Um diário pressupõe que nele se anotem as peripécias do dia-a-dia. Mas como, se a maioria dos meus dias é de rotina que peripécia nenhuma perturba? Escrever sobre os melros e os corvos, que no parque fronteiro são praga? Divagar sobre as garças, imóveis na borda do canal, à espera do peixe que demora a vir? Especular com dissabor sobre as ilusões perdidas?
Provavelmente terei de aceitar que sou impenitente no hábito de esbanjar tempo. Vivendo e raciocinando em círculos. Obrigado a reconhecer que, sem conserto, aguardo que aconteça amanhã o que não se deu hoje. Que continuo à espera que me cheguem de fora os estímulos que no meu íntimo faltam.
É penoso dizê-lo, mas verdadeiro, que há momentos em que a névoa do espírito se me torna tão densa que me vejo a desejar um drama, um desastre, pouco importa que sacudidela brusca. Algo que me agite ou transforme, como acontece aos que têm visões e se convertem a uma religião, a uma política, aos que num assomo se desfazem de bens e laços e vão bater à porta dos conventos, ou se metem a caminho da Patagónia.
Fascinado pelo seu mistério, sempre tenho tentado esmerar-me no uso da linguagem escrita. Eufonia, ritmo, diversidade do vocabulário, em cada frase procuro conseguir uma harmonia que infelizmente (ou felizmente?) não se estuda em manuais, não tem regras fixas, e em boa parte depende do estado de espírito.
De modo que uma frase com rimas, que num momento me perturbam e penso em riscar, é muito capaz de no momento seguinte me parecer conseguida e até original.
Hesitando, medindo, repetindo, umas vezes a tirar, outras vezes a repor, assim vou compondo com lentidões de caracol. No intuito de dar o melhor de mim próprio e, na medida do possível, contribuir para manter as qualidades e a beleza da língua-mãe, a qual, por razões que nem sempre entendo, continua a ser a âncora a que me agarro no Mar de Sargaços do meu espírito.
sexta-feira, julho 27
sábado, julho 21
O poeta
Ao longo dos anos que nos conhecemos, uns quarenta, vi-o transformar-se de bardo gentil, apaixonado, sequioso de emoções, num dispéptico chavão da arte, cuidadoso no polir da sua imagem.
Preocupação avassaladora: marcar presença em manifestações e festividades. Júri de concurso de poesia sem ele é impensável. Júri em que não participe põe-o de cama. Já o vi na televisão em júris de misses, em programas de canções folclóricas, de culinária, a explicar os imbróglios dos Balcãs e o progresso económico da China.
No dia-a-dia é burocrata. Pessoalmente, um torturado. Na juventude, por razões que se compreendem, escondia a sua homossexualidade. Mas mais tarde, quando pôde assumi-la, continuou encoberto, o amante que tem há dezenas de anos obrigado a viver noutra casa, proibido de o acompanhar a cerimónias. Isso mau grado o “grande amor” cantado em odes e sonetos.
Faz tempo foi informado de que por altura dos festejos do lançamento da edição integral dos seus poemas, seria interessante, valioso, publicar também a sua correspondência amorosa.
Fora o destinatário ninguém a tinha lido, mas dado o modo como esse se lhe referia, e uma ou outra citação do “Mestre”, corria à boca pequena de que era obra-prima da epistolografia erótica.
Todavia, ou arrependido dos seus arrebatamentos, ou porque temeu pela qualidade da prosa, uma tarde foi em segredo à casa do amante, roubou-lhe as cartas, e lançou-as ao lume.
Dias atrás vi a sua fotografia no jornal. Escaveirado. Envelhecido. A calva circundada por guedelhas esfiapadas a cair-lhe sobre os ombros. O olhar febril do egocêntrico sempre esfomeado de atenção.
Preocupação avassaladora: marcar presença em manifestações e festividades. Júri de concurso de poesia sem ele é impensável. Júri em que não participe põe-o de cama. Já o vi na televisão em júris de misses, em programas de canções folclóricas, de culinária, a explicar os imbróglios dos Balcãs e o progresso económico da China.
No dia-a-dia é burocrata. Pessoalmente, um torturado. Na juventude, por razões que se compreendem, escondia a sua homossexualidade. Mas mais tarde, quando pôde assumi-la, continuou encoberto, o amante que tem há dezenas de anos obrigado a viver noutra casa, proibido de o acompanhar a cerimónias. Isso mau grado o “grande amor” cantado em odes e sonetos.
Faz tempo foi informado de que por altura dos festejos do lançamento da edição integral dos seus poemas, seria interessante, valioso, publicar também a sua correspondência amorosa.
Fora o destinatário ninguém a tinha lido, mas dado o modo como esse se lhe referia, e uma ou outra citação do “Mestre”, corria à boca pequena de que era obra-prima da epistolografia erótica.
