terça-feira, maio 15

Aniversário


Por volta das seis, lágrimas nos olhos, assim começou o aniversário dos meus oitenta e dois anos. Mas ninguém se apiede, que não foram de dor, só frustração e raiva. Das contas que me pus a fazer, tomado pelo sentimento da força das raízes que me prendem a este chão, e da animosidade, a inveja, a bruteza que por vezes leio nos olhos e nos modos. Fizessem eles sentir-me estrangeiro, que para esses guardam o apreço e o sorriso, os cuidados, a gentileza. Mas não, não me fazem sentir estrangeiro, fazem-me sentir estranho, forasteiro, galego de antigamente.
Permitem-se a familiaridade e a arrogância alarve dos pobres de espírito, e eu, com pena, finjo de surdo, mudo de conversa, falo do tempo. Não é cobardia, ou pundonor magoado, o que impede atirar-lhes o  que me está nos lábios, mas caridade, pena que sinto de vê-los incapazes de mudar, iguais aos bisavós, aos trisavós, mesquinhos, sacanas, manhosos, violentos e cobardes, doutorados em hipocrisia.
Corta-se-me o coração quando os sei aflitos, necessitados, mas é dar-lhes o negro de uma unha e logo arrebitam, sem piedade cortam a mão amiga, levam também o braço.
Quando olho o passado, sorrio feliz, recordo uma vida de dores e fracassos, alegrias intensas, amor, tristezas fundas, vitórias grandes, derrotas em proporção. E já não serão muitos os anos que restam, mas  partirei em paz comigo mesmo, grato pelo que me coube. Uma dor levo: a de não ter visto a minha gente mudar e melhorar, partir ciente que a deixarei com menos razões de esperança do que quando entre ela nasci.

segunda-feira, maio 14

Muito cansa

Quanto mais gente um escritor conhece, mais difícil se lhe torna criar personagens, pois “amigos e conhecidos” ficam alerta, “vêem-se” no João e na Maria, regozijam se a figura lhes parece simpática; aparecem de mau modo a pedir contas quando não lhes agrada, dedo no ar, tratando o autor por você:
- Olhe que não quero que me ponha na internet! Não admito!
Como vou eu provar que aquilo não tem a ver com ele ou com ela? Que não lhes reconheço virtude ou anomalia que os torne matéria-prima de razoável ficção? Que me aborrecem? Que os acho mesquinhos, tontos, pobres-diabos?
Este encontrou num texto meu um personagem com bigode. Usa bigode, ergo, aquilo é retrato maldoso, vá de atirar com frases em moda, “não admito atentatos à minha privacidade, exijo respeito”.
Estoutra pintou o cabelo, a personagem pinta o cabelo, só pode ser escárnio. E não tem dúvida, pois reconheceu-se mesmo no modo como a  Márcia do meu texto sorri.
- Olhe que não tenho texto com Márcias.
- Ai não? Então deve ter sido noutro. De qualquer maneira não quero que me ponha na internet.
Muito cansa lidar com gente e fazer de conta que somos todos sãos do espírito

Serenidade matinal

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domingo, maio 13

Erva daninha

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sábado, maio 12

Nunca digas, desta água não beberei

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Ofereceram-o, longe estava eu de pensar que o iria ler com tanto entusiasmo. Bonecos? BD não é do meu interesse, com O Mosquito e o Pim-Pam-Pum parei aí pelos onze anos. Mas Marjane Satrapi mudou-me as ideias. Li de fio a pavio e nenhuma das críticas na badana se me afigura exagerada."Uma memória gráfica brilhante e invulgar" ; "Uma das memórias mais originais e expressivas do noss tempo; "Um verdadeiro triunfo". Nem mais nem menos.

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sexta-feira, maio 11

A pele, a bolsa ou a vida


São sem conta os modos de cada um para se afirmar no mundo, e o melhor é esquecermos a moral, a bondade, o respeito, os gostos, a lei e os costumes, caso contrário não há ponta de que se possa dizer que é a boa para se lhe pegar.
Esta jovem holandesa, Katinka Simonse, artista plástica, tendo dificuldade em provar a sua presença entre nós e a originalidade do talento que supõe possuir, encontrou a  resposta no gato que tinha em casa: quebrou-lhe o pescoço, curou a pele, fez com ela uma bolsa e correu à televisão a contar a história.
Evidentemente recebeu atenção, e muita, pelos jeitos foram mais de cem mil os e-mails que recebeu, incluindo aí ameaças de morte, mas também cumprimentos pela ousadia na procura de novos caminhos para as artes plásticas. Com esse material está a preparar um livro para, segundo o seu dizer, “desmascarar a hipocria da internet”.
Como tem mais animais em casa, ao mundo resta esperar por qual será o próximo pescoço quebrado e a obra de arte que fará com a pele.

