sexta-feira, agosto 19

Classe baixa baixa

Nascido individualista, de miúdo até hoje não me larga o incómodo da classificação da sociedade. De certeza me classificam os outros algures entre o povo onde nasci e o escalão menor da classe média baixa dos que têm para viver, mas isso é com eles. Cá por mim vou cantando e rindo, tão bem disposto que nem sequer me apetece fazer-lhes o clássico manguito.
Esta madrugada, porém, a passear pela blogosfera quando meio mundo ainda dormia, dei aqui com uma crónica que, num repente, acordou em mim os instintos belicosos e sangrentos dos Sovietes de 1917.
Ignoro a que classe a autora pertence, pois no Portugal pobrezinho mesmo a classe média baixa baixa sempre teve os tostões que pagam uma Maria para fazer a limpeza, as compras, e limpar o cu ao bebé.  Mas na minha ideia está num escalão acima, como denuncia a frase que me pôs avesso: "Chegava então o dia em que a senhora resolvia arrumar o mostrengo e com a ajuda da criadagem limpar tudo muito bem limpo…"
A criadagem? Ó santinha! Eu teria mais cuidado com o vocabulário. Não pelo receio de que lhe apareça por aí algum assanhado que leu Marx, mas pelo que põe a descoberto do seu sentir para com o semelhante.

quinta-feira, agosto 18

A colombiana

Raro me agrada dar com fotografias antigas, aquelas onde me vejo trintão, um sujeito que desconheço, modo estranho, o exterior cheio de certezas, por vezes até aquela pose de suficiência do been there, done that, got the T-shirt.
Tenho aqui defronte – não, não vou mostrar – a fotografia de uma festa de fim de ano. Companhia alegre, risos e sorrisos, charutos, champanhe, lindos corpos, belos decotes. Vejo-me um pouco afastado do centro, também de charuto, champanhe, sorriso,  o ar displicente de quem está ali por acaso e gostaria de se ver longe.
Esse ar é comédia e a fotografia mente. Preparo o assalto para a primeira infidelidade e movimento-me em círculos, tal lobo que marcou a ovelhinha, com a minha fisgada que desta vez a colombiana não escapa.
Em geral desanda-se-me a cabeça com loiras, mas esta morena tem bruxedo, olhos dum outro mundo, a languidez fingida da pantera com cio. Basta vê-la sentar-se, sorrir, cruzar as pernas, para compreender como mesmo os santos caem por vezes na tentação.

Isto de contar histórias tem esse lado frustrante. O autor gasta um bocadito de tempo a dar voltas à cabeça, não sabe que começar, nem por onde, e então inventa. Sem vergonha nem problemas de consciência, desinteressado da ingenuidade do leitor – não da leitora, que essa adivinha logo – dá largas à fantasia, deita uma pitada disto e daquilo, umas promessas, um cheirinho de sexo, um bocadinho de suspense. E de repente, como o Altíssimo, que se aborreceu da Criação, deixa a história só com princípio.
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A fotografia da Miss Universe colombiana não tem a ver com isto, mas você já imaginava.

quarta-feira, agosto 17

Il Pallio em Sienna

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Esta fotografia do povo que ontem, em Sienna, assistia à secular corrida de Il Pallio, provoca-me um singular incómodo.
O facto de não gostar de multidões é acessório. Perturba-me, sim, que esta gente esteja ali para ver e não vê coisa nenhuma. Mas foi, esteve, e ao contrário do rebanho nem pastor precisa. Desde que veja, que assista, pouco lhe importa onde ou a quê, se se lhe diz que vá a multidão vai.
Compõem-na autómatos de aparência humana, risonhos e pouco dispostos a juízos ou introspecções, voltados para o que em redor acontece. Julgando assistir a um espectáculo, quando o espectáculo são eles. Pelo número, a passividade, o feroz paquiderme em que se transformam se lhes mandam que dêem vivas ou morras.
Mesmo quando se julga arrastada por ideias, é sempre para fora que a multidão olha, nunca para o íntimo. A multidão não pensa, vai. A multidão é feita do teu e do meu semelhante.
Mete medo.

