quarta-feira, julho 14

O nosso "francesismo"


Isto anda cada vez mais literário, mais experimental, mais interessante. Interessante no cómico sentido da palavra.

Dias atrás um jovem e conhecido crítico lastimava que ainda se escrevesse à moda do século passado, mas em minha opinião não se dá ele conta de que já se escreve à moda do futuro, e que a chamada Literatura corre maratonas a ver se apanha a Banda Desenhada. O que no antigamente se chamava diálogo, aparece agora aqui e ali com Grrrs! Vronks! Prruns! e muito “What the fuck!”, que não há como o seu bocadito de Inglês para ter chique e demonstrar que se pertence aos eleitos que voam alto e longe do vulgo.

Compara-se um a Paul Auster, outro encosta-se a Martin Amis, um terceiro sente-se próximo de Bolaño, um quarto abandonou os russos e de momento inclina-se para Murakami. Haruki Murakami, informa ele compenetrado.

Imita-se, falseia-se. Conta-se aos papalvos, e os papalvos apreciam, que só escrevendo em cadernos de Moleskyne e em determinado quarto do Chelsea Hotel, em Nova Iorque, é que se recebem os eflúvios. Em Bali, nas favelas do Rio ou naquela praia de Goa, também serve.

Aborreço-me, pois aborreço, com os livros do ano, e da década, e do génio, com a prosa dos analfabetos, a poesia dos poetas cuja fama lhes vem mais das melenas e da pose, que do sumo que escorrre do seu hermetismo.


(Clique para aumentar)

in "O Francesismo"

segunda-feira, julho 12

A pesca do bacalhau


Gloucester, no Massachusetts, o mais antigo porto de pesca dos Estados Unidos, terra de muitas gerações de sicilianos e açoreanos. É lá popular a nossa linguiça e, quando ainda o havia, pescava-se o bacalhau. Isto e mais li eu em The Last Fish Tale.

Porque os conheci na infância, das vezes que meu pai me levou a bordo dos lugres bacalheiros, interessaram-me em particular as histórias dramáticas dos pescadores que se metiam ao mar nos dóris. E logo me tomou a tristeza que sempre me ataca com o confronto da nossa secular miséria. Os pescadores “americanos” de Gloucester iam aos pares: um homem a remar, o outro a pescar, e mesmo assim a tarefa era de perigo de vida. Os dos lugres de Aveiro, Ílhavo, do Porto e da Figueira, pescavam sozinhos, sofriam, gelavam e morriam sozinhos, poucos terão sido os que ao longo dos séculos ganharam mais do que para comer.

Fechei o livro e, com saudade dos que na infância via atracados ao Cais da Ribeira, fui-me ao Google em busca de dóris e bacalhoeiros. Encontrei lá esta história, também muito portuguesa no que tem de desastrado e rocambolesco.



domingo, julho 11

Ganharam

Pois ganharam. Foram melhores? Nem por isso. Valeu a pena? Não valeu.

Para logo à noite


Folheei e descobri duas fórmulas de resultado garantido para deitar o mau olhado.
PS. Ao almoço temos arroz de polvo.

sábado, julho 10

Mais preparos


Vão ganhar, mas mesmo que percam a Força Aérea Neerlandesa (
Koninklijke Luchtmacht) mandou pintar de cor de laranja um F-16 para servir de guarda de honra ao avião que os trouxer. E festa vai haver.









sexta-feira, julho 9

Preparos.




quarta-feira, julho 7

Solidão

Seis e meia da manhã. O choque foi demasiado forte, ela notou-o, mas depois dos bons-dias sorrimos e, sem mais, entramos no parque com os cães.

Vivemos na mesma rua há anos. Desde o começo, adolescente atrapalhado com as hormonas, garanhão nos trinta, idoso consumidor de Viagra, macho que com ela se cruzava perdia a cabeça. Da vida que levava ninguém sabia, amores não se lhe conheciam, a qualquer um desarmava com o seu sorriso e as banalidades da cortesia.