quinta-feira, maio 10

O mundo ralha de tudo

É fábula popular, Guerra Junqueiro pô-la em verso, muitos dias há que imagino o velho, o rapaz e o burro, e chamo à memória que "O mundo ralha de tudo, tenha ou não tenha razão".
Tanta gente azeda por aí, quanto amargor e veneno a retorcer as bocas, doses grandes de inimizade gratuita a inchar os fígados. De Monção a Monchique, da ponta de Sagres às serras de Bragança, um refogar infindo de ódios, invejas, acusações e insultos.
Os blogues, que podem ser um quase ideal veículo para a partilha de ideias, emoções,  conhecimentos, são também, e muito, a versão moderna, cibernética, mas nem por isso menos fedorenta, da cloaca.
E quanta opinião. Quantas convicções absolutas. Tanto juiz de andar por casa a imaginar-se, solene, proferindo sentenças de morte em tribunais de verdade.

Isto escrevi-o de manhã, igualmente azedo e mal-humorado. Depois veio o almoço, copioso, conversa amena em boa companhia, copito de aguardente velha, mais um café.
Sentei-me então a reler, e disse comigo que nem tanto ao mar nem tanto à terra. Exagerei. Há que dar desconto ao semelhante e a nós próprios, todos temos horas, alturas menos felizes. De facto, são indispensáveis as cloacas, as fossas, os montes de estrume, mas ninguém nos obriga a pôr-lhes o nariz em cima. É passar de largo.

quarta-feira, maio 9

Janela para a Amazónia

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O recanto que anexei, e onde me agrada escrever, é a divisão em parte subterrânea onde antigamente ficava a adega. Tenho à minha volta os armários que foram da loiça, a cantareira, o velho escano. A cama da minha adolescência faz de sofá e nos dias de canícula convida à sesta.
Visita que aqui chegue nada sente, mas, mau grado o arranjo, para mim tem o cheiro a vinho e salmoura, vejo trigo por uma frincha da tulha, alqueires de madeira, aranhões, presuntos a secar nas traves, panelas ferrugentas, sachos, cordas, cajados, varas da azeitona, almotolias, cântaros de folha.
Os ruídos no andar de cima chegam abafados, indistintos, mas por vezes transforma-os a memória e oiço vozes da infância, aqui ao lado o estropear das mulas no chão da estrebaria, o barulho que fazem a roer centeio.
Como agora, já então nascia erva ao rés da janela gradeada, eu nos dias de chuva imaginava ali Amazónias com piranhas e onças, crocodilos, macacos, aves de rapina, plantas de nada cresciam à altura de palmeiras. Mas quando assim me deixava embalar, vinha sempre alguém puxar-me pelo braço, "Sai daí, que te molhas!", e eu afastava-me, tristonho, olhando para trás, magoado da indiferença com que faziam desaparecer o meu sonho.

terça-feira, maio 8

Nas nuvens do Facebook

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O primeiro impulso foi não reagir, mas disse comigo que a menina talvez não se aperceba  de que existem outros mundos, de modo que em vez de lhe responder pessoalmente faço-o aqui, pois disse que de vez em quando visita.
É compatriota, deve ter ao redor de vinte e poucos anos, estuda há dois numa universidade holandesa, diz que me quer encontrar para tomarmos um café e, cavaqueando, eu lhe explique os holandeses. Acrescenta o pedido de que lhe empreste o meu livro sobre os ditos, já que o não encontra na biblioteca da universidade.
Tudo isto encabeçado por um "José" que me deixou torto, avesso que sou a familiaridades com desconhecidos e sensível ao que implicam as diferenças, não só de idade.
Acalmando e reflectindo, levando em conta que a jovem tem bom modo e até deu a "Holanda" de Ramalho Ortigão a ler ao progenitor, resolvi não me agastar. Todavia, se quiser o meu livro terá de comprá-lo, e para conversas com jovens desconhecidas falta-me disposição.
Mas está perdoada. Provavelmente vive nas nuvens do Facebook, onde tudo são simpatias permanentes, familiaridades instantâneas, amizades ideais, e mal se dá conta de que cá em baixo há um mundo com outras regras, deveres, boas maneiras, e aquele respeito antigo de tratar por senhor os anciãos.

segunda-feira, maio 7

Problema


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Gata de vida airada, a mãe depositou-os esta manhã na soleira, e o problema agora é nosso.