quarta-feira, fevereiro 28

Diários

Há diários importantes, e os que são apenas interessantes. Há-os íntimos, alguns dolorosamente francos, outros mascarados. Os que são escritos para ferir, e os que são escritos para recordar.
O meu, suponho, cabe mal nas categorias acima, pois menos que uma anotação de factos e pensamentos, o vejo, sobretudo, como um anseio de conversa.
A conversa que me imagino a ter com alguém de carne e osso, numa dessas amizades com empatias sincrónicas e harmonias duradouras. Amizades ideais que de certeza alguns ressentem e mantêm a vida inteira, mas que a mim não couberam. E nesta altura é improvável que me venham a caber, pois a idade - pelo menos no meu caso - à medida que aumenta a impaciência e o sentido crítico, vai reduzindo a capacidade de desculpar.
Que isto é meio caminho andado para a solidão, sei-o de há muito. Mas tanto quanto dela tenho experiência, também aprendi que os males da solidão são relativos, pois com livros e fantasia é que se criam mundos à medida do nosso sonho. O que não impede que o sonho seja faca de dois gumes: nas satisfações que dá pesa sempre a impossibilidade e, ao acordarmos dele, a ânsia do que se não possui ou se não alcançou dói ainda mais fundo.

terça-feira, fevereiro 27

Writer's block

Creio que nunca sofri de writer’s block. Sim de preguiça. Geralmente disfarçada sob a capa de argumentos filosóficos e especulações existenciais. Que adianta o meu escrever? Que alcanço com ele? Quem aguarda ou se interessa pelo que escrevo?
Passados os momentos sombrios lá retomo a escrita, evitando quanto posso essas e outras perguntas, pois doutro modo facilmente caio na apatia, a qual, na minha natureza, ocupa mais espaço que o dinamismo.
A escritor de fama nunca chegarei. Cabe-me a satisfação de ter escrito umas quantas frases que não são de todo desalinhadas, a alegria de saber os meus livros numa ou noutra estante, a vaidade de de vez em quando receber um elogio.
A alguns parecerá muito, outros acharão escasso. Eu, que enterrei uns restos de ambição que tinha, que à custa de desilusões aprendi a esperar pouco, aceito contente o que me cabe. E vou escrevendo. A horas certas. Mais artesão ou funcionário do que artista, pois nunca me senti inspirado, nem tenho rituais que me facilitem a escrita.
Vou vagarosamente linha a linha, página a página. É o meu trabalho, o meu destino e, muito de longe a longe, motivo de alguma euforia.

segunda-feira, fevereiro 26

A cegueira da paixão

Na rua são um casal como há milhões. No trato, porém, distingue-se ele pela inteligência, a sensibilidade, a vastidão da sua cultura, o espírito sequioso de aprender. A mulher, por sua vez, em tudo se mostra mediana. Numa fala arrastada exprime opiniões cautelosas de lojista, conversar com ela não é um pingue-pongue de argumentos, mas um cansativo atirar de bolas que, ao tocar-lhe, perdem a elasticidade.
A verdade manda confessar que a acho antipática. Feições, atitudes, sorriso, corpo, o olhar, tudo nela me desagrada. Na sua presença involuntariamente dispara no meu íntimo o alarme de um desagrado irracional e, só esforçando-me, consigo afectar o modo neutro que lubrifica os contactos sociais.
O que em ambos me fascina é o mistério. Ele não somente a ama, mas vota-lhe uma adoração extrema. A tal ponto que, quando ela fala, o cérebro como que lhe entra em curto-circuito, desligando a agudeza do seu intelecto e a finura da sua sensibilidade. Vêmo-lo então literalmente babar-se, os olhos presos nela com uma intensidade de islamita fanático que escuta as verdades do Profeta.
Todavia, o fanatismo que lhe atribuo talvez não seja assim tão intenso e profundo. Quando a mulher está ausente e a conversa recai sobre ela, desata ele num rosário de elogios, tantos e tão exagerados que, sem querer, trai o receio de que alguém a critique ou minimize as suas qualidades. Dá a ideia de que evita encontrar-se entre a espada e a parede, de se ver obrigado a escolher entre a agudez do seu intelecto e a cegueira da sua paixão.

sábado, fevereiro 24

O ex-maoísta

Estava a caminho de se tornar estrela da política e, mau grado os seus trinta e poucos anos, tomava então já os ares, tinha o discurso e usava os fatos que anunciavam o futuro estadista de peso.
Mas de vez em quando, no afã de manter a pose, descuidava-se e tinha uns deslizes. Nada de grave. Alguns deles, a revelar o seu desejo de “envelhecer” para que o tomassem a sério, até o tornavam simpático.
Assim, numa entrevista, insistia ele na "experiência acumulada nos vários areópagos internacionais em que tenho participado".
Conferências, reuniões ou congressos, deve-lhe ter parecido pouco.
Areópagos!

Ingenuidade e igualdade

Questão de boas maneiras, empatia, concordância de opiniões, num primeiro contacto oferece-se-lhes aquele intimidade espontânea que vem do coração. Alguns compreendem-no, reagem do mesmo modo, e assim nascem, senão amizades, pelo menos aquelas relações que tornam agradável a vida em sociedade.
Outros, porém, vêem na simpatia que inesperadamente recebem uma tibieza e, talvez por instinto animal, logo em coisas diminutas dão mostras de nos quererem torcer, dominar.
De começo envolvem as suas manipulações em sorrisos e cortesias, mas à medida que avançam permitem-se umas gotas de veneno, uns toques de sarcasmo, um arranhar de unhas. Até que ousam passadas mais largas: escreveste isto, era melhor teres escrito aquilo; fizeste assim, devias ter feito assado... É o momento de travar e, porque sempre vão longe demais, da irremediável separação.
- Mas vocês eram amigos!
- Penso que não. A verdadeira amizade pressupõe ingenuidade e igualdade.

