sexta-feira, maio 30

Que faz Lisboa?

Este tempo põe-me azedo. Dias atrás fui a Lisboa em visita relâmpago. Falei com este e aquele, vi isto, ouvi aquilo, dei umas voltas…
Da chuva, dos encontros, ou do que vi e ouvi, certo é que retornei mais azedo do que tinha ido e, vingança de escritor, deitei-me a escrever com fel. Infelizmente, como nem a prosa saía direita, nem os raciocínios me satisfaziam, fui ler as Prosas Bárbaras do então jovem Eça de Queiroz. E lá encontrei as palavras para o meu azedume.

“Lisboa que faz?
Antigamente a cidade, urbs, era o lugar que pensava e que falava, que tinha o verbo e a luz. Roma criou a justiça, Atenas idealizou a carne, Jerusalém crucificou a alma... Paris, Londres, New York, Berlim, suam e trabalham, em espírito. Ela (Lisboa) não tem que semear: por isso ressona ao sol.
Às vezes, porém, comete o mal, enterrando as ideias. Onde? Na escuridão, no silêncio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira d'almas! ..... Como Roma, ela tem sete colinas; como Atenas, tem um céu tão transparente que poderia viver nele o povo dos deuses; como Tyro, é aventureira do mar; como Jerusalém, crucifica os que lhe querem dar uma alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come... Lisboa nem cria, nem inicia; vai.... Em política copia Sancho Pança... No vício é tímida: copia desajeitadamente as Babilónias distantes: aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés; apara as unhas ao Diabo; é o banho tépido dos pecados mortais... Lisboa, de noite, é tão silenciosa que quase se sente o crescer da erva que a há-de cobrir no dia das ruínas.
É tão triste, que à noite parece um arrependimento da vida!... Nas belas moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraias, em farrapos, em palhas, por toda a parte, há um vasto sono inerte e vegetal.
Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a família Vício, a gente crepuscular, os herdeiros terríveis de Lovelace e de D. Juan Tenorio?
Compram, na penumbra doméstica, o amor fuliginoso das cozinheiras; comem melancolicamente mexilhões nas tavernas; os mais pobres encostam-se às esquinas, esfarrapados e doentes, cariátides sonolentas do tédio... Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações de um peito desmaiado. Não há ambições explosivas; não há ruas resplandecentes cheias de tropéis de cavalgadas, de tempestades de ouro, de veludos lascivos: não há amores melodramáticos: não há as luminosas eflorescências das almas namoradas da arte: não há as festas feéricas, e as convulsões dos cérebros industriais...
Atenas produziu a escultura, Roma fez o Direito, Paris inventou a revolução, a Alemanha achou o misticismo. Lisboa que criou?
O fado.
Fatum era um Deus do Olimpo; nestes bairros é uma comédia. Tem uma orquestra de guitarras e uma iluminação de cigarros... Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, ressona, soluça e cachimba... Os que têm alma não querem a luz dos teus olhos... Os que têm coração não querem a carícia das tuas mãos... Tu tens a beleza, a força, a luz, a graça, a plástica, a água resplandecente, a linha magnífica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce Lisboa coroada de céu, resigna-te - a não ter alma!”

quinta-feira, maio 29

Remexendo nas gavetas (25)

Ciganos em Estevais de Mogadouro (1) c. 1938. Clique para aumentar.

quarta-feira, maio 28

Pedantice

Porque será que a entrevista de Clara Ferreira Alves a António Damásio no Expresso da semana passada me interessou e aborreceu?
Interessou-me pelos raciocínios e opiniões do cientista. Aborreceu-me pelo tom de familiaridade da jornalista – “Ao criares este instituto… Vives num lugar central do mundo… Uma vez falámos dos macacos há uns anos, num jantar em Chicago… Vinha a propósito de um estudo que a Hanna estava a fazer…”.
A você e a mim, que lemos, é-nos implicitamente dito que não pertencemos ali, nem ao círculo. Não somos dos que tratam António Damásio por tu, jantam com ele em Chicago ou, en passant, sabem quem é a Hanna.
A sublinhar essa não-pertença, a legenda da fotografia na página 3 informa-nos que “Damásio foi fotografado no Hotel Ritz”.
É que me contive a tempo, pois quase se me abriu a boca. De inveja? Não. De aborrecimento pela pedantice.

terça-feira, maio 27

"Guarda o que não precisas..."

