quarta-feira, Abril 30

A fonte

Era a fonte que, desde séculos remotos até há uns cinquenta anos, dava água para as quase trezentas almas que então contava Estevais de Mogadouro.
Mau grado as lindas frases de património, protecção, cultura e semelhantes, é facto que o dinheiro só se pode gastar uma vez, e um Mercedes, um BMW, sempre brilham doutra forma.
A fonte, velhinha, pobrezinha, dentro em breve ruirá. Fica o retrato. Guardo os cântaros que os meus antepassados lá iam encher.

terça-feira, Abril 29

Mil palavras




São frases que se assemelham aos cabides: pendura-se nelas o que se quer, e quem as usa passa por refinado. "Uma imagem vale mil palavras" é dessas.
Quantas palavras valerá um arado? E uma vassoura de giesta?

segunda-feira, Abril 28

Viagra, Cialis, Levitra...

Uns falam de bombagem, outros que é a hidráulica, os tímidos chamam-lhe DE (Disfunção Eréctil), quem gosta de franqueza refere-se-lhe simplesmente como impotência.
Por razões várias a ferramenta nega-se ao serviço, e aí o aflito deita mão à Viagra (sildenafil), à Levitra (vardenafil) ou à Cialis (tadalafil). A esta última chamam os connaisseurs “pílula do fim-de-semana”, pois a sua acção dura entre vinte e quatro e trinta e seis horas.
Até há uns dias atrás eu só conhecia essas maravilhas da ciência por ouvir dizer e a publicidade, mas o transtorno acontecido a um amigo pôs-me a par dos perigos dessas benfeitorias quando a hidráulica deixa de funcionar.
Com namorada fogosa, e temeroso de que o atacasse a DE – os vinte anos de diferença de idade justificavam a precaução - ingeriu ele uma dose de Cialis e, à cautela, um complemento de eficácia garantida, descoberto na internet.
Houve os preliminares, mas pararam a meio deles, porque o pior aconteceu: a ferramente não somente permanecia erecta, mas começara a endurecer de tal modo, e a tornar-se tão intensamente roxa, que o meu pobre amigo, tomado de pânico, correu ao hospital.
Aí submeteram-no a um tratamento que me parece simultaneamente indigno e cómico: furaram-lhe um buraco no membro para que o sangue pudesse escorrer. E aconselharam-no a que não repetisse a asneira.
Também o informaram de que, antigamente, se supunha que 80% dos casos de impotência fossem de origem psíquica, mas hoje é mais corrente a ideia de que 80% se deve a factores como os diabetes, a tensão arterial, aflições desse género… Você, claro que não, agora aquele seu primo que toma insulina…

Depois de tudo isto lembrou-me um outro caso, mas quem quiser saber dele terá de procurar o post de 23 de Março de 2007, com o título “Cartas registadas (5)”.

domingo, Abril 27

Almoço dominical

Já passaram os rissóis de camarão, a alheira, a chouriça grelhada, a salada de polvo, a canja de galinha.
O vinho, um tinto caseiro com seis anos de adega, excede de longe o que dele se esperava. Com os filetes de pescada chega a notícia da morte súbita de uma prima idosa. Entremeando uma ou outra recordação, e comentários apropriadas à má nova, atacamos a vitela assada no forno.
A senhora da casa exagerou nas sobremesas: ele há pudim, sonhos, arroz doce, rabanadas (feitas especialmente para o conviva que gosta muito delas), salada de frutas, leite creme, pastéis de nata… Vem um Porto, fabricado numa quinta da Vilariça em 1995. Grande vinho.
E de novo se recorda a falecida, mas agora quase com ligeireza. Bebe-se mais um cálice. Fala-se da morte em geral e comenta-se que, tirando um, os sete restantes somos todos prováveis candidatos para, a breve prazo, fazermos a última viagem.
A propósito de mortes, o mais idoso dos presentes, noventa e cinco anos daqui a semanas, recorda umas quadras. Discute-se se serão do Aleixo. O mais novo quer saber quem é o Aleixo. Ninguém lhe responde.
O geronte anfitrião declama sentado:

Desde que o mundo é mundo,
Muita gente tem morrido.
Nem na Terra fazem falta,
Nem o Céu se tem enchido.