sexta-feira, fevereiro 23

Os elefantes

O homem disse ao filho para que me telefonasse. Não nos conhecemos, o que para o caso não interessa, mas é compatriota, está aqui há muitos anos, viu-me na televisão e leu alguns livros meus, sofre de um cancro, pouco tempo lhe resta de vida.
Acontece que num desses livros se recorda de ter encontrado uma frase que o comoveu, era sobre os elefantes que se isolam para morrer, ou coisa parecida. Essa frase gostaria ele que fosse lida no seu enterro e gravada depois na campa.
Poderia eu, pergunta o filho, citar a frase por inteiro?
Atarantado com o pedido e as circunstâncias, respondo-lhe francamente que a não recordo, mas a minha memória começa a enfraquecer, é bem possível que a tenha escrito. Que me deixe o número do telefone e prometo que vou procurar.
Começo pelos textos que guardo no computador, os dos últimos vinte anos. Folheio os livros que escrevi. Procuro nas páginas com passagens sobre a morte, sobre a velhice, a saudade, o abandono. Em nenhuma encontro referência a elefantes.
Isto foi a semana passada e ainda procurei umas quantas vezes. Sem resultado. Telefonei para o número que o rapaz me dera, mas ninguém atendeu. Hoje telefonou ele e tive de lhe confessar não ter encontrado a frase que me pedira.
Passado um momento de silêncio conta-me que o pai faleceu e o enterro será depois de amanhã.
Sem saber como reagir, murmuro umas palavras de condolência. Pouso o telefone. Toma-me um mal-estar em que se misturam a exasperação de ter falhado e o tédio de que qualquer anónimo possa dispor de mim.



Amar menos

Ela diz:
- Sinto que o amo menos agora do que há três anos, quando voltámos para a Holanda.
Aceno compreensivo, mas no íntimo pergunto-me: entre amar menos e já não amar, qual é a diferença?

quinta-feira, fevereiro 22

Peúgas

Estamos sentados defronte um do outro. Numa monótona litania queixa-se ele de que a vida não lhe deu o que esperava, queixa-se do sogro, do preço da gasolina, da incapacidade do governo, do vizinho, que deixa um garnisé à solta no jardim.
A minha atenção começa a desprender-se da conversa e a deslizar para a bizarria das suas peúgas.
Ele tem aquele hábito deselegante de repuxar as calças, pondo à mostra um bocado de perna esbranquiçada, lisa como de mulher, duma magreza em que a tíbia parece ir furar a pele.
As peúgas fascinam-me. Cor de rosa, metidas nuns sapatos de um matiz indefinido entre o castanho e o sangue-de-boi.
Será daltónico? Excêntrico é-o de certeza, mas a sua escolha do colorido, sobretudo o das peúgas, toca o aberrante. Com fato preto, usa-as de um azul desbotado. Veste calças vermelhas, são as peúgas amarelas, outras vezes roxas. No Verão anda de calções verdes que lhe descem até ao joelho, e fazem um inesperado contraste com as meias cor-de-laranja.
Continua a queixar-se. Agora das atrocidades dos afgãos, dos morticínios na Argélia, do perigo de uma bela manhã acordarmos cercados de muçulmanos rabiosos.
Não consigo evitar o bocejo. Levo a mão à boca, esboço um sorriso de desculpa. Ao reparar que os olhos se me prendem de novo às suas peúgas, ele interrompe os queixumes, diz-me que são feitas de uma mistura de algodão e seda, o que lhes dá aquele brilho. E num gesto faceiro revira a perna:
- São bonitas, não são?

quarta-feira, fevereiro 21

Sonhos

Um folheto na caixa do correio:

A. Sarany - Médio do Oculto - Vidente - Poder herdado do bisavô. Eficaz na resolução de problemas amorosos. Retorno imediato da pessoa que o/a abandonou. Protege contra a impotência sexual e contra a infecundidade. Dá sorte para a angariação de clientes, para ter êxito nos exames, nos negócios, em todo o género de actividade, etc... etc... Trabalho sério, com resultado garantido. Pagamento após o resultado. Telefone ainda hoje e marque o seu encontro.

Resultado garantido! Retorno imediato dos que nos abandonaram! Vade retro impotência! Êxito em todo o género de actividades!...
Quanto daria eu para ter fé, sonhos simples e um monte de ilusões!

terça-feira, fevereiro 20

Impaciência

Sem ser o que se chama um bicho-de-buraco, também me não posso considerar medianamente sociável, pois fora possuir uma capacidade limitada para o convívio, a minha paciência suporta mal a maioria das conversas.
Francamente, não me interessa saber o que este e aquele ressentiram ao visitar as Pirâmides, ou qual é agora o preço do capuccino nas esplanadas dos Champs-Elysées. Menos ainda que na praça de São Pedro, com vinte e cinco mil outros, tenham recebido a benção do Santo Padre. Que a sogra tenha sido operado a um quisto no pescoço ou que, devido à escandalosa subida dos preços, já não valha a pena comprar casa de férias na Dordogne.
De visitas são poucas as que gosto, mas os jantares, que sempre me foram um momento agradável do dia, nalgumas ocasiões, e com certos convivas, estão-se-me a transformar em martírio.
Fadiga da idade, impaciência inata, o caso é que as mais das vezes, depois de horas à mesa, não consigo evitar que o meu rosto revele o aborrecimento, que os olhos procurem o vazio, o cérebro se me enevoe e a língua recuse tomar parte na conversa.
Transformo-me num macambúzio anfitrião, o que pelos jeitos não afecta esses hóspedes. Indiferentes ao meu humor, eles continuam a contar do Papa e da Dordogne, e do quisto, e da má qualidade da hortaliça, e do que viram ontem na televisão... Incansáveis, repetem as Pirâmides, o preço do cappucino, recordam a pontada que uma vez lhes deu à saída do teatro, remoem os seus pequeninos interesses. Mostram as botas que, regateando, compraram em Lisboa por dez réis de mel coado. Desfiam com minúcia as razões da queda do índice da Bolsa...
Duas, três, as horas arrastam-se, a minha cabeça oura, revira-se-me o estômago, falta-me o ar. Sinto-me exausto, derreado pelo contraditório esforço de permanecer cortês e disfarçar a misantropia.

segunda-feira, fevereiro 19

Operation Sunshine

Dos princípios do século 18 até à minha juventude, nos governos do mundo inteiro os departamentos encarregados de atacar, bombardear, incendiar, conquistar, saquear e matar, chamavam-se francamente ministérios da guerra.
Mas após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos não somente impuseram a sua supremacia militar e política ao resto do mundo, como espalharam uma moda de curiosos eufemismos. Os ministérios que tinham sido da guerra tornaram-se da defesa, e os bombardeamentos, nucleares ou clássicos, passaram a ser baptizados com nomes românticos, como Operation Sunshine, Operation Rainbow, Operation Dawn, o que, se não faz esquecer as destruições e as vítimas, até certo ponto abranda o seu impacto na opinião pública.
Constata-se também outra curiosa mudança, a da atitude em relação à guerra. De cada vez que as bombas matam civis, logo os media e os cidadãos em redor do mundo reagem enfurecidos contra semelhante atrocidade, exigindo que, se tem de haver vítimas, elas sejam exclusivamente militares.
Por certo sonham que um dia a guerra venha a ser como nos filmes: sem mortos de verdade, só a fingir.