Todavia, ou arrependido dos seus arrebatamentos, ou porque temeu pela qualidade da prosa, uma tarde foi em segredo à casa do amante, roubou-lhe as cartas, e lançou-as ao lume.
Dias atrás vi a sua fotografia no jornal. Escaveirado. Envelhecido. A calva circundada por guedelhas esfiapadas a cair-lhe sobre os ombros. O olhar febril do egocêntrico sempre esfomeado de atenção.
terça-feira, julho 17
Fingimento
Dez ou onze anos atrás aceitei escrever a introdução a um catálogo que incluía os trabalhos de quase uma vintena de fotógrafos. Lembro-me de ter visto as fotografias antes de serem expostas, e que algumas me agradaram, outras achei-as medíocres, mas ao fim e ao cabo nada daquilo era brilhante ou revolucionário.
A exposição destinava-se sobretudo a encorajar o talento dos jovens que nela participavam, e uma exposição que se preza exige catálogo.
Dentro desse contexto escrevi então umas quantas páginas simpáticas, mas com um certo acanhamento, pois os louvores que nelas dava não me tinham vindo do coração, só da cabeça, e com o correr do tempo esqueci-os, talvez porque me envergonhava deles.
Entretanto um desses jovens faleceu, e a família, querendo homenagear a sua memória, preparou uma pequena brochura com reproduções de alguns dos seus trabalhos. Recebi-a hoje e nela, surpreso, encontro as palavras que então escrevi. Palavras que não foram sentidas nem sinceras, e agora me apanham de ricochete, como se o defunto se vingasse do meu fingimento.
A exposição destinava-se sobretudo a encorajar o talento dos jovens que nela participavam, e uma exposição que se preza exige catálogo.
Dentro desse contexto escrevi então umas quantas páginas simpáticas, mas com um certo acanhamento, pois os louvores que nelas dava não me tinham vindo do coração, só da cabeça, e com o correr do tempo esqueci-os, talvez porque me envergonhava deles.
Entretanto um desses jovens faleceu, e a família, querendo homenagear a sua memória, preparou uma pequena brochura com reproduções de alguns dos seus trabalhos. Recebi-a hoje e nela, surpreso, encontro as palavras que então escrevi. Palavras que não foram sentidas nem sinceras, e agora me apanham de ricochete, como se o defunto se vingasse do meu fingimento.
terça-feira, julho 10
Sugestão
Se por acaso às vezes se interroga sobre as razões de ser como é, de proceder como procede, e sente por isso ligeiros remorsos, dê-se esta excelente desculpa: “Better be a fake somebody, than a real nobody.”
Dúvidas
O senhor, um holandês que não conheci, veraneava sozinho no Algarve, teve um enfarte fatal, a família trouxe-o para a terra onde nasceu, e no enterro tocaram uns fados de Amália Rodrigues, favoritos do falecido.
Por razões que não me explicaram, a viúva quer saber o significado das palavras que Amália canta e, por intermédio de alguém que sempre me convence a fazer o que me desagrada, meto-me à tradução.
Pergunto-me, contudo, que dúvidas irão assaltar a senhora quando ler frases como estas: “Na espuma dos dias tu eras a luz do sol”, “O calor dos teus beijos na franja da minha vida”, “Abri-me desfalecida contra ti, sugada pelo desejo.”
Por razões que não me explicaram, a viúva quer saber o significado das palavras que Amália canta e, por intermédio de alguém que sempre me convence a fazer o que me desagrada, meto-me à tradução.
Pergunto-me, contudo, que dúvidas irão assaltar a senhora quando ler frases como estas: “Na espuma dos dias tu eras a luz do sol”, “O calor dos teus beijos na franja da minha vida”, “Abri-me desfalecida contra ti, sugada pelo desejo.”
sábado, julho 7
Questionário
O questionário vem duma revista literária e compõe-se de perguntas assim: Donde lhe vem a inspiração? Quais os temas que prefere tratar? Como escreve? Tem um lugar preferido para escrever?...
A minha pobre cabeça mói e remói ideias que não valem um chavo, para finalmente, exausta, pegar numa sem saber se é a pior ou a melhor. Será isso inspiração? Não me parece. Para os temas a mesma coisa. Como escrevo? Com um computador. Lugar preferido? Não. Devido ao acanhado espaço o computador está num canto, e é aí que tenho de me sentar.
Que esperam de mim? Manias? Comportamentos bizarros? Fetichismo?
Tudo o que se relaciona com a minha escrita é prosaico, trabalho de artífice, não conhece romantismo nem elevação. Por conseguinte, e para não desiludir ninguém, é melhor não preencher.
A minha pobre cabeça mói e remói ideias que não valem um chavo, para finalmente, exausta, pegar numa sem saber se é a pior ou a melhor. Será isso inspiração? Não me parece. Para os temas a mesma coisa. Como escrevo? Com um computador. Lugar preferido? Não. Devido ao acanhado espaço o computador está num canto, e é aí que tenho de me sentar.
