Sexta-feira, Julho 31

Criticar

Medo de represálias não tenho. De arrogância também não sofro. Não é desinteresse, porque o mundo continua a fascinar-me, gostaria mesmo de ter aquelas sete vidas que se atribuem aos gatos. O que acontece é que estou a perder a vontade de criticar.

Razões boas ou más sempre se encontram: gente sisuda mete-se em polémicas tolas; sujeitos sem graça fazem palhaçadas; as gajas orgásticas dos blogues orgásticos pedem mesmo uma desanda; a estupidez está na moda; os turistas continuam a embasbacar quando lhes mandam; os políticos…

Mas para que criticar? Alivia? Não alivia. Resolve? Não resolve? Satisfação também não dá e ainda por cima se criam inimizades.

Por isso, em público ou na intimidade do lar, critico agora tão pouco que começa a ser notado. Até corre o boato de que estou a ficar simpático.

Quinta-feira, Julho 30

Cadeira eléctrica

Voilà! Uma espécie de cadeira eléctrica portátil para tudo o que for mosca, vespa ou varejeira. Se necessário tem a vantagem de matar umas quantas de cada vez, basta premir o botãozinho. A misteriosa "Alta tensão" é gerada por duas pilhas AA.

Pena capital


Não se joga com ele o ténis ou o pingue-pongue, e a aparência de brinquedo engana. Porque é arma eficiente e ainda por cima letal. Felizmente, embora em letra miudinha, traz em quatro línguas o aviso de "Alta Tensão". Para manter o
suspense, só daqui a umas horas se desvendará a sua curiosa utilidade.

Quarta-feira, Julho 29

"Fala Rádio Moscovo"


Inverno de 44. Um quarto muito frio. Uma braseira. Uma escrivaninha minúscula e nela um rádio Philco. Ligado. À espera da emissão portuguesa de Rádio Moscovo que começa às nove.

Tenho catorze anos e todas as noites tremo de medo. Meu pai nunca está e à minha mãe essas coisas não interessam, mas o nosso vizinho, o senhor Pina, é inspector da PIDE e olha-me sempre de lado.

O relógio bate as nove. Deve andar adiantado, porque não oiço nada. Aumento o som. Um rufar de tambores. A música como que me explode nos ouvidos. Rodo o botão, ponho-o baixinho. Desconheço as palavras, mas canto também, num sussurro. A guerra há-de acabar e no mundo nunca mais haverá pobres, nem oprimidos. Não sei se o hino russo diz isso, mas pouco importa, dá a impressão que sim. Se não fosse o senhor Pina cantava alto.

Terça-feira, Julho 28

Terra Alta

- E isso foi?

- Em 94. Tinha feito uns biscates para a Reuters, e assim sem mais nem menos recebo um convite para uma série de reportagens. Maryland, Maine, New Hampshire… Criadores de cavalos de raça, gente de dinheiro.

Cheguei a Baltimore um domingo de manhã. Dezembro. Neve como nunca tinha visto. Metros. A impressão que me deu foi de uma cidade abandonada. No hotel tinha uma mensagem do fotógrafo. Telefonei. Esperava um gajo e aparece-me uma despachada, eficiente, com tendência a segurar as rédeas, tipo Charlie's Angels. Lembras-te?

- Lembro.

- Erika. Sangue alemão. Boa profissional. Fingia um bocadinho demais de Farrah Fawcett, e o caso é que não simpatizámos. O único ponto de acordo foi que ela conduziria, porque carro sem mudanças não é comigo. Sete da manhã. Levou-nos mais de cinco horas para fazer quase trezentas milhas até … Não vais acreditar!

- Quantos quilómetros?

- Uns quatrocentos e vinte, trinta. Demorou por causa da neve. Mas como ia dizer, não vais acreditar. Está a gente em cascos de rolha nas Américas e chega aonde? A um buraco chamado Terra Alta!

- Portugueses?

- Nem um. Só o raio do nome. Fomos ao senhor dos cavalos, tomei as minhas notas, ela achou que tinha fotografias bastantes e despedimo-nos. Aí começou a encrenca. Um blizzard de meter medo. Furacão. Neve. Escuro como de noite e às tantas a polícia a barrar a estrada. Não sei quanto tempo demorou a encontrarmos um motel. Diz ela assim:

- Enquanto estaciono pergunta se têm dois quartos. Se não tiverem, então um com duas camas. Se for só uma cama durmo eu nela e tu no chão.