terça-feira, agosto 16

Fifty-fifty

Ando descontente com as minhas recordações, dá-me impressão de que nos últimos tempos as agito num crivo e só deixo passar as más, assim a modos de retocar a imagem e dar-me ares de sofredor.
Recordações de pessoas, diga-se. As outras, paisagens, momentos, aventuras, riscos, golpes de sorte, encontros felizes, tudo o que faz a parafernália da vida, essas acarinho-as num álbum que tenho cá dentro. E raro mostro.
Por isso me pergunto que tendência é esta que eu e tantos temos de cair no soturno. Será para que nos achem interessantes? Para que nos apapariquem com carinhos? Será a fome de cumprimentos imerecidos mas desejados?
Estive a recordar ocasiões, fiz contas, cheguei à conclusão de que a coisa deve ser fifty-fifty. Mas esta manhã, por volta das seis, quando o levei para o passeio matinal no parque, o cão  pôs-se tão rabugento que às tantas perdi a paciência. Ralhei-lhe. Ele, desobediente, abanou o rabo – o equivalente canino do manguito  - e deitou a fugir.
Lá se me foi a ideia do fifty-fifty. Se na minha vida há uma ou outra réstia de sol, bem vistas as coisas tudo são aborrecimentos, tenho razões de sobra para andar descontente e me sentir infeliz.

domingo, agosto 14

A guerra

Outros o fizeram para mim, quando não tinha ainda vivido, por isso me agradaria escrever também daqueles textos que confortam, dão esperança, trazem harmonia e paz.
Agradaria, mas não sei.
Horas conheci de raiva e desespero, horas que conseguem mudar em sombra as tardes soalheiras, dias sem luz ao fim do túnel. E anos passei, muitos,  a caminhar nas ruas da amargura, a embater nos muros da adversidade, do desdém, da prepotência, da arrogância que pisa o semelhante.
A luz pode raiar, serem as alvoradas cheias de promessa, mas há feridas que não cicatrizam e certas dores nunca esquecem. Conheci momentos em que a morte teria sido um alívio, revejo feições infames que eternizam os pesadelos, recordo as vezes que me senti amaldiçoado.
Mas sofrimento não é derrota, nem a solidão é castigo. Por escolha caminhei sozinho, sozinho vou, ninguém me fez dobrar, nada conseguiu abater-me, e se perdi batalhas não perdi a guerra.

Saibas tu vencer a que te espera.

sábado, agosto 13

Pequenos gestos


Gestos anónimos e pequeninos, mas tão gratificantes.

Há quem chame cidade a terras destas, só que no norte da Holanda, com uns quatro mil habitantes, Graft de Rijp, é apenas aldeia. Pendurado na fachada da igreja há um pequeno armário para Zwerfboeken (Livros vagabundos) com um letreiro que reza assim:

"Os livros que aqui se encontram foram colocados por pessoas que acham que você absolutamente deve ler um deles. São grátis e pode levá-los.
Mas de si espera-se que o substitua por outro que, em sua opinião, deve ser lido.
De momento encontram-se no armário os seguintes livros:
A.    Palinurus van Mexico, de Fernando del Paso 
B.    Ernestina, de J. Rentes de Carvalho

Palinurus do México é de 1976; a 1ª edição neerlandesa de Ernestina é de 1998. Talvez isto conforte aqueles que têm de esperar.