Que esperam de mim? Manias? Comportamentos bizarros? Fetichismo?
Tudo o que se relaciona com a minha escrita é prosaico, trabalho de artífice, não conhece romantismo nem elevação. Por conseguinte, e para não desiludir ninguém, é melhor não preencher.
domingo, junho 24
Amsterdam
Surpreende-me sempre o feitiço que a palavra Amsterdam exerce em certas pessoas. Vivendo elas longe e sabendo-me aqui, algumas como que endoidecem a imaginar as festas a que irei, a gente interessante que devo conhecer, os acontecimentos em que tomo parte, os museus, os concertos, os teatros, os cafés...
Se vêm de visita e partilham uns dias a minha realidade, recusam acreditar que eu de facto viva entre as quatro paredes do meu quarto de trabalho. Sorriem, desconfiados, achando que deve ser pose. E nem a minha idade levam em conta. Assim que voltarem as costas eu de certeza recomeço a ir às festas, aos cafés...
Se vêm de visita e partilham uns dias a minha realidade, recusam acreditar que eu de facto viva entre as quatro paredes do meu quarto de trabalho. Sorriem, desconfiados, achando que deve ser pose. E nem a minha idade levam em conta. Assim que voltarem as costas eu de certeza recomeço a ir às festas, aos cafés...
sexta-feira, junho 22
Ernestina
Mandou o Destino que, poucos dias passados, eu regressasse ao lugar donde partira.
Ernestina (1912-2007) faleceu ontem, enterra-se hoje.
Mãe de um só filho, a sua vida, que foi uma de tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muitos e fortes os laços que a ela me prendem.
Ernestina (1912-2007) faleceu ontem, enterra-se hoje.
Mãe de um só filho, a sua vida, que foi uma de tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muitos e fortes os laços que a ela me prendem.
quarta-feira, junho 20
Solidariedade
No primeiro dia de escola, em meados de Outubro de 1939, a professora rezou connosco em voz alta um padre-nosso, e depois teve-nos ali perfilados e quietos, num minuto de silêncio “pela gente que sofria com a guerra.”
Nem ingleses, nem franceses, alemães, judeus, polacos ou russos. Simplesmente, como com gravidade disse, pela gente que sofria. E eu poucas vezes voltei a sentir um calor de solidariedade que se comparasse ao que conheci nesse momento dos meus nove anos.
Nem ingleses, nem franceses, alemães, judeus, polacos ou russos. Simplesmente, como com gravidade disse, pela gente que sofria. E eu poucas vezes voltei a sentir um calor de solidariedade que se comparasse ao que conheci nesse momento dos meus nove anos.
terça-feira, junho 19
quinta-feira, junho 14
Intervalo
A loja fecha cerca de uma semana, enquanto a barca levanta âncora e zarpa para as bandas do Mar do Norte.
segunda-feira, junho 11
Andorinhas
Pareceu-me daquelas histórias que se contam ao almoço e, fazendo rir, ajudam a boa disposição. Mas demasiado absurda para ser verdade. Razão porque ontem, para confirmar, voltei à casa do Manuel Barroco.
Escultor de talento, homem de gosto, bon-vivant, narrador capaz, sério quando é preciso, o meu amigo explora em Quintas das Quebradas , aqui ao pé, um excelente “Turismo Rural”.
Hospeda lá as gentes mais variadas, boa percentagem dela citadinos em busca de ar puro e desejosos de, com os próprios olhos, verificar se os transmontanos ainda vestem burel.
O casalinho, à volta dos trinta, logo na primeira manhã apareceu equipado como manda a moda quando se vai em expedição: botas de monte, calções, mochila, binóculo, Ixus, cantil, etc…
O Manuel encontrou-os junto da piscina, prontos para a marcha, e deu-lhes cortesmente os bons-dias, acrescentando qualquer coisa sobre o azul do céu e a promessa de muito calor.
As andorinhas desciam em voo rasante a beber ou a apanhar os insectos que boiavam na água, e foi aí que a jovem, sorrindo como quem se desculpa da curiosidade, disparou a extraordinária pergunta:
- Estes pássaros são seus?
O Manuel hesitou meio segundo, imaginando gracejo, mas a jovem “lesvoeta” queria realmente saber, e ele concedeu:
- São, são! Tenho-os numa gaiola atrás do muro.
-----------------
Para que conste: www.casadasquintas.com . O copyright de “lesvoeta” é do Luís Alves, que também dá por Luís de Boticas.
Escultor de talento, homem de gosto, bon-vivant, narrador capaz, sério quando é preciso, o meu amigo explora em Quintas das Quebradas , aqui ao pé, um excelente “Turismo Rural”.
Hospeda lá as gentes mais variadas, boa percentagem dela citadinos em busca de ar puro e desejosos de, com os próprios olhos, verificar se os transmontanos ainda vestem burel.