Ó Morte! Ó terrível Morte!
Eu de ti tenho mil queixas!
Quem deves levar, não levas.
Quem deves deixar, não deixas!

sexta-feira, Abril 25

Doutorices

Dia de feira. A farmácia é no centro da vila e, no espaço acanhado, há gente demais. Anciãos, a maioria. Dão a ideia de estarem ali com as esperanças, os medos e a subserviência de quem entrou no Santo Sepulcro. Acotovelam. Gesticulam.
Atrás do pequeno balcão, duas funcionárias que devem ter terminado há pouco o secundário. Batas brancas. Placas com o nome, o retrato a cores e umas palavras que não consigo ler. Quando lhes chega a vez, os idosos tratam-nas por “senhoras doutoras” , e elas atendem-nos com o ar distante e a sobranceria de quem está ali por engano e faz um favor.

Só nos separam oito anos, mas a Rosa andou comigo ao colo. Eu gosto da Rosa. Quando nos encontramos informo-me com sincero cuidado da sua saúde, oiço com paciência o rosário de achaques, recordo com ela o tempo que não volta.
Dias atrás perguntei-lhe pela neta.
- Está muito bem! Já acabou os estudos.
- E o que é que estudou? – perguntei curioso.
- É doutora das crianças.
- Pediatra?
Rosa sorriu acanhada, dizendo que não sabia bem, que talvez fosse isso. Despedi-me, contente com a nova, mas logo adiante me desiludiram:
- Pediatra? Quem to disse?
- A avó. Que a rapariga era doutora das crianças.
- Tolice! A neta da Rosa cuida dos putos num infantário.

quinta-feira, Abril 24

Tant pis!

Se o seu Francês não chega, tant pis, mas o caso é dos que vale a pena contar, porque fala de uma elegância e de um esprit que creio já não há.
Li-a séculos atrás num livro de que esqueci o título, mas onde se fazia a história minuciosa da Comédie Française.
Aconteceu no tempo de Marivaux.
O Dauphin perseguia uma actriz que, alegre e facilmente, o dava a colegas e cocheiros, mas insistia em recusar-lho. Irritado com a sobranceria, o príncipe espalhou primeiro uns boatos de que mademoiselle, embora bela e talentosa, não passava de uma vulgar péripatetitienne. E uma noite, quando ela apareceu no palco, gritou-lhe da loge royale:
- Quand? Où? Combien?
La charmante personne foi pronta na repartie:
- Ce soir. Chez toi. Pour rien.

quarta-feira, Abril 23

Boson e batatas

O céu finalmente desanuviou. Sento-me ao sol, a ler um artigo que me dá a medida do muito que ignoro e do muito que gostaria de aprender. Mas para mim a fase da escola já passou, o que me resta é a admiração pelo saber alheio.
No artigo fala-se do boson de Higgs; das esperanças que levanta o Large Hadron Collider; do Atlas, o detector de partículas que, com os seus quarenta e seis metros de comprido e vinte e cinco de altura, está ligado a cabos e fios de comprimento suficiente para dar quase sete vezes a volta ao planeta. Fala-se de partículas e massa, da incógnita do que terá havido antes do Big Bang, do mistério em que o Universo se tornou, do Higgs field….

Estou, pois, a ler estas coisas, em demasia esotéricas para quem sabe pouco, quando o Alípio, meu vizinho, pára, acende o cigarro, e me traz de volta ao mundo a que pertenço:
- A merda da chuva foi demais! Estragou-me as batatas. Vou ter de semeá-las outra vez .

terça-feira, Abril 22

Fujo? Não fujo?

Sem as facilidades da internet seria difícil saber de mim, mas ela procurou, encontrou-me e agora…

A recordação é vaga. Do seu corpo, feições, modo, o que ficou é tão esfumado que nem sequer daria para fazer um daqueles retratos de composição que a Polícia mostra na tv. Lembro que era petite e terna. O seu nome...?
Uma entre milhares de mocinhas sul-americanas endinheiradas que, nos anos 50, enchiam a Rive Gauche, em busca de noções de Francês e romantismo. Francês e romantismo são aqui eufemismos de cópula.
Lembro dela, sim, o carácter em extremo libidinoso e as refinadas técnicas em que era perita, focadas todas para o máximo de prazer e salvaguarda de la virgindad. Porque essa guardava-a ciosamente para ofertar na noite nupcial.
A nossa relação terá durado quê? Duas semanas? Um mês? Dois? Não faço ideia. É coisa distante já de cinquenta e seis anos.
Este detalhe forneceu-mo ela semanas atrás, num inesperado mail. Tinha-me procurado no Google. Quis saber se a recordava, e tive de ser franco. Desde então seguem-se mails diários com a história pessoal, a história familiar, os casamentos, os divórcios, os netos…
É colombiana de Bogotá, mas também vive em Caucun e Miami. Em onze anos escapou a dois cancros sofreu catorze operações, salvou-se de uma aterragem forçada do seu próprio avião. Dos acidentes de automóvel perdeu a conta.
Por qualquer motivo ocorreu-lhe que gostaria de rever Paris e de me reencontrar. Os planos tem-nos prontos: na segunda metade de Maio estará em França. Atravessará de seguida os Pirinéus, a caminho da província de León e de um pueblo onde quer procurar as suas raízes, pois daí emigrou um trisavô.
Esse pueblo, sabe-o ela, descobri-o eu com susto, vindo pela Barca d’Alva fica a uma escassa hora de Estevais de Mogadouro.

