domingo, setembro 6

A alemã do senhor Matias

Perdoa-se-lhe muito porque é bom homem, mas fraqueza da mãe ou herança genética, durante a gestação deve ter havido qualquer percalço. Célula que se desenvolveu mal, talvez um nervo desajustado, artéria entupida, músculo insuficiente, certo é que no meio de qualquer conversa, seja ela sobre os tais mercados que na China vendem toda a espécie de bicharada, a quase certa derrota de Trump em Novembro, a vantagem dos motores eléctricos sobre os de  gasolina, o Alfredo encontrará sempre maneira de com um "isso faz-me lembrar", conseguir que o que fala se cale, tomar ele a palavra para dizer o que lhe parece urgente partilhar connosco.

A interrupção ainda se lhe perdoaria, o mal é que ele infalivelmente irá recordar um qualquer episódio da sua juventude, com a agravante de que no que depois conta não se descobre qualquer afinidade com a conversa em que estávamos. Nos últimos meses esse seu tique como que se tem agudizado, pois enquanto que no passado havia alguma variedade nas histórias que recordava, creio que agora se pode falar de obsessão, pois de cada vez retorna ele ao mesmo episódio da adolescência, deixando-nos com a ideia de que o que então aconteceu foi determinante para o seu comportamento com certo tipo de mulher, mas também para anos depois escolher a Lucinda para futura esposa.

Seria abusar da paciência de quem isto lê cair na tentação de, tal como o Alfredo faz, relatar tintim por tintim as peripécias do caso e fazê-lo no tom descansado que trai o Alentejo em que nasceu. Daí esta versão resumida, livre dos apartes com que ele interrompe a narrativa, um pouco à maneira dos que na escrita abusam das notas de rodapé.

Tinha dezasseis anos e trabalhava na confeitaria do senhor Matias, quando num fim de tarde o patrão lhe mandou que corresse a levar um embrulhinho à esposa. Correu, a Zulmira disse-lhe que a Dona Ilse estava em cima, constipada, o quarto do lado esquerdo.

Assombro! Ao ver a porta aberta estacou, coisa assim só nas séries! Nunca imaginaria que houvesse quartos daqueles, tudo dourados e tanto espelho, Dona Ilse sentada na cama a sorrir e a acenar que se aproximasse, ele que nem uma estátua. Ao vê-la de cara de zangada lá foi, só que ela nem olhou para a encomenda, agarrou-o pelos cabelos e obrigou-o a fazer umas coisas.

Razões suas ou questão de embaraço, mesmo insistindo não entra em detalhes e termina sempre com uma certeza que só por si basta para que muito se lhe perdoe: - Uma portuguesa não fazia aquilo a um garoto!

 

sábado, setembro 5

Medo de quê?

"O casal amigo está de férias na Calábria, acabaram de almoçar e despacham um e-mail. No modesto restaurante da pequena cidade eram eles os únicos comensais, o proprietário com tempo de sobra para as suas queixas. Se já tinham passado pela Via Sant'Angelo, a rua principal e visto aquela tristeza. Na última semana cinco lojas fechadas, todos os dias falências. Entretanto chega outro cliente, um padre, que se senta, tira da pasta uma rima de papéis, encomenda uma salada, uns nacos de queijo e um copo de vinho. Conversam, fala-se dos que morrem do vírus e da miséria que vai pela região. Palavras do padre: "Aqui já ninguém tem medo da morte, e também ninguém tem medo do vírus. Do que todos temos medo é da pobreza."

(*) Grato a Theodor Holman/ Het Parool.

sexta-feira, setembro 4

Cansei

Franca e finalmente cansei, do número de mortos – ontem dois, cento e vinte e seis infectados –  das estatísticas, dos discursos, das imposições, das promessas, se vem ou não vem a vacina, quando, para todos ou só alguns, se é de graça como o ar e a luz do Sol ou se vai custar x para este e y para aquele. Cansei também, não me interessa, não quero ouvir se Trump vai ganhar ou perder, se o inefável Joe Biden será presidente, se a dama que tem ao lado e lhe sorri é meio branca, meio preta, meio azulada, um terço indiana, se os distúrbios são favoráveis para os Democratas ou para os Republicanos. E continuem uns a louvar o Primeiro Ministro, outros a chamar-lhe tosco e malcriado, mais uns quantos a mostrar-se interessados pelas baboseiras das senhoras da Saúde e as suas promessas em Português extracontextualizado, pois no que diz respeito a este sempre curioso e Avantesco país, os seus mandões e os crescentes rebanhos, eu sinto-me a deslizar para uma indiferença de tão mau sinal que nem me incomoda a prometida pipa de massa que como sempre será desbaratada, mas já tantas bocas põe a salivar. Cheguei a uma fronteira, tanto se me dá como se me deu, finalmente até para ironizar me falta a vontade e a meio da tarde começo a ter sono, o que infelizmente não é da idade mas do triste espectáculo desta minha terra onde tanto se espera, tão pouco se faz e a epidemia mostra como o espírito bufo vive no nosso DNA.