O casalinho, à volta dos trinta, logo na primeira manhã apareceu equipado como manda a moda quando se vai em expedição: botas de monte, calções, mochila, binóculo, Ixus, cantil, etc…
O Manuel encontrou-os junto da piscina, prontos para a marcha, e deu-lhes cortesmente os bons-dias, acrescentando qualquer coisa sobre o azul do céu e a promessa de muito calor.
As andorinhas desciam em voo rasante a beber ou a apanhar os insectos que boiavam na água, e foi aí que a jovem, sorrindo como quem se desculpa da curiosidade, disparou a extraordinária pergunta:
- Estes pássaros são seus?
O Manuel hesitou meio segundo, imaginando gracejo, mas a jovem “lesvoeta” queria realmente saber, e ele concedeu:
- São, são! Tenho-os numa gaiola atrás do muro.
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Para que conste: www.casadasquintas.com . O copyright de “lesvoeta” é do Luís Alves, que também dá por Luís de Boticas.
sábado, junho 2
O Além?
A manhã está linda, soalheira, mas de pouco adianta, nem é isso que trava o meu desordenado pensar.
Pressa de morrer não tenho, e tanto quanto julgo conhecer-me é-me alheia a tendência para o suicídio, mas uma vez por outra dá-me um certo frémito de curiosidade de, se porventura nele algo existe, saber como será o Além.
Em paraísos de huris libidinosas ou anjos a tocar harpa nunca consegui acreditar. Tãopouco nos infernos onde o Diabo se entretêm a grelhar os infiéis. Mas teremos uma consciência depois da morte? Uma forma? Será que o esforço que fazemos para aprender, para melhorar, conhecer, criar, construir, progredir, nada é, nada importa, e desaparecerá connosco num infinito vazio?
Pressa de morrer não tenho, e tanto quanto julgo conhecer-me é-me alheia a tendência para o suicídio, mas uma vez por outra dá-me um certo frémito de curiosidade de, se porventura nele algo existe, saber como será o Além.
Em paraísos de huris libidinosas ou anjos a tocar harpa nunca consegui acreditar. Tãopouco nos infernos onde o Diabo se entretêm a grelhar os infiéis. Mas teremos uma consciência depois da morte? Uma forma? Será que o esforço que fazemos para aprender, para melhorar, conhecer, criar, construir, progredir, nada é, nada importa, e desaparecerá connosco num infinito vazio?
sexta-feira, maio 25
Escapismo
Por natureza sempre sofri mal que me dessem ordens, e inata é também a minha aversão pelo mandar. De modo que o ter-me feito escritor talvez não seja, como por vezes julgo, destino ou vocação, mas uma forma de escapismo, o resultado de não me saber adaptar à sociedade, onde só funcionam realmente a contento os que sabem mandar e os que gostam de obedecer.
quinta-feira, maio 24
Linhas trocadas
É uma suposição. Embora com capacidades primitivas, nós humanos funcionamos talvez como receptores de sinais, ideias e pensamentos cujos resíduos, à falta de melhor equipamento, processamos através do sonho e da fantasia.
Imaginemos agora que esses sinais, provenientes dum ou doutro remoto planeta, sofrem por vezes de trocas de linha (de onda?) e são recebidos pelo destinatário errado.
Não se poderia explicar assim o destrambelhamento que, sem razão visível às vezes sentimos, tornando-nos por instantes estranhos a nós próprios?
Imaginemos agora que esses sinais, provenientes dum ou doutro remoto planeta, sofrem por vezes de trocas de linha (de onda?) e são recebidos pelo destinatário errado.
Não se poderia explicar assim o destrambelhamento que, sem razão visível às vezes sentimos, tornando-nos por instantes estranhos a nós próprios?
segunda-feira, maio 14
Girls Gone Wild
Uma coisa é ter ouvido falar, bem diferente é o impacto do dvd que mão amiga manda da longínqua Boston (Obrigado, Kathleen) com gravações de Girls Gone Wild, o programa em que jovens e menos jovens americanas descobrem os benefícios libertadores que a pornografia oferece, sobretudo quando se toma nela parte activa, e sobretudo pública. Mulher verdadeiramente emancipada não conhece fronteiras nem o faz por menos.
Um inesperado aspecto decorrente desse fenómeno, é o das jovens modernas que, supondo que talvez isso também signifique emancipação, se sentem próximo das clássicas atitudes de superioridade masculina (if you can’t beat them, join them), reservando para as suas congéneres um desdém rabioso de que qualquer homem decente se envergonharia.
A quem o assunto interessar, será proveitosa a leitura de Female Chauvinist Pigs, de Ariel Levy.
Um inesperado aspecto decorrente desse fenómeno, é o das jovens modernas que, supondo que talvez isso também signifique emancipação, se sentem próximo das clássicas atitudes de superioridade masculina (if you can’t beat them, join them), reservando para as suas congéneres um desdém rabioso de que qualquer homem decente se envergonharia.
