terça-feira, fevereiro 12

O coração nas mãos


O coração nas mãos
Uns compreenderão que assim seja, a outros parecerá cobardia e fraqueza, mas neste tempo é arriscado defender princípios, pois em menos dum ai nos colam a etiqueta que lhes convém e empurram-nos para onde não queremos ir.
Ao Justino Madureira faltam sete meses para a reforma, conta ele que só depois, com o coração nas mãos, é que irá desabafar. Até lá fica de boca calada, não quer chatices, as que tem bastam e sobram. Todavia, como a política o apaixona, e possui verdadeiro talento para o desenho, entretém-se no café a esboçar o retrato de ministros e figuras públicas, compensando assim o silêncio a que se obriga quando alguém quer saber das suas convicções.
Diz que não é como pensamos, mas nota-se que são mais artísticos os retratos daqueles com quem simpatiza, enquanto que nalguns dos outros deixa traços de caricatura, exagerando os beiços deste, o olhar acarneirado daquele, as pernas arqueadas dum terceiro, as sobrancelhas doutro.
Contudo, quando se impacienta, há um ponto em que, adversários ou correligionários, a todos mete no mesmo saco, lastimando que em quase meio século de Democracia não tivéssemos tido um político, um único, que se destacasse por ter proferido daquelas frases históricas que marcam uma personalidade, ficam gravadas na memória colectiva, e são repetidas em ocasiões solenes. Ministros, Primeiros-Ministros, Presidentes da República, líderes partidários, aparecem uns, desaparecem outros, o Justino Madureira desafiou-nos a nomear um que, numa bela frase, tenha exprimido um sentimento superior, e mereça ser citado, à maneira do que se faz com as de Churchill.
Como quase sempre acontece nestas cavaqueiras de café, uns sorriem, outros encolhem os ombros, e se entre os presentes há diferenças de idade e de interesse, passado o momento de atenção cai-se na piada.
Também desta vez assim foi, e um sujeito encostado ao balcão gracejou que a frase de Sócrates na Cimeira de Lisboa em 2007 - ‘Porreiro, pá!’ - poderia não ser solene, mas a verdade é que tinha dado a volta ao mundo.
Ninguém reagiu, esqueceu-se o assunto, falou-se disto e daquilo, até que sem mais nem menos o Justino rebentou às gargalhadas, parecendo que sufocava.
- Esta é boa! Olha do que me fui lembrar! Será porque se falou no gajo? Algum de vocês conhece a resposta do Presidente González, do México, quando lhe perguntaram o que tinha feito para ser tão rico?
Como nenhum de nós sabia, soletrou-a ele com um sorriso malandro: ‘Um político pobre, é um pobre político.’
   

A sorte da Luisinha


A sorte da Luisinha
No meio em que agora vive, quando lhe perguntam de onde é a Luisinha responde com um vago ‘sou do Norte’. Isso em parte para esconder a sua origem, mas também porque se dissesse ter nascido na aldeia de tal, na Falperra, por certo teria de explicar que a Falperra é uma serra, onde fica, depois esperariam que dissesse o nome do sítio, se os pais ainda eram vivos, se tinha irmãos, tudo detalhes em que nunca entra.
Nasceu no lugar errado, entre gente que vive e pensa como no tempo dos afonsinos, e lá teria ficado não fosse o susto que apanhou uma manhã, ao ver que já mal apertava a saia. Fugiu com a roupa do corpo, sem adeuses, mas graças ao Céu era só medo e falso alarme, a semente do Daniel não dera fruto. O caso é que ao provar a liberdade gostou tanto do sabor que cortou radical com o passado, o que nada lhe pesa. Desde então não lhe interessa nem quer saber quem está vivo, doente ou já morreu, e quando em Agosto viu na televisão que havia incêndios na Falperra, olhou para as imagens com o genuíno desinteresse da lisboeta que há trinta e dois anos é.
Homens há muito que não ‘usa’, e a curiosidade que sentiu por mulheres foi sol de pouca dura, de modo que depois de duas aventuras e meio ano com a Cleonice, beldade de Garanhuns, no Pernambuco, está mais que certa que tanto valem eles como elas, é tudo a mesma corja.
Boa recordação só guarda do Frederico, que morreu novo, a deixou rica, e é o  único com retrato na sala. Fazia-lhe as vontades, soube desempenhar à perfeição o papel da esposa à moda antiga, uma única vez esteve a ponto de fazer uma asneira que lhe sairia bem mais cara do que o presente que lhe comprara.
O Frederico sofria daqueles acessos de sovinice que só os ricos conhecem. Sonhava com uns auscultadores Sony, andara a rondá-los umas quantas vezes, mas não conseguia desembolsar os 499 euros e voltava para casa, revoltado com a carestia.
Luisinha foi à FNAC, mandou que fizessem um embrulho bonito, depois do jantar arriscou-se a descer com ele à cave, um misto de ginásio e escritório onde só Frederico podia entrar.
Abriu uma frincha da porta, afastou um nada o reposteiro e perdeu o fôlego: em pêlo defronte do computador, Frederico dava uns passos de dança e ria, no chat com um barbudo, também nu e a língua tão de fora que quase enchia o ecrã.
Afastou-se em bicos de pés e levou o presente para o quarto. Nessa noite, e depois meses a fio, satisfez-lhe os vícios, escravizou-o com gozos e variações. De nada valeu que o médico o avisasse.