Barbara Tuchman (1912-1989) repreendeu um dia a secretária que, tendo encontrado entre os livros da historiadora listas telefónicas dos anos 40, as queria deitar fora. Não deitasse. Nunca se sabia para o que poderiam servir.
O meu amigo começou em 1937 a guardar o que era então o “Diário do Governo”, mandando-o encadernar por tomos. Enche paredes. O “Diário da República”, que lhe sucedeu, tornou-se volumoso em demasia para o marroquim ou para as estantes, e amontoa-se em pilhas num quarto onde, por falta de espaço, se anda de lado.
Como a humidade vai desfazendo o papel e os ratos se atiram ao couro, sugeri eu, com os necessários rodeios, que talvez não fosse má ideia deitar fora os números mais antigos e os exemplares danificados.
O meu amigo reagiu como quem acaba de ouvir um sacrilégio:
- Dás-te tu conta!… Se eu, por exemplo, quiser consultar uma lei, digamos, dos anos 40…
Fui aí que Barbara Tuchman me veio à lembrança.

segunda-feira, maio 26

Veados e corças

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Fosse ele nas autoestradas de oito pistas ou noutras mais modestas, sempre me fez rir o aviso de que, dum momento para o outro, um veado poderia aparecer pela frente.
Em mais de cinco décadas a conduzir por Seca e Meca (aos olivais de Santarém nunca fui), tem-me calhado encontrar rebanhos de ovelhas e cabras, vacas, uma ou outra carroça parada na curva, mas veado…
Desde ontem à tarde deixei de rir. Na estrada que vai de Estevais às Quintas das Quebradas, onde não há avisos nem sinalização, pela primeira vez na vida saltou-me à frente do carro uma corça. Perseguida por uma raposa.
Estivesse eu sozinho, talvez duvidasse da aparição, mas tenho testemunhas: éramos três.

domingo, maio 25

Namoro

Interessante e curiosa, a forma de namoro praticada durante séculos na ilha de Texel e nalgumas localidades do nordeste da Holanda.
O pretendente entrava em casa da rapariga e os pais retiravam-se, deixando-os sozinhos. Se ela se mantinha sentada era sinal de recusa e o rapaz saía, mas se ao contrário se levantava, envolvendo-se no xaile, era porque aceitava o namoro.
Seguia-se então, durante muitas noites, uma visita que duraria horas, as mais das vezes sem qualquer troca de palavras ou de gestos. Em determinado momento a visita passava a ter lugar no quarto da rapariga, a qual se deitava na cama, cobrindo-se com um lençol, tendo à mão umas tenazes e uma panela de cobre.
O rapaz entrava e, vestido, estendia-se na cama, agasalhava-se com um cobertor, o lençol a servir de divisória entre os dois corpos. Na eventualidade do namorado se mostrar brejeiro e a rapariga não gostar, bastava-lhe bater com as tenazes na panela para que a família acudisse.

sábado, maio 24

Ladrar à Lua

Jorge Carvalheira sabe de palavras e sentimentos. Andou por desvairadas partes, mas estabeleceu-se agora com oficina em http://ladraralua.blogspot.com/.
Quem gosta de ler encontrará aí grande satisfação, e os que se querem apurar na arte da escrita terão vantagem em aprender com ele.

