando perguntam-me onde podem encontrá-lo, boa razão para o tornar acessível aqui.

Pagar caro

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"Paguei caro". Num desabafo ou resmungando, as mais das vezes em pensamento, quando se deitam contas às peripécias da vida  é frase que nos sai em forma de autocomiseração ou arrependimento da tolice feita, de estupidamente termos comido o queijo sem atentar na ratoeira.
Lá vem então o "paguei caro", prometemo-nos cautela, mas é quase infalível que na próxima voltaremos a cair no engodo.
Entre os meus vários maus hábitos destaca-se uma certa falta de cuidado para com as pessoas, impaciência nos subentendidos do trato social, uma incapacidade de usar os rodeios e fraseados que escondem quanto se tem o coração perto da boca.
Daí resulta sempre prejuízo ou paulada mais ou menos dolorosa, de que costumo fazer o balanço com o já citado "paguei caro".
Recentemente, estava a ponto de cair nessa choradeira, quando dei por mim a sorrir, ingénuo e feliz como o garoto que compreende o ovo de Colombo. Desculpe quem lê, mas não vou  adiantar.

 

quinta-feira, abril 16

Inveja

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Vi há dias um programa da televisão holandesa em que garotos geniais resolviam em segundos problemas que me deixavam transtornado, não só por incompreensão do assunto, mas pela celeridade com que, saltando de uma fase para a seguinte, eles chegavam ao resultado, enquanto que eu magicava ainda sobre a relação entre o facto de Beatriz fazer anos a 19 de Julho, a mãe viver no nr. 32 doutra rua e o namorado vir de Bruxelas aos sábados.
Desliguei, dizendo-me que aquilo não era para mim, mas de facto invejoso de não possuir um cérebro de igual calibre.
É fenómeno recorrente, essa inveja que me assalta cada vez que me dou conta de como as minhas possibilidades tantas vezes ficam aquém dos meus desejos. Assim, por exemplo, mau grado numa universidade ter passado mais de trinta anos a ensinar e a espiolhar as literaturas portuguesa e brasileira, de em oito décadas ter lido uma apreciável quantidade de livros e publicações, de ter à minha conta dúzia e pico de obras ditas literárias, continuo incapaz de numa entrevista, em simples conversa, ou num discurso, me exprimir "à escritor".
Ignoro em que fontes alguns bebem a inspiração, em que suculentos tratados buscam ideias e vocabulário, ou que divindade lhes oferta tão soberba inteligência, certo é que digerida a melancolia da minha ignorância me toma uma irreprimível inveja.
O jovem e talentoso colega, de quem é o período que segue, não se dará conta em que estado me deixou: metaforicamente estatelado, a cabeça a zunir, perguntando-me por que razão o Todo Poderoso a uns dá tanto e deixa outros à míngua.

«A libertação da arte em relação à obrigação de representar, ou de apresentar cabalmente o seu significante, é fundamental para adentrar um espaço mental, que não deixa de ser também uma dimensão da realidade, caracterizado por uma imprecisa questão para uma ainda mais imprecisa resposta. Chegar à questão é o desafio, obter alguma resposta é a absoluta improbabilidade.».


quarta-feira, abril 15

Secos e molhados

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É natural que num país de tagarelas, onde tanto se fala por falar, onde os políticos se especializam na versão parlamentar das melodias da gaita de foles, onde as charlas da televisão fazem concorrência aos soporíferos e a conversa de chacha é prato do dia, num país assim não se esperem polémicas. E de facto não as há, nunca as houve.
A polémica que merece esse nome é uma arte de saber e bom gosto, de elegância na exposição de raciocínios, exige fineza, graciosidade, ataques e contra-ataques céleres e refinados como os da esgrima do florete.
Será ocioso lembrar que, fora as qualidades acima e outras mais, a polémica pressupõe respeito.
Mistérios do cérebro, ocorre-me este destrambelhado devaneio depois de ter lido que, dentro das fronteiras, mas sobretudo fora delas, no Brasil, na Venezuela, na África do Sul e mais, no que somos realmente bons é no retalho, na mercearia, no comércio de secos e molhados.
É vergonha isso? Não. Antes honra. Vergonha é o querer parecer, o arroto de  postas de pescada, a ânsia de macaquear.


segunda-feira, abril 13

Então Angola

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Uma jovem que admiro pela inteligência, a sensibilidade­ e a elegância da sua escrita, conta que anda a ler o Diário de Miguel Torga, entusiasmando-se de tal  maneira que se sente enamorar do transmontano.
Eu, que há muito deixei a idade das paixões, recordo na minha juventude ter lido alguns volumes do Diário, reli Vindima tempos atrás e, ao acaso, um ou outro poema.
Entre muitos mais, a passagem dos anos tem o desagradável resultado da diminuição de entusiasmo, e embora me alegre o apreço da minha amiga por Torga, não me vejo a reler a sua obra, se bem que, como aqui, aqui e aqui, me tenha valido dele.
De momento faço outras leituras. Terminei ontem Nothing is True and Everything is Possible, de Peter Pomerantsev.
Filho de emigrantes russos, nasceu na Grã-Bretanha, nos últimos dez anos trabalhou em Moscovo, fazendo documentários para várias emissoras da televisão russa. A sua escrita não prima pela elegância nem pela clareza, arrasta-se, dá a impressão de ter sido feita sobre o joelho, mas pouco importa. É  alucinante o retrato que nos dá da Rússia, dos russos, dos meandros da política, da extraordinária corrupção, dos super-bilionários que praticamente tomaram conta de Londres, das esposas e amantes dos ditos, calçadas de sapatos de 100.000 euros o par, dos especialistas em "protecção", das muitas formas como os inocentes vão anos ou a vida inteira para a cadeia.
É um retrato que desorienta e até certo ponto assusta, pois acabada a leitura dei por mim a pensar que se na Rússia a corrupção e a ausência de direitos são assim, se de facto impera nela a lei do mais forte, do mais rico, do mais bruto, talvez Angola, a Nigéria, o Zimbabwe não sejam tão maus como se julga.