A quem o assunto interessar, será proveitosa a leitura de Female Chauvinist Pigs, de Ariel Levy.
quinta-feira, maio 10
Frustração
É possível que os publicitários exagerem a eficiência das comunicações móveis. Também é de esperar que, voando sobre o deserto transmontano, os satélites poupem energia e não funcionem a cem porcento.
O certo é que vejo comentários a este blog fulgurar num instante e a desaparecer no seguinte, mails que chegam com inexplicável atraso, outros que somem…
Fosse o regime de monarquia, certamente me queixaria ao soberano. Mas que fazer, se somos todos a mandar?
O certo é que vejo comentários a este blog fulgurar num instante e a desaparecer no seguinte, mails que chegam com inexplicável atraso, outros que somem…
Fosse o regime de monarquia, certamente me queixaria ao soberano. Mas que fazer, se somos todos a mandar?
quarta-feira, maio 2
Desânimos
Nos muitos momentos de desânimo pergunto-me o que adianta recordar, pôr em escrito as coisinhas miúdas que enchem os meus dias. Contudo, é nalgumas dessas miudezas que, mais tarde, descubro uma espécie de conforto. Ou talvez seja antes a resignação de aceitar o que sou, e não lastimar o que não cheguei a ser.
Devido talvez a algum defeito genético, ou às circunstâncias em que vivo - agarrado à língua materna, obrigado a usar outras no dia-a-dia - o meu cérebro funciona como uma desgarrada máquina de traduzir. Tudo o que me preparo para dizer tradu-lo ele automaticamente para Português, o que, além de cansativo, causa por vezes hiatos na conversa, e de certeza dá aos meus interlocutores a impressão de que sofro de afasia.
Devido talvez a algum defeito genético, ou às circunstâncias em que vivo - agarrado à língua materna, obrigado a usar outras no dia-a-dia - o meu cérebro funciona como uma desgarrada máquina de traduzir. Tudo o que me preparo para dizer tradu-lo ele automaticamente para Português, o que, além de cansativo, causa por vezes hiatos na conversa, e de certeza dá aos meus interlocutores a impressão de que sofro de afasia.
quarta-feira, abril 18
Memórias
Tem dez anos menos do que eu, mas sempre me pareceu precocemente velho. Desde que se reformou, cresceram nele as características do ancião: caminha curvado, fala com vagar, cultiva uma surdez imaginária, oferece bons conselhos, gosta que se faça apelo à sua “vasta experiência.”
Sem que lho pergunte, informa-me que começou a escrever as suas memórias, tendo chegado à página cento e doze. Não diz mais e encara-me, mas o comentário que ele aguarda não me ocorre.
Curiosidade pelo seu opus também não tenho, e por isso ficamos num silêncio desagradável que ele finalmente quebra, dizendo que parou por se sentir insatisfeito com o que fez. Em sua opinião um livro de memórias não deve ser apenas a listagem cronológica de recordações e acontecimentos, mas possuir sobretudo um fio condutor. O que é que acho?
Sem convicção, só para evitar que o diálogo caia no que lhe agrada e a mim aborrece, “o tom literário,” respondo-lhe que sim, que também acho. Mais tarde, recordando a conversa, digo-me que na vida, e nas memórias que sobre ela se escrevem, os fios condutores são ilusão. O caos, esse sim, é real e palpável.
Sem que lho pergunte, informa-me que começou a escrever as suas memórias, tendo chegado à página cento e doze. Não diz mais e encara-me, mas o comentário que ele aguarda não me ocorre.
Curiosidade pelo seu opus também não tenho, e por isso ficamos num silêncio desagradável que ele finalmente quebra, dizendo que parou por se sentir insatisfeito com o que fez. Em sua opinião um livro de memórias não deve ser apenas a listagem cronológica de recordações e acontecimentos, mas possuir sobretudo um fio condutor. O que é que acho?
Sem convicção, só para evitar que o diálogo caia no que lhe agrada e a mim aborrece, “o tom literário,” respondo-lhe que sim, que também acho. Mais tarde, recordando a conversa, digo-me que na vida, e nas memórias que sobre ela se escrevem, os fios condutores são ilusão. O caos, esse sim, é real e palpável.
domingo, abril 8
Basófias
Afirmar que nas últimas décadas o mundo encolheu, é lugar-comum. Voa-se para os antípodas em menos dum dia, a televisão transmite de toda a parte em tempo real, o telemóvel como que nos tornou a todos vizinhos.
Pessoalmente acho que a nós, humanidade, nos abona pouco o avançar com tanta rapidez na tecnologia, e deixar para trás o desenvolvimento das ideias e da sociedade, condenando a maioria a viver em situações que já em séculos longínquos eram degradantes.
Constatar isto também é lugar-comum, e de nada adianta sonhar ideais num tempo que, dito moderno, progressista, a lei ainda não é ditada pelo mais justo, mas pelo mais forte.