Recapitulando: quase oitenta anos, dois cancros, catorze operações, acidentes sem conta, aquela história de la virgindad… E um detalhe que acima esqueci: a senhora escreveu dois livros de poesia que me vai oferecer, ambos já com dedicatória.

Fujo? Não fujo?

domingo, Abril 20

O "sabonete" da Vodafone



Da publicidade conhecêmo-la de sobejo, a cena de raparigas dinâmicas e jovens despachados que, em esplanadas de luxo, xícara de café à mão, o portátil em frente, comunicam wireless e sorridentes com o resto do mundo.
Isso acontece onde há chique, civilização, e densidade de rede. Aqui, no extremo do Nordeste transmontano, outro galo canta.
O jovem e competente técnico da Vodafone não se exprimiu assim, mas o que disse veio a dar no mesmo. Por estas bandas, informou ele, não é questão de deixar displicentemente o “sabonete” ao lado do portátil, sim de segurá-lo alto, de forma a que ele “apanhe” a antena.
E porque a antena mais próxima se encontra nos fundos de Freixo-de-Espada-à-Cinta, a uns vinte quilómetros daqui e muitos montes pelo meio, além de elevar o “sabonete” é preciso orientá-lo na boa direcção.
Experimentei, mas a melhoria do resultado não justifica o desconforto.
Como sempre, quando é pouca a esperança de atendimento, o remédio será pedir a Deus ou aos senhores que mandam.

sábado, Abril 19

Desabafo


Estou a falar consigo. Sim, consigo. Não se assuste, de juízo vou bem. Só me pergunto em que estado de espírito se encontrava para vir até aqui. Curiosidade minha.
Porque, pela minha parte, o estado em que me sinto não é dos melhores. Há mais de uma semana que para estes lados chove, uma repetição do momento em que o Todo Poderoso recomendou a Noé que preparasse a Arca. E eu detesto chuva. Detesto ainda mais a combinação que dura desde a madrugada: chuva e vendaval.
Tenho prosa séria para acabar, mas não consegui fazê-lo ontem nem hoje. Amanhã também não vai ser e na terça idem. Talvez quarta-feira. Se aguentar até lá.
Estou a falar consigo, mas como chamar a uma “conversa” assim? Diálogo? Que diálogo? Monólogo? Finjo que não é.

O cão entrou a pingar. Sequei-o, e ele, consolado, deitou-se no soalho, adormeceu dum pronto. Talvez seja melhor ir-me também à cama, se bem que o relógio da igreja tenha dado as nove há pouco.
Oiça, desejo-lhe uma noite de bom sono. Desculpe o desabafo.

sexta-feira, Abril 18

Batatas cozidas

Em 1940, quando os tempos eram simples, o meu amigo, então jovem delegado no tribunal de Mogadouro, deslocou-se um dia em serviço ao Vimioso, acompanhado de um colega.
Para quem sabe pouco de terras e usos, diga-se que Vimioso fica no nordeste transmontano, mais ou menos a norte de Mogadouro e, também mais ou menos, a meio caminho entre Miranda e Bragança. Os transmontanos destes lados não vão a Vimioso, mas ao Vimioso.
Saídos a cavalo de madrugada, chegaram ao destino à hora do almoço e, quando perguntaram onde se comia, indicaram-lhes um estabelecimento de curioso nome em tempo de ditadura: a Pensão Liberdade.
Recebeu-os a dona:
- Almoço para dois? Não posso! Tenho cá o chefe da Tesouraria, o tenente da Guarda e o doutor Pedro… Só faço almoço p’ra eles.
- Mas não nos arranja uns bifes com umas batatas fritas?...
- Ai! Batatas fritas! Ao preço que o azeite está!...
- Mas oiça!...
- Batatas fritas neste tempo! O azeite!... Quem o pode pagar?...
Demorou a transacção, mas finalmente aceitou ela grelhar a carne, concordaram eles que as batatas fossem cozidas.

