sábado, janeiro 31

Camiliana

São fotografias de quarenta, cinquenta anos atrás. O rapaz, contente de poder mostrar que sabe, fá-las passar em slide show no ecrã do computador, e os presentes admiram-se de ver aquelas caras que julgavam perdidas no tempo. Olha o Cestas! Olha o avô do Quim! Aquela era a tia Lucinda, não era? Antes que alguém responda já outro retrato se sobrepõe. O Perdigoto! O Mémé! A Maria Tola!

Cada três segundos cara nova, agora a de um mocetão simpático, cheio de vida.

Ouve-se um baque, a anciã desmaia e cai de bruços.

Acode-se-lhe. Os mais novos estranham o silêncio que se fez, o embaraço dos restantes, o modo como parecem evitar encarar-se.

- Pára essa merda! - diz alguém ao rapaz.

- Dar-me assim uma oura sem mais nem menos!

Os mais novos não precisam de saber. Nós, os velhos, guardamos o segredo. Ele tinha vinte e um, ela dezasseis. Nem uma semana depois do casamento já lhe tinha posto os cornos e, sabendo-o fraco, rira-se das ameaças, rira-se da pistola sem carregador, as bofetadas não lhe doeram.

Desapareceu como se a terra o tivesse tragado. Inesperadamente, ela e alguns de nós tínhamos apercebido um fantasma.

sexta-feira, janeiro 30

O Hospital

Primeiro fora, depois no rés-do-chão, tinha já dado tantas voltas no hospital que se me fora a paciência e começava a ourar. A amiga, mulher de “peso”, relacionada com uma mirabolante diversidade de gentes, talvez ajudasse a resolver o caso. Telefonei-lhe. Recomendou ela o maqueiro X ou o segurança F. Perguntei-me se tínhamos falado do mesmo assunto ou se eu começava a alucinar.

Retornei ao cubículo. O senhor simpático, de novo a folhear o caderno e separando lentamente as sílabas, repetiu que não havia nada a fazer. Eu não tinha o cartão de seguro europeu, um papelinho que todo o que habita no estrangeiro tem de ter, e sem ele...

Que lhe mostrasse os cartões das seguradoras que me seguram de tudo, e custam os olhos da cara, não o demovia. Era pagar cento e seis euros, mais a taxa de quatro euros e dez, ou não haveria consulta.

Paguei. Chamaram o meu nome. Num cubículo uma senhora simpática disse:

- Entre por ali. É o espanhol.

À minha frente, sem me ter encarado, caminhava um corpo trintão com postura de lutador de feira. Esse corpo afastou a cortina dum cubículo e, sem se voltar, gritou-me jovial:

- Senta, José!

Quase se me foi o fôlego.

- Diga-me uma coisa, você é médico?

Era médico. O que se seguiu fica para quando se fizer a telenovela do hospital.

quarta-feira, janeiro 28

"Go tell it on the mountains"


Em Janeiro de 1972 foi editado em Amsterdam. Vai na décima segunda edição neerlandesa, continua a ser vendido e citado. Trinta e sete anos passados chega à terra onde pertence. Francisco José Viegas, que o trouxe, merece o abraço.

Go tell it on the mountains.

sábado, janeiro 24

Temporal

Foi temporal. Umas catorze horas ininterruptas. Temeroso, porque por estes lados, desde as telhas às pessoas, as árvores e as antenas, as pocilgas, os muros, os galinheiros, tudo é caduco, frágil, há décadas a apodrecer. E com um vento assim, tanta chuva, desequilibram-se os idosos, voam os alpendres, a electricidade falha, cai a noite, volta a escuridão que antigamente se chamava de breu.
Um negrume que assusta, mas ao mesmo tempo chama a lembrança dos medos da infância, os melhores. Os do cinema: tremia-se no escuro, mas depois, quando as luzes se acendiam, sabia-se que tinha sido a brincar.

sexta-feira, janeiro 23

Enjoy!

Já tomou o seu banho? E o pequeno almoço? Está a pensar naquela conta que tem de pagar hoje, na conversa com o chefe, na desculpa de que precisa para dizer que ficará até tarde numa “reunião”? Enfim, o comezinho diário de preocupações, deveres, enganos, adiamentos? E aquela “campainha” a que no corrente chamamos consciência não pára de tocar, incomoda-o em demasia?

Esqueça tudo isso. Na rádio ouvi uma especialista afirmar, com a voz e a autoridade própria dos especialistas, que “no cérebro não existe localização para o eu, a ideia que temos de alma ou espírito deve ser substituída pela noção de um processo neurológico serial.”

Afirmou ainda a madame que devemos desistir do conceito da moral, pois esse nos vem do “altruísmo mútuo desenvolvido pela espécie humana, não tem a sua origem no eu, mas num universo mental que funciona independentemente do indivíduo. Devemos viver intensamente no aqui e agora, sem preocupações morais, pois essas resultam do funcionamento do corpo.”


Mande o mundo à fava. Faça um manguito às preocupações, às contas a pagar, aos colegas, ao chefe, aos sinais vermelhos, às ameaças da crise, às dores de cabeça. Enjoy! – como se diz agora.

quinta-feira, janeiro 22

As portas de Atget

Ficar de cama uns dias tem as vantagens que todos conhecemos: ir preguiçosamente passeando pelos canais da TV – a minha antena oferece mais de trezentos, até do Alaska e da Mongólia – andar pela blogosfera, ler livros que há muito esperavam vez.

Tem também alguns contras. Assim estava eu a seguir um programa sobre Eugène Atget (1857-1927), o fotógrafo francês, quando entre os vários peritos surgiu no ecrã uma senhora de meia idade, olhar severo, dedo indicador para cima e para baixo a sublinhar agitadamente a autoridade dos seus dizeres.

A uma série de fotografias de cenas de rua, seguiu-se outra apenas de portas. E a senhora, que por momentos se eclipsara, reapareceu. Ainda mais competente e autoritária.

“Atget – pontificou ela – olhava para as ruas de Paris do mesmo modo e com o mesmo espírito com que, através da lupa, o entomologista examina um insecto!”


Eu a perguntar-me se o calor que em mim aumentava seria da febre.


“As portas! Só um génio! O espectador devia atentar nas portas! Ninguém, antes ou depois de Eugène Atget, tinha fotografado portas com igual e tão sobrehumana intensidade”.


Engoli o comentário e desliguei a televisão.