segunda-feira, setembro 22

"Revolución!"

“Mais uma carta de Albert, a quinta desde que partiu para o Chaco, datada de Las Lomitas. Páginas densas de letra miúda, que guardo para ler mais tarde, de repente perturbado pelas recordações, tudo vivo como se estivesse a acontecer.

Las Lomitas. O barraco que servia de estação. Dum lado e doutro os carris, perdendo-se no longe da planura. Duas filas de cabanas. A rua enlameada. O cheiro pungente e adocicado de cadáveres de soldados apodrecendo ao sol, inchados, roídos dos cães. Gran Chaco. Outra vez a guerra. O choro lancinante das mulheres. A minha meninice.

Albert partira em busca de um sonho impossível, desfeito, inútil. Mas cada uma das suas cartas anunciava amanhãs esperançosos. Em breve teria “um encontro definitivo,” estava a ponto de descobrir “elementos determinantes,” ou garantia a realidade de “preciosos contactos pessoais.” Com quem, para quê, eram detalhes que não tocava, receando talvez que mais uma palavra desfizesse a miragem. Era o seu sonho. Para que havia eu de acordá-lo?

Fizera-se fotografar ao sair de Horqueta. Escarranchado numa mula, poncho enrolado, chapéu gaúcho, cinturão, bornal a tiracolo, alpergatas. O retrato da ingenuidade.

Albert, o missionário sem igreja, para quem a revolução, qualquer revolução, só pode ser uma grande quermesse fraternal. Todos, homens e mulheres, crianças, anciãos, unidos todos no esforço vitorioso contra o inimigo. Um inimigo que, para Albert, é tão irreal e nevoento como as suas visões de revolta. Morto, não sangra. Desaparece sem apodrecer. Os exércitos triunfantes entram nas cidades cantando hinos, carregados de flores, a música atrás, o povo a acenar.”

(in A Sétima Onda)

domingo, setembro 21

O ministro e os retratos


(*) fotografias: de Volkskrant


Ronald Plasterk (1957) cientista de renome e, no governo holandês, actual ministro da Educação, Cultura e Ciências, é homem de variados talentos e curiosas facetas.

Assim se lhe augura vir a ser um dia primeiro-ministro, se acha graça a que, sendo de pequena estatura, use uns chapéus desproporcionados. Acenando sorridente, em mangas de camisa e copo de champanhe na mão, apreciou-se vê-lo, por solidariedade e contra a discriminação dos homossexuais, participar na Gay Parade realizada o mês passado nos canais de Amsterdam.

A mim causa especial simpatia pelo seu hábito de, fotógrafo talentoso, tirar o retrato a todos os que visitam o seu gabinete ministerial.

Ao ler a notícia pus-me a sonhar: imagine-se que, por um milagre da técnica, eu pudesse fotografar os visitantes deste blog! Tenho os retratos de alguns, mas são contribuições voluntárias.



Aviso!

Caro visitante,
Anda você em busca de coisas românticas e aventuras eróticas e veio parar aqui? O Google enganou-se, deve ser noutra porta.
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sábado, setembro 20

Vizinhos


São boa gente, os meus vizinhos. Boa, porque não me causam transtornos nem aborrecimentos, talvez também por serem poucos os que conheço. Nos trinta apartamentos do prédio há de tudo: um dermatologista, um mecânico, uma muito atraente call-girl romena, que ora vai de mota Guzzi ou Porsche Carrera, uma mãe solteira acupuncturista, um funcionário público, um engenheiro, um comerciante nigeriano, um rapper... Damo-nos os bons-dias, sorrimos, às vezes falamos do tempo, e vai cada à sua vida.

Detalhe aborrecido, esta gente que não poderia ser mais corrente no aspecto, nem mais cordata no modo, mostra uma estranha preferência por um certo tipo de cão. Passeiam eles no parque vizinho com pittbulls, dobberman pinschers, rottweilers, dogues argentinos, filas brasileiros, ridgebacks...

Eu, com um perdigueiro e um vira-lata do tamanho de um gato, mantenho boa distância, e se os vejo vir direitos a mim, aceno um adeusinho e caminho na direcção oposta.

Quis o acaso que ontem, ao passar por um museu de fotografia no centro da cidade, o FOAM, o cartaz da exposição me levasse a entrar. Eram trabalhos de Piet Hugo (1975) fotógrafo sul-africano que desconhecia.

Não gostei nem desgostei, mas uma fotografia chamou-me a atenção. Imagine-se que um dia destes, cansado dos dogues, um vizinho se lembra de que uma hiena sempre tem outro chique.

http://www.pieterhugo.com/nigeria/index.html