sábado, agosto 9

No fim da linha

 

Ao ordenar que cuidassem da minha protecção quando me mandou para estas bandas, o Altíssimo deve ter tido também um acesso de malicioso humor, por vezes fazendo com que nem tudo fosse o que parecia, para de seguida o pôr do avesso, não me deixando tempo de ajuizar se o suposto ganho era refinada armadilha, ou o aparente trambolhão anunciava uma insuspeita benesse.

Seja como for nada adiantam as suposições, é gastar tempo com fantasias de como poderia ter sido, ou se o ter tomado por outro caminho dava prova de mais entendimento. Facto é que, tantos anos passados sobre o dia em que aqui cheguei, quando intento fazer o balanço de ganhos e perdas só o consigo em parte, e à custa de me inventar um irmão siamês, a quem atribuo o papel de advogado do Diabo.

Mesmo assim o estratagema nunca satisfaz, pelo simples motivo de que se assemelha à clássica tentativa de querer comparar alhos com bugalhos, e se a hora é boa desisto, não vou perturbar ninguém com razões que, para serem compreendidas, necessitariam de confidências que não faço.

Ainda a sofrer com o choque da mudança, vivi anos com pouco desejo de relativar, olhos fechados para as limitações da minha teimosia, negando a evidência de que o que me tornava rabioso, era uma combinação de ignorância, estranheza, medo, e a suspeita de que não me tomavam como igual, mas também o que ainda em mim restava da inconsciente indoutrinação patriótica com o orgulho da nossa História, na parede da escola o mapa do país e das colónias sobreposto ao da Europa, tornando verdadeiro o lema “Portugal não é um país pequeno”.

Fui acordando devagar e aos poucos, compreendendo mal as raízes da minha ignorância e má-vontade, mas também o que por detrás havia em mim de medo e vergonha, porque para o emigrante que chega de um país atrasado, corrupto, pobre, transtorna e dói o confronto com uma sociedade rica, verdadeiramente democrática, avessa a fidalguias, excelências e aparências, fanática do trabalho, do planeamento, da ordem.

De facto era mais do que transtorno e dor, antes diria que tudo tinha de uma reviravolta, mas tão profunda que não mexia apenas nos meus pensamentos, na sensibilidade, nas andanças e contactos do dia-a-dia, mas em permanência tudo questionava, forçando o confronto entre a pessoa que eu tinha sido, o desnorteado que em muitas ocasiões se via entre a espada e a parede, e o malabarista, que para salvar a face escolhia o exagero, ou escamoteava o que eram as verdadeiras razões da sua dor e vergonha.

Essa atitude como que se tornou um hábito de auto-defesa, a pose deixando quem comigo tratava  na ilusão de que eu era objectivo e franco, quando na realidade tudo continuava a ver de maneira distorcida. Com inveja, sim, mas também vergonha de tirar benefício e conforto de uma sociedade a que não pertencia, mas me aceitava e tratava de modo igual aos que nela tinham o berço.

Levou tempo, muito tempo, a me adaptar, ser capaz de viver e sentir com o mínimo de complexos e sentimentos desordenados, mas a cura devo-a menos ao próprio esforço, do que à maneira como, no correr do tempo, os meus novos compatriotas me aceitaram como igual e ensinaram a compreender que, embora dolorosa, por vezes cruel, a franqueza rude, directa, leva vantagem sobre os rodriguinhos e as cortesias do trato, que escondem a verdade das nações onde a desigualdade é regra e a democracia um tapume desengonçado.

Como a vida não tem guião, é pena perdida iludirmo-nos com o que parecem certezas, tomar por pronto e acabado o que só o é no nosso desejo ou cegueira, julgar que podemos dar o próximo passo, quando de facto não houve pausa nem intervalo, talvez apenas cansaço ou a ilusão de finalmente ter conseguido equilibrar o deve e haver.

Dolorosa miragem foi essa, tanto mais por não findar de um instante para o outro, mas ter-me iludido com esperas e esperanças, sinais que pareciam autênticos mas nem promessas eram.

Assoberbado por um dia-a-dia que em muitas ocasiões exigia o limite, o meu interesse pelo que se passava em Portugal conhecia raros momentos de esperança, logo castigados com desespero e sombras porque nenhuma promessa era cumprida