terça-feira, novembro 21

Chorar sem lágrimas

 

Desde que findou, dois anos, quase três, nunca mais se falaram. De longe a longe ela envia-lhe um mail, "penso muito em nós", raramente variando a frase, um tom de grito em surdina,  apelo à recordação.

Nunca reage, uma única vez quase cedeu à vontade de lhe lembrar o aniversário de uma noite de paixão, mas conteve-se, cerrando os dentes e mentindo a si próprio com um "o que lá vai, lá vai", consciente do perigo que corre quando enfrenta a quimera da sua felicidade.

Mulher, filhos, família, obrigações, rituais, tudo se lhe assemelha vazio, desbotado, impossível de comparar à verdade do que sentiu e partilhou, do que teve e perdeu.

Dispensa a fantasia para imaginar a vida que o espera: olha em volta, chora sem lágrimas e, como ela, também grita em surdina.

 

 

domingo, novembro 19

Terra de judeus

 

Acena do outro passeio e apressa-se ao atravessar, mas a cordialidade é fingida, no aperto de mão exagera a força, e o sorriso há muito lho conheço, pois quase sempre acompanha um pedido de opinião, as mais vezes subentendendo que nos encontramos no mesmo lado da trincheira.

Faz um ano que o não via, mas francamente confesso que não lhe senti a falta, talvez por ter sido dos colegas que, fosse qual fosse a moda, política, social, do desleixo na roupa ou outra, logo a adoptavam com fanatismo, certos e seguros da obrigação de segui-la, dando assim não uma, mas sortidas provas do seu vanguardismo e pertença ao rebanho.

Discutir com esse tipo de gente não leva a parte nenhuma, é tempo que se perde, mas o trato social tem as suas exigências, lá veio então a troca de perguntas clássicas sobre a saúde, o bem-estar, quantos netos, as férias, a carestia...

Satisfeito esse ritual, e como se a curiosidade de sabê-lo de repente lhe ocorresse, agarrou-me o braço, e num tom de confidência perguntou se me recordava da conversa que uma vez tínhamos tido sobre os judeus de Trás-os-Montes.

Respondi-lhe francamente que a minha memória há muito embirra, mas é provável que essa conversa tenha acontecido, pois de uma maneira ou doutra, no Nordeste transmontano somos muitos, eu incluído, que pelo aspecto não destoaríamos em Israel.

O seu sorriso, e o modo satisfeito de quem vê confirmada uma certeza, pareciam trair não ter sido de todo acidental o inespertado encontro. Um momento calado, a expressão grave de quem está a reflectir, finalmente decidiu:

- É terrivel o que está a acontecer, mas comprendo que escolhas o lado de Israel. O que a mim custa aceitar...

Nunca vou saber o que não aceita, porque lhe voltei as costas, farto que ando de fanáticos e peritos cheios de certezas, e sempre no lado bom.

 

terça-feira, novembro 14

domingo, novembro 12

Cara-de-pau


A minha mulher diz que é o Destino, eu perguntou-me por que carga de água tenho de ser o escolhido.

Como sempre fazem  quando estão de volta, a Regina e o Abreu telefonaram a dizer que correu tudo bem. Estiveram na Argentina, Bolívia, Paraguai, passaram no Iguaçu, deram uma volta pelo Pantanal, mas ainda nem desfizeram as malas, por isso só depois de amanhã ao fim da tarde virão contar tudo.

Desanimadora perspectiva. Uns dez anos atrás este simpático casal descobriu o feitiço das viagens, e assim, ela dentista reformada, ele podre de rico, o muito tempo livre que a desafogada existência lhes proporciona, gastam-no a ver mundo.

Nada a censurar, bem ao contrário, eles próprios sublinham de vez em quando os benefícios do turismo para a economia dos países, fora o impacto positivo que a presença de turistas tem na mentalidade e nos hábitos das populações atrasadas.

Aceno sempre que sim, pois além de serem ambos gente agarrada ao bem fundado das suas opiniões, suportam mal debates e discordâncias. Típica de ambos, e também repetida ao longo do tempo, mas graças a Deus nunca realizada, era a promessa de trazerem os vídeos e as fotografias que agora reservam para o Facebook.

Delicados, boa gente, facilmente se passa a esponja sobre as suas falhas e idiossincrasias, embora uma dessas custe a digerir. Dá-se o caso que, seja a Galleria degli Uffizi em Florença, o Hermitage de São Petersburgo, o Taj Mahal, a Cordilheira dos Andes, a selva africana, os mosteiros da Grécia, a paisagem da Anatólia, perguntados sobre tudo isso e o mais que já viram, só se lhes tira um comentário: "É espectacular! Gostámos muito!"

Reprimindo o bocejo, faço de modo que a cara que ponho não traia o que penso, perguntando-me de que adianta tanta viagem para tão pequeninas cabeças.

 

sábado, novembro 11

quarta-feira, novembro 8

Do antigamente (6)

 


 

domingo, novembro 5

Tudo se aprende

 

As palavras de amor eram dos poetas, dos apaixonados, dos adolescentes, sussurravam-nas as solteironas aos gatos, as beatas diante do Crucificado. Liam-se nos romances em que a doente se apaixonava pelo médico, ou a lavradeira caía nos braços do fidalgo. Ouviam-se nos fados, soletravam-nas as actrizes nos filmes a preto e branco.

Hoje as palavras de amor continuam a ser dos poetas e dos namorados, das solteironas, das beatas, mas são-no também da publicidade, ajudam a vender mixórdias e cremes, automóveis, iogurte, pasta dos dentes, gelados, café e chá, o caldo Knorr. São usadas pelas agências de viagens, fabricantes de telemóveis, político americano que queira manter o posto tem de terminar a arenga às massas com um sonoro I love you.

Já havia inflacção, até que vinte e tal anos atrás chegaram os blogues, e com eles as palavras de amor tornaram-se enxurrada, com a qualidade das enxurradas. Permito-me afirmá-lo porque investiguei, investigo, exploro-as na blogosfera com uma dedicação de entomologista à procura do insecto raro.

De certeza anda por lá, bem escondida, a expressão de amor original, elegante, formulada de modo em que nela a paixão brilhe e ressalte. Mas para nossa perda e sinal dos tempos, a tendência é para nivelar pelo mais baixo, compreensível para os fracos do espírito, e assim abunda a chochice, a frase requentada, aquele "amo-te" tão desgastado pelo abuso que dá para parafrasear o "se fosses só três sílabas" de Alexandre O'Neill.

E a julgar pelo que leio, senhoras e meninas levam a palma. Deve haver, mas ainda não encontrei uma que exprima a sua paixão com um vocabulário ou estilo que me dê vontade de, literalmente, sair à rua a deitar foguetes.

Senhoras e senhores, meninos e meninas: as vossas paixões e a nossa língua bem merecem o esforço: aprendam a falar de amor.

 

sábado, novembro 4

sexta-feira, novembro 3

quinta-feira, novembro 2

Do antigamente (3)

 

 

30 de Abril 1977, na Damplein, Amsterdam, no "Koninginnedag" (Dia da Rainha), feriado nacional, um tempo em que a fotografia continuava a ser a minha grande obsessão. Vi, disparei, nem me pareceu impróprio, só cómico.

quarta-feira, novembro 1

Do antigamente (2)