Estas considerações vêm-me em aparte, um desvio do raciocínio, pois o meu intento era anotar a preocupação que me causam as fotografias que mostram a Terra no espaço. Ou as dos satélites metereológicos.
Olho-as e tenho de acreditar. Naquele grão de poeira (não param os lugares-comuns), que Eça definiu como “uma bola a rebolar nos céus com basófias de astro” - vivemos, sofremos, inventamos religiões e teorias da existência, esquecidos da nossa infinita pequenez.
Pessoalmente acho que a nós, humanidade, nos abona pouco o avançar com tanta rapidez na tecnologia, e deixar para trás o desenvolvimento das ideias e da sociedade, condenando a maioria a viver em situações que já em séculos longínquos eram degradantes.
Constatar isto também é lugar-comum, e de nada adianta sonhar ideais num tempo que, dito moderno, progressista, a lei ainda não é ditada pelo mais justo, mas pelo mais forte.
Estas considerações vêm-me em aparte, um desvio do raciocínio, pois o meu intento era anotar a preocupação que me causam as fotografias que mostram a Terra no espaço. Ou as dos satélites metereológicos.
Olho-as e tenho de acreditar. Naquele grão de poeira (não param os lugares-comuns), que Eça definiu como “uma bola a rebolar nos céus com basófias de astro” - vivemos, sofremos, inventamos religiões e teorias da existência, esquecidos da nossa infinita pequenez.
segunda-feira, abril 2
N' "O Artur"
Ontem, domingo, hora do almoço n’“O Artur”, em Carviçais.
Uma mulher e três homens, gente de meia idade, dão nas vistas pela gosto com que comem e o muito que riem.
Terminaram. Levantam-se. Ligeiramente toldados, mas na mesma boa disposição, esperam comigo junto da caixa que Artur júnior faça a conta.
Como se aquilo lhe ocorresse de súbito, um deles pergunta:
- Oiça lá! Você é que é o Artur?
- Sou - responde o interpelado.
- É? Tinham-me dito que era mais velho!
- Deve ser o meu pai.
- Mas quem é o Artur? É ele ou é você?
- Ambos. Temos o mesmo nome.
- Espere aí! Então ele é Artur, você é Artur, e o restaurante também é Artur?
- De facto.
- Ai que caralho! Não sabia! Nunca cá tínhamos vindo! Andamos por toda a parte, mas p’ra aqui nunca tinha calhado. Sabe quem nos disse p’ra vir? Foi aquele sujeito gordo de São João da Madeira. Conhece? Um que vem cá muitas vezes com o outro, que é magro. O que deixou a mulher. Andam sempre juntos! Não se lembra? O que antes tinha a bomba da gasolina! Veja lá se se lembra!
Uma mulher e três homens, gente de meia idade, dão nas vistas pela gosto com que comem e o muito que riem.
Terminaram. Levantam-se. Ligeiramente toldados, mas na mesma boa disposição, esperam comigo junto da caixa que Artur júnior faça a conta.
Como se aquilo lhe ocorresse de súbito, um deles pergunta:
- Oiça lá! Você é que é o Artur?
- Sou - responde o interpelado.
- É? Tinham-me dito que era mais velho!
- Deve ser o meu pai.
- Mas quem é o Artur? É ele ou é você?
- Ambos. Temos o mesmo nome.
- Espere aí! Então ele é Artur, você é Artur, e o restaurante também é Artur?
- De facto.
- Ai que caralho! Não sabia! Nunca cá tínhamos vindo! Andamos por toda a parte, mas p’ra aqui nunca tinha calhado. Sabe quem nos disse p’ra vir? Foi aquele sujeito gordo de São João da Madeira. Conhece? Um que vem cá muitas vezes com o outro, que é magro. O que deixou a mulher. Andam sempre juntos! Não se lembra? O que antes tinha a bomba da gasolina! Veja lá se se lembra!
domingo, abril 1
sms
O seu sorriso é contagioso e, meio envergonhado, diz que não tem idade para sentimentos assim, mas não resiste e conta.
Não se conheciam. Tinham combinado encontrar-se a meio da manhã em Mirandela. Almoçaram demoradamente na Estalagem do Caçador, em Macedo de Cavaleiros. Pararam depois num desvio da estrada e viram passar um rebanho, as ovelhas com uma lã cinzenta que para ambos era novidade.
Continua a sorrir, diz que no regresso a Mirandela, fazia frio, mas mesmo assim escolheram um banco na alameda junto do rio. E aí ficaram, não sabe quanto tempo.
Despediram-se. Cada um para seu lado. Mais tarde sentira o telemóvel vibrar.
Suspende a narrativa, mas o sorriso como que lhe ilumina a face quando agora liga o aparelho e me dá a mensagem a ler:
“Um dia inesquecível! Para recordar a vida inteira. Eu já cheguei. Beijinhos.”
Quer que eu comente. Ignoro os detalhes, mas digo-lhe que sim, deve ter sido lindo.