sexta-feira, agosto 12

O vestido amarelo

Conta que tinha sido impulso tolo. Fazia pouco que usava o cabelo em rabo de cavalo, revelando uma nuca que ele pretendia não ver, mas o disturbava com um estranho poder de atracção. De facto bonita, elegante, com aquele ar seguro de si que poucos têm e se lhes inveja, porque os coloca entre os seres de excepção.
Não conseguia esquecer o momento e os detalhes, menos ainda o choque do que lhe leu nos olhos.
Tinha batido uma pancada ligeira na porta do gabinete e entrado, ela sem se voltar fez um aceno, continuou debruçada sobre o computador. A nuca, irreal, sedosa, um mármore translúcido.
Aproximou-se vagaroso, controlando a respiração, as mãos presas atrás das costas, ciente do perigo e da urgência de se reter para que o inevitável não acontecesse. Debruçou-se também para ver o que ela lia, os rostos muito próximos, quase a tocar-se. E então, como se qualquer coisa quebrasse dentro de si, as mãos desligaram-se, pousaram docemente nos ombros, beijou-lhe a nuca.
A imobilidade fê-lo deter-se, retesou-se-lhe o corpo quando a cadeira girou, os olhos presos nos seus, ela muito serena:
- Gosto de ti, mas não repitas.

Se procurasse na agenda saberia ao certo, a festa deve ter sido meses depois, já Verão.
Noite de calor, beautifull people, boa música. No jardim tinham posto um estrado, mas os outros foram-se afastando e ela dançava sozinha, estonteante de beleza e cio, o corpo moldado por um extraordinário vestido de seda amarela, muito justo, muito curto.
A imagem permanecera. Conseguia aparentar indiferença, mostrar-se bom camarada, mas quando se encontravam involuntariamente recordava o momento, o erotismo de que ela era capaz, o magnetismo que possuía.
Uma tarde, no café, fingindo que a recordação lhe vinha por acaso, disse que gostara muito de tê-la visto dançar. E o vestido era mesmo chique. Ela sorriu, mudou de assunto, mas num repente perguntou-lhe se no dia seguinte estava livre. Se estava, convidava-o para jantar em casa.

A gente ouve, deixa-o falar e diz-se que deve ser de algum filme. Ou distúrbio da cabeça,  excesso de imaginação.
 
Tinham jantado, conversado, bebido dentro dos limites e, como duas crianças,  rido de coisas à toa. Se os corpos se tocaram foi por acaso e sem consequências. Horas depois ela desculpou-se, demorou, quando a viu entrar vinha resplendente como na outra noite, com o mesmo vestido.
- Disse-me que ficasse sentado. Não me mexesse. Pôs música e dançou para mim! Queres crer? Um sonho! Dançou para mim!

A história pode findar aqui, mas talvez você queira acrescentar o capítulo que em sua opinião falta. Mas não os leve para a cama. Seria banal.


quinta-feira, agosto 11

Importância virtual


No tempo em que os cafés ainda não tinham TV, acontecia isso: as discussões sobre política passavam da discordância aos berros, daí aos insultos, uma vez por outra à zaragata de socos e bofetadas. Comportamento de simples.
Mas depois veio a liberdade, a TV a cores, encheram-se as universidades, chegou a internet, e no café do bairro bebe-se a bica, porque a discussão passou para o éter, onde, para bem de todos, a pancadaria é virtual e os insultos duram o tempo de um clique.
Ocorre-me isto a propósito de Londres. Mal se sabe de distúrbios, revoluções, atentados, ou que na Noruega um tarado matou gente às dúzias, logo os filhos e netos dos que antigamente berravam no café desatam a explicar, a mostrar consequências, a avisar dos perigos, a dizer como deveria ser mas que ninguém os ouve, e que a coisa acaba mal se não se aceitar a teoria assim e a hipótese assado.
Citam estudos, citam filósofos, apontam exemplos, facilmente os imagino diante do computador na ilusão de que falam ao público dum congresso ou a um bando de amotinados.
E pergunto-me o porquê de tanta discussão, da urgência de tantos e tão inócuos confrontos, desse saltitar de opiniões, que parece não ter outro fim além de satisfazer a vaidadezinha do pequenino eu.
Fora isso, senhores, que ilusões acalentam? Que provocam mudanças? Assustam alguém? Que os que mandam e (des)governam tomam nota do vosso saber e das vossas críticas?
Dia chegará em que se darão conta de que, entre a verborreia virtual e a discussão no café, esta última merece a preferência.

