sexta-feira, julho 31

Criticar

Medo de represálias não tenho. De arrogância também não sofro. Não é desinteresse, porque o mundo continua a fascinar-me, gostaria mesmo de ter aquelas sete vidas que se atribuem aos gatos. O que acontece é que estou a perder a vontade de criticar.

Razões boas ou más sempre se encontram: gente sisuda mete-se em polémicas tolas; sujeitos sem graça fazem palhaçadas; as gajas orgásticas dos blogues orgásticos pedem mesmo uma desanda; a estupidez está na moda; os turistas continuam a embasbacar quando lhes mandam; os políticos…

Mas para que criticar? Alivia? Não alivia. Resolve? Não resolve? Satisfação também não dá e ainda por cima se criam inimizades.

Por isso, em público ou na intimidade do lar, critico agora tão pouco que começa a ser notado. Até corre o boato de que estou a ficar simpático.

quinta-feira, julho 30

Cadeira eléctrica

Voilà! Uma espécie de cadeira eléctrica portátil para tudo o que for mosca, vespa ou varejeira. Se necessário tem a vantagem de matar umas quantas de cada vez, basta premir o botãozinho. A misteriosa "Alta tensão" é gerada por duas pilhas AA.

Pena capital


Não se joga com ele o ténis ou o pingue-pongue, e a aparência de brinquedo engana. Porque é arma eficiente e ainda por cima letal. Felizmente, embora em letra miudinha, traz em quatro línguas o aviso de "Alta Tensão". Para manter o
suspense, só daqui a umas horas se desvendará a sua curiosa utilidade.

quarta-feira, julho 29

"Fala Rádio Moscovo"


Inverno de 44. Um quarto muito frio. Uma braseira. Uma escrivaninha minúscula e nela um rádio Philco. Ligado. À espera da emissão portuguesa de Rádio Moscovo que começa às nove.

Tenho catorze anos e todas as noites tremo de medo. Meu pai nunca está e à minha mãe essas coisas não interessam, mas o nosso vizinho, o senhor Pina, é inspector da PIDE e olha-me sempre de lado.

O relógio bate as nove. Deve andar adiantado, porque não oiço nada. Aumento o som. Um rufar de tambores. A música como que me explode nos ouvidos. Rodo o botão, ponho-o baixinho. Desconheço as palavras, mas canto também, num sussurro. A guerra há-de acabar e no mundo nunca mais haverá pobres, nem oprimidos. Não sei se o hino russo diz isso, mas pouco importa, dá a impressão que sim. Se não fosse o senhor Pina cantava alto.

terça-feira, julho 28

Terra Alta

- E isso foi?

- Em 94. Tinha feito uns biscates para a Reuters, e assim sem mais nem menos recebo um convite para uma série de reportagens. Maryland, Maine, New Hampshire… Criadores de cavalos de raça, gente de dinheiro.

Cheguei a Baltimore um domingo de manhã. Dezembro. Neve como nunca tinha visto. Metros. A impressão que me deu foi de uma cidade abandonada. No hotel tinha uma mensagem do fotógrafo. Telefonei. Esperava um gajo e aparece-me uma despachada, eficiente, com tendência a segurar as rédeas, tipo Charlie's Angels. Lembras-te?

- Lembro.

- Erika. Sangue alemão. Boa profissional. Fingia um bocadinho demais de Farrah Fawcett, e o caso é que não simpatizámos. O único ponto de acordo foi que ela conduziria, porque carro sem mudanças não é comigo. Sete da manhã. Levou-nos mais de cinco horas para fazer quase trezentas milhas até … Não vais acreditar!

- Quantos quilómetros?

- Uns quatrocentos e vinte, trinta. Demorou por causa da neve. Mas como ia dizer, não vais acreditar. Está a gente em cascos de rolha nas Américas e chega aonde? A um buraco chamado Terra Alta!

- Portugueses?

- Nem um. Só o raio do nome. Fomos ao senhor dos cavalos, tomei as minhas notas, ela achou que tinha fotografias bastantes e despedimo-nos. Aí começou a encrenca. Um blizzard de meter medo. Furacão. Neve. Escuro como de noite e às tantas a polícia a barrar a estrada. Não sei quanto tempo demorou a encontrarmos um motel. Diz ela assim:

- Enquanto estaciono pergunta se têm dois quartos. Se não tiverem, então um com duas camas. Se for só uma cama durmo eu nela e tu no chão.

Palavras não dissemos muitas e ceamos o que havia: um cartucho de M&Ms, um pacote de bolachas, duas coca-colas.

Às tantas desaparece no banheiro. Sento-me no sofá, mal disposto, a perguntar-me no que estou metido, e dali a pouco aparece com uma tanguinha de nada, soutien, e salta para a cama.

- Apagas a luz?

Apaguei a luz. A ventania era terrível, o pisca-pisca vermelho do anúncio do hotel começava a mexer-me com os nervos. Teria passado uma meia hora vejo-a sentar-se. Tira o soutien e diz toda natural:

- Quando é que te vens deitar?

Durou dois anos. Depois casou e perdemo-nos de vista.

-----------------------

Uma história mete de tudo: realidade, ficção, pitada disto, dois dedos daquilo. Pode ser contada de muitos modos, ter enredos de sobra. Mas por fim, o que realmente conta é o que o leitor faz com ela. Se der para sonhar, quem a escreveu acha recompensa bastante.

segunda-feira, julho 27

Cartas? Postais?

