quinta-feira, agosto 22

Conversas e agrados

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Enganas-te, minha linda, não há conversas nem troca de confidências, partilhas no Facebook, nas caixas de comentários, nas salas ou nos quartos. Não há. Nem mesmo quando temos o outro ao nosso lado na cama ou no café. Palavra que não há.
De nada adianta pores cara feia, chamares-me cínico, velho azedo.
Um dia, mas será tarde, irás  descobrir que são tudo ânsias de parecer, convencer, demonstrar. O diálogo pode ter ares de conversação entre duas pessoas, mas é a aparente sintonia de dois monólogos, as palavras que saem da boca não são as que o cérebro forma, nem as que mais tarde lembram. Se reflectires verás que não disseste o que pensavas dizer, e transformaste o que te pareceu ouvir. Com boa razão intercalamos gestos e sorrisos, muitos sorrisos, naquilo que dizemos, pois não se vai à luta sem resguardo ou camuflagem. Porque tudo é luta, minha linda. Mesmo o que parece conversa.
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Na intimidade ou em público, amarrados ao imperioso desejo de agradar, não ferir, estar de acordo, nós, portugueses, mantemos estranhas e subservientes conversas. Deve ser a gota de sangue asiático que trouxemos das navegações

terça-feira, agosto 20

Elmore Leonard

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 Faleceu Elmore Leonard (1926-2013), um dos grandes da literatura americana.

Contagem


Ando a contar mortos. Não todos, alguns, como se tivesse chegado a hora de pôr a escrita em dia, rever momentos, ocasiões, ódios, questiúnculas. A altura de interrogar. Mesmo sabendo que é impossível descobrir o que então quiseram de mim, ou porque se atravessaram no caminho, o motivo da inimizade, das rasteiras, das armadilhas, da cortesia fingida, do falso carinho.
Digo nomes, vejo rostos. Quedam-se inexpressivos e silenciosos, imóveis, manequins em montra de loja, como se ao deixar a vida tivessem descartado o que foram e fizeram, o que sentiram, as molas que os empurravam.
Conto-os porque contaram, fizeram parte de mim, mas foram o que preferi não ser, deram os passos que recusei, em vez das ruas arejadas escolheram os becos e as vielas, a máscara, o esconso.
Surpreendo-me a recordá-los sem pesar, e vou-os arrumando, não como os viventes de carne e osso que foram, mas personagens da surpreendente ficção em que a vida se torna, aquela que nenhum escritor consegue escrever.

domingo, agosto 18

A família Salcede

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Ó Judite!
Ó Lorenzo!
Ó televisão!
Ó Dâmaso!
Ó país bacoco!

 

segunda-feira, agosto 12

Hostilidades

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 De momento ando aqui num duelo, mas "Volto já".

domingo, agosto 11

A modorra do Verão

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Para alguma coisa serve a modorra do Verão, quando o calor amolece o cérebro e os olhos param no trivial.
Assim, desde ontem, folheando os jornais, fiquei ao corrente de que San Diego nos Estados Unidos e Eindhoven na Holanda são, no mundo inteiro,  as cidades que mais autistas contam entre os seus habitantes; que o genial Einstein era autista e disléxico; que na China não há casos de dislexia, devido às línguas chinesas serem formadas por caracteres.
Que dentro em pouco os receptores de televisão terão a espessura e o tamanho de uma folha A4 e, como ela, será possível dobrá-los.
Finalmente, provando que nem os templos do saber escapam à maldade do mundo: as polícias europeias consideram a universidade de Bacau, no nordeste da Roménia, como a incubadora de hackers geniais, tornando os romenos campeões da criminalidade na internet.

sexta-feira, agosto 9

Ana Vidovic

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 Tenham paciência, mas vou repetir Ana Vidovic

quinta-feira, agosto 8

La France!

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Arruma-se uma estante, desabam os livros, recordam-se as leituras dos vinte anos, quando o que vinha de França era inquestionavelmente bom, superior, e fazia sonhar.

quarta-feira, agosto 7

Pimbalhices

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Desmiolado, indiferente às conveniências, dinheiro no bolso, o emigrante tem o mau hábito de no mês de Agosto visitar as berças e, com os seus barulhentos costumes, música pimba, dialecto franciú, ir  perturbar o sossego da boa gente que alegremente dispensaria o confronto anual com aquela desagradável versão de si própria.
O português tem isso: se julga pertencer à classe média baixa, média média, média alta, superior ou olímpica, é logo atacado de amnésia e nojo, os outros tornam-se-lhe gentinha, "pobrezinhos" , passa a sofrer da mais miserável forma de racismo e discriminação: a que se volta contra aqueles a que pertence.
Vou lendo aqui e ali queixumes e desdéns, sugestões de que o emigrante vá passar férias a outro lado, não perturbe a serenidade, não venha com o seu barulho e jactância recordar a simpleza e condição humilde de que todos descendemos, mesmo os que se julgam nobres e melhores. Que o não são. Julgam-se.
………..
Fotografia de: http://descobriransiaes.blogspot.com
 

terça-feira, agosto 6

Travesseiras


Demasiado moles, as travesseiras estavam a pedir reforma, e como por aqui tudo é especialização lá fomos à loja que só vende roupa de cama.
Experimentou-se, pesou-se, mexeu-se, o preço ia de uns razoáveis quarenta euros à astronomia de cento e noventa e nove euros e noventa e nove cêntimos a multiplicar por duas cabeças, extravagância para político ou banqueiro.
Vendo que tínhamos optado pelo razoável, acercou-se a solícita funcionária com uma inesperada pergunta:
- Preciso de saber como é que dormem.
Embatucámos, ela explicou:
- Para lhes indicar  as travesseiras adequadas preciso de saber se dormem de lado, de costas, ou de barriga.
Respondemos que era conforme, às vezes tínhamos o sono inquieto, fora ser detalhe que nunca nos ocupara.
Com a expressão severa da especialista que enfrenta a simplicidade do leigo, a madama sentenciou que apenas o modelo multiusos  nos garantiria profundo repouso. E o preço era em conta: setenta e nove euros e nove cêntimos. Cada.
Levamos as mais baratas e temos dormido bem. A posição nocturna do corpo ainda não é assunto que nos tire o sono.

sábado, agosto 3

Canal Parade Amsterdam 03.08.2013

Para aqueles que gostariam de participar, mas (ainda) lhes falta a coragem













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