domingo, fevereiro 18

O bigode

Talvez seja o hábito. Talvez seja a ilusão de que isso traria dano ao aspecto físico que construí de mim próprio. Ou à imagem que os outros têm de mim. Pode ser também que, longinquamente, se esconda aí qualquer coisa semelhante ao medo da automutilação ou, mais prosaico, o vago desagrado que cada mudança causa.
Um dia, haverá meio século, por simples brincadeira deixei crescer o bigode e, desde então, esse peludo atributo continua a ornar o meu lábio superior.
Em geral não reparo nele, mas quando me parece farfalhudo, aparo-o com o automatismo distraído com que me barbeio. Uma vez por outra, quando a introspecção se alarga dos pensamentos ao exame crítico do meu rosto, pergunto-me porque carga de água jamais deixei crescer tão ridículo enfeite.
Julgando que definitivamente decidi, aproximo a lâmina, pronto para o golpe de misericórdia. Hesito. Imagino-me sem bigode, um estranho para mim próprio. Toma-me um desconforto, uma vergonha igual à de uma súbita nudez. Paro. Durante um momento dou-me a ideia, falsa, de que peso prós e contras. De seguida, com a severa determinação dos que incessantemente duvidam, decido que o corte se fará. Não desta, mas noutra altura.

sábado, fevereiro 17

Bruce Chatwin

Não há duvida que Bruce Chatwin (1940-1989) era mitómano fora de série. Excepcional também na originalidade da sua escrita, enfeitiçando o leitor, a quem geralmente pouco importa qual a parte do real ou da ficção nos livros que lê.
Alguns críticos, porém, mais funcionários das letras que leitores argutos, não apreciam a liberdade da criação, nem o descaso que Chatwin fez do cânon literário, e repreendem-no por não ter escrito “a verdade.”
Eu, que já aos oito anos ia de submarino e de zepelim à África, que acompanhei Tarzan na selva, lutei contra os pigmeus e, no Mar da China, fui tripulante do prau de Sandokan, "o tigre da Malásia", não compreendo o azedume dos críticos. Que verdade querem eles?

quinta-feira, fevereiro 15

Pessoa? Personagem?

O que foi alegria, excitação, entusiasmo, tornou-se aborrecimento e desânimo. Hoje detesto viajar. Entro nos aeroportos com a fúria impotente de quem se vê obrigado a ser do rebanho.
As intermináveis esperas, o ar de artifício que toda aquela gente tem, uns disfarçados de turistas, outros a fingir de homens de negócios, de aventureiros, mais os papalvos, os aflitos, os de ar blasé... Espectáculo deprimente.
Entro no avião e raro escapo a um pensamento macabro: antes de me sentar, olho em volta, examino os rostos, as expressões, pergunto-me se me importaria morrer na companhia de semelhantes figuras.
A resposta é um terminante sim, e tem por consequência a reconfortante certeza de que Deus, para me chamar a si, escolherá outra ocasião e companheiros menos trombudos.
Um mês de ausência não é uma eternidade e, contudo, mudar em poucas horas de Estevais para Amsterdam, de uma casa para a outra, mudar de língua, de ambiente, hábitos, horários e obrigações, dá-me a impressão de que, pelo menos uma destas duas vidas que vivo não é real, mas um papel de teatro. Que numa delas não sou pessoa, apenas personagem. Alguém que, involuntariamente, de si mesmo cria um duplo e o vê agir sem compreender que razões o movem, ou a que fim se dirige.

quarta-feira, fevereiro 14

Dois momentos

Ele aperta os lábios, como quem fala em itálico, e lecciona que no blog e no post são elementos essenciais a rapidez, a concisão, o punch. Com a minha idade eu deveria saber isso. Textos como os que aqui ponho são demasiado longos, dum conteúdo irremediavelmente arcaico.
Respondo-lhe, frouxo, que não está no meu poder rejuvenescer-me. Esqueci-me de acrescentar que cada pássaro canta conforme o bico que Deus lhe deu.
…………………..

Imre Kertész (Nobel 2002) entrevistado na TIME desta semana:
"What is your workday as a writer like? If you recorded the day in a life of a writer you would be disappointed. He makes coffee, he looks out the window, he does everything but write. But despite these everyday failures, something still comes out of it."

terça-feira, fevereiro 13

No século XX A.D. (2)