Palavras não dissemos muitas e ceamos o que havia: um cartucho de M&Ms, um pacote de bolachas, duas coca-colas.

Às tantas desaparece no banheiro. Sento-me no sofá, mal disposto, a perguntar-me no que estou metido, e dali a pouco aparece com uma tanguinha de nada, soutien, e salta para a cama.

- Apagas a luz?

Apaguei a luz. A ventania era terrível, o pisca-pisca vermelho do anúncio do hotel começava a mexer-me com os nervos. Teria passado uma meia hora vejo-a sentar-se. Tira o soutien e diz toda natural:

- Quando é que te vens deitar?

Durou dois anos. Depois casou e perdemo-nos de vista.

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Uma história mete de tudo: realidade, ficção, pitada disto, dois dedos daquilo. Pode ser contada de muitos modos, ter enredos de sobra. Mas por fim, o que realmente conta é o que o leitor faz com ela. Se der para sonhar, quem a escreveu acha recompensa bastante.

Segunda-feira, Julho 27

Cartas? Postais?

Cartas? Um ou outro excêntrico usa ainda esse meio antigo e máquina de escrever. Postais? O que é um postal? O fax está nas últimas. O telégrafo e o telex pertencem à antiguidade da mala-posta e dos sinais de fumo.

Comunicamos. Ele é internet e twitter, e-mail, sms, VoIP, telemóvel, Facebook, Hyves, Hi5, e porque isso nos parece escasso inventamo-nos mundos e segundas vidas. Comparado ao virtual, o mundo da realidade até no sexo fica a perder.

Conversamos mais rápido. Um perito andou a medir o fenómeno, concluindo que nos dez últimos anos a velocidade da fala aumentou vinte porcento. Não mediu o riso, mas garanto eu que no mesmo período a quantidade de riso subiu a ponto que nos lares, como na televisão e nas escolas, nos escritórios, na rua, nos cafés, fala-se de preferência às gargalhadas. Ruído em vez de sílabas. E uma imagem valerá mil palavras, mas muitas mil vale o silencioso manguito.

Comunicamos, febris, por novas e sofisticadas formas, como se a felicidade disso dependesse. Paradoxalmente, vai aumentando o nosso isolamento. Imaginamo-nos ligados ao mundo inteiro, mas para o mundo já não somos indivíduos, apenas avatares a que um clique dá vida e o clique seguinte descarta.


Coincidência. Chega um e-mail do vizinho do lado, anunciando que vai de férias e deixa a chave da casa na nossa caixa do correio. Tocar à campainha e dar o recado? Seria simples, mas passé. Hoje comunicamos, preferindo não nos vermos e sem precisão de falar.

Domingo, Julho 26

Infiel!

(Até logo, bonitão. Não me sejas infiel!)

Malaparte


Dois livros que li aos vinte e poucos anos com admiração. Passado mais de meio século, ando a relê-los com igual sentimento. São felizmente muitos os que, como estes dois, ainda tenho para reler, e que, felizmente também, me compensam do tempo que perco com as histórias da carochinha que hoje em dia passam por literatura.

Sexta-feira, Julho 24

Bocage

(Clique para aumentar)

Em Maio de 74 os cravos da Revolução não me faziam esquecer os alfarrabistas. Num deles encontrei esta antologia que julgava perdida. Por si próprias abriram-se hoje as páginas neste soneto de Bocage que, curiosamente, não figura no grosso volume - 2050 páginas - das obras do poeta, editado por Lello & Irmão em 1968, quando os tempos eram hipócrita e oficialmente castos. A antologia de Natália Correia é de Novembro de 1965 e vendia-se então às escondidas.

Quinta-feira, Julho 23

Damasco, Amã, Petra, Indiana Jones, camelos e jericos


Bronzeados. Sorridentes. Regressaram da Síria e da Jordânia, contam em uníssono que, tirante o calor, tudo correu na perfeição. Ó que gente simpática! E então a comida, aqueles shish kebab! Paisagens maravilhosas, únicas! Vocês conhecem Petra? Não? Um sonho! Quando se vê aquilo!...

A máquina digital passa de mão em mão. Carregas aqui. Neste? Não. No outro. Esse é de andar para trás.