quinta-feira, Abril 17

Franqueza

A nossa amizade vem de longe e vou visitá-lo porque, acamado há meses, não tardará a finar-se. Entro no monólogo hipócrita que a situação pede. Que está com boa cara. Há-de passar. Cada dia aparecem medicamentos melhores, e os médicos, por muito mal que se diga deles, não há dúvida que sabem mais do ofício do que os de antigamente.
Ele olha absorto, prolonga o silêncio, e dispara esta:
- Com a tua idade também não hás-de ir longe.

domingo, Abril 13

Natureza





Aqui na aldeia são entre seis e oito os cães, de dez a treze os gatos a quem, uns dentro, outros em volta da casa, damos cama e mesa farta duas vezes ao dia. Roupa lavada têm-na eles da natureza. Da natureza têm também o forte instinto da caça, que os ajuda a sobreviver nos meses da nossa ausência.
A cadela apareceu por baixo da varanda a arrastar bicho grande. Cabeça já não tinha, mas a ajuizar pelo rabo e o pêlo, filhote de raposa. Comeu-o sozinha, quase inteiro. Os outros deitaram-se às sobras, e em menos de um quarto de hora desapareceu tudo.

sábado, Abril 12

Viagem à Guiné

Pergunta ele:
- Terá a gente de rir, ou será melhor chorar, que alivia mais?
Respondo-lhe que só o sabem Deus e o Diabo, e ambos nos deixam no mesmo escuro.

Trinta e cinco anos e vinte e sete dias depois de voltar salvo e meio são da Guiné– quando fala da guerra abre a agenda – o meu amigo retornou com os camaradas, para uma dessas reuniões de veteranos e reconciliação.
Conta que houve discursos, abraços, excursões, comezaina. Os de lá a explicar em detalhe como faziam as armadilhas onde os nossos caíam e morriam.
- Ao ouvir aquilo vi os três rapazes do meu pelotão que não escaparam, e a vontade que me deu… Mas de repente começaram a bater palmas… Olha!… Pus-me a bater palmas como os outros.

terça-feira, Abril 8

Falange, falanginha, falangeta

Balofo, encorpado, mediano, tem o olhar morto da inteligência curta. É advogado. À boca pequena dizem-no campeão da perda de causas, e de facto raros são os clientes. Mas tem de seu, e a mulher há vidas que arranjou uma choruda sinecura.
Desloca-se a passos lentos. Se vira a cabeça é au ralenti. Antes de cumprimentar alguém dá a impressão de no seu cérebro se processarem morosas avaliações, que de seguida o levam a estender uma mão flácida. Sorri com um franzir de boca, os olhos parados.
Aflige-me vê-lo. Não pela aparência física – cada um é como Deus o fez – nem sequer pelo modo, mas por um único detalhe: Verão ou Inverno, de sobretudo, casaco, ou em camisa, as mangas do seu vestuário alongam-se até à falanginha, parecendo que lhe deceparam os dedos, e que o que mostra são os tocos.

domingo, Abril 6

Beijos de despedida em Beijós

No blogue de um semi-ateu (na minha idade tomam-se destas cautelas) um texto como o que segue pede explicação.
O padre José Júlio tem muitos e bons amigos e um deles, meu amigo também, quer que se conheçam urbi et orbi as excelentes qualidades deste pastor das almas.

Mensagem de despedida de Pe. José Júlio Almeida das comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós (*)

1 de Abril de 2008

Um certo dia Ele desafiou-me a O amar, depois a O reconhecer e, por fim, a O servir ... Ainda que um pouco jovem, inexperiente e nervosissimo foi assim que respondi ao desafio e cheguei às comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós. Deixei-me seduzir por este amor de Deus, que toca e inquieta os corações, que vai ao mais recôndito de nós mesmos e nos chama a servir. O serviço é uma resposta de amor ao Amor que nos sai ao encontro. Por isso mesmo, a verdadeira medida do ser humano não se mede pelas suas capacidades intelectuais, mas sim pela sua disponibilidade para escutar o chamamento e de lhe responder. Fui ordenado Sacerdote, no dia 04 de Setembro de 2005, pelo D. António Marto, em Ribolhos. Esta ordenação não foi feita para mim, mas para servir: servir a Igreja (universal); servir a Igreja de Viseu; e servir-vos a vós, comunidades de Cabanas de Viriato e Beijós.
"Fiz-me tudo para todos", foi 0 lema que escolhi para a minha ordenação Sacerdotal. Este lema não foi escolhido só para aquele momento da ordenação, em que coloco todo o meu sentir e viver nas mãos de Deus, mas é o lema que me acompanhará para toda a minha vida. Cheguei sem saber o que iria encontrar, sem saber o que poderia acontecer, trazia na bagagem a expectativa, o receio, o entusiasmo, a alegria e a aventura de servir Cristo. Não conhecia as terras e muito menos as pessoas, sentia-me um desconhecido na imensidão de gente que me acolheu na tarde do dia 02 de Outubro de 2005. Depressa conheci os lugares, as casas e as pessoas, rapidamente me trataram como amigo. Aceitaram a minha maneira de ser, de estar, de sorrir, de brincar, de levar Cristo ... Agora a bagagem tornou-se bem pesada, recebi mais do que dei e levo um coração cheio de amigos que nem a distância fará esquecer. Resta-me pedir para que acolham 0 Pe. Valmor tão bem como me acolheram a mim, que o tornem da vossa família, para que ele sinta a mesma alegria e o mesmo entusiasmo que senti e vivi neste tempo que estive convosco. Um profundo abraço amigo às comunidades de Cabanas e de Beijós.