O estado da nossa casa é lastimoso. A parede do lado do monte, abaulada, ameaça ruir. O telhado, com as mesmas telhas de há oitenta anos, é uma lástima. Quando chove temos de andar dum lado para o outro com bacias e bacios. Nos cantos, as paredes interiores apresentam rachas por onde cabe um braço. São tão grandes as frinchas das janelas, que em dias de vento é como se estivéssemos na rua. A pintura das paredes, desbotada, dá-lhe um aspecto de ruína. O soalho empenou...
À boa maneira portuguesa, os meus pais raro se preocuparam com a sua manutenção. Fizeram um quarto de banho, em cinquenta anos pintaram-na de novo uma só vez, e acharam que estava tudo perfeito. Buracos, frinchas, telhas partidas? As tábuas do soalho comidas do caruncho? Niquices.
Eu, à boa maneira portuguesa, também não me mexi. Incomodava-me o desconforto, o aspecto deteriorado, a ameaça de desabamento. Mas quê?... O tempo de férias passa depressa, há sempre outras urgências a atender, amigos a visitar, compromissos a cumprir... Para o ano se verá.
Simplesmente, o estado da casa é tal que, ou se lhe atende já, ou na próxima visita encontraremos desabadas as paredes que o meu avô Rentes com as próprias mãos construiu, para que o neto, então ainda longe de nascer, tivesse um telhado para se abrigar.
O senhor Moita vai falar a dois ou três empreiteiros e eu, contra vontade - desde criança as repartições portuguesas causam-me um indizível temor - vou à Câmara de Mogadouro requerer a licença.
Pergunto na secretaria. Dizem-me que é no andar de cima, nas Obras. Engano-me na porta e entro nas Obras Públicas.
- As Particulares é do outro lado, ao fim do corredor - informa uma funcionária bem-humorada, acrescentando, a confortar-me, que não sou o primeiro, todos os dias acontece.
Nas Obras Particulares estão cinco ou seis pessoas, cada uma com o seu problema, cada uma a explicar longamente o seu caso. Os mais simples e os analfabetos agitam os braços em gestos de desespero, encaram os impressos com a desconfiança de quem pressente ameaças graves à sua paz e à sua carteira.
Chega a minha vez. Digo ao que venho. O funcionário passa-me um monte de papéis, mostra-me o que tenho de preencher, onde tenho de assinar, e que este é para a licença, este o das Finanças, este para o Cadastro, o amarelo para a Estatística, este...
O meu olhar vagueia atrás do dedo com que ela aponta, apressado a virar as folhas, impaciente com os que ainda não têm vez e o interrompem com apartes.
Recebo os papéis. A prever o calvário que me espera, não contenho um suspiro. As perguntas a que devo responder, os detalhes a explicar, a minúcia das informações a suprir, o absurdo de algumas exigências - “Nome e idade dos pais do requerente” - tudo aquilo me desorienta.
Durante instantes não sei que fazer e continuo imóvel, como que grudado ao balcão pela minha impotente raiva. Vou-me dali? Digo que vou esperar mais um tempo e devolvo os papéis? Desato aos pontapés? Ponho-me a gritar contra a burocracia?
Sinto que me tocam no braço. Atencioso, o funcionário sorri e, certo de que não tenho coragem de confessar, sussurra:
- Se não sabe escrever... Se acha difícil... Peça aí a alguém que o ajude.

O corpo do Redentor

Nos dias soalheiros minha mãe leva-nos para um banco do jardim do Lar e lá, longe da curiosidade alheia, desfia o seu rosário de lamentos, entremeados dos remoques mordazes em que continua a ser mestra.
Ninguém escapa: o padre, o médico, a enfermeira, as funcionárias, as cozinheiras, as vizinhas de quarto, todos recebem uma boa dose de veneno e má-língua. Apoiada a uma bengala, passa por nós uma anciã, grosseira de corpo e de feições, que cortêsmente nos dá as boas-tardes. Quando a mulher já a não pode ouvir, minha mãe comenta com um sorriso malicioso:
- Esta talhou-a Deus com um podoa!
E, como todas as tardes de domingo, aparece a Mariazinha. Mulher untuosa, mesureira, dum falar rebuscado e arcaico, Mariazinha é uma sessentona desempenada, fundamentalista em questões de doutrina cristã, orgulhosa de nunca ter conhecido homem, nem comido carne.
Ajuda à missa, lê a homilia, dizem dela que em coisas de religião sabe mais do que se tivesse andado no seminário. E de facto, ao ouvi-la pregar aos anciãos, ou quando com eles reza o terço, ou os entusiasma a cantar o hino do Cristo-Rei, Mariazinha tem ares de sacerdotisa.
Aproxima-se sorridente, cumprimenta, faz vénia, diz numa voz suave que dá graças ao Altíssimo de nos ver tão bem dispostos, alegres e com saúde.
Recatadamente, baixa depois os olhos, ao mesmo tempo que estende a palma da mão onde traz um pequeno relicário de ouro e, dirigindo-se a minha mãe, anuncia que lhe vem dar a Sagrada Comunhão.
Minha mãe levanta-se, junta as mãos em prece, responde com as frases rituais ao responso e, por fim, estende a língua para receber a hóstia.
Mariazinha desenha uma cruz no ar, ao mesmo tempo que profere umas palavras de benção e, fazendo vénia, retira-se às arrecuas.
Minha mãe volta a sentar-se, espeta um dedo na boca para empurrar a hóstia que, diz ela, lhe ficou agarrada à língua. E de súbito, indiferente às coisas sacras e à sua devoção de há momentos, desata a injuriar:
- Julga que é como um padre! Não é nada! É uma merdeira! Ensaboadeira do pior! O jeito dela são só pantomimas. E isto com certeza nem é hóstia, nem nada, porque senão não se me colava assim. Ora esta!
Levanta-se furiosa, aproxima-se dum canteiro e cospe nele, em migalhas, o corpo do Redentor.

segunda-feira, fevereiro 12

Montaigne et moi

Tenho lido muito a vida inteira, mas de modo caótico, sempre mais interessado em apreciar e aprender, do que em cimentar os alicerces do que se chama a erudição. De forma que, cheio de remorso pelas falhas da minha cultura e pelos clássicos que não li, de vez em quando decido regenerar-me.
Assim tenho agora na mesinha de cabeceira o Journal d’un voyage en Italie de Montaigne, e o Banquete de Platão, que vou lendo noite fora.
Mas devo reconhecer que Montaigne me aborrece, as peripécias da sua viagem são monótonas, desnecessariamente minuciosos os detalhes dos personagens que visitou, dos pratos que comeu, do número de pedras da bexiga que dolorosamente expeliu pela uretra ("Six, ce matin").
Platão, essa confirma o que há muito sei: tal como com a matemática, é para mim pena perdida o querer penetrar nos arcanos da filosofia. Durante momentos esforço-me por seguir os raciocínios, por apreciar as subtilezas, as conotações, mas não tarda a que no meu cérebro se faça uma espécie de nevoeiro.
Volto atrás, releio, tento procurar o ponto em que perdi o fio à meada, mas já o cansaço me obriga a fechar os olhos. O pior é que, em vez de adormecer, me tomam os pensamenos mais desencontrados, a minha cabeça rodopia tal um cata-vento, e o que deveria ser gozo intelectual, enriquecimento do espírito, transforma-o a insónia em martírio.

domingo, fevereiro 11

Tolinhos (1)

