domingo, agosto 17

A guerra dos folhetos

 

O geral dos casais que envelhecem em relativa paz e harmonia, sabe que esse estado só se alcança na medida em que cada um dos cônjuges (palavra que soa bem nos processos de divórcio) feche os olhos aos humores do outro, lhe perdoe os hábitos e as idiossincrasias (outra palavra cara) que são motivo de atrito, e muitas vezes terminam em discórdia.

Conte-se então como o Abílio e a Filomena, ambos a entrar nos oitenta, actualmente vivem naquele estado a que nas guerras se chama “trégua de hostilidades”, um tempo em que se pára de combater e, em sinal de paz, se içam bandeiras brancas.

Entre o Abílio e a Filomena não é caso de guerra, antes daquelas guerrilhas em que se passa da discordância para a irritação, a desavença vai aumentando, e o silêncio mútuo “fala” mais alto do que os berros que dariam numa zanga corrente.

Como quase sempre, o desagrado começou por uma ninharia, neste caso o modo como ambos encaram aqueles folhetos de letra miudinha, que vêm nas embalagens dos medicamentos. Enquanto a Filomena nem sequer os olha, e às vezes os deita logo fora, o Abílio vai buscar a lupa que comprou para os poder ler, e nesse momento não o venham incomodar com perguntas ou interesse fingido.

No Verão apareceram-lhe umas borbulhas acastanhadas, e pelo sim pelo não foi ao médico, que o sossegou, com aquela pomada logo desapareciam.

Releu o folheto, procurou o significado de palavras esquisitas, como corticosteróides. Assustou-se com os efeitos secundários, e talvez por isso, dando rédea larga ao medo e à imaginação, recordou ter uma vez lido que o excesso de corticosteróides no sangue poderia ter como consequência a doença de Alzheimer.

Num segundo o seu mundo desabou, e foi má sorte a Filomena entrar, porque ao vê-lo transtornado não se conteve, disse-lhe que 

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de tanto ler os papeluchos ainda dava em xexé.

 

 

sexta-feira, agosto 15

Protesto original

 

Para mim foi espanto, porque tinha estado ausente, mas acreditem ou não é facto e de entontecer. Pontualmente às seis da tarde, uma vizinha aproxima-se do muro do seu terraço, tendo em cada mão uma vara de madeira, grossa como um casse-tête e, cronometrado, durante um longo quarto-de-hora, seguindo um estranho ritmo, bate com elas no rebordo metálico.

Informei-me, julgando que fosse tontice. Não é. Apenas a sua original maneira de, alto e bom som, dar a conhecer que protesta contra a fome em Gaza.

 

quinta-feira, agosto 14

Eles e a onça

 

É interessante dar conta de como a muita idade, neste caso a minha, põe a descoberto o interessante e inesperado comportamento de alguns amigos, sobretudo aqueles que incessantemente me bombardeavam com novidades e interesses, mas de súbito se comportam como se eu há muito residisse no Além.

De facto já não sou útil, nem posso servir de muleta ou referência, tornei-me  passé como acontece às modas, para alguns já serei assim à maneira de um morto-vivo. Contudo, razão de queixa não tenho, pois mau grado os muitos anos a cabeça funciona de boa maneira, consigo divertir-me, mantenho o interesse pelo que vai no mundo. Pelo que é de somenos que os “velhos amigos” escolham agora a onça.

sábado, agosto 9

No fim da linha

 

Ao ordenar que cuidassem da minha protecção quando me mandou para estas bandas, o Altíssimo deve ter tido também um acesso de malicioso humor, por vezes fazendo com que nem tudo fosse o que parecia, para de seguida o pôr do avesso, não me deixando tempo de ajuizar se o suposto ganho era refinada armadilha, ou o aparente trambolhão anunciava uma insuspeita benesse.

Seja como for nada adiantam as suposições, é gastar tempo com fantasias de como poderia ter sido, ou se o ter tomado por outro caminho dava prova de mais entendimento. Facto é que, tantos anos passados sobre o dia em que aqui cheguei, quando intento fazer o balanço de ganhos e perdas só o consigo em parte, e à custa de me inventar um irmão siamês, a quem atribuo o papel de advogado do Diabo.

Mesmo assim o estratagema nunca satisfaz, pelo simples motivo de que se assemelha à clássica tentativa de querer comparar alhos com bugalhos, e se a hora é boa desisto, não vou perturbar ninguém com razões que, para serem compreendidas, necessitariam de confidências que não faço.

Ainda a sofrer com o choque da mudança, vivi anos com pouco desejo de relativar, olhos fechados para as limitações da minha teimosia, negando a evidência de que o que me tornava rabioso, era uma combinação de ignorância, estranheza, medo, e a suspeita de que não me tomavam como igual, mas também o que ainda em mim restava da inconsciente indoutrinação patriótica com o orgulho da nossa História, na parede da escola o mapa do país e das colónias sobreposto ao da Europa, tornando verdadeiro o lema “Portugal não é um país pequeno”.

Fui acordando devagar e aos poucos, compreendendo mal as raízes da minha ignorância e má-vontade, mas também o que por detrás havia em mim de medo e vergonha, porque para o emigrante que chega de um país atrasado, corrupto, pobre, transtorna e dói o confronto com uma sociedade rica, verdadeiramente democrática, avessa a fidalguias, excelências e aparências, fanática do trabalho, do planeamento, da ordem.

De facto era mais do que transtorno e dor, antes diria que tudo tinha de uma reviravolta, mas tão profunda que não mexia apenas nos meus pensamentos, na sensibilidade, nas andanças e contactos do dia-a-dia, mas em permanência tudo questionava, forçando o confronto entre a pessoa que eu tinha sido, o desnorteado que em muitas ocasiões se via entre a espada e a parede, e o malabarista, que para salvar a face escolhia o exagero, ou escamoteava o que eram as verdadeiras razões da sua dor e vergonha.

Essa atitude como que se tornou um hábito de auto-defesa, a pose deixando quem comigo tratava  na ilusão de que eu era objectivo e franco, quando na realidade tudo continuava a ver de maneira distorcida. Com inveja, sim, mas também vergonha de tirar benefício e conforto de uma sociedade a que não pertencia, mas me aceitava e tratava de modo igual aos que nela tinham o berço.

Levou tempo, muito tempo, a me adaptar, ser capaz de viver e sentir com o mínimo de complexos e sentimentos desordenados, mas a cura devo-a menos ao próprio esforço, do que à maneira como, no correr do tempo, os meus novos compatriotas me aceitaram como igual e ensinaram a compreender que, embora dolorosa, por vezes cruel, a franqueza rude, directa, leva vantagem sobre os rodriguinhos e as cortesias do trato, que escondem a verdade das nações onde a desigualdade é regra e a democracia um tapume desengonçado.

Como a vida não tem guião, é pena perdida iludirmo-nos com o que parecem certezas, tomar por pronto e acabado o que só o é no nosso desejo ou cegueira, julgar que podemos dar o próximo passo, quando de facto não houve pausa nem intervalo, talvez apenas cansaço ou a ilusão de finalmente ter conseguido equilibrar o deve e haver.

Dolorosa miragem foi essa, tanto mais por não findar de um instante para o outro, mas ter-me iludido com esperas e esperanças, sinais que pareciam autênticos mas nem promessas eram.

Assoberbado por um dia-a-dia que em muitas ocasiões exigia o limite, o meu interesse pelo que se passava em Portugal conhecia raros momentos de esperança, logo castigados com desespero e sombras porque nenhuma promessa era cumprida