Pe. José Júlio

(*) in Farol da Nossa Terra

Despedida

O silêncio prolongava-se, pousaram os talheres quase em simultâneo.
- E agora? De que vamos falar? – perguntou ela, zombeteira.
Encarou-a absorto, como se interrompêsse um pensamento:
- De ti. Vou-te deixar.
No restaurante a gargalhada fez virar algumas cabeças.
- Deixar-me? Como assim se te não pertenço? Se somos só amigos?
- Pertences. Não sabes, mas pertences. Há meses que és minha amante. Virtual, mas nem por isso menos amante.
- Estás a brincar!
- Não estou.
- Ouve lá… Dás-te conta que…
- Não me quero dar conta de coisa nenhuma. A verdade é que…

O empregado veio com a sobremesa. Voltaram a silenciar. Depois, ambos acanhados, conversaram sobre ninharias. A verdade nunca ele lha diria. Ela tãopouco desejava sabê-la. Tinham-se amizade, o que por vezes é uma forma de desconhecimento.

sexta-feira, Abril 4

"O General"

De seu nome era Olímpio, de alcunha “O General”. Diminuto na estatura, assanhado no génio, por um nada apontava caçadeira à cabeça do que o tinha azedado:
- Diga lá isso outra vez!
O outro calava-se ou pedia desculpa , a coisa ficava por ali.
No casebre longe do povoado, onde viveu meia vida, entre desmanchos e filhos a mulher terá parido uma dúzia. Sozinha, sem ajuda, porque ele, mal começavam as dores e a gritaria, atirava-se ao garrafão para esquecer que seria mais uma boca a sustentar.
A velhice trouxe-os de volta à aldeia. Os filhos voaram à procura de melhor ninho, os anos passaram, ela foi a primeira a morrer.
Sentado à porta de casa, à espera do que não vinha, colocava mais duas cadeiras na rua, uma à sombra a outra ao sol, e ia mudando de poiso ao sabor da temperatura.
De vez em quando conversávamos. Contava coisas de uma vida que, de tão árdua, se diria irreal, imaginada, uma pobreza que seria melhor esquecer que recordar. Mas o senhor Olímpio conseguia sorrir, agora estava tudo bem melhor. Queixar-se, só o fazia do incómodo que lhe traziam os anos, o reumático, a artrose, os intestinos, a coluna…
- Mas olhe que também sinto falta da minha mulher! É que sozinho custa-me muito calçar as meias.

Faleceu em Janeiro. Herdei-lhe o cão. Lá onde está sabe que acarinho a sua memória.

quarta-feira, Abril 2

Patrioteiros

Se me não engano a palavra e o conceito foram criados por Eça na famosa carta a Pinheiro Chagas. Patrioteiros abundam, e tenho conhecido muitos, mas de todos esses o mais desvairado era o cônsul de Portugal em Amsterdam, no início dos anos 60.
A ele ouvi, mais de uma vez, esta inefável afirmação de amor à pátria lusitana:
"Quando os holandeses começam a criticar-nos.... Que somos pobres, que não temos isto, não temos aquilo... Pouca indústria... Eu atiro-lhes logo que em Portugal até os urinóis são de mármore e bebe-se lá a melhor xícara de café do mundo!"

terça-feira, Abril 1

Zangas

“A tua preocupação é inútil. Estou habituado a cair e, de uma maneira ou doutra, sempre me levanto. É certo que me magoo na queda, mas as manchas da alma, como as do corpo, cura-as o tempo, esse eterno benfeitor. E não esqueças o que ontem te disse: segredo de dois não é segredo.”

Olhou o écrã, releu o texto do mail que ia mandar. Achou-se tolo. Apagou-o.
Tinha-se inventado uma amante virtual, mas mesmo com essa, em vez de paixão eram só zangas.