Fotos do aeroporto. Fotos de nuvens. Do interior do avião. Uma rua de Damasco vista do táxi. Parece que em árabe se diz Dimashq.Umas vezes dizíamos Damasco, ou então Damascus, mas deu sempre certo. Ela, avantajada, decoletada e de calções, defronte de uma loja de tapetes e doutra de nargilehs. Ele, corpulento e de calções, numa esplanada, os joelhos em primeiro plano. O hotel. O porteiro, de cartola, galões e alamares. O hall do hotel. O quarto do hotel. A paisagem vista do quarto do hotel.

Cenas idênticas em Amã. Tudo tão moderno! A gente não esperava! Julgávamos… Ele a acenar num camelo. Ela escarranchada num jerico. Ele em Petra. Ela em Petra. Ele diante de um edifício escavado na rocha. Ela diante do mesmo. Eles fotografados pelo guia a apontar para uma ruína. Eles fotografados pelo guia com um casal alemão. Retrato do guia. Velhote simpático. Disse que ia fazer sessenta, mas era capaz de ter mais. A pobreza é muita, as pessoas trabalham enquanto podem. Achámos graça que há lá lojas com o nome de Indiana Jones! Souvenirs e até sandes Indiana Jones! Sepulturas. Uma caverna. Este era o chofer do autocarro. Sempre azedo e ainda por cima mal educado. O autocarro. Uma charrette. Muito engraçada, vocês estão a ver o burro enfeitado? Camelos. Polícias. Mais autocarros. Um grupo de turistas. Camelos com turistas. Mais autocarros. Mais camelos. Uma tenda de fruta. Mais uma. Três mulheres de chador. Ruínas. Rochas. Uma garota pedindo esmola. Ela dizia bakshish, bakshish, o guia é que explicou. Mais rochas. Vocês sabem quanto querem por uma garrafa de água mineral? Dois dólares e meio. Se for na moeda deles ainda é mais caro. Espera aí, que tem de se mudar a card.

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© Fotografia de Mansour Moasher.


Quarta-feira, Julho 22

Eu? Nunca!

Tem má cara, má fama, e um modo especial de dizer a verdade. Joe Jackson, pai do defunto Michael, afirma aqui com imbatível franqueza: "Quem disser que nunca bateu nos filhos, mente! Eu nunca bati no Michael!"

Terça-feira, Julho 21

Burro velho

Primeiro isto, para que se compreenda o meu sorriso: em 2010, Deo volente, farei oitenta anos. Comecei a escrevinhar umas historietas aos doze, aos dezanove vi a primeira em letra de forma, depois devo ter escrito milhões de palavras em textos de todo o género, mais os livros que se vêem aqui.
Um deles, com dez edições, esteve longas semanas no segundo lugar de numa lista de Top Ten, onde o primeiro era O nome da Rosa, de Umberto Eco. Um outro vai nas catorze e desde há trinta e sete anos continua a ser editado. Exceptuando dois, todos os mais se têm vendido bem e dado algum nome ao autor.
Assinalo isto sem vaidade, apenas porque o julgo pertinente para o que segue.

Ele pouco passa dos quarenta e foi meu estudante na universidade. De inteligência invulgar, fez em simultâneo duas licenciaturas, doutorou-se, foi trabalhar num banco de Nova Iorque, depois noutro em São Paulo, passou para a política e dela para o marketing, onde o consideram autoridade.
Conversamos. Mostra-se aborrecido com a minha falta de dinâmica e por me ver franzir o sobrolho às suas teorias.
- Seja em que campo for – martela ele - tu, eu, ninguém pode alcançar verdadeiro êxito se não se tornar uma marca. Político, escritor, cirurgião… No passado um sujeito ganhava fama, era um nome, mas isso hoje não basta. Tem de se ser uma marca. E como marca fazer o que fazem as grandes marcas, por exemplo a Coca-Cola, a McDonald's. Estudar o mercado, determinar o campo de acção, conceber um método, estratégias …
Trouxe uns apontamentos para me convencer, e vai detalhando. Fico a saber que as mulheres lêem em média 1,7 horas por semana, enquanto que os homens não passam dos 0,9. Para os livros de ficção dois terços são comprados por mulheres . A temática dos livros que as mulheres preferem – romantismo, escapismo, exotismo – não é a mesma que em geral atrai o público masculino. As mulheres…

Já mo disseram outros, mas de nada adianta. Burro velho não toma andadura, e este que sou teima em distinguir entre livros e lixívia.

