quarta-feira, fevereiro 2

"A man's man"

 

Para alguém como ele o espelho de nada adianta, o ego só lhe deixa ver a imagem que criou de si próprio.
Alto, magro, grisalho, sessentão, veste com mais cuidado que bom gosto. Camisas de seda, gravatas de seda. Os sapatos rebri­lham. Um barbeiro capaz esponta-lhe semanal­mente a cabelei­ra. Audemars Piguet com pulseira de ouro maciço. No pulso direito um amuleto mexica­no. Usa as unhas longas, cortadas em bico e, num gesto de coqueteria antiga, bate na do polegar o cigarro, que depois enfia na boquil­ha de marfim.
À sexta-feira, ao fim da tarde, visita regularmente o mesmo bar. Só bebe Laphroaig. O seu sonho secreto é de um dia vir a ser ministro, e quando fala de política vê-se-lhe nos olhos um curioso brilho.
Caminha pausada­mente de cabeça erguida e um ligeiro gingar de nádegas que, fosse ele uma anciã, passaria por sensual. Aliás, examinado em detalhe ou tomado em conjunto, todo o seu ser é feminil: a finura da pele, o olhar, os gestos, a boca franzida num esboço de sorri­so, o tom de voz, o modo como ouve, uma certa falsidade, o veneno do carácter.
- Levando em conta o meu modo de ser e as coisas que acho realmente interessantes, se tivesse de me definir - diz ele, convicto da sua objectividade - creio que no fundo sou mesmo o que se costuma chamar a man's man.

terça-feira, fevereiro 1

Allors e Sadam

 

"Allors!" Ficou-lhe a alcunha, porque depois de quase meio século de França, e agora de volta, é assim que saúda toda a gente.

Redondo como um batoque, boné de pala, olhos miudinhos, sorriso permanente, mau para os cães, pai de Saddam. Este recebeu a crisma pela sua incrível parecença com o antigo ditador do Iraque, e por também disparar a espingarda com uma só mão, erguendo-a como se vê o ditador fazê-lo em fotografia conhecida.

Pai e filho têm um problema antigo. Enquanto o primeiro se desunhou a trabalhar, Saddam é de opinião que a vida foi feita para o gozo. Puta brasileira ao sábado, marisco ao domingo, a roda dos cafés, futebol na têvê, a bisca com os amigos, noites de espera ao javali, umas idas a Espanha para variar, chegado aos cinquenta nunca teve patrão nem procurou trabalho. Por isso foi grande a surpresa quando constou que andava com ideias de montar um negócio. Falava-se de garagem, restaurante, ou supermercado, mas ao certo só se sabia que viajara para França, que é, como disse Allors, a única terra onde as coisas se fazem à grande.

 

Fernando Peixoto (1947-2008)

 

Nenhum outro lugar se prestaria melhor a encontrar pela primeira vez Fernando Peixoto do que o seu gabinete na Junta de Freguesia de Santa Marinha, em Gaia.

No rés-do-chão, na escola das Palhacinhas, tínhamos tarimbado em épocas diferentes, mas com recordações semelhantes, umas de gentes, muitas as dos lugares. Em poucos minutos já não éramos os senhores estranhos que dali a pouco iriam participar numa cerimónia, mas dois garotos apressados a reviver isto, a lembrar que também tinham visto aquilo, corrido nas mesmas vielas e na Rua Direita, espreitado na loja do Facal, na mercearia do senhor Ramos, na farmácia, cortado o cabelo no mesmo barbeiro, mijado contra a mesma esquina.

Ia eu falar do convento da Santa Maria Adelaide, já ele me cortava o discurso com uma história do Fluvial. Tinha eu tremido à vista da cabeçorra de São Gonçalo? Levava ele a melhor, que muitas vezes acompanhara os mareantes. Mas de seguida marcava eu pontos: em 1947 assistira ao fogo de artifício mais espectacular de memória de vivos e mortos. Noite de São João. Desde a Calçada das Freiras até à ponte, a margem de Gaia a arder com o foguetório dos Fernandes de Lanhelas. Eu a suar com os fogueteiros, que eram nossos vizinhos, chegando-lhes as mechas. Labaredas, figuras de anjos e bichos, rodopios, estrelas, bouquets, bombardas!... A Serra do Pilar iluminada que nem Roma nos tempos de Nero!

E onde estava você, Fernando Peixoto? A espernear no ventre materno! Ainda com um mês de espera antes de poder abrir os olhos para aquilo que há dezassete anos me maravilhava. Que depois, felizmente, seria de nós ambos e dos outros muitos que nasceram nos mesmos largos e vielas. Que por ali se fizeram gente. Os que ficaram e os que não resistiram ao bruxedo das águas do Douro e, tentados por elas, se foram a correr as sete partidas.

O Fernando também foi. Obrigado pela loucura dos que julgam que a história dos povos pode ser obra de uma só cabeça. Não pode. Mas dessa sua viagem à África não falámos. Era mais fácil falar das minhas, porque nelas não houve chacinas nem traições.

Quando chegou a hora da cerimónia voltámos a ser dois senhores. Mas logo depois veio a amizade, e com ela a troca de livros, as provas de apreço mútuo.

 

Manda a tradição, manda o ritual, pedem-no o sentimento e a solidariedade: quando alguém falece testemunha-se a dor, dizem-se palavras de pena. Todavia, para os do seu sangue não serão as palavras e os testemunhos capazes de compensar da perda. Assim as minhas ficarão no íntimo. Só direi que Fernando Peixoto nos deixou demasiado cedo. A mim não me deu ocasião nem tempo bastante para lhe contar do Irilo, do Patas, da Cavalinha, de como era o São João no Monte (dos) Judeus, a Gaia da minha infância.

Mas tempo chegará, e lá nos encontraremos, porque todos fazemos a mesma viagem com igual destino.