Não se conheciam. Tinham combinado encontrar-se a meio da manhã em Mirandela. Almoçaram demoradamente na Estalagem do Caçador, em Macedo de Cavaleiros. Pararam depois num desvio da estrada e viram passar um rebanho, as ovelhas com uma lã cinzenta que para ambos era novidade.
Continua a sorrir, diz que no regresso a Mirandela, fazia frio, mas mesmo assim escolheram um banco na alameda junto do rio. E aí ficaram, não sabe quanto tempo.
Despediram-se. Cada um para seu lado. Mais tarde sentira o telemóvel vibrar.
Suspende a narrativa, mas o sorriso como que lhe ilumina a face quando agora liga o aparelho e me dá a mensagem a ler:
“Um dia inesquecível! Para recordar a vida inteira. Eu já cheguei. Beijinhos.”
Quer que eu comente. Ignoro os detalhes, mas digo-lhe que sim, deve ter sido lindo.
Navegação
A partir de hoje e quando o vento for de feição, durante os próximos três meses a barca retoma o navegar, agora num dos seus trajectos favoritos: entre Miranda e a Foz do Douro.
sexta-feira, março 23
Pausa
O timoneiro viaja amanhã para a terra onde nasceu, pelo que durante coisa de uma semana esta barca suspenderá a navegação.
Partida
Vou amanhã para Portugal. Desde há alguns anos a véspera de cada viagem para lá, ou de volta, tornou-se involuntariamente num momento de melancólica reflexão sobre a minha pertença a dois países, a duas línguas, a duas sensibilidades, a duas tão diferentes maneiras de existir, agir e pensar.
Umas vezes digo-me que enriqueci o espírito, noutras tenho a impressão de que me amputei. Ora me regozijo com as vantagens deste duplo pertencer, ora me amarfanha a certeza de que em parte nenhuma pertenço por inteiro. Tenho consciência de que constantemente ganho e perco, mas sem que o ganho traga satisfação ou a perda se mostre irremediável.
Talvez por isso só na língua materna encontro a estabilidade que no resto me falta. E parafraseando Pessoa - “A minha pátria é a língua portuguesa” - de verdade ela para mim não é apenas idioma, modo de expressão, mas como que um lugar, por vezes mesmo um refúgio.
Umas vezes digo-me que enriqueci o espírito, noutras tenho a impressão de que me amputei. Ora me regozijo com as vantagens deste duplo pertencer, ora me amarfanha a certeza de que em parte nenhuma pertenço por inteiro. Tenho consciência de que constantemente ganho e perco, mas sem que o ganho traga satisfação ou a perda se mostre irremediável.
Talvez por isso só na língua materna encontro a estabilidade que no resto me falta. E parafraseando Pessoa - “A minha pátria é a língua portuguesa” - de verdade ela para mim não é apenas idioma, modo de expressão, mas como que um lugar, por vezes mesmo um refúgio.
quarta-feira, março 21
Mesmo sem lhe mencionar o nome, falar dele aqui causa-me desconforto. Porque é homem bom, atencioso, prestável. Defeitos com certeza terá, mas no trato só se lhe descobre o de comer em quantidades pantagruélicas.
O que agora lhe aponto mal se pode chamar defeito, é antes o desvio de uma qualidade, o desejo que tem de pôr os outros ao corrente daquilo que o interessa.
Antigamente fazia-o por carta. Uma ou duas vezes por mês, lá vinham os extensos relatos acompanhados de citações e recortes de jornais. Mas desde que descobriu o correio electrónico, a sua sede de comunicar passou de bimensal a diária. Tudo o que lhe agrada, comove, assusta ou preocupa, comunica-o ele de imediato, juntando em anexo artigos e fotografias, em quantidade tal que o computador leva eternidades a receber os megabytes.
É também estonteante, porque o seu interesse abrange desde as profecias de Nostradamus à crueldade contra os bichos, da independência de Timor à dosagem da vitamina C, da certeza que o mundo acabará em 2017 aos monges voadores do Tibet. E mais, cansativamente mais.
Depois, ou porque quer assim, a mostrar o vasto círculo dos seus corresponentes, ou porque desconhece como eliminá-la, as suas mensagens terminam com a lista de todos endereços para onde as envia.
No tempo em que usava a máquina de escrever, a fotocópia e o correio, suponho que as não mandasse a mais de dois ou três. Mas o computador abriu-lhe perspectivas inesperadas. Recebido a noite passada, o seu último e-mail, alargando-se em considerações sobre a pena de morte, a economia do Irak, os livros de Paulo Coelho, os malefícios da utilização de navios-fábricas na pesca oceânica, a eficácia da Coca-Cola no tratamento da diarréia, o escuro site de Dolce & Gabbana (http://www.dolcegabbana.it/ ), conta nada menos de sessenta e um destinatários. Entre eles o presidente Putin (president@kremlin.ru) e um espiritosanto@angola.com.