O Adérito

“O Kalifa”, em Mogadouro, serve um "Bacalhau à lagareiro" de qualidade superior, feitura idem, pelo que para lá me mando, a antecipar os sabores do almoço.
Estaciono defronte dos Correios.
Assombrado, o casal estacou no passeio. A mulher fica. O homem, um sessentão gorducho apoiado a um cajado, avança para mim:
- Olha que esta! Ai que caralho! Quem havia de dizer!
Indiferente ao trânsito, pára a meio da rua, abre os braços, agita o pau num modo de esgrima amigável.
- Não me está a conhecer, pois não? Ai que caralho. A minha mulher…. Não se lembra de mim?
- Francamente, não recordo.
- Caralho! Sou o Adérito! O Adérito das cerejas, caralho!
- Deve estar enganado.
- Não estou, caralho! Nós somos primos!
- Desculpe, mas…
- Sou o Adérito da tia Conceição, caralho! O Adérito…
Continua a sorrir, mas atira uma paulada raivosa ao passeio.
- O Adérito, caralho! O Adérito de Vilarinho dos Galegos! O das cerejas! O primo!
- Olhe que não. Eu sou doutros lados. Não tenho família em Vilarinho, nunca lá fui.
- Não me diga, caralho! Então enganei-me?
- Acho que sim.
- Ai que caralho! Podia jurar, caralho!...
Sorrio. Ele encara-me descrente. No outro lado da rua, encostada à parede dos Correios, a mulher acena um adeuzinho.

quinta-feira, maio 22

Corpo de Deus 2008


Para os que gostariam de estar connosco, mas estão longe. (Clique para aumentar)

quarta-feira, maio 21

Pesadelo

Era a quarta ou quinta vez que acontecia. Em geral a meio da noite, nas ocasiões em que, fisicamente exausto, caía num sono profundo.
De repente sufocava, horrorizado com as formas silenciosas que esvoaçavam à sua volta. Escapar-lhes era impossível. As rampas que tentava subir transformavam-se em muros, o que pareciam portas eram fendas, e cada passo que dava, tudo o que fazia para se defender ou fugir, apenas aumentava a insegurança e o terror.
Ouvia-se a gritar, sentindo que se despenhava, mas o que se seguia não era queda, antes algo como um desfazer, acompanhado de um profundo sentimento de desespero.
Acordava a tremer, o ambiente demorando a tornar-se-lhe familiar, saía da cama inquieto de que, se tinha gritado como supunha, alguém aparecesse a acudir.
Suspendeu a respiração e fechou os olhos, a concentrar-se, supondo ouvir passos que se afastavam, ao mesmo tempo a dizer-se que era improvável, pois naquela parte da casa só dormia ele.
Acendeu um cigarro, abriu a porta da varanda e puxou uma cadeira, sentou-se, a calma a voltar pouco a pouco, o coração menos fremente. Noite fresca, a brisa a sobrepor o cheiro da maresia longínqua ao das flores do jardim.
O porquê continuava uma incógnita, certo era que o pesadelo e a recordação se achavam como que entrançados. Terminado o horror do sonho recomeçava a tortura imparável da memória, as cenas a desenrolar-se em cronologia, vívidas, como se em vez de pertencer a um passado remoto fossem do dia anterior.

Morreu o vizinho...

Morreu o vizinho, moram lá agora os cactos.

terça-feira, maio 20

"A VERDADE!"

A pergunta de certeza é mais antiga, mas foi Pilatos que a tornou clássica.
Para mal dos meus pecados meti-me eu, em tempos, a escrever sobre paços e quintas. Agora são proprietários, descendentes, gente que sabe de genealogia, gente que sabe de História, vizinhos dessas propriedades, simples curiosos, sujeitos que informam “há anos li sobre isso no Notícias” que, sugerem uns, exigem outros com azedume, que eu escreva “a verdade”.
Fora que nem todos eles têm pé seguro na gramática, outros se embrulham nos seus próprios argumentos, e os desatinados atiram com maiúsculas e querem “A VERDADE”, facto é que essa gente me obriga a perder tempo.
Seria um alívio se alguém – não eu, a quem falta a paciência e tem o dia cheio – os pusesse ao corrente do que é a ficção literária, e os informasse também da pergunta que Pilatos fez a Jesus Cristo, e à qual Ele preferiu não responder.