Por tradição cada aldeia tem o seu tolinho. A nossa tem dois, certificados. Num ambiente assim pacato, tão pequeno que quase todos somos mais ou menos família, a nossa atitude para com eles é de bondade e condescendência. Fala-se-lhes como se não tresloucassem, responde-se a sério às suas perguntas dementes, sorrimos-lhes ao passar e damos-lhes as boas-horas.
O Henrique da Moga deve ter a minha idade e sempre foi de uma extrema magreza, mas o pouco de carne que na juventude ainda tinha, comeu-lha o álcool. Hoje é um esqueleto ambulante, com um rosto que dá pena ver, olhos febris, semicerrados, um bigode de dois fios pendentes a aumentar-lhe a aparência de mongol.
Abriga-se na casa arruinada que foi dos pais e, como nunca se lavou, o seu corpo tresanda um fedor medieval, a cara e as mãos cobertas de uma crosta de surro que as torna quase pretas.
Vive de esmolas e de uma pensão diminuta que lhe ficou dos anos de França. Bebe sem parar, mas toca correctamente o sino nos enterros e nas festas. Por sombra tem duas cadelinhas rabiosas que arreganham os dentes quando alguém se aproxima do dono.
Nos dias de procissão troca a roupa esfarrapada por um blazer de faixas roxas e azuis, e calças amarelas, uniforme de uma banda de música de Johannesburg que alguém lhe deu com maliciosa caridade.
Fora o álcool o seu gosto é a dança, mas como mulher nenhuma quer ser par, rodopia sozinho numa excitação de bêbedo, até que as forças lhe faltam e adormece onde cai.
Quando me apercebe vem direito a mim, aperta-me a mão, e depois, os olhos de azeviche fitos nos meus, repete num sussurro a pergunta que faz cada vez que nos encontramos: se já meti o requerimento para ele voltar para a França.
- Claro.
- E então?
- Está demorado.
Acena que sim e, a consolar-me, rasga-se-lhe a boca num sorriso desdentado:
- Demora porque os franciús sabem que chegando eu lá ponho aquilo tudo em revolução. Venha beber um copo.
- Mais logo.
Liberto o braço, que ele agarra com espasmos de demente, e caminho abatido para casa, a remoer a lotaria da vida, que a uns tanto dá e a outros quase tudo nega.
Em momentos assim de nada adianta o especular retórico sobre a existência de Deus, nem dão conforto as recomendações da Sagrada Escritura. E se me comovo um instante, afinal faço como os outros, abandono o pobre Henrique ao seu destino.
Aliás, se o não abandonasse e lhe desse auxílio, todos mo levariam a mal, veriam no gesto uma acusação. Seria mostrar nua e crua a odiosa crueldade da nossa existência, aquela que não queremos enfrentar e vamos disfarçando com sorrisos e cortesias.

Tolinhos (2)

O outro tolinho é o Aníbal do Sapateiro. Aos cinquenta e tal anos tem um corpo de criança raquítica, uma enorme cabeleira ruiva, olhos esverdeados, lábios negróides, pernas cambadas.
Vive com a mãe viúva e conta-se à boca pequena que já matou gente. Pode ser boato maldoso, mas do que há certeza é ter passado mais tempo em prisões do que em liberdade. Desaparece às temporadas, depois lá vem a Guarda avisar a mãe de que está preso em Espanha, na Roménia, em Marrocos...
Homem de poucas palavras, quando o libertam aparece na aldeia com o seu ar sorumbático, e retoma o velho hábito de roubar. Porta que veja aberta num instante se encafua por ela, apanha o que estiver à mão - um par de sapatos, uma panela, um casaco, um presunto...
O bizarro é que, o que rouba, vai mostrá-lo depois de casa em casa, para que lho comprem. E acontece por vezes que, como as ideias se lhe baralham e se esquece do que faz, até à casa do roubado volta.
As pessoas riem, dão-lhe uns trocos para o vinho, e assim, criança grande, passa os dias naqueles roubos simbólicos que ninguém leva a mal.

sábado, fevereiro 10

No século XX Anno Domini (1)

Sentado na moleza do departamento comercial da embaixada do Brasil (Vondelstraat 10 – Amsterdam), ignorei a Holanda, fui uma vez de corrida ao Rijksmuseum, outra a Volendam, a aldeia de pescadores que passa por turística; frequentei Zandvoort, o Estoril de Amsterdam, onde nesses tempos distantes (1956) o hotel Bouwes oferecia aos domingos Thé Dansant et Variétés.
A nossa preocupação maior era a fragilidade do câmbio dos cruzeiros em dólares; as ocupações mais pesadas os jantares com o embaixador; os nossos pânicos as visitas da embaixatriz, que sabia de Arte e a quem, por turno, tínhamos de acompanhar aos antiquários e aos leilões.
Preguiçoso, desinteressado, considerando a minha estadia de pouca dura, perguntava de vez em quando aos colegas, que estavam aqui há anos e deviam saber:
- Mas afinal, como é a Holanda?
Eles, mais ingénuos do que eu supunha, explicavam, simplificando: as holandesas dividiam-se em duas categorias, as com quem se tinha ido para a cama e as que estavam para ir; os holandeses numa categoria única: a dos bananas. O país, uma maçada. A comida, um nojo.
Acrescentavam depois a Família Real - "a mais rica do mundo!"- a Shell, a Philips, a Unilever, os diques…
Temendo o frio, desconfiando da língua rebarbativa e do ar fechado dos passantes, financeiramente esfolado por senhorias que tinham elevado a arte de esfolar à suprema perfeição, limitava-me ao convívio dos colegas. Divertia-me com a basófia do chefe, contando como em Brasília o presidente Kubitschek lhe tinha batido no ombro, dizendo : ‘Éscuta, Jorge!...” Ria, como quando acompanhei o cônsul a um hotel para organizar uma festa, e ele perguntou ao homem que nos atendeu:
- Quem é você?
- Sou o recepcionista.
- Chame o director! Eu só falo de governo para governo!
Havia ainda o Cunha que, depois de vinte e cinco anos nas Águas e Esgotos de Petrópolis, tinha sido ‘empistolado’ para a embaixada em Lisboa. Mas o ‘pistolão’ enfraquecera com a mudança da política, e o seu calvário, arrastado por Madrid e Génova, ameaçava durar em Amsterdam.
Como o ministro não se condoía, nem o transferia para Lisboa, onde o esperava uma Rosa Simões, remetia ele, em cartas registadas e express, fotocópias dos atestados médicos que garantiam a veracidade de dois enfartes, acrescentando-lhes em maiúsculas a tinta vermelha: ‘V. Exa. ficará com a minha morte na consciência!’
Assim, no centro de Amsterdam, eu "vivia" de facto no Brasil, ocupando horas a escrever aos amigos, a rabiscar de longe a longe um relatório, a alinhavar romances que nunca terminaria, bebendo cafés sem conta, exausto quando por volta das cinco saía para a ronda obrigatória dos drinks, das recepções e dos jantares.