O que agora lhe aponto mal se pode chamar defeito, é antes o desvio de uma qualidade, o desejo que tem de pôr os outros ao corrente daquilo que o interessa.
Antigamente fazia-o por carta. Uma ou duas vezes por mês, lá vinham os extensos relatos acompanhados de citações e recortes de jornais. Mas desde que descobriu o correio electrónico, a sua sede de comunicar passou de bimensal a diária. Tudo o que lhe agrada, comove, assusta ou preocupa, comunica-o ele de imediato, juntando em anexo artigos e fotografias, em quantidade tal que o computador leva eternidades a receber os megabytes.
É também estonteante, porque o seu interesse abrange desde as profecias de Nostradamus à crueldade contra os bichos, da independência de Timor à dosagem da vitamina C, da certeza que o mundo acabará em 2017 aos monges voadores do Tibet. E mais, cansativamente mais.
Depois, ou porque quer assim, a mostrar o vasto círculo dos seus corresponentes, ou porque desconhece como eliminá-la, as suas mensagens terminam com a lista de todos endereços para onde as envia.
No tempo em que usava a máquina de escrever, a fotocópia e o correio, suponho que as não mandasse a mais de dois ou três. Mas o computador abriu-lhe perspectivas inesperadas. Recebido a noite passada, o seu último e-mail, alargando-se em considerações sobre a pena de morte, a economia do Irak, os livros de Paulo Coelho, os malefícios da utilização de navios-fábricas na pesca oceânica, a eficácia da Coca-Cola no tratamento da diarréia, o escuro site de Dolce & Gabbana (http://www.dolcegabbana.it/ ), conta nada menos de sessenta e um destinatários. Entre eles o presidente Putin (president@kremlin.ru) e um espiritosanto@angola.com.
domingo, março 18
Cântico dos Cânticos
Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão,
os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas.
Está no Cântico dos Cânticos (Cant 8,6). Talvez que no vasto mundo e neste momento da noite, em vez de estar a lê-las na Bíblia como eu, alguém sussurre estas palavras a quem ama.
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão,
os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas.
Está no Cântico dos Cânticos (Cant 8,6). Talvez que no vasto mundo e neste momento da noite, em vez de estar a lê-las na Bíblia como eu, alguém sussurre estas palavras a quem ama.
sexta-feira, março 16
Doutores
Para mudar de assunto ou pôr fim a um silêncio insólito, às vezes para despoletar uma situação incómoda, ocasiões há em que me vejo no papel de contador (quase) compulsivo de anedotas.
Na realidade considero as boas verdadeiros microcontos, razão porque deixo aqui duas das minhas favoritas. Com desculpas a quem já as conhece.
Deveria ser um velório como de costume, com prantos e soluços, olhares tristes, abraços de pesar, boas recordações do defunto.
A gente era muita, por isso mais inacreditável e doloroso se tornara o silêncio geral. De facto, pelo extremo das suas más qualidades, o passamento do sujeito tinha sido um alívio para todos os presentes.
O uso mandava, mas como elogiar o filho da puta? Até que finalmente alguém suspirou: - O irmão era muito pior.
O lavrador siciliano tinha comprado um horta. Preocupava-o o ter de registá-la, mas o notário acalmou-o: a acta era coisa simples.
No dia seguinte a papelada estava pronta.
- Assine aqui.
- Eu bem pensava... Vamos ter um problema, porque sou analfabeto.
- Problema nenhum. Faça nesta linha uma cruz, é a assinatura, o mesmo que o seu nome.
O lavrador risca duas cruzes. O notário irrita-se:
- Homem! Era só uma cruz! O nome.
- Bem ouvi, mas uma é o meu nome, a outra é Dottore.
Na realidade considero as boas verdadeiros microcontos, razão porque deixo aqui duas das minhas favoritas. Com desculpas a quem já as conhece.
Deveria ser um velório como de costume, com prantos e soluços, olhares tristes, abraços de pesar, boas recordações do defunto.
A gente era muita, por isso mais inacreditável e doloroso se tornara o silêncio geral. De facto, pelo extremo das suas más qualidades, o passamento do sujeito tinha sido um alívio para todos os presentes.
O uso mandava, mas como elogiar o filho da puta? Até que finalmente alguém suspirou: - O irmão era muito pior.
O lavrador siciliano tinha comprado um horta. Preocupava-o o ter de registá-la, mas o notário acalmou-o: a acta era coisa simples.
No dia seguinte a papelada estava pronta.
- Assine aqui.
- Eu bem pensava... Vamos ter um problema, porque sou analfabeto.
- Problema nenhum. Faça nesta linha uma cruz, é a assinatura, o mesmo que o seu nome.
O lavrador risca duas cruzes. O notário irrita-se:
- Homem! Era só uma cruz! O nome.
- Bem ouvi, mas uma é o meu nome, a outra é Dottore.
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