São fotografias de quarenta, cinquenta anos atrás. O rapaz, contente de poder mostrar que sabe, fá-las passar em slide show no ecrã do computador, e os presentes admiram-se de ver aquelas caras que julgavam perdidas no tempo. Olha o Cestas! Olha o avô do Quim! Aquela era a tia Lucinda, não era? Antes que alguém responda já outro retrato se sobrepõe. O Perdigoto! O Mémé! A Maria Tola!
Cada três segundos cara nova, agora a de um mocetão simpático, cheio de vida.
Ouve-se um baque, a anciã desmaia e cai de bruços.
Acode-se-lhe. Os mais novos estranham o silêncio que se fez, o embaraço dos restantes, o modo como parecem evitar encarar-se.
- Pára essa merda! - diz alguém ao rapaz.
- Dar-me assim uma oura sem mais nem menos!
Os mais novos não precisam de saber. Nós, os velhos, guardamos o segredo. Ele tinha vinte e um, ela dezasseis. Nem uma semana depois do casamento já lhe tinha posto os cornos e, sabendo-o fraco, rira-se das ameaças, rira-se da pistola sem carregador, as bofetadas não lhe doeram.
Desapareceu como se a terra o tivesse tragado. Inesperadamente, ela e alguns de nós tínhamos apercebido um fantasma.