sexta-feira, fevereiro 9

Amigo perdido

São três da tarde e faço compras na vila. Ao acaso das minhas voltas passo por um desses cafés penumbrosos, tristonhos, daqueles que se pergunta a gente como conseguem sobreviver. Olho para o interior no instante da passagem. A cena grava-se-me indelével, continua a mortificar-me.
Ele é o único cliente e está sentado a uma mesa no meio da sala, meio de costas para a rua, na mão o copo de cerveja que leva à boca. Atrás do balcão o proprietário enche outro copo.
Mais tarde hei-de vê-lo na praça, num caminhar incerto, o seu rosto com a cor arroxeada dos alcoólicos inveterados. Sob o braço segura a pasta com que se dá a ilusão de que nela guarda os processos que irá levar ao tribunal.
Foi brilhante, mas agora é advogado só de nome. Causas não tem. Quem o conhece acena de longe, evita a sua companhia. Solitário, violento, vai de café para café, de copo para copo, até que ao fim do dia, comatoso, se arrasta para casa. Triste sina para um amigo de quem tanto se esperava, e aos quarenta e oito anos se tornou um farrapo humano, um fantasma de si mesmo.

quinta-feira, fevereiro 8

Corno cínico

“Os cornos são como os dentes: doem ao crescer, mas depois é com eles que se come."

A 'maison' de Abreiro

Indo para Vila Real e tomando desde Vila Flor pela velha N314, cortam-se quase trinta quilómetros ao trajecto.
Esquecem-se os buracos, admira-se a paisagem entre as margens do Tua, e a certa altura atravessa-se Abreiro. Povoado melancólico, a estrada faz-lhe de rua principal, as duas únicas coisas que nela se destacam são um caramanchão de pedra a abrigar um Cristo na cruz e, mais adiante, um edifício de proporções bizarras.
À saída da aldeia, uns vinte anos atrás, deparei pela primeira vez com uma enorme casa quadrangular, dum só piso, toda rodeada de varandas arqueadas, tendo em cada canto uma torre circular de telhado cónico e o aspecto dum moinho de vento.
Ainda em começo de obra, os andaimes em redor, adivinhava-se ali o sonho de emigrante endinheirado. Mas se a casa chamava a atenção, embasbacava-se a gente com a cerca que, já pronta, limitava o vasto terreno da propriedade: um sem-fim de grandes lanças de ferro pintadas de preto, encimadas de bicos dourados.
Era cómico, e ao mesmo tempo de entristecer, aquele desbarato infantil de pôr num descampado transmontano o que melhor pertenceria num château do Loire.
Cada vez que por lá passava sentia-me obrigado a parar para ver o andamento da obra. Mas a obra, se andava, era a passo de caracol, e o que num ano parecia ter sido feito, aparecia desfeito no seguinte.
As paredes, rebocadas pela metade, começavam a lascar. Depois foi a surpresa de descobrir que os telhados das torres tinham sido levados por algum furacão, e surpresa igual ao vê-los repostos anos mais tarde. Desapareceram as vidraças das janelas, quebradas pela ventania ou pela maldade. As portas tinham sido postas, mas talvez devido à fraca qualidade começavam já a apodrecer, aumentando o ar de abandono.
Um dia parei para fotografar aquela desolação e vi-me rodeado de garotos curiosos, descrentes do meu interesse.
- De quem é a casa?
A casa era dum homem. Mais não quiseram dizer, achando suspeito o eu perguntar se ele trabalhava no estrangeiro e a que gente pertencia.
Separámo-nos inimigos. Eles a ameaçar que me iam correr à pedrada, eu a prometer que lhes puxaria as orelhas até que ficassem como as dum burro.
Nas muitas vezes que por lá passei depois, nem precisava de diminuir o andamento: uma olhadela bastava para ver que o ar de ruína se apossara de tudo, mesmo das lanças que, embora em pé, estavam comidas da ferrugem e tinham perdido o dourado.
Por isso há dias foi grande a surpresa: quando esperava vê-la desventrada, aparece-me a casa inesperadamente pronta, toda num luxo, chaminés novas, as janelas com cortinas, lampiões senhoriais, o jardim plantado, as lanças de novo com o seu brilho palaciano e o dourado a reluzir.
Não vi por lá ninguém, nem me arrisquei a tocar a sineta, o que para satisfazer a minha curiosidade talvez faça noutra altura. Mas de certeza alguém realizou ali um velho sonho. Ou talvez não, talvez tenha havido milagre, porque na ponta do muro o dono construiu agora umas alminhas.