quinta-feira, setembro 3

Tempos de servidão

"Recordação antiga, o avô na força da idade, ele exausto por meses de pesquisas inúteis em Bîr Moghreïn, sentados no mesmo canto do terraço, favorito de ambos.

- Havias de ver. Uns dois meses depois da revolução aparecem os ganhões e uns comunistas de Odemira. Um mar de gente a gritar “Fora! Fora! A terra a quem a trabalha! Morte ao capital!” Enfim, o folclore. Mas que metia medo, lá isso metia. Todos de punho erguido, “ O povo, unido, jamais será vencido! O povo, unido, jamais será vencido!”

Eu nunca tinha sabido o que era cobardia, mas vi o caso mal parado, e digo-te,  com aquela malta à minha frente, pouco faltou pra que borrasse as calças.

Às tantas aparece o Samuel. A fumar. Na calma. De  espingarda na mão, como quem vai à caça. De armas nunca entendi, depois é que ele me contou que aquilo era uma Kalashnikov que tinha apanhado na Guiné a um guerrilheiro.

Põe-se ao meu lado e diz-me que volte para casa. Respondo-lhe que não. Como o senhor conde quiser, mas por favor não se meta. Deixe comigo.

Vejo-o atirar o cigarro e parar ao pé dos gajos. Vocês, meus amigos, vão de marcha atrás. Um berreiro dos diabos. Entre homens e mulheres seriam uns quarenta ou cinquenta, elas mais assanhadas do que eles. Põem-se a andar, diz ele, isto aqui tem dono. Agora é o povo quem manda! reponta um grandão. Ai é? diz o Samuel. Aponta a arma para a copa das árvores e atira uma rajada. Havias de ver. Pareciam coelhos!

Mais tarde ainda apareceram com delegações, com comités, a dizer que viria a GNR, que os comandos de Beja iam ocupar isto como no Alentejo.

O Samuel deixava-os falar, mudava a metralhadora ou lá o que é dum braço para o outro, como quem está a perder a paciência, e eles nunca passaram das ameaças. Por fim as coisas foram acalmando, mas uns três anos quase que aguentou ele sozinho a lavoura. Ele e o Gaiolas, aquele maluquinho que era meu afilhado e depois morreu debaixo do comboio.

- E os ciganos.

- Também. Mas esses não se metiam em políticas e continuaram a fazer a vindima.

Os vultos caminham lentos, tiram-no do devaneio. As “Manas”, as  gémeas que "pertencem" à casa desde pequeninas, sempre juntas, vestidas de igual com o vestido preto que se lhes tornou uniforme. Iguais também no modo carinhoso, na malícia dos olhos de azeviche, no andar  curvado.

De idade devem ir nos oitenta ou mais, respondem elas a quem pergunta. Mas certeza nenhuma, porque nunca lhes deram “papéis.” Tinham perguntado ao senhor conde velho se sabia, e ele disse que não, mas não se importassem com os anos, haveriam de chegar aos cento e vinte. E desatara a rir, que más como eram Nosso Senhor nem no Inferno as queria, quanto mais no Céu.

Frágeis, diminutas, uma com o bloco, a outra com o envelope, terna e triste aquela servidão entranhada nelas, feita segunda natureza."

in Mentiras & Diamantes - Quetzal, 2013

quarta-feira, setembro 2

Culto da personalidade (1)


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                               Culto da personalidade - ensacada. Feira do Livro, Lisboa 2020.

terça-feira, setembro 1

João Guimarães Rosa

 Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era - ficar sendo!

A João Guimarães Rosa devo bastante, a pena que tenho é que o descobri tarde demais, com Sagarana, trinta e oito anos feitos. Maravilhei-me com Grande Sertão: Veredas, que reli por volta dos oitenta e o pasmo não diminuiu. Vieram depois Corpo de Baile; Primeira Estórias e Noites do Sertão e continuo a estranhar que em Portugal tão poucos o lêem.


 

 


 

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