domingo, abril 14

Adeus Observador

 

É uma questão de terapêutica, mas também higiene mental, o esforço que vou fazer para pensar menos na política do meu país – passada, presente, futura – e dedicar-me  ao comezinho do dia-a-dia.

Nesse incluirei a vista de olhos que dou ao Observador. Assino-o desde o primeiro número, e durante muito tempo li-o com interesse e atenção. Contudo, embora me mereçam respeito alguns dos seus colaboradores, que se distinguem pela qualidade do que escrevem e a sinceridade do  pensamento, o Observador como que se tornou, não só uma feira das vaidades, mas oferece o desanimador espectáculo de dar guarida a gente que, inchada com a própria importância, e não sujeita aos limites de um jornal em papel, mediocramente se estende sobre os seus cavalos de batalha. Exemplar foi a recente e exótica publicação da charla de um jovem membro da aristocracia neerlandesa, a arrotar postas de pescada com a sua douta opinião sobre o torvelinho da política em Portugal.

O que atrás fica chegaria para o meu melancólico desencanto, porque o Observador arrancou bem, durante alguns anos assim se manteve, mas pouco tardou para que, indo de vento em popa, cedesse ao negócio, mostrando mais interesse pelos minuetes da corte de Lisboa do que pelo resto do país. E do que nele chamam “o interior” não vale a pena falar.

Há ainda a sua visível tendência woke. Triste sinal dos tempos, prova-o a realidade há pouco assinalada pelo redactor-chefe do New York Times: “actualmente não são os jornalistas que receiam o redactor-chefe, mas é este que tem medo da woke dos jornalistas”.

Essas são, pois, algumas das razões por que este mês direi adeus ao Observador, mas a que realmente dói fundo, é que nele haja lugar para analfabetos e ignorantes que desprezam a Língua Portuguesa, dando de barato a nobre função que um jornal deve ter.