quarta-feira, agosto 10

Boas-vindas


Desde ontem estão na barra lateral dois novos blogues: Os Canhões de Navarone e Divina Comédia.
Rui Ângelo Araújo e José Ferreira Borges são competentes nas artes da escrita, do pensamento, da crítica literária e social. São também amigos e estiveram no berço da revista Periférica,  sobre a qual  El Pais, assombrado, escreveria que a melhor revista literária portuguesa era feita numa aldeia transmontana. O DN falou dela como se lê aqui.
Dou-lhes as boas-vindas.

Verde e barato


Deus Nosso Senhor que os criou, e as universidades onde estudaram, é que poderão explicar como os peritos chegam a semelhantes cálculos.
No noticiário de ontem à noite fiquei a saber que o ser enterrado sobrecarrega o meio ambiente com um valor de oitenta euros, para a cremação são trinta, e o processo que não tardará a chegar, "verde" em extremo, é de sobrecarga nula.
Em inglês chamam-lhe Resomation. O cadáver desfaz-se numa solução alcalina e duas horas depois resta um líquido que se despeja nos esgotos, mais uns sete quilos de ossos fáceis de pulverizar.
Bem pode acontecer que daqui a uns tempos, espero que demore, em vez de me enterrarem no cemitério de Estevais de Mogadouro, ou levarem ao crematório holandês mais próximo, me ponham a "resomar". Verdade é que, entregue a alma a Deus, pouco se me dá do que fizerem com os restos mortais, mas aborrece-me sobremodo, e não apenas neste caso, a insistência no argumento da "verdura".
Isso interessa a quem? Não ao defunto, que esse, felizmente, não tem que aturar larachas sobre o meio ambiente.

terça-feira, agosto 9

A força motriz

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Na qualidade de avô participei ontem numa festa de aniversário onde se celebravam os dezoito anos e a maioridade de duas jovens. Anciãos éramos poucos, os de meia idade não chegavam à dezena, rapazes não havia nenhum, parei a conta das raparigas no meio cento.
Excelente almoço, grande festa, lindas meninas, genuína alegria de uma juventude que, prestes a entrar na vida,  tem o mundo à sua frente.
Contou-me uma que vai passar um ano na Argentina, para aperfeiçoar o espanhol que aprendeu e, doida por cavalos, conhecer o país das pampas. Outra quer trabalhar num hotel enquanto não entra em Arquitectura. Num pequeno grupo riam às gargalhadas com a ideia de uma magrita apaixonada pela vida do circo, e aí quiseram saber de mim se tinha lido Het Parool de sábado.
Morador de Amsterdam que se interessa pela cidade lê Het Parool, mas quando quis saber o motivo da pergunta desataram a rir. Demorou até pararem as gargalhadas, e então uma das mais despachadas arriscou-se, eu com certeza tinha lido a entrevista com a actriz muito conhecida que…
- Lone van Ro…?
- Essa.
Tinha lido e não achara excepcional. Durante a minha vida docente mais de uma vez ouvi estudantes anunciar que nas férias trabalhariam num topless bar, a maneira delicada de dizer que iam ganhar umas massas na prostituição, o que numa sociedade muito aberta, franca até à rudeza, e material qb, só levanta problemas a quem prefere ignorar o chão que pisa.
A actriz, casada, mãe de filhos, disse-o com um sorriso:
"Quando estudava telefonei a uma firma de acompanhantes. Pura curiosidade. A minha ideia era que, dependendo das circunstâncias, talvez resolvesse ir para lá trabalhar."
"Quando contei que aparência tinha, o senhor ao telefone disse logo: isso é o que os homens que cá vêm querem. Mas quando ouvi que não podia recusar clientes achei melhor desistir."
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A foto retirei-a de www.mokkels.nl , por excelência o site holandês da rapaziada púbere de todas as idades.