Ao ordenar que
cuidassem da minha protecção quando me mandou para estas bandas, o Altíssimo
deve ter tido também um acesso de malicioso humor, por vezes fazendo com que
nem tudo fosse o que parecia, para de seguida o pôr do avesso, não me deixando tempo
de ajuizar se o suposto ganho era refinada armadilha, ou o aparente trambolhão anunciava
uma insuspeita benesse.
Seja como for nada
adiantam as suposições, é gastar tempo com fantasias de como poderia ter sido,
ou se o ter tomado por outro caminho dava prova de mais entendimento. Facto é
que, tantos anos passados sobre o dia em que aqui cheguei, quando intento fazer
o balanço de ganhos e perdas só o consigo em parte, e à custa de me inventar um
irmão siamês, a quem atribuo o papel de advogado do Diabo.
Mesmo assim o
estratagema nunca satisfaz, pelo simples motivo de que se assemelha à clássica
tentativa de querer comparar alhos com bugalhos, e se a hora é boa desisto, não
vou perturbar ninguém com razões que, para serem compreendidas, necessitariam
de confidências que não faço.
Ainda a sofrer com
o choque da mudança, vivi anos com pouco desejo de relativar, olhos fechados
para as limitações da minha teimosia, negando a evidência de que o que me
tornava rabioso, era uma combinação de ignorância, estranheza, medo, e a suspeita
de que não me tomavam como igual, mas também o que ainda em mim restava da
inconsciente indoutrinação patriótica com o orgulho da nossa História, na
parede da escola o mapa do país e das colónias sobreposto ao da Europa, tornando
verdadeiro o lema “Portugal não é um país pequeno”.
Fui acordando devagar
e aos poucos, compreendendo mal as raízes da minha ignorância e má-vontade, mas
também o que por detrás havia em mim de medo e vergonha, porque para o
emigrante que chega de um país atrasado, corrupto, pobre, transtorna e dói o
confronto com uma sociedade rica, verdadeiramente democrática, avessa a
fidalguias, excelências e aparências, fanática do trabalho, do planeamento, da
ordem.
De facto era mais
do que transtorno e dor, antes diria que tudo tinha de uma reviravolta, mas tão
profunda que não mexia apenas nos meus pensamentos, na sensibilidade, nas
andanças e contactos do dia-a-dia, mas em permanência tudo questionava,
forçando o confronto entre a pessoa que eu tinha sido, o desnorteado que em
muitas ocasiões se via entre a espada e a parede, e o malabarista, que para
salvar a face escolhia o exagero, ou escamoteava o que eram as verdadeiras razões
da sua dor e vergonha.
Essa atitude como
que se tornou um hábito de auto-defesa, a pose deixando quem comigo
tratava na ilusão de que eu era objectivo
e franco, quando na realidade tudo continuava a ver de maneira distorcida. Com
inveja, sim, mas também vergonha de tirar benefício e conforto de uma sociedade
a que não pertencia, mas me aceitava e tratava de modo igual aos que nela
tinham o berço.
Levou tempo, muito
tempo, a me adaptar, ser capaz de viver e sentir com o mínimo de complexos e
sentimentos desordenados, mas a cura devo-a menos ao próprio esforço, do que à
maneira como, no correr do tempo, os meus novos compatriotas me aceitaram como
igual e ensinaram a compreender que, embora dolorosa, por vezes cruel, a
franqueza rude, directa, leva vantagem sobre os rodriguinhos e as cortesias do
trato, que escondem a verdade das nações onde a desigualdade é regra e a
democracia um tapume desengonçado.
Como a vida não
tem guião, é pena perdida iludirmo-nos com o que parecem certezas, tomar por
pronto e acabado o que só o é no nosso desejo ou cegueira, julgar que podemos dar
o próximo passo, quando de facto não houve pausa nem intervalo, talvez apenas
cansaço ou a ilusão de finalmente ter conseguido equilibrar o deve e haver.
Dolorosa miragem
foi essa, tanto mais por não findar de um instante para o outro, mas ter-me
iludido com esperas e esperanças, sinais que pareciam autênticos mas nem
promessas eram.
Assoberbado por um
dia-a-dia que em muitas ocasiões exigia o limite, o meu interesse pelo que se
passava em Portugal conhecia raros momentos de esperança, logo castigados com
desespero e sombras porque nenhuma promessa era cumprida