domingo, maio 18

Domingo

Mulher, homem,, adolescente, idoso, jovem na força da vida: este é para você que, mesmo se o Sol hoje brilha, encara sombrio o domingo.
Domingo. O dia parado, o dia da superficialidade, das festas em que só os outros tomam parte. Dos silêncios que nenhuma música, nenhum ruído, nenhuma fala amiga enche. O dia em que se caminha sem rumo, fingindo mal um destino, pressas, encontros que não temos, companhias que inventamos. O dia da solidão que nenhuma missa conforta. O dia das xícaras de café em esplanadas cheias de alegres e ruidosos desconhecidos. O dia em que a volta a casa é uma queda no vazio.
Não se sinta só. Todos por lá passamos. As mais das vezes até conseguimos escapar às sombras, quanto mais não seja senão pela esperança que nos dá a segunda-feira.

sábado, maio 17

Para recordar

Em Estevais de Mogadouro malhava-se assim o "pão" (o cereal), que depois se amontoava na eira. Dez anos separam as fotografias (06.1930 - 06.1940), mas esse era um tempo em que nada mudava. (Clique para aumentar)

sexta-feira, maio 16

Homenagem


Longe de mim o querer brincar com coisas sérias. A minha compreensão é grande, o meu respeito maior ainda, mas por razões várias, nem todas explicáveis, há fenómenos a que sou alérgico. A cultura, por exemplo. Não a Cultura com maiúscula, que eleva os humanos e os povos, mas a cultura abusada, a de pechisbeque, a baratinha, a que dá a ilusão de enriquecimento intelectual, e é negócio da China para habilidosos.
Sobre essa alergia conversava eu com um velho amigo, quase centenário, mas lúcido de inteligência, pragmático e, velha raposa jurídica, muito capaz em rebater argumentos. Desta vez, porém, para comum surpresa, achámo-nos de acordo. Espalham-se pelo país Casas da Cultura, Centros de Memória, teatros ao ar livre, museus… Os empreiteiros sabem de há muito o que é uma pechincha, e os pobres autarcas, assustados com a leviandade do eleitorado, fazem do seu melhor para mostrar que empurram os concelhos na marcha da modernidade.
Uma vez construídos os templos culturais, e atingida a quota limite de rotundas, monumentos e fontes luminosas, chega a ocasião de procurar uma figura nativa que se preste a ser homenageada em festividades de “índole cultural”. Há sempre alguém, mas para evitar raivas e inimizades dá-se preferência aos mortos.
O meu amigo e eu falávamos de um que será homenageado dentro em pouco. Porque ninguém nos ouvia, nem era necessário respeitar conveniências, repetimos o que já noutras ocasiões tínhamos concluído: como figura certamente era respeitável (poucas o não são), mas fraquito na prosa, com umas historietas meladas e personagens toscos. Aquilo a que os ingleses elegantemente chamam “a minor writer”, um escritor menor. Na verdade, porém, comparado a outros do seu tempo, mesmo esse qualificativo nos pareceu exagerado.
Deixando em paz a modesta arte do defunto, o meu amigo contou um saboroso episódio. Em 1961, no centenário do seu nascimento, a Câmara mandou erguer-lhe uma estátua. Porém, como sempre acontece, logo essa iniciativa dividiu os notáveis da terra em campos: os que aprovavam a beleza da obra e os que, misturando razões políticas, pessoais, outras ainda, eram ferozmente contra e a achavam feia. Acenderam-se os ânimos, geraram-se inimizades. Mas não tardou a que acalmassem, levados talvez pela necessidade de enfrentar um adversário comum: “a populaça inculta”.
Essa gente rude, com um inconfundível sentido do humor e ignorante de quem seria o homenageado, atentando apenas na figura e na cor do bronze, chamava-lhe simplesmente “O Preto”.

quinta-feira, maio 15

Ficção

Logo de miúdo me descobri uma excepcional capacidade para fantasiar. Chamavam-me mentiroso e era-o, na opinião dos que não sabiam melhor, nem desejavam outras vivências, conhecer outros mundos.
Na realidade não mentia, inventava ambientes coloridos, paisagens diferentes, liberdade no ar, as praias que nunca veria. Mais tarde, com a escrita, descobri que a mentira se chamava ficção.
Curiosamente, quanto mais ficciono, mais frequente se torna a pergunta: “Oiça lá! Aquilo aconteceu mesmo, não aconteceu?”
Embora a contragosto, mas para satisfazer o desejo implícito na curiosidade, digo-lhes que sim, aconteceu. E a ficção torna-se verdade.