O romance do Orlando


O romance do Orlando
Pelo que vejo e me dizem hoje acontece menos, as Letras nem de longe competem com ser um ás na Internet, mas há duas ou três gerações eram muitos os que, na febre da adolescência, sonhavam escrever um romance, certos que daí lhes viria fama, proveito, e deixariam no mundo a sua pegada,  ou pelo menos o nome na placa de uma rua.
O Orlando, que vai para quase um ano levamos a enterrar uma manhã  de fortes aguaceiros, não só tinha acalentado o sonho de ser escritor, como estava tão certo do sucesso que muitas vezes o anunciava, dando a entender que bastava esperarmos um mês ou dois e, em prova de amizade, a cada um de nós ofereceria uma cópia do manuscrito. Críticas ou sugestões eram bem-vindas, acrescentava ele, embora a ironia do seu sorriso reveleasse que tinha em fraca conta a nossa capacidade literária.
Como nunca mais chegava, esse mês ou dois tinha-se tornado primeiro uma anedota, mas o tempo passava, ouvíamos aquilo com um encolher de ombros e, desculpando-lhe a mania, mudava-se de assunto.
À volta de um mês depois do enterro, o Barbosa, de todos o mais íntimo do falecido, telefonou a dizer que no domingo seguinte nos convidava para almoçar, pois tinha uma novidade. Seria ‘en petit comité’ – o Barbosa é do tempo em que o Francês era a língua chique – só os quatro do campismo, e esperava que guardássemos segredo, porque o assunto era delicado.
Fomos pontuais, escolhemos uma mesa num canto do restaurante e, sempre bom mestre-de-cerimónias, o Joaquim Barbosa aguardou que nos sentássemos, fez uma pausa, anunciando depois: - Afinal o  Orlando sempre escreveu um romance!
Ficámos a olhar meio descrentes, enquanto ele tirava do saco o que parecia um caderno e o pôs na mesa com o vagar solene de um sacerdote que prepara a missa, ao mesmo tempo que tossicava, dando a impressão de não se sentir totalmente à vontade.
- Ora bem, vocês me dirão como se vai resolver isto. O que o Orlando escreveu não é um romance, não tem enredo, são apontamentos, historietas. Só que…
A hesitação e o modo como evitava encarar-nos era mau agouro, mas finalmente lá se decidiu:
- Ele deve ter escrito isto para se vingar de alguém. Não dá nomes, mas fala aqui de coisas que, enfim, percebe-se…
- Pode-se ler? – perguntou o Saraiva – Porque senão ficamos a pensar…
O empregado veio com a lista e notei que o interesse que fingíamos pelo menu escondia mal a nossa preocupação. Uns tinham tentado, outros tinham  conseguido, mas de uma maneira ou doutra todos tínhamos traído o Orlando.