Ambos madrugadores, os nossos cães facilitam a conversa, mas não recordo que alguma vez tenhamos ido mais além do que o tempo, os problemas do trânsito, os da associação de proprietários.

Continuamos em silêncio. Os cães correm longe, farejam, desaparecem, saltam, retornam.

Olho-a quando vai à minha frente e de novo me assusto, perguntando-me o que terá acontecido. Trinta anos, pouco mais, o que foi juventude e beleza é agora um corpo mirrado, os olhos a saltar das órbitas num rosto de caveira. Pernas de esqueleto. Os tremores da heroína. Involuntariamente abano a cabeça, na recordação das prostitutas que a horas mortas, no desespero da droga, se atiram contra os carros que passam detrás da Centraal Station.

Sorrimos, viramos a caminho de casa. Antes do semáforo pomos as trelas aos cães e, lado a lado, esperamos pelo sinal. Atravessamos. No momento em que me vou despedir toca-me o braço, encara-me com melancolia e, como se me devesse uma explicação, sussurra:

- Sinto-me muito só. Não tenho ninguém. Nunca tive.

Quando me recomponho já ela se afasta. Não sei que fazer nem para onde me voltar.

terça-feira, julho 6

3 - 2


Holanda - Uruguai, 3-2. O talento não basta: perde-se por má sorte e porque a bola é redonda.

Ai! Ai!


Pobre Uruguai! Já Júlio César escreveu em
De Bello Gallico que os Batavos eram valentes, mas de mau trato.

segunda-feira, julho 5

Gente interessante


Edward Witten (1951), físico. Passou por aqui para receber um importante prémio da Academia de Ciências – a medalha Lorenz. No dizer de quem sabe, a sua capacidade intelectual coloca-o ao nível de Einstein.

Acontece que os jornalistas se viram mal para entrevistá-lo, pois segundo quem assistiu, põe-se-lhe uma pergunta e ele cala-se literalmente durante longos minutos, fecha os olhos, abre os olhos, sorri, fita a parede, sorri, fecha os olhos, fita o interlocutor. Finalmente lá responde. Sabe demasiado, concluiu um jornalista, para decidir à la minute por onde começar.

Gosto do género, talvez porque cada dia me torno mais avesso às pessoas interessantes. Vem-me isso da fartura. Jornais, revistas, têvê, blogues, Twitter, YouTube, ele é um nunca acabar de gente a puxar, a gritar e a empurrar que é interessante, que faz ou fez coisas interessantes. Entram nesse jogo idosos, jovens, garotinhas, deficientes mentais, desportistas paraplégicos, políticos reformados e no activo, magarefes, engraixas, padres, carpinteiros, pedicuras, taxistas, mais de meio mundo.

Não há profissão ou actividade que não esteja representada, de maneira que quando agora encaro o meu semelhante faço mentalmente uma aposta. E em geral ganho.

.............

Edward Witten não é o senhor da fotografia.

domingo, julho 4

Madrugada


O retrato é doutro, que ele não se deixa fotografar. À primeira luz do dia, por volta das quatro e meia, pousa no muro da varanda e assobia. Diz quem entende de melros que é a desafiar os colegas. Será. Mas bem podia fazê-lo a horas cristãs e noutro sítio.

sexta-feira, julho 2

Chega hoje


(Clique para aumentar)

"A Amante Holandesa" chega hoje às livrarias. Mas não se apressem, que há para todos.

quinta-feira, julho 1

Dois sambas



(Batatinha começa ao 1'.56")

Experimenta-se, sai errado, depois pede-se assistência doutros poderes. Pode sair certo.
Isto são saudades de, como se diz, um tempo em que o mundo era mundo. Em todo o caso quando o mundo era maior, mais simples, mais misterioso e sem
rock 'n rol.