quarta-feira, maio 14

Encontro em Amsterdam

Da primeira vez só me apercebi que o homem sorria. Que me sorria. Da segunda, encontrando-o noutro lugar, sorriu de novo, fez um pequeno gesto como se nos conhecêssemos e eu, reconhecendo-o, sorri-lhe também.
De longe a longe cruzávamo-nos na rua, ele sorria, fazia aquele aceno amigável e passava. Um sujeito gorducho, atarracado, de idade indefinida, vestido com um sobretudo verde, dando nas vistas devido ao exíguo chapéu que parecia não ter outro propósito senão estar prestes a cair-lhe da cabeça.
Um dia veio do outro passeio a correr, direito a mim, a acenar-me que esperasse. Acelerei o passo, receoso de que tivesse começado a funcionar de novo o magnetismo com que, infalivelmente e contra vontade, atraio bêbedos e fracos de espírito.
Ele deteve-se para deixar passar um eléctrico e pôs-se ao meu lado, acertando o passo. A sorrir. E eu sorri-lhe. Caminhámos assim uns instantes, até que de repente desapareceu por entre a multidão que enchia a rua.
- É tarado - disse comigo.
Devia ser, porque uns dias mais tarde, ao tirar o porta-moedas do bolso para pagar o jornal, senti que alguém me tocava o braço. Era ele, mas sem sorriso, só com aquele modo que tinha de levantar o queixo e franzir os lábios, talvez um « Boa-tarde » sem palavras.
Aparecia, desaparecia. Aconteceu-me encontrá-lo acompanhado de uma mulher alta e gorda, em cujo braço ela parecia pendurar-se. Nessas ocasiões olhava-me de lado, como que receoso de que eu lhe falasse.
Um sábado, no largo fronteiro à estação, atravessou-se diante de mim, fazendo um grande esforço para dizer quelquer coisa. Parei e esperei, paciente, sem receio, certo de que não se tratava dum furioso.
- Chama-se Samuel?
- Não.
- Palavra que não?
- Palavra.
- Traidor! - gritou ele, antes de deitar a correr.
Houve gente que parou, suspeitando zaragata. Outros olharam com desprezo, como quem testemunha uma inconveniência.
Anteontem encontrei-o de novo. Sorridente, acertou o passo pelo meu, outra vez com aquele seu modo silencioso de levantar o queixo e franzir os lábios.

segunda-feira, maio 12

Giestas em flor

Esta tarde, entre Mós e Moncorvo (clique para aumentar)

sábado, maio 10

Gente de cidade

Desconhecidos. Encostaram o Defender ao muro do adro. Gente de cidade. Dois casais. Vestidos a preceito para quem vem de visita ao Nordeste, o Portugal profundo. Botas das que atacam os pinos dos Andes, calças com muitos bolsos, chapéus de cobóiada.
Aproximam-se sorridentes. Um estaca, fareja o ar. O outro, pergunta jovial:
- Vossemecê é daqui?
Tomo o modo humilde que a ocasião pede, e respondo que sim senhor, sou daqui.
- Isto deve ser das tais aldeias abandonadas – diz a mais magra das duas.
Confirmo. Deste lado da rua há três casas habitadas. No outro cinco.
- Só?
- Só. Aonde há mais gente é no cemitério.
Olham-me inquietos, fingem outro sorriso e voltam-se para a Conceição, que sobe a rua apoiada ao cajado.
- Vossemecê também é daqui?
A Conceição, noventa e um anos, surda , quase cega com as cataratas, não enxerga quem são, pergunta-lhes se a Filomena já voltou do hospital e se amanhã é dia de feira.
Olham-na desnorteados e encaram-me, perguntando-se talvez porque sorrio. Finalmente viram costas, dando a impressão de não apreciar a bizarria do pitoresco, e que hesitam entre mostrar-se indiferentes ou deitar a correr para o Defender.

quinta-feira, maio 8

"A Última Ceia"