quarta-feira, fevereiro 7

O Fidalgo

O António Fidalgo veio do Porto para morrer.
Dez anos mais velho, foi um dos heróis da minha meninice. Genial tocador de guitarra. Com o senhor José Cigano, negociante de cavalos, e o Zézinho Teixeira, formava um trio que deixou fama. Ao ouvi-los senti pela primeira vez as emoções fundas que a música dá, estranhas e inquietantes para a criança que eu era. Misteriosas também, porque intraduzíveis em palavras.
Está em casa da irmã, para que a morte o não surpreenda no quarto da pensão onde vive há anos. Escaveirado pela doença, embrulhado num xaile. Esforça-se por sorrir, mesmo quando a tosse o põe roxo como um afogado.
Que não é nada, sossega-me ele. Daqui a uns dias está bom, volta ao Porto, retoma a vida, há-de correr tudo pelo melhor.
Aceno que sim. Durante um instante os seus olhos reganham o brilho travesso de antigamente. Olhos azuis, muito claros, exóticos numa terra de olhos negros. Olhos de feiticeiro, diziam, de mau-olhado. Mas mau-olhado nunca deitou, antes o terá sofrido, e feiticeiro só o era da música.
Pergunto-lhe se ainda toca. Às vezes, um bocadinho. Por saudade. Mas os dedos emperraram. ‘Não adianta. O que se perdeu nunca mais torna.’
Humilde, sem sombra de vaidade ou orgulho, falando num sussurro: ‘Podia ter ido longe. Não seria melhor, mas pelo menos era tão bom como o Carlos Paredes. Todos o diziam. E cheguei a tocar na rádio.’
Mas mudemos de assunto, pede ele, porque falar da música entristece-o.
Enquanto a conversa segue por entre as banalidades dos mexericos, do tempo quente, dos prenúncios de má colheita, o meu pensamento divaga pelo seu passado.
Guitarrista foi-o logo de pequenino, génio precoce, Mozart que ninguém descobriu. Puseram-no a aprendiz de barbeiro, para que ganhasse a vida. Mas a guerra abriu-lhe outros horizontes, e com a sua ânsia de viver e de vencer foi um pouco de tudo. Contrabandista, negociante de volfrâmio, passador de moeda falsa, dono de restaurante, depois de uma mercearia. Mas por falta de entusiasmo os negócios falhavam, e a música, que lhe era amor e religião, não dava de comer.
Passou-se um longo tempo de silêncio, e a notícia, quando se soube, deixou-nos petrificados: o António Fidalgo tinha casado no Porto com uma mulher da vida, mais velha do que ele, muito mais, dona duma casa de tia na Rua Escura.
Era pior que uma vergonha, era um ferrete, o estigma que nos marcava a todos, o preço que pagávamos por tanto termos admirado o seu talento, a ponto de nos iludirmos que ele era mais do que família; que nele, no seu génio, se escondia um pouco de cada um de nós.
De novo o silêncio. Vinte anos ou mais. Depois soube-se. Tinha-se divorciado, voltara a casar com outra igual, mais nova. Divorciou-se desta. Montou um negócio de ferro-velho, com um anexo cujo sortido ia dos relógios de pulso aos aparelhos de televisão, desde a roupa de cama aos talheres de prata. A polícia incomodava-o, mas sem exagero, e na cadeia nunca entrou.
A sua voz corta as minhas divagações: ‘Dormi ao relento, mas também nos melhores hotéis. Passei fome, e comi em banquetes. Gozei. Não me arrependo. Não tenho remorsos.’
A irmã traz-lhe o remédio e eu aproveito a oportunidade, digo que se estão a fazer horas. Que vou indo. Ele acena que sim. Dou-lhe um abraço. Tenho a impressão de que fujo.

terça-feira, fevereiro 6

Ajax


Baptizaram-no Patusco, o que é bizarro para um cão de tal porte e cabeça nobre.
A dona mudou-se para o Porto e não o abandonou, mas entregou-o ao Guilhas, o que é mais ou menos a mesma coisa, pois para ele os cães servem para caçar ou guardar o rebanho, e mantém-os meio esfomeados para que se tornem expeditos no farejar.
Grande, patas altas, sete ou oito anos, nunca se apressa. Vem com aquele ar pausado de cão pastor e pára à nossa porta, à espera que lhe preparemos o prato.
Mudamos-lhe o nome para Ajax. Do supermercado trazemos-lhe latas de pâté, peixe, carne de vaca, que ele come com vagares de gourmet.
Querendo que refaça as forças, comprámos-lhe umas argolas acastanhadas, em cuja embalagem se lê serem uma espécie de superalimento para os cães de certa idade.
Ele farejou-as, pegou numa, não gostou, deixou-a cair. E como se o tivéssemos insultado, baixou a cabeça, virou-nos as costas, foi deitar-se um pouco adiante, indiferente ao nosso chamamento.

.................

Morreu em Setembro passado. Recordámo-lo com saudade e pena.

Outro aniversário

Curiosa sensação, a dos aniversários. Ver-me velho, quando tenho tão presente a memória do tempo em que os trinta e três anos que Cristo contava, quando o crucificaram, me pareciam uma idade de Matusalém.
É essa uma das poucas vantagens que a velhice tem: poder viajar no tempo. Não como o faz a juventude, com o privilégio de ansiar pelo futuro, mas ironicamente em marcha atrás. Recebendo lições de modéstia, deixando pelo caminho as certezas que o não eram, rindo de ter tomado a sério a palavra eternidade.
A caminho dos setenta. A idade que ambos os meus avós não alcançaram, e a dois passos da de meu pai quando faleceu. Contas que faço involuntariamente, e que são ao mesmo tempo temor e exorcismo, a busca de não sei que garantias de precária sobrevivência. A sopesar se me restam ainda cinco, dez, quinze anos, ou se amanhã - nunca hoje, sempre amanhã! - a Parca se canse de dobar o meu fio e o corte duma tesourada.

Que terá sido?

O estranho modo com que certa gente entra e sai da nossa vida. Não falo dos amigos que se perderam de vista, dos que se nos tornaram indiferentes ou inimigos, mas daquelas pessoas que como que nos assaltam com a sua amizade e são tudo empatias, concordâncias, atenções, carinhos. Até ao dia em que, sem razão aparente, parecem levar sumiço.
Encontrámo-nos depois por vezes numa rua, num café, ao acaso duma cerimónia. 'Há que tempos que não nos vemos!' Embrulham-se em desculpas frouxas sobre as andanças da vida, os afazeres, complicações. Mas a pergunta fica: ao que é que não correspondemos? O que é que nos quiseram dar ou queriam receber que nos escapou? O que é que não somos, e eles julgaram que éramos? O que é que em nós lhes meteu medo?

segunda-feira, fevereiro 5

Aniversário

Foi o dia em que, oficialmente, entrei na velhice, mas nem eu pranteei nem os céus trovejaram, e o dia passou como a maioria dos dias passa: corriqueiro e calmo.
Se o corpo ou o intelecto funcionassem mal, se a minha alma andasse desvairada, se um drama ou a miséria me ameaçassem, eu teria razões de queixa.
Como nada disso acontece, só tenho motivos de inquietação: o de ignorar donde venho, o de não saber quem sou, o dar-me conta de como o tempo de uma vida é um instante irrisório, a incerteza do que será o meu destino, o mistério do que fica para lá do fim.

Ajuste de contas

Na minha vida, e isso irrita-me sobremodo, há um rosário de contas não ajustadas.
Nos momentos mais sombrios acuso-me de que as não ajustei por cobardia, o que não é totalmente verdade, pois também nos ajustes it takes two to tango.
De vez em quando os oponentes esquivam-se, afastam-se da nossa vista ou simplesmen­te desaparecem, deixando-nos entregues à frustação das palavras silenciadas.
Enquanto os sei vivos, ainda vou mantendo a ilusão de que um dia chegará o momento propício. Por isso a minha raiva maior vai para os que, mortos, me retiraram para sempre a possibilidade de lhes pagar na mesma moeda, e com juros.