Cartas? Um ou outro excêntrico usa ainda esse meio antigo e máquina de escrever. Postais? O que é um postal? O fax está nas últimas. O telégrafo e o telex pertencem à antiguidade da mala-posta e dos sinais de fumo.

Comunicamos. Ele é internet e twitter, e-mail, sms, VoIP, telemóvel, Facebook, Hyves, Hi5, e porque isso nos parece escasso inventamo-nos mundos e segundas vidas. Comparado ao virtual, o mundo da realidade até no sexo fica a perder.

Conversamos mais rápido. Um perito andou a medir o fenómeno, concluindo que nos dez últimos anos a velocidade da fala aumentou vinte porcento. Não mediu o riso, mas garanto eu que no mesmo período a quantidade de riso subiu a ponto que nos lares, como na televisão e nas escolas, nos escritórios, na rua, nos cafés, fala-se de preferência às gargalhadas. Ruído em vez de sílabas. E uma imagem valerá mil palavras, mas muitas mil vale o silencioso manguito.

Comunicamos, febris, por novas e sofisticadas formas, como se a felicidade disso dependesse. Paradoxalmente, vai aumentando o nosso isolamento. Imaginamo-nos ligados ao mundo inteiro, mas para o mundo já não somos indivíduos, apenas avatares a que um clique dá vida e o clique seguinte descarta.


Coincidência. Chega um e-mail do vizinho do lado, anunciando que vai de férias e deixa a chave da casa na nossa caixa do correio. Tocar à campainha e dar o recado? Seria simples, mas passé. Hoje comunicamos, preferindo não nos vermos e sem precisão de falar.

domingo, julho 26

Infiel!

(Até logo, bonitão. Não me sejas infiel!)

Malaparte


Dois livros que li aos vinte e poucos anos com admiração. Passado mais de meio século, ando a relê-los com igual sentimento. São felizmente muitos os que, como estes dois, ainda tenho para reler, e que, felizmente também, me compensam do tempo que perco com as histórias da carochinha que hoje em dia passam por literatura.

sexta-feira, julho 24

Bocage

(Clique para aumentar)

Em Maio de 74 os cravos da Revolução não me faziam esquecer os alfarrabistas. Num deles encontrei esta antologia que julgava perdida. Por si próprias abriram-se hoje as páginas neste soneto de Bocage que, curiosamente, não figura no grosso volume - 2050 páginas - das obras do poeta, editado por Lello & Irmão em 1968, quando os tempos eram hipócrita e oficialmente castos. A antologia de Natália Correia é de Novembro de 1965 e vendia-se então às escondidas.

quinta-feira, julho 23

Damasco, Amã, Petra, Indiana Jones, camelos e jericos


Bronzeados. Sorridentes. Regressaram da Síria e da Jordânia, contam em uníssono que, tirante o calor, tudo correu na perfeição. Ó que gente simpática! E então a comida, aqueles shish kebab! Paisagens maravilhosas, únicas! Vocês conhecem Petra? Não? Um sonho! Quando se vê aquilo!...

A máquina digital passa de mão em mão. Carregas aqui. Neste? Não. No outro. Esse é de andar para trás.

Fotos do aeroporto. Fotos de nuvens. Do interior do avião. Uma rua de Damasco vista do táxi. Parece que em árabe se diz Dimashq.Umas vezes dizíamos Damasco, ou então Damascus, mas deu sempre certo. Ela, avantajada, decoletada e de calções, defronte de uma loja de tapetes e doutra de nargilehs. Ele, corpulento e de calções, numa esplanada, os joelhos em primeiro plano. O hotel. O porteiro, de cartola, galões e alamares. O hall do hotel. O quarto do hotel. A paisagem vista do quarto do hotel.

Cenas idênticas em Amã. Tudo tão moderno! A gente não esperava! Julgávamos… Ele a acenar num camelo. Ela escarranchada num jerico. Ele em Petra. Ela em Petra. Ele diante de um edifício escavado na rocha. Ela diante do mesmo. Eles fotografados pelo guia a apontar para uma ruína. Eles fotografados pelo guia com um casal alemão. Retrato do guia. Velhote simpático. Disse que ia fazer sessenta, mas era capaz de ter mais. A pobreza é muita, as pessoas trabalham enquanto podem. Achámos graça que há lá lojas com o nome de Indiana Jones! Souvenirs e até sandes Indiana Jones! Sepulturas. Uma caverna. Este era o chofer do autocarro. Sempre azedo e ainda por cima mal educado. O autocarro. Uma charrette. Muito engraçada, vocês estão a ver o burro enfeitado? Camelos. Polícias. Mais autocarros. Um grupo de turistas. Camelos com turistas. Mais autocarros. Mais camelos. Uma tenda de fruta. Mais uma. Três mulheres de chador. Ruínas. Rochas. Uma garota pedindo esmola. Ela dizia bakshish, bakshish, o guia é que explicou. Mais rochas. Vocês sabem quanto querem por uma garrafa de água mineral? Dois dólares e meio. Se for na moeda deles ainda é mais caro. Espera aí, que tem de se mudar a card.

-----------------------

© Fotografia de Mansour Moasher.