Mal vai àquele a quem o mundo não surpreende. A esse respeito devo dizer que tenho sido um bafejado da sorte, pois raro é o dia em que não me maravilho com o inesperado.
Assim, ao abrir dias atrás a revista do jornal holandês de Volkskrant, e iludido pela fotografia da capa, mal cuidava eu da surpresa que me esperava.
Para quem não estiver ao corrente saiba-se que vivo entre os holandeses há mais de meio século. Como todos os povos, gozam eles de várias famas, boas e más, umas e outras nem sempre merecidas. Eu próprio confesso não ser isento de preconceitos, sendo um dos meus favoritos o de que, de modo muito geral, o holandês é o oposto do gourmet.
Nos anos mais recentes nota-se certa evolução nos hábitos. O país inteiro envaidece-se com o facto de, desde há pouco, nele haver dois restaurantes a que o Michelin atribuiu três estrelas, o que evidentemente nada diz sobre a monotonia culinária dos Países Baixos.
Pondo de lado as considerações, entremos no que interessa. Thérèse Boer (36), fotografada na capa, e o marido, são proprietários de um dos dois restaurantes citados. Ele chefe famoso, ela como anfitriã famosa também. Levam a vida que se espera dos ricos e famosos, cada um com o seu Porsche e a sua Harley-Davidson, viagens assim, festas assado…
Li a entrevista por alto, achei Thérèse Boer simpática. Dispensaria os detalhes sobre a sua vida sexual, mas ri com a cena (muito holandesa) do casal que, pelo menos uma vez, queria jantar num restaurante de três estrelas. Quando chegou a conta abriram um saco onde traziam o mealheiro e, calmamente, passaram meia hora a contar moedas. Thérèse, good sport, ofereceu-lhes o champanhe.
Mas logo depois abriu-se-me a boca. Nos últimos meses Thérèse tem notado, e o marido confirma, um bizarro fenómeno: o número crescente de pessoas que, sofrendo de doenças terminais, têm como último desejo um jantar no restaurante De Librije, em Zwolle.
Vem a família, vem o moribundo, comem, degustam, e depois choram eles, chora a Thérèse… “São momentos de muita emoção!” acrescenta ela na entrevista.
Não duvido. Para mim foi grande surpresa, esta versão moderna, mas pelos jeitos já corrente, de “A Última Ceia” .
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PS. Apropriadamente, De Librije é um arcaísmo com o significado de velha igreja.

quarta-feira, maio 7

Começo do dia

Levantei-me às seis, como de costume. Fiz a higiene que o corpo pede e fui-me a dar de comer aos gatos e aos cães. O sol nasceu. Tomei um pequeno almoço que é nada coisa nenhuma: copo de água, outro de sumo de laranja, xícara de café, tosta com uma fatia de queijo, tosta barrada de mel.
Liguei o computador. Mensagens? Zero. Spam? Duzentas e doze. Limpei. Uma oferta de “Webcam Girls for only $1 a day” que tinha escapado ao filtro, foi também para o lixo.
Alípio, o vizinho, setenta e sete anos como eu, atrela a carroça velha a uma burra mais velha ainda. Dou-lhe os bons-dias, falamos do tempo, olhamos o céu, despedimo-nos com um aceno.
Ninguém me espera. Não preciso de matar o bey de Tunis (quem ignora o que isso significa, que aprenda). Vai haver visita e almoço em família, o que preencherá duas ou três horas, mas sinceramente me pergunto o que vou fazer nas restantes. Porque tudo me desanima, e ainda nem são as nove da manhã.