Segunda-feira, Julho 20

Os sabe-tudo

A guerra andava lá fora e eu, puto de dez anos, de boca aberta porque eles sabiam tanta coisa, ouvia meu pai e os seus amigos decidirem que o Hitler ia fazer assim, e que o Churchill vinha com outra estratégia, que o Staline avançava, mais isto do Mussolini e aquilo do Roosevelt…

Por volta dos quinze tinha aprendido o bastante para achar cómica aquela sabedoria, mas o que não esperava era que a espécie se mantivesse. Eles continuam a antecipar sobre o futebol e o Tour de France, a política de Obama, as viragens da economia, sabem o que Sócrates vai fazer, previram a crise, conhecem as razões da NASA para não colonizar a Lua…

Ontem, para minha surpresa e pela primeira vez, encontrei a variante feminina do sabe-tudo. A senhora tinha opinião definitiva sobre as questões da Europa e as manhas de Putin, as dependências de Barroso, a gula do Banco Mundial, os minerais do Pólo Norte...

A modo de "Mãos ao ar!" apontou-me os dois dedos que seguravam o cigarro e quis que lhe desse a minha opinião sobre o futuro de Portugal.

Respondi-lhe que não tinha, mas que com Nossa Senhora de Fátima, o Santo Condestável, a santa de Balazar, a santinha de Arcozelo…

A senhora não apreciou. Os sabe-tudo são de muita seriedade e poucas graças.

Domingo, Julho 19

Coup de foudre

Ele passava dos sessenta, ela nem à metade chegara, ao fim do segundo dia do congresso sofreram o verdadeiro coup de foudre. Que ambos eram casados, felizes no casamento, confessaram-no depois com a surpresa e a ingenuidade de crianças apanhadas numa traquinice, mas sem intenção de lhe sofrer as consequências. Para sossego e felicidade de todos guardariam segredo.

Que se amaram não é bem o termo. Diga-se antes que, esquecendo o mundo, a família, os deveres e as aparências, durante quase dez anos fornicaram com a paixão que conhece quem dá e recebe sem peias nem limites.

O prazer era genuíno, intenso, voraz, como fundo era também o mistério daquela sintonia. Porque para lá da diferença de idade quase tudo os separava, e o pouco que conversavam terminava muitas vezes em discórdia, ou no cessar-fogo táctico que evita as guerras.

Separaram-se como se num repente, e em simultâneo, tivessem desligado a electricidade que tão extraordinariamente os unira. Nem adeus nem pranto.

Voltaram a encontrar-se noutro congresso, tempos depois. Sem vontade de recordações, dois estranhos a discutir cortesmente coisas da profissão.

Sábado, Julho 18

Solidão

Aparece-me no Facebook um Ignaz Abramovic, amigo da Germaine, que é amiga da Sybille, que é amiga do Juanito, da Gunnarsdottir, do Simon, de mais não sei quantos, e quer o Ignaz tornar-se também, já já, meu amigo, saber já já o que estou a fazer…

Entre curiosidade, tolices involuntárias e simpatias alheias, pouco demorou a ver-me metido em mais redes sociais do que é aconselhável para o sossego do espírito.

O ver-me metido, porém, é um eufemismo, já que me encontro lá como sombra inactiva, e não tenho intenção de me tornar amigo de sicrano e beltrano.

Isto dito, ocorre-me como seria fácil ironizar sobre os que agarram o que podem em busca de um afecto. Mas como lhes poderia eu atirar a primeira pedra? Será que já esqueci, que quero esquecer, a que desesperos leva a solidão?

Sexta-feira, Julho 17

Ducati Multistrada

Gabriella é um pecado mortal. Entre os vinte e poucos e os trinta e tantos, comem-na os machos com os olhos, desejam-na as devotas de Safo, mesmo os rapazes adeptos do amor grego sorriem a tanta beleza e elegância. Sorriem-lhe também os idosos, imaginando melancólicos o que poderia ter sido e nunca aconteceu.

Vestida para a jardinagem, o desporto, ou coisa de cerimónia, Gabriella é impecável no bom gosto, acrescentando sempre o pequeno toque que marca a distinção. Fora isso é um mistério. Sorri muito, fala pouco, supõe-se que tenha nascido num desses países turbulentos dos Balcãs, pois o seu rosto tem algo de eslavo. Mas porque fala à perfeição umas quantas línguas, há quem arrisque que vem da Hungria, terra de poliglotas.

Tudo suposições. O que faz? Que rendas pagam o seu luxo? Tentam os vizinhos resolver essas e mais incógnitas, pois não se lhe conhece emprego, marido ou amante, e ora há semanas que desaparece, ora a vêem todos os dias a passear o cão.

Ontem, a meio da tarde, resolveu-se o caso. Havia ajuntamento à porta, carros da polícia com as luzes azuis a girar, basbaques, garotada. Elegante como quem vai a passeio e sorridente como de costume, Gabriella entrou num dos carros. Algemada.

Nos jornais desta manhã lia-se que chefiava uma quadrilha internacional de ladrões de automóveis, que nasceu na Bulgária e se diplomou em engenharia mecânica. Perdeu-a o fascínio pelas motocicletas. A alguém tinha feito espécie vê-la conduzir uma Ducati Multistrada, depois uma Ducati Superbike, depois uma… Na sua garagem encontraram dez. De tipos diferentes.Todas roubadas, mas de que ela, talvez por paixão, não se queria separar.

Quinta-feira, Julho 16

São dias

São dias. Pelo receio de não andar actualizado troquei o Windows XP pelo Vista e há dois anos que passo as passas do Algarve.

Estava bem com a minha linha telefónica, daquelas que usam o fio de cobre, mas não senhor, moderno é mesmo o VoIP, e daí que há três dias estou sem telefone.

ADSL, à antiga do ano passado? Qual quê! A modernidade pede Wireless. Assim me vejo a perder tempo e a ganhar sustos com as variações do sinal, que ora sobe às alturas ora desce a quase zero. Dizem-me que tenha paciência, a coisa arranja-se.

Exausto de todos estes contratempos vou-me a uma esplanada. Quedo-me um instante, olhando em redor. Vem a gentil empregada, e que diz ela? Que me sente, porque se passa um controlador levo multa! Controlador? Sim, da Câmara de Amsterdam, que decidiu proibir estar de pé nas esplanadas, porque isso perturba quem passa.

De facto há destes dias, mas a paciência também se esgota. Porra!

Quarta-feira, Julho 15

Crise de habitação


A ver se consigo escrever isto sem ironia, não venham os devotos de São Francisco de Assis guerrear comigo.

Noutras latitudes passará por absurdo, mas na Holanda é incrível o que se mede, se conta, se calcula, leva-se muito a sério o provérbio que diz: "Medir é saber" (Meten is weten). Assim, faz algum tempo, os amigos da passarada notaram diminuir nas cidades o número de pardais. E os pardais são assunto sério. Por exemplo, aos domingos de manhã há um proggrama de rádio imensamente popular, no qual das oito às dez só se fala de pássaros.

E o ano passado, quando apareceu em Groningen um bando de catorze Passer hispaniolensis,(*) o acontecimento foi notícia de primeira página e prime time, deslocou-se lá gente como quem vai de romagem a lugar santo.

Fizeram-se, pois, pesquisas para determinar a razão de haver menos pardais, concluindo-se que a culpa era dos telhados, porque os telhados não oferecem condições favoráveis para a construção nem para a defesa dos ninhos. Averiguou-se, mediu-se, estudou-se, chamou-se um arquitecto, actualmente há firmas a fabricar uma espécie mezzanine para os beirais, onde, com conforto e segurança, a pardalada vai poder procriar e viver sem preocupações de maior.

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(*) Ao que parece este pardal só existe em Espanha e é mistério que tenha voado para aqui.

Terça-feira, Julho 14

Repetição

Uma desgraça nunca vem só. Em 13 de Maio passado tinha eu posto esta notícia.

Faz uns dois dias os senhores (ou os computadores) da Shit yle recomeçaram a mandar convites, champanhe e beijinhos… tudo virtual.

Claro que quem, por curiosidade, vai ver o que é, acontece-lhe como a mim e, involuntariamente, automaticamente, passa a mandar beijinhos e abraços a meio mundo.


Quarta-feira, Maio 13

ASNEIRA GROSSA

Asneei. Através de uma coisa que se chama Shtyle.fm uma simpática mandou-me um convite. Como era simpática aceitei, mas esqueci-me de ler aquelas letras pequeninas do que se chama Terms of Service, que é onde se acham escondidas as ratoeiras. E agora pago a asneira. Ignorei que o Shit yle se dava o direito de piratear os meus endereços, e assim acontece que, contra vontade, estou a mandar presentinhos e pedidos de amizade a toda a gente, inclusive firmas, associações, bandas de música, circos, latoeiros, supermercados, funerárias...
Quem receber esse lixo faça favor de desculpar. Amizades, electrónicas ou não, tenho que chegue.

Segunda-feira, Julho 13

Outra vez

De novo se muda a apresentação. É aborrecido, mas não há remédio, porque o Blogger continua a "comer" as primeiras letras de cada linha.
Há quem afirme que a culpa é do Firefox e que com Internet Explorer isso não acontece.


Domingo, Julho 12

Sem gajas, sem futebol

Compatriota lisboeta.Visita Amsterdam umas quantas vezes por ano, por interesses que não vem ao caso detalhar aqui. A tradição manda que almocemos à portuguesa e, conforme a estação do ano, cavaqueamos depois no café ou numa esplanada, desta vez numa à beira do canal onde há boa sombra.

Falamos de blogues. Ele colabora num em que o número de visitantes diários passa de dois mil. Digo-lhe a minha inveja e ele pergunta quantos vêm ao Tempo Contado.

- Duas semanas atrás andava a média pelos cento e cinquenta, depois começou a descer e de momento roda os setenta e pico.

- É pouco. De facto é nada. E sabes porquê?

Esperava eu palavras de comiseração, desata ele, homem de muitos e bons negócios que é, a enumerar os motivos do meu falhanço:

- O teu blogue não tem sexo, nem futebol! Não tem gajas! Não tem histórias interessantes!... Patifarias dos políticos? Escândalos? Não tem!... Actualidade? Não tem! Ilustrações? O que lá está…

- Eu sei o que lá está.

- E não é só isso! Escreves umas coisas, mas vendo bem não és um verdadeiro blogger. Não aceitas comentários, não interages com os outros blogues!... Links, raramente aparece um… Se mudasses de temas e de estratégia…


A conversa prolongou-se, a despedida foi cordial. Mais tarde, rememorando, concordei que não sou um verdadeiro blogger. Importa-me isso? Não. Como pouco me importam etiquetas e estratégias. Agora se em vez de umas poucas dezenas aparecessem por aqui uns milhares de visitantes, de certeza abria o champanhe. Mas sem gajas, sem futebol!...

Sábado, Julho 11

Plágio


Já tudo foi dito, inclusive as asneiras.


Há dois dias que esta frase me anda na cabeça. Antigamente não me custaria jurar a paternidade, mas os anos tornaram-me cauteloso. Será que ma disse alguém? Que a li algures? Ou que de facto a gerei durante um jantar, com dois convivas pomposos?

Dois daqueles que tudo sabem e de tudo discutem com autoridade definitiva, desde as complicações do Afganistão ao aumento do crude, da cirurgia plástica de Berlusconi à fragilidade do Airbus.

Se há plágio é involuntário, mas na verdade já tudo foi dito, inclusive as asneiras.

Sexta-feira, Julho 10

Imitando

Raramente nos queixamos do que dói fundo, e só de longe a longe as palavras ditas traduzem o que nos vai no pensamento. Calculados ou não, são ambíguos os nossos gestos, os nossos olhares. Gastamo-nos nas aparências. Sorrimos sem vontade. Choramos para que se veja. Fingimos zangas, carinhos, temores, afeições, devoções. Enganamos e enganamo-nos.

Uns atrás dos outros, logo de manhã cedo, todos os dias subimos ao palco a imitar a vida.

Quinta-feira, Julho 9

Exemplar


Nederlandse Spoorwegen, a companhia neerlandesa de caminhos de ferro, explora uma das redes ferroviárias mais densas do mundo, emprega à volta de 26.000 pessoas, transporta diariamente 6,7% da população do país, explora linhas de caminhos de ferro na Inglaterra e na Alemanha, linhas de autocarros, etc...

Bert Meerstadt, engenheiro mecânico, é aos quarenta e sete anos o patrão-mor de tudo isso.

Passando agora ao verdadeiramente interessante: quando em 2001 entrou para a NS como director, Bert Meerstadt resolveu tirar o diploma de maquinista. Desde então, um dia por mês, em lugar das aborrecidas tarefas de presidir reuniões, inaugurar apeadeiros e cortar fitas, Bert Meerstad pega na folha de serviço, sobe para a locomotiva e vai fazer as suas oito horas de maquinista.

Não conheço o homem, mas conheço uns patrões, grandes e pequeninos, que bem o poderiam tomar como exemplo.

Quarta-feira, Julho 8

Boa surpresa


Queixava-me esta manhã da falta de tempo, dando e dando-me desculpas várias para os muitos atrasos, e vai o acaso faz-me esta surpresa.
Li-o de fio a pavio, alegrei-me com o conteúdo e quase bati palmas. Se os livros lhe interessam, não perca. E agora desculpe, que já estou mais que atrasado.

Terça-feira, Julho 7

O Rolodex


Era prático, útil, ficava bem numa secretária, e sobretudo dava um ar de organização aos desleixados.

- Procura aí no Rolodex.

Ao ouvir aquilo, os menos entendidos olhavam com respeito o aparelho que, na sua simplicidade, provavelmente encerrava segredos e mistérios.

Com a chegada do computador foi desaparecendo aos poucos. No meu, velho de trinta anos e pico, as fichas amareleceram, e nelas quase só se encontram os nomes de falecidos. Porque o guardo? Nostalgia e uma pontinha de vaidade antiga.

De vez em quando um ou outro jovem pergunta:

- O que é aquilo?

- É um Rolodex.

Em geral estranham que não tenha motor, mas não querem saber mais.

Segunda-feira, Julho 6

Meia página

Era pequenino, muito mexido, acompanhava o que dizia com os salamaleques a que se habituara na sua vida de lojista. Dessa vida guardara também o vestir irrepreensível, o vinco das calças, os sapatos lustrosos da graxa, a risca no cabelo, e um modo prestimoso que se tornava aborrecido com a repetição de "Ora faça o favor".

- Estava eu no consultório do Professor Abreu de Faria Perestrelo, tinha lá ido por causas dos meus problemas da coluna, quando a tal senhora entrou. Levantei-me, ora faça o favor, e diz ela…

Desagradável era também, quando se entusiasmava, o modo de pegar o interlocutor pelo braço. Porque uma vez agarrado, usava os dedos com a mesma intenção de quem sublinha o que escreve, e espetava as unhas, torcia, empurrava, puxava, abanava…

- Claro que tenho confiança nos médicos, e o Professor Abreu de Faria Perestrelo já me trata há muitos anos, mas numa situação dessas, ora faça o favor…

Vai hoje a enterrar. Liberto, enfim, de uma vida de muitos sofrimentos e reveses. Falido, passou de patrão a empregado, reformou-se, adoeceu.

- Ora faça o favor de ouvir. Só para o coração são vinte e dois comprimidos! Oito de manhã, seis ao almoço, outros seis antes do jantar, dois quando me deito.

Com a primeira mulher, uma desvairada, sofreu aflições que teriam levado outro ao manicómio ou ao suicídio. Dos braços dessa caiu nos da D. Micas. Granadeira na corpulência e no modo, amiga dos copos, sempre a avisá-lo durante as zangas:

- A casa é minha. Quem não está bem muda-se.

Para o hospital tinha ido sozinho, e quando ela a meio da tarde o foi visitar encontrou-o morto.


O que acima se lê é ficção com dois dedos de verdade. A ficção que se escreve para mascarar a surpresa, e o medo, de que uma longa vida cabe em meia página.

Sábado, Julho 4

Virgindade

Ouvi-o e custou-me a acreditar. Depois a internet confirmou que realmente existe, e até pode ser que haja mais, mas esta, a Aquarion, School for LoveLife & Leadership, perto de Utrecht, é a que interessa.

A sua finalidade é de, por meio de cursos teóricos e práticos, assistir quem, por toda a espécie de razões e às vezes já perto do meio século, ainda é virgem e quer pôr fim ao que neste nosso tempo passa por aberração.

O meu primeiro e despropositado impulso foi chacotear. Então com estas liberdades todas e possibilidades que nunca mais acabam ainda haverá virgens de cinquenta anos? Mulheres, provavelmente, mas homens?

Depois, informando-me, ao confrontar a miséria alheia foi-se-me a chacota, e com este documentário apiedei-me.(*)

Até à data oitenta e cinco dos meus semelhantes pagaram cada um cinco mil euros pela teoria, as aulas práticas e o primeiro moment suprême.

Só a quem o teve de graça parecerá caro.

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(*) O documentário é da RTL4, quase todo falado em inglês, e encontra-se aqui:

http://www.rtl.nl/components/videorecorder/shockdoc/miMedia/2008/week38/do22.Shock_Doc_Virgin_School_18-09-2008_1_1.xml

Sexta-feira, Julho 3

Flanela