Cigano

Poucos haverá de feições assim aristocráticas e um olhar que parece indiferente à hostilidade do mundo. A roupa também o não denuncia, porque da que lhe dão por esmola nas casas abastadas, ele escolhe infalivelmente a que, pela cor e o corte, o tornam quase elegante. Usa chapéu de aba larga debruado a couro, boas botas.
Mau grado tudo isso José Lindo é inegavelmente cigano, e o mais trágico de todos, pois vagueia sozinho desde que muitos anos atrás, por razões que nunca disse, a sua família e a tribo o expulsaram. Na nossa aldeia pára às semanas, talvez porque não precise de ir de porta em porta a pedir esmola, pois quando chega a hora há sempre uma mulher que lhe leva um prato de comida ao banco ou à soleira onde ele se senta amodorrado.
Dorme onde melhor lhe calha, ao ar livre, debaixo dos alpendres, nos palheiros; se o tempo fica mau abriga-se numa casa abandonada e acende lá uma fogueira.
A velhice e as agruras devem-no ter transtornado, com certeza a razão porque deixou de fazer os cestos com que ganhava alguma coisa. E pouco fala. Tem alturas em que nem sequer responde a quem lhe dá as boas horas.

domingo, fevereiro 4

Circo

Encostaram às traseiras da capela uma roulotte caduca, as paredes enfeitadas com bonecos pintalgados. Uma fieira de lâmpadas vermelhas faz um arremedo de arco festivo. Pergunto aos vizinhos do que se trata e eles respondem-me que é um circo. Depois, com um sorriso malicioso:
- Não vá julgar que é como os de antigamente. Este é moderno. No princípio fazem um bocado de ginástica, mas depois abrem as goelas à música e ficam as gajas a cantar e a dançar. Meio nuas. Com um panito a tapar-lhes as vergonhas. Venha logo à noite e vai ver que é como na cidade.
Prefiro não ver. Quero guardar inteira a recordação de quando os saltimbancos vinham com uma caravana de burros carregados de atributos e, no mesmo lugar, espetavam os paus em que firmavam o trapézio. Depois saltavam, giravam, contorciam-se, tiravam dinheiro do nariz das pessoas, cuspiam fogo, faziam a pirâmide humana...
Não quero ver mulheres meio nuas a cantar e a dançar. O que nunca mais acontecerá, e eu gostaria de voltar a ver, era aquela menininha que teria então a minha idade e, gracil­mente, erguia um arco no ar, por onde um cão saltava cada vez que ela lhe gritava: 'Allez, hop!'

Gondarém

Gondarém. A matar saudades, vou-me hospedar na casa em que passei os anos melhores da adolescência, agora transformada em estalagem. E, como faço das outras vezes, peço que se está desocupado me dêem o quarto do torreão, que foi o meu.
Entro nele com a esperança sempre repetida de que, estando ali, verei um dia abrir-se de par em par as portas que me impedem de ver claro no meu passado. Esperança vã.

sábado, fevereiro 3

O senhor Antero

Vamos juntos no enterro da Maria Pedreira. Um pouco atrás dos outros, porque ele manqueja, agarrado a dois varapaus que, previdente, anos antes tinha cortado de um olmo e guardado para quando as pernas lhe começassem a falhar.
Digo-lhe que os varapaus me parecem grandes demais e desajeitados, talvez remediasse melhor com duas bengalas.
Ele sorri, mas não zomba da minha ignorância de citadino. Com o pouco tamanho que Deus lhe deu, como é que com uma bengala ia varejar os figos? Ou as amêndoas? As azeitonas?
Por falta de forças e sem filhos, as terras que possuía estão quase todas ao abandono. As trezentas e tal colmeias vendeu-as ao Zé Maquinista, que esse ainda tem pernas para descer até à ribeira. As figueiras não precisam de cuidados. Plantam-se e depois, pela graça do Senhor, vão dando figos de geração para geração. Do resto, diz ele, trata como pode.
Ou como não pode. Com o sacho a tiracolo, preso por uma corda, é dramático vê-lo aproximar-se de uma oliveira e, cambaleando, encostar-se a ela. Encosta os paus. Leva minutos a desenven­cilhar-se do sacho e a desprendê-lo da corda. Depois, sempre arrimado à árvore para não cair, cava pacientemente em redor do tronco. Arranhões tão leves que a terra nem sequer os sente.

Heavy metal

… Purcell, Monteverdi, Bach, Mozart… Nomes que involuntariamente me ocorrem durante um concerto de Pergolesi.
Divago.
Desde a invenção do gramofone podemos ouvir mais concertos em dias, do que antes ouvia um músico durante a vida inteira. Mas que benesses nos vêm das imensas e esplêndidas possibilidades que entretanto criámos?
… Funk…Grunge…Hiphop… Heavy metal…

sexta-feira, fevereiro 2

Johnson

"A gentleman who had been very unhappy in marriage, married immediatly after his wife died: Johnson said, it was the triumph of hope over experience."

in Boswell's Life of Johnson

Pavilhão Chinês

Fim da tarde. Chovisca. Deixo o Jardim de Alcântara e subo até ao Pavilhão Chinês.
Sento-me perto da porta, bom lugar para melhor me entreter com a colecção de bric-à-brac. Peço uma cerveja.
Pouca gente. De ar absorto, uma encarnação de pintor boémio fuma cachimbo, faz caretas de desdém, sopra o fumo para o tecto. Num canto da sala duas lésbicas. No canto oposto uma rapariga sueca bebe Campari e fuma. Digo rapariga, porque na idade a que cheguei toda a mulher com menos de quarenta anos é rapariga; e sueca, porque o loiro dos cabelos, as suas feições, o rosto, o corpo, a maneira desenvol­ta, e o Aftonbladet aberto sobre a mesa, razoavel­mente confirmam a nacionalidade.
Olho distraído os cartazes, as vitrinas, o cubículo ao fundo donde vem o som de riso abafado. Um tilintar de copos.
A sueca vai-se embora. As lésbicas trocam carícias, indiferentes ao olhar zombeteiro do empregado. Uma delas, alta e magra, vestida com um masculino fato preto, gravata idem, cabeleira de azeviche, maquilhagem esbranquiçada, tem um ar de fantas­ma teatral. A companheira, rechonchuda e coquette, é do tipo sofredor.
Bebo outra cerveja. Dois alemães de meia idade espreitam à porta, arriscam uns passos na sala, olham em volta com o ar de quem teme ter entrado por engano num lugar de má nota, e desaparecem silenciosamente.
Pago e saio atrás deles. Parou de chover. Volto ao jardim.