terça-feira, maio 6

Verdades

Uma vez não são vezes, por isso abro a excepção, mesmo sendo o caso exemplar do que os ingleses referem como much ado about nothing, que é como quem diz: muito vento e pouco movimento.
De facto este blog teve, mas já não tem, caixa de comentários. A experiência mostrou-me as desvantagens da dita caixa, sobretudo a de dar livre entrada a tolos. Gente bem intencionada faz como o senhor Manuel de Queiroz: manda um mail e é logo atendido pela volta da internet.
Tomou ele sombra com um texto –“O Paço da Glória em Arcos de Valdevez”- que aqui publiquei em 28 de Fevereiro passado, texto esse “cheio de incorrecções e histórias fantasiosas sem qualquer base nem rigor”. Curiosamente apenas contesta o que se refere ao seu parente. É essa a sua “verdade”. A minha “verdade”é a que ouvi a lord William Pitt. A verdadeira verdade encontra-se provavelmente numa ranhura entre as duas anteriores.
Como acima digo, uma vez não são vezes. Pelo que não haverá réplica, nem discussão.
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Onderwerp:
Paço da Glória
Van:
"Manuel de Queiroz"
Datum:
Di, 6 mei, 2008 13:27
Aan:
jrentes@xs4all.nl

CC:
"Luiz Azeredo Vaz Pinto" (meer)
Opties:
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Caro Senhor:

O actual proprietário do Paço da Glória, Sr. Robert Illing, fez-me chegar um post,publicado no seu blogue em Fevereiro deste ano (que infelizmente ao contrário do quecostuma acontecer, não permite fazer comentários aos textos), sobre o dito Paço.
Porque esse texto está cheio de incorrecções e histórias fantasiosas sem qualquer base nem rigor, decidi escrever-lhe para o esclarecer e aos seus leitores, em particular em relação à figura do meu tio-avô Aleixo de Queiroz Ribeiro, escultor,Conde de Santa Eulália, que foi um dos proprietários da casa.
Segundo informação recolhida por Robert Illing na Conservatória do Registo Predial dos Arcos de Valdevez, o primeiro registo que há da Quinta da Glória é de 1730,sendo seu proprietário Francisco de Araújo e Amorim, sem filhos. Desde então até 1909 esteve esta entregue a caseiros, altura em que, sendo seu proprietário Francisco Pereira de Castro e estando hipotecada, a hipoteca foi comprada por Aleixo de Queiroz Ribeiro, escultor, consul de Portugal em Chicago, Conde de Santa Eulália.
Sobre a extraordinária figura deste artista e homem do mundo, acabo de publicar o romance "Os Passos da Glória", editado pela Bertrand. Para o escrever levei a cabo uma investigação aprofundada sobre a sua vida e o seu percurso artístico que permitiu esclarecer muitos dos equívocos e controvérsias que rodeavam o seu nome.
Por isso posso afirmar com segurança que tudo o que sobre ele diz no seu texto é falso, fantasioso e sem qualquer correspondência nos factos. Senão, vejamos:
Ao contrário do que diz, ele foi escultor e não pintor, actividade que manteve toda a sua vida com paixão, tendo estudado em Paris nas melhores escolas a sua arte durante quase dez anos . Dessa actividade resultou uma obra interessantíssima,embora hoje quase desconhecida, tanto em Paris como em Portugal e nos Estados Unidos da América, a qual vai de resto vai ser alvo de uma exposição no início do próximo ano em Viana do Castelo. Como exemplos da arte de Queiroz Ribeiro em Portugal,pode ser vista a belíssima estátua do Sagrado Coração de Jesus junto ao Templo de Santa
Luzia, em Viana do Castelo, e a estátua de Vasco da Gama nos jardins do Mosteiro de Refóios, embora esta esteja actualmente em muito mau estado de conservação.
Foi em 1902 e não em 1907 como refere, que Queiroz Ribeiro partiu para os EUA, para trabalhar na exposição de St. Louis Missouri, realizada em 1904. Em 1905 foi nomeado consul de Portugal em Chicago e em 1906 foi-lhe atribuído pelo Rei D. Carlos o título de Conde de Santa Eulália. O seu casamento com Sarah Elizabeth Stetson, viúva do multimilionário e filantropo John B. Stetson, dono da maior fábrica de chapéus do
mundo, a Stetson Hats& Company, teve lugar em 1908. A compra da Quinta da Glória,que então passou a designar-se como Paço da Glória, ocorreu em 1909, um ano depois do casamento, tendo a casa sido toda restaurada por Aleixo para aí receber condignamente a sua mulher sempre que vinha a Portugal, o que, ao contrário do que diz, aconteceu por diversas vezes, quer antes quer depois da morte do marido,ocorrida em 1917.
Elizabeth tinha dois filhos do seu primeiro casamento, os quais, após a morte dela,em 1929, herdaram as suas propriedades em Portugal, John Stetson o Mosteiro de Refóios e G. Henry o Paço da Glória. Este último, no entanto, desinteressou-se por completo da propriedade, deixando de pagar os impostos devidos, pelo que esta acabou por ir a hasta pública, tendo sido arrematada em 1937 por William Pitt.
Esta é, resumidamente, a verdade dos factos sobre o Paço da Glória e sobre Aleixo de Queiroz Ribeiro. Agradecia pois que incluisse esta nota no Blogue como rectificação ao seu texto, esclarecendo assim devidamente os leitores.

Com os melhores cumprimentos

Manuel de Queiroz

Fechos

Passo em frente desta porta desde que comecei a caminhar pelo meu pé, mas só há dias me dei conta que ela testemunha de um tempo em que nem tudo precisava fechadura.

domingo, maio 4

Os "Incontornáveis"

Em muitos aspectos fui precoce. Aos quatro anos apanharam-me deitado com a Marta, também de quatro. Para que aprendêssemos, humilharam-nos com palmadas no rabo, mas ambos descobrimos que era melhor repetir. E continuámos a fazer “porcarias”.
Aos cinco comecei a ler o jornal e teria sete ou oito quando resolvi fazer um: quatro páginas de rabiscos. Montei quiosque nas escadas de casa, a Marta e os outros esperavam vez, compravam-no, pagavam com uma pedrinha, "liam" e devolviam-mo, para que o seguinte também conhecesse o gosto da compra e da "leitura".

Fui precoce, mas devo ter ficado criança (atrasado, se quiserem) e este blog é como que a continuação do jornalzinho da meninice. Digo isto a sério, porque me dou conta de que há regras e civilidades que desconheço, e nunca aprenderei.
Nos blogs de nome, os seus autores e colaboradores atentam nos aniversários, nas efemérides, registam que o blog X alcançou o milhão de visitas, informam que o blog Y se tornou “incontornável”. Dizem-nos, com urgência, que é imprescindível tomar nota do que escreveram o Jorge, a Teresa, o Francisco, a Susana… Que a Margarida cada dia se torna mais “acutilante”. Põem-nos ao corrente de que houve jantares, jantares onde o Francisco, a Manuela, o Diogo, o Eduardo foram “absolutamente brilhantes”.
Deveria mortificar-me a ignorância das regras, o sentir que me são alheios os mundos onde as ideias esfusiam e as personalidades se tornam “incontornáveis”. Deveria mortificar-me, mas não sofro. Vale-me o ter ficado criança.

sábado, maio 3

Olá!

As formas de tratamento são, julgo eu, um interessante indicativo do desarrazoado de uma sociedade. Na nossa misturam-se o V. Exa, que se lê em facturas e na correspondência oficial, com o você com que estranhos, insensíveis às diferenças de anos, ou ao grau de familiaridade, julgam fazer moderno.
Há também os curiosos “Olá” e “Viva”, que encabeçam alguns mails de gente que nunca vimos mais gorda nem mais magra, e as bizantinices tolas do “senhor doutor”, da “senhora dona fulana” e outras assim.
Creio que foi no final dos anos 70 que Lindley Cintra escreveu um livrinho sobre as nossas formas de tratamento. Seria uma boa ideia se alguém se debruçasse de novo sobre o assunto. E boa ideia também se nos interrogássemos sobre o que se esconde atrás da bizarria das nossas maneiras.

quinta-feira, maio 1

Feliz aquele...

Feliz aquele a quem mostram um caminho e obediente o segue.
Feliz também o convicto de que foi ungido pelas forças do Alto, e que o seu destino é o de guia. Bem-aventurado o que não duvida, nem se interroga.
Ditoso o que, da nascença à sepultura, só pisa terra estranha pelo gosto de ver outros horizontes, e se apressa a retornar à sua antes que a nostalgia o mortifique.
Duas vezes malfadado o que deitou raiz em chão alheio, mas não quer, nem pode, desprender-se das que o